sábado, 30 de abril de 2011

Amor à Fortaleza

Fortaleza - 285 anos


Tempos bons aqueles em que ...

Boneca era calunga
A revista era Fon-Fon
Calcinha era sunga 
E soutien, califon 
Da circunspecta ceroula 
Da rapadura com feijão, 
Da paçoca com cebola 
E do sunga de cordão. 
Tempos bons
Dos velhos bondes da light, 
Da goiabada cascão, 
Em que o ditado era all-right 
Da anágua e da combinação. 
Da velha praia de Iracema, 
Das soirés do São Luís 
Do canto da seriema
E das bolinhas de aniz.
Do gostoso doce gelado 
De abacaxi, cajá e nata. 
Do amendoim bem torrado 
E do fino doce de lata. 
Tempos bons em que... 
O chic era usar gravata
Sapato de bom verniz, 
O relógio era de prata 
E o homem era feliz.
O pó de arroz era Dorly 
Cafona era canelau. 
A revista era o Gibi
E ladrão era Lalau... 

Do velho abrigo central, 
Dos pastéis do Marechal 
Da Praça da Escola Normal, 
Do Ginásio Municipal. 
Da Igreja de São Benedito 
Do Pastoril da Imperador, 
Onde se cantava Bendito...
Do Narcélio e do Bianor !
  Do saudoso Majestic 
Cine Centro, cine Rex. 
Do Moderno, um cine chic, 
Do  tropical Super-Pitex 
Tempos saudosos aqueles em que... 
Empregada era pirão frio 
Resfriado era defluxo, 
Só se viajava de navio. 
Pro pulmão era mastruço. 
Tempos bons . 

Das retretas da Lagoinha, 
Onde havia uma distinção: 
No centro, as moças de linha, 
Por fora, as chofer de fogão. 

Do pegapinto do Mundico, 
Com pão doce ou tapioca 
Do caldo de cana caiana 
Moída ali na engenhoca.
 
Tempos bons... 
Em que não havia assalto, 
Violência ou trombadinha, 
E o único sobressalto 
Era o ladrão de galinha. 
Do penico de porcelana, 
Da escarradeira na sala, 
Em que cílio era pestana 
E o guarda-roupa era a mala

Do jaquetão tipo saco, 
Da calça boca de sino 
Colarinho indeformável,
Sapato salto argentino.
  Tempos bons aqueles...
Da cabeleira bem penteada
Oleada para brilhar,
Com óleo Glostora e perfumada
Com brilhantina Royal Briar
Em que... 
Papo furado era lero-lero, 
A gente brincava de pião, 
A dança da moda era bolero 
E não existia sapatão...
Moça fina usava pastinha, 
Saia godê, blusa rendada
E quando caía a noitinha, 
Se sentava na calçada. 
Tempos saudosos em que...
Bromil era expectorante,
Asseptol, uma panacéia.
Capivarol, fortificante, 
Chá de goma pra diarréia...
Tempos saudosos aqueles... 
Do galo cantando no quintal 
Em que se jogava bola de meia. 
Das frutas do Mercado Central 
E em que surra era peia...  
Da velha Farmácia Teodorico 
Do papagaio sineiro da Sé. 
Em que fofoca era fuxico 
E charrete cabriolé.
Do terno de linho acetinado
Da Irlanda ou Inglaterra importado
Sempre impecavelmente engomado,
Botão do colarinho dourado.
Do sapato esporte fanabor
Da roupa do melhor rayon, 
Do gostoso café de coador 
E do sapato branco e marron.  
Da esquina do pecado famosa,
Onde a rapaziada, às tardinhas, 
Ficava pra ver o vento subir 
A saia rodada das menininhas...

Recordação e muitas saudades
Do sortido Bazar Alemão,
Da antiga Loja de Variedades, 
Da Espingarda do Damião. 
Da Loja O Gabriel, sortida, 
Que vendia artigos sagrados, 
Com a porta garantida
Por vinte e dois cadeados...
Da famosa Casa Elefante, 
Que vendia tudo barato, 
Ao pobre ou ao mais pedante, 
Penico, xícara ou prato.

"Casa Sloper, Ceará Chic,
casa das jóias Meziano, 
do elegante carro Buick, 
do fino chocolate Gardano.
Do embarque na ponte metálica,
Aos vagalhões do mar azul,
Nos velhos navios da Costeira,
Única via de acesso ao sul.
Tempos bons em que... 
Murro chamava-se bofete, 
O homem de posses ia a Roma 
E, em vez do nocivo chiclete, 
Mascava-se bombom de goma.

Tomava-se água de quartinha, 
Merendava-se um bom chibé, 
Na sobremesa, rapadurinha 
E, pras visitas, era café.
  Saudades... 
Do rádio Philco muito afamado 
Potente e todo valvulado, 
Modelo moderno quadrado, 
Com o dial todo iluminado.
Da famosa cama Patente, 
Da legítima Faixa Azul, 
Que era luxo pra pouca gente, 
Importada lá do sul...
Da coluna da hora imponente, 
Testemunha de emoção do povo, 
Com seu badalar estridente, 
Anunciando a entrada do Ano Novo. 
Do conhecido Posto Mazine, 
Da esquina do "Rotisserie", 
Das finas calças de gabardine 
E dos frondosos pés de oiti.  

Da famosa bolacha Fogosa, 
Do fino biscoito Facão, 
Em que a praia chic era a "Formosa" 
E saia rodada era balão...
Da "A Cearense" do Aprígio, 
Loja Chic, em grande progresso, 
Ditando a moda, com prestígio, 
Ali, no Quarteirão Sucesso". 

Do magazine "A Cruzeiro", 
Líder de roupa masculina, 
Que , durante o ano inteiro, 
Ditava a moda mais grã-fina.

Do criado mudo em casa de rico,
Guardando, nas horas diurnas,
O sempre asseado penico,
Pras necessidades noturnas. 
Da tabuada na palmatória, 
Método reputado imperfeito 
Crestomatia na compulsória 
Mas, aprendia-se e havia respeito.
Lembranças dos tipos pitorescos... 
A Teresa do "puxa-puxa",
Zé Tatá, Siri, Raimundão, 
Casaca Preta, Bode Iôiô, 
Jararaca, Chica Pilão.
Feijão Sem Banha, Chico Dudu, 
Zé Guela, Chico da Mãe Isa, 
O "Mamãe Dorme Só, o Napu, 
O "Pedão da Bananada".

Na Fortaleza antiga... 
Rádio Patrulha era Madalena, 
Avião era aeroplano, 
Pobre só tinha rádio a galena, 
E moça tocava piano. 
Aparecia o Cão da Itaoca, 
Assombrando a população, 
Tomava-se café com tapioca, 
Como primeira refeição.  

Saudades... 
Da Rua Franco Rabelo, 
Do velho curral da praia, 
Do Matadouro Modelo, 
Das brincadeiras de arraia... 
Dos Prefect do Posto Cinco, 
Dos automóveis Citroen, 
Dos prédios de teto de zinco 
E dos cigarros Araken.
Piqueniques em Messejana 
Cada qual levando farnel, 
Frito de galinha, banana, 
Farofa de carne e pastel. 

Do beco do rasga sunga, 
Escuro que nem breu! 
Onde se ouvia um funga-funga, 
Ali, pertinho do Liceu. 
Dos programas de rádio gostosos 
"Divertimentos em Seqüência",
Novelas, cantores famosos, 
"Bazar de Músicas"... Que audiência

Do animado carnaval de rua, 
Com muito confete e serpentinas, 
Maracatus, "Bando da Lua", 
O corso com muitas meninas.  
Do cloretil, muito perfumado, 
Infalível no flirt inocente, 
Com seu jato muito gelado, 
Deixando um odor envolvente...

Das retretas do Passeio Público, 
Desfiles na praia ao luar, 
Sereno no Cine Diogo, 
Banhos na ponta do quebramar... 
 Tempos bons aqueles em que  
Morim era mandapulão, 
Cachaça,  cascorobil, 
Toda casa tinha oitão, 
Pra lombriga, Ferrovermil.
Presepada era marmota,
Confusão, inguirisia,
Em que mentira era lorota, 
E perder missa era heresia.

 Sabonete fino era de sândalo, 
Pra dar sorte, pé de coelho, 
E considerado grande escândalo 
Moça mostrar o joelho.

Casamento era coisa séria,
Não havia separação,
Em que Quitéria era Quitéria,
Em que João era João...
Em que não havia fila,
Muito menos inflação,
Bola de gude era bila
E bermuda era calção. 
Saudades... 
Do carrossel, que era óla, 
Da gostosa mariola, 
Do sapato de crepe sola, 
E da música de vitrola.

Do namoro na janela,
Singelo e sem nenhum sarro,
Sob as vistas da mãe dela,
Que, foi não foi, dava um pigarro... 

Das serenatas românticas, 
Músicas apaixonadas, 
Violões e bandolins, 
Nas noites enluaradas.

Do feijão com carne velha, 
Cozido em panela de barro, 
Do refresco de groselha, 
servido na mesa em jarro.

Do paletó de casimira, 
Calça de fina flanela, 
Camisa de seda palha, 
Botão de rosa na lapela.

Da cambica de murici,
Do mocororó de caju,
Do aluá de abacaxi,
Das bolinhas de comaru.
Da Ladeira da Prainha,
Do velho Poço da Draga ,
Da Rua do Seminário,
Do Monsenhor Tabosa Braga.

Eu sou do tempo em que... 
Rede se chamava fianga, 
Havia fartura de manga, 
Todo jardim tinha pitanga, 
Usava-se ouro e não miçanga...

Da Cera do Doutor Lustosa,
Do Chá de Sena com maná,
Pílula de Matos famosa,
Do Lambedor de Jatobá...
Do Elixir de Inhame, 
Do chá de folha de mamão, 
Do depurador de velame, 
Do gargarejo de agrião.

Do pote no pé da janela,
Da tina dágua no banheiro,
Do arroz doce com canela,
E da caneta de tinteiro. 
Da braguilha de botão, 
Calça de seis bolsos e bainha, 
Suspensório e cinturão. 
Da tinta de escrever "Sardinha".

Em que era uma tradição,
Cultivada por inteiro,
Na primeira comunhão,
Usar roupa de marinheiro. 
Da rua da Conceição, 
Outeiro, Praça de Pelotas, 
Prado, Campo de Aviação, 
Beco dos Pocinhos, Varjota.
Soares Moreno, Prainha,
Praça da Sé, Hotel Bitu,
Pajeú, Rua da Escadinha,
Alagadiço, Guajiru.

Em que era obra do Satanás,
O homem sério e de linha,
Usar paletó lascado atrás,
Capanga, brinco e pulseirinha.
Eu sinto saudades do tempo em que...
Havia muito mais recato, 
Mais sinceridade e pudor, 
Muito mais respeito no trato. 
Mais fidelidade no amor.
Saudades imensas...
Da nossa Fortaleza Antiga,
Sem asfalto e poluição,
Muito mais humana e amiga
E com muito mais coração


Tudo isso, "Coisas Que O Tempo Levou", como diria o saudoso José Lima Verde,

um dos maiores cultores da memória da nossa querida cidade


fonte: http://www.aman62.com/temposbons.htm

2 comentários:

Ana Luz disse...

Muito bons esses versos.Sou adepta do progresso e do conforto que nos proporciona mas vamos admitir que esta última estrofe é bem verdadeira.

Fátima Garcia disse...

Oi Ana Luz
gosto muito dos versos, são bem humorados e criativos. Um pouco saudosistas é verdade, mas quem não é?