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domingo, 27 de dezembro de 2015

Os Velhos Cinemas de Fortaleza - 1908 a 1932

Primeiro chegaram os bioscópios, uma espécie de lanterna mágica que projetava na tela imagens estáticas. O introdutor da novidade foi um italiano chamado Pascoal, que instalou a máquina na Rua Barão do Rio Branco. Dado o êxito obtido, vários bioscópios foram instalados em diversos locais da cidade: um na Rua Major Facundo, outro na Praça do Ferreira, outro no antigo prédio do Clube Iracema e mais um no Beco das Trincheiras (atual Rua Liberato Barroso), esquina com a Rua Senador Pompeu. Tempos depois, apareceu o kinetofone, que era uma combinação do bioscópio com o gramofone. O novo equipamento foi armado no teatro José de Alencar, e fez um sucesso retumbante.

Cine Rio Branco, fundado por Henrique Mesiano

Em 1907 chegava a Fortaleza o italiano Vitor Di Maio, trazendo o animatógrafo, montando em 1908, o Cinema Di Maio  no prédio da Maison-Art-Nouveau, na Praça do Ferreira. A partir daí teve inicio a fase de prosperidade do cinema em Fortaleza. No caminho aberto por Di Maio, outros cinematógrafos surgiram: em 1909, Henrique Mesiano inaugurou o Cinema Rio Branco, na rua do mesmo nome; na mesma época Julio Pinto abriu o Cassino Cearense, na Rua Major Facundo. Eram exibidos filmes extraordinários como O Conde de Monte Cristo e a Dama das Camélias, este último, foi exibido quase trezentas vezes. Durante a apresentação dos filmes que eram mudos, um pianista tocava as músicas da moda. 


A pré-inauguração do Cine-Teatro Polytheama ocorreu em fevereiro de 1911, na Praça do Ferreira. A inauguração oficial ocorreu em julho daquele ano. em 1916 passou ao controle de Luiz Severiano Ribeiro. O Polytheama foi o silencioso que resistiu ao advento do som, permanecendo em funcionamento com seus filmes mudos até 20 de novembro de 1938, fechando quando o prédio que ocupava foi demolido para dar lugar a construção do edifício São Luiz.

O Amerikan Kinema foi inaugurado em fevereiro de 1915, na Praça do Ferreira; no dia 23 de dezembro de 1915, surge o Cinema Riche, também na Praça do Ferreira, no antigo local do Cine Di Maio, o primeiro empreendimento tendo como sócio Luiz Severiano Ribeiro em sociedade com Alfredo Salgado. Foi desativado em 1921. Henrique Mesiano inaugurou em 1917 o Cinema da Estação, no Boulevard Joaquim Távora, em frente a estação de bondes da Ceará Tramway Light and Power. Outro empreendimento de Henrique Mesiano foi o Cinema Tiro Cearense, inaugurado no Passeio Público, que funcionou por menos de um ano. Em 1917, por iniciativa do Circulo Operário e Trabalhadores Católicos, é instalado o Cinema São José, no teatro da agremiação na Praça Cristo Redentor. Foi o primeiro cinema criado pela Igreja Católica no Ceará e adotava o critério de separar homens e mulheres em duas alas. Funcionou até o início da década de 1940.  


     

Mas o ano de 1917 ainda veria a inauguração de uma bela e luxuosa casa de espetáculos: O Cine-Teatro Majestic Palace. Construído por Plácido de Carvalho, instalado em um imponente prédio na Praça do Ferreira, com a destinação para o cinema explorado por Luiz Severiano Ribeiro e Alfredo Salgado. O palco foi inaugurado no dia 14 de julho com o espetáculo da cantora lírica e transformista italiana Fátima Miris. 

 
Um incêndio no dia 1° de janeiro de 1968, determinou o fechamento definitivo do Cine-Teatro Majestic-Palace

O Majestic tinha uma sala de projeção que também era teatro, toda em ferro, como o Teatro José de Alencar. Tinha 650 cadeiras no distribuídas no térreo, nos dois andares, onde ficavam os camarotes e na geral. No bar com cadeiras de pés de ferro e pequena mesa e mármore, tinha música ao vivo a cargo do pianista Mozart Gondim Ribeiro. O lugar era frequentado por personalidades da cidade como Quintino Cunha, Dolor Barreira, Professor Raimundo Gomes de Matos, Lauro Maia, e outros. O Cine Majestic funcionou até 1968, quando foi consumido por um incêndio que destruiu a sala de projeção. 

Cine Moderno, na Praça do Ferreira

O próximo cinema a ser inaugurado em Fortaleza foi o Moderno, na Praça do Ferreira. Construído por iniciativa de Plácido Carvalho com o fim específico de uma casa exibidora de filmes, o Cine Moderno foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1922, dentro das comemorações do primeiro centenário da Independência  do Brasil. A exploração do cinema ficou a cargo do Sr. Luiz Severiano Ribeiro. A sala logo ganhou a preferência do público seleto da cidade e teve o privilégio de lançar o cinema sonoro, no dia 19 de junho de 1930, com a exibição do filme “Broadway Melody”, com Charles King e Bessie Love.  


Durante oito anos, o Moderno apresentou filmes mudos animados por um piano perto do palco. As sessões eram noturnas (duas por noite) e o preço do ingresso custava custa 1 mil reis.  O Cine Moderno liderou por 18 anos, a vida social noturna de Fortaleza. Suas soirées eram sempre frequentadas pela alta sociedade de nossa capital, todos com suas melhores roupas e vestidos num verdadeiro desfile de elegância. Sua supremacia acabou em 1940, com a inauguração do Cine Diogo. Em franca decadência, abandonado pelos seus antigos frequentadores, o Cine Moderno encerrou as atividades no dia 21 de maio de 1968, quando o prédio onde funcionava foi vendido ao Grupo Edson Queiroz e demolido para dar lugar a uma loja. 

Até 1925, vários pequenos cinemas são instalados em Fortaleza. Em 1922, surge o Cine-Teatro Pio X, mantido pela Ordem dos Capuchinhos, na Avenida Duque de Caxias com a Rua Barão de Aratanha. Um ano depois, em 1924, foi inaugurado um pequeno cinema na então Praia do Peixe - atual Praia de Iracema - denominado Cine Beira-Mar. Em 1925 o Centro Artístico Cearense, situado na Avenida Tristão Gonçalves, 338, começa suas atividades como cinema, e a 16 de dezembro de 1931, inaugura o palco para apresentações teatrais.

No dia 2 de dezembro de 1925, o Recreio Iracema, uma iniciativa da empresa de Diversões Artísticas, de Antônio Capibaribe, inaugura sua tela de cinema, já que como espaço teatral existia desde 1923. Localizado no Boulevard Visconde de Cauípe, passou a denominar-se Cine Benfica. Em 1927, a União de Moços Católicos, localizada na Rua Barão do Rio Branco, pôs em funcionamento o cinema que se popularizou como Cine União, no imponente prédio ainda hoje existente. No mesmo ano é inaugurado o Cine Grêmio Dramático Familiar, na Avenida Visconde do Rio Branco, como desdobramento do famoso espaço teatral em que foram lançadas as criações de Carlos Câmara. 

Em 1930, duas instituições de prestigio na cidade, a Associação dos Merceeiros e a Associação Fênix Caixeiral criam salas de cinemas em suas sedes. O Cine Fênix instala-se  no dia 26 de junho de 1930, na Rua Guilherme Rocha esquina com a Rua 24 de Maio. O Cine Merceeiros, localizado na Rua Major Facundo foi inaugurado a 1° de novembro de 1930. 

Cine Luz, na Praça da Estação 

Ainda em 1930, no dia 6 de setembro, ocorria a inauguração do Cine Parochial, de propriedade das associações religiosas da Catedral, instalado à Rua Coronel Ferraz no prédio da Escola Jesus, Maria e José. O Cine Luz iniciou as atividades no dia 23 de janeiro de 1931, na Rua General Sampaio, por iniciativa dos empresários Bernardino Proença Filho e José Bezerra da Silva. Ainda em 1931 aparece mais um cinema de bairro: o Cine São Gerardo. Surgem ainda em 1932, dois outros cinemas: o Cine Circo, na Praça de Otávio Bonfim e o Cine Popular, na Rua Senador Pompeu, na então Praça de Pelotas, hoje Clóvis Beviláqua. A inauguração do Cine Popular ocorreu ocorreu no dia 9 de julho de 1932, e o prédio onde funcionava foi demolido para ampliação da Assistência Municipal, atual Instituto Dr. José Frota. 

fontes:
A Tela Prateada, de Ary Bezerra Leite
Fortaleza Velha, de João Nogueira
Reportagem publicada no Jornal Correio do Ceará, edição de terça-feira, 21 de maio de 1968.  
fotos do livro A Tela Prateada e do Arquivo Nirez   

domingo, 16 de agosto de 2015

Os Antigos Cafés eram redutos de Intelectuais

Fossem  nas grandes capitais ou em pequenas cidades, os cafés e bares eram pontos de encontro e muita conversa fiada em torno dos mais variados assuntos, alguns de grande, outros de nenhuma importância. E eram nos cafés que ocorriam as grandes discussões sobre literatura e os assuntos relevantes da época. Os bares e cafés eram redutos masculinos, a única mulher que era vista nesses estabelecimentos do centro, se chamava Rachel de Queiroz, isso a partir dos anos 30.


Praça do Ferreira cruzamento das ruas Major Facundo e Guilherme Rocha. O sobrado mais alto, à esquerda, pertenceu ao comendador Machado, onde no térreo, funcionava o Café Riche. Na outra esquina, em frente ao sobrado, ficava a Maison Art-Nouveau. Atualmente, nesse mesmo cruzamento estão o Excelsior Hotel e o edifício Granito. Foto da 1ª metade dos anos 20 

As constantes modificações nos hábitos urbanos contribuíram para o desaparecimento dos cafés, espaços de alta expressão na vida das cidades, como foco de debates de ideias, de comentários políticos e às vezes de mexericos sociais. Alguns desses cafés, permaneceram por longos anos, servindo como ponto de encontro da elite intelectual  de Fortaleza. 



Foi um dos pioneiros e o mais famoso deles. Por volta do ano de 1892, a boemia elegante e intelectual que marcou época em Fortaleza, fazia sua parada obrigatória no Café Java, um quiosque modesto, armado no canto da Praça do Ferreira, em frente ao edifício da Rotisserie, hoje Caixa Econômica. Naquele local nasceu a controvertida Padaria Espiritual, assinalando uma das épocas mais curiosas da história de Fortaleza.

O Café Java tinha na figura do seu proprietário, que se chamava Manoel Pereira dos Santos, e atendia pela alcunha de Mané Coco, um dos tipos mais bizarros daqueles tempos. O Mané Coco – segundo a descrição de Antônio Sales – era uma excelente pessoa, muito inteligente, embora destituído de cultura. Apreciava aquela mocidade que, a pretexto de um cafezinho no seu estabelecimento, vinha prosar e poetizar.

Primeiro chegou Antônio Sales, o dos Versos Diversos de 1890. Depois se juntam 34 moços, metade poetas: funcionários da alfândega, caixeiros, migrantes. Estava formado o embrião do grupo literário que ficou conhecido como “Padaria Espiritual”. 

Na reforma feita na praça na primeira gestão do Prefeito Godofredo Maciel , em 1920, os quiosques foram demolidos. Sobre o episódio, Antônio Sales escreveu estas palavras de mágoa: esta noite, ao sair do cinema, parei defronte dos destroços fúnebres do Café Java, sacrificado à estética da Praça do Ferreira, que é o centro vital de nossa urbe. E nessa contemplação, veio-me uma grande tristeza e uma grande saudade. Ali reinou Mané Coco, o fundador dessa instituição popular que era o café, hoje desaparecido. 

Maison Art-Nouveau


Surgiu em 1907 no cruzamento das ruas Major Facundo e Guilherme Rocha, no lugar do atual Edifício Granito. Fora uma casa de louça e vidros – Casa Almeida – de que era sócio José Rola. Ao mudar-se para a esquina das ruas Guilherme Rocha e Barão do Rio Branco, ele abriu um bar-confeitaria e um teatrinho, onde funcionou o Cinema Di Maio e depois o Cinema Riche. 

Do Art-Nouveau era seu sócio o genro Augusto Fiúza Pequeno, que ficando responsável pelo negócio, associou-se a Hildebrando Acioli. Esteve a Maison daí por diante, ora nas mãos do dono, ora dos arrendatários.

Os dois irmãos Eugênio a exploraram durante largo período – 22 de junho de 1922 a 12 de outubro de 1928, dia em que a repassaram para Edilberto Góis Ferreira. O russo Jacó Braunstein foi o último arrendatário.

A história elegante e literária de Fortaleza não pode ser contada sem a Art-Nouveau, pois veio ela a suprir velha lacuna, propiciando ao mundo chique  e literário os mais eufóricos encontros, num intercâmbio de amizades, camaradagens e trocas de ideias. O Art-Nouveau reunia em suas mesas, palestrantes, poetas, homens de letras, cronistas, historiadores e humoristas, os mais diversos. Presenças que conferiam prestigio ao estabelecimento, mas que pouco rendiam em termos financeiros.

A abertura do Café Riche, em frente, abalou sensivelmente o movimento da Maison, porém foi retomado à medida que aquele fracassava, invadida as suas mesas por malandros e gente de menor aceitação. Paralelamente ocupavam bancas da Art-Nouveau muitos empregados do comércio, que aproveitavam para isso o pequeno intervalo do almoço; quase todos os alunos da Escola de Comércio Fênix Caixeiral e clientes com menor poder aquisitivo. A Maison encerrou suas atividades ao ser consumida por um incêndio por volta de 1930. 

Café Riche


Foi inaugurado no dia 21 de setembro de 1913, de propriedade de Alfredo Salgado e Luiz Severiano Ribeiro, o futuro rei do cinema no Brasil. Ocupava o andar térreo do sobrado, enquanto nos andares superiores funcionava o Hotel Central. Vizinho, um casal de americanos havia iniciado a exploração do restaurante Black and White, gerenciado por João Quinderé. Como não tinha condições de se manter, foi anexado ao Café Riche, que foi ampliado com uma seção onde eram servidas refeições.

O edifício do Café e do Hotel era o sobradão mandado construir em 1825, pelo Comendador José Antônio Machado. A construção foi confiada ao Coronel Conrado Jacó de Niemeyer (o mesmo homem que atuou como presidente da Comissão Militar responsável pelo fuzilamento dos heróis da República do Equador, em 1825, no Passeio Público).   

Por esse tempo havia a crença de que o solo arenoso, de areias frouxas não suportaria a construção de uma casa daquela altura. Até os pedreiros mostraram receio, mas foram obrigados a levantar a obra com o auxilio dos presos da Cadeia do Crime. E nenhuma construção da cidade enfrentou tão bem as intempéries.

A sua demolição ocorreu em 1927, quando estava o sobrado na posse e domínio do capitalista Plácido de Carvalho. Para isso, no ano anterior, o Riche havia sido fechado. Antes, habitaram os dois andares de cima, a Família Gradvohl, ocupados os baixos pela Loja Boa Fé, de Gradvohl & Picard, firma que transformou em Gradvohl Frères.

O Café Riche apresentava relativo luxo e servia bem, razão pela qual ia sendo procurado, em prejuízo da Maison. A roda de intelectuais que ali assistia destacou-se pelo bom padrão dos seus integrantes. Para maior bem estar da freguesia eram colocados, à tarde, mesinhas desarmáveis num tablado que avançava contra a Rua Major Facundo, cobrindo a sarjeta e, assim, ampliando a calçada. As mesas internas eram de mármore, oitavadas e de tripés de ferro prateado, imitando galhos retorcidos.

Na alvura do mármore, muitas poesias foram escritas, reproduzidas ou ali mesmo improvisadas.   De repente o Café Riche começou a decair, ao ter suas mesas invadidas por malandros e pessoas de menor aceitação. Os clientes tradicionais debandaram em busca de novos espaços, e o café fechou suas portas em 1926.

Fonte:

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A Praça e os Boêmios



A Praça do Ferreira foi por cerca de oito décadas, o palco principal da boemia cearense. Depois a cidade foi se descentralizando e alguns bairros passaram a oferecer opções de lazer para os amantes da bebida e da boa conversa.
Na primeira metade do século XX quem quisesse se manter informado sobre fatos políticos, ocorrências sociais, pendências testamentárias, atividades culturais, fuxicos e mexericos da casa alheia, era só circular pelos cafés, bares e livrarias da Praça. Os pontos principais eram:

Rua Major Facundo endereço da Maison Art-Nouveau

A Maison Art-Nouveau, que funcionou entre 1907 e 1930, localizada na esquina sudoeste da Rua Major Facundo com Guilherme Rocha (onde hoje está o Edifício Granito). Lá podiam ser encontrados todos os dias os jovens intelectuais Carlos Câmara, Ubatuba de Miranda, Renato Braga, Josaphat Linhares e Edigar de Alencar. Este café foi destruído por um incêndio.
O Café Riche funcionou entre 1913 e 1926. Ficava na esquina noroeste das mesmas Ruas Major Facundo e Guilherme Rocha, no local onde hoje está o Excelsior Hotel. Seus proprietários eram o futuro maior exibidor cinematográfico do Brasil, Luiz Severiano Ribeiro e o abolicionista Alfredo Salgado. 

O Café Riche foi inaugurado em 21 de setembro de 1913, na esquina da Rua Major Facundo com Guilherme Rocha.Ocupava o andar térreo do sobrado onde nos pavimentos superiores se instalara, dias atrás, o Hotel Central.

Nesse recinto pontificava o gênio livre de Quintino Cunha, sempre pronto a responder com inteligência e humor a todas as provocações de adversários e admiradores. Certa vez, recebendo de seu amigo Gomes de matos um par de chifres muito bem embrulhado numa caixa de chapéu, no dia do seu aniversário, retribuiu com um ramalhete de flores. Gomes ficou desconcertado e comentou: “ora Quintino, eu estou morto de vergonha. Te mando um par de chifres e tu me cobres de flores?”   - “É fácil explicar, meu amigo Gomes” – retorquiu o arguto Quintino – “cada um dá o que tem”.

Naquele tempo das manipulações, eram os boticários que preparavam os remédios. Em Fortaleza surgiram muitas fórmulas medicinais que ficaram famosas e algumas delas ainda hoje estão em pleno uso, como o Elixir Paregórico, as Gotas Artur de Carvalho, as Pílulas de matos e o Sabão Líquido Asseptol. O boticário José Elói da Costa criou, nos anos 20, a pomada Epidermina para tirar sardas da pele. O produto tinha um cheiro horroroso e, um dia, um parente do inventor perguntou ao Quintino o que ele achava do remédio que estava limpando de sardas e panos-pretos os rostos da cidade. Irreverente como nunca, o poeta, pondo o dedo no nariz, satirizou de improviso:

A Epidermina, fuummm!
Do José Eloi da Costa
É puro cheiro de bosta,
Na cara de qualquer um.

Estava difícil para o José Elói, João Brígido mudou o nome de sua pomada para Epimerdina.
Contemporâneo do Riche, mas a ele sobrevivendo por muitos anos,  o Bar do Majestic , funcionando ao lado do cinema do mesmo nome e fora inaugurado em 1917. Ali nos anos 30 e início dos anos 40, atendia seo João, pitoresca figura de garçom que vivia atormentado com os fiados dos boêmios. Chegava a sugerir, com muito jeito, que os mais velhacos tomassem cachaça ao invés de cerveja, porque o prejuízo seria menor.  

 Palacete Ceará, na esquina da Rua Floriano Peixoto com Guilherme Rocha

No térreo do Palacete Ceará, um dos poucos prédios que sobreviveram à fúria dos vândalos, funcionou a Rotisserie, restaurante frequentado pela alta sociedade, políticos, desembargadores, altos comerciantes, e inclusive, o presidente do Estado. Nos altos funcionava o Clube Iracema, onde se davam grandes festas, animadas pela orquestra do maestro Antônio Moreira. Quando o clube se transferiu para outro endereço, seu espaço ganhou divisórias e foi transformado em república de estudantes. Muitos, que depois se tornariam conhecidos artistas e intelectuais, moraram nessa república: Mário Barata, Antônio Bandeira, Aldemir Martins...

Instalações do Clube Iracema, no Palacete Ceará

A Confeitaria Glória, cujo proprietário era André Almeida, ficava nos baixos do sobrado da Intendência Municipal, entre as ruas Floriano Peixoto e Major Facundo. Funcionou de 1928 a 1937. Dentre os seus frequentadores, a escritora Rachel de Queiroz, o poeta Jáder de Carvalho, o advogado Gomes de Matos, os escritores Antônio Girão Barroso, Moreira Campos, Fran Martins e Murilo Mota.
Em 1934 Rachel de Queiroz lançou sua candidatura a Deputada Constituinte Estadual pelo Partido Socialista Brasileiro. Apesar de já ser famoso no Brasil inteiro, não recebeu os votos suficientes para sua eleição.

 Café Emidio final da década de 30 (acervo particular)

Também no velho prédio da Intendência ficava o Café Emídio, dos gêmeos José e Estevão de Castro. Eram homens elegantes e distintos, além de exímios pianistas.
O Café Globo, de Edilberto Góis Ferreira, situado numa esquina da Praça, funcionou de 1937 a 1955. Em seu recinto sempre podiam ser encontrados os médicos Pedro Sampaio, Carlos Ribeiro e Virgílio Aguiar; o Quintino Cunha, já velho, acompanhado de seu sobrinho Renato Soldon; Romeu Martins e Tompson Bulcão, Raimundo Girão, Djacir Menezes Avelar Rocha e o pessoal do Grupo Clã: Artur Eduardo Benevides, João Clímaco Bezerra,  e outros.

O Bar O Jangadeiro, na Praça do Ferreira era um front na batalha das Coca-Colas contra o preconceito. Ali elas tinham encontros com os soldados americanos. Quando a guerra acabou, o bar ficou sem clientes.  (arquivo Marciano Lopes)

À Turma do Clã se atribui a terrível responsabilidade pela falência de muitos dos cafés da Praça do Ferreira. Como eram todos “lisos” , ao ocuparem uma mesa, ficavam pedindo cafezinhos e dizendo poemas. Mas cafezinhos não sustentam bares. Por receberem a preferência desse grupo de inteligentes rapazes, cerraram as portas o Café do Comércio (em sua 3ª. fase), a Confeitaria Cristal, o Botequim do Mundico e o Café Éden

 Grupo Clã reunido na casa de Fran Martins (do livro Roteiro sentimental de Fortaleza)
No tempo da Segunda Guerra, quando Fortaleza se encheu de americanos, o dólar passou a ser moeda corrente por aqui. O bar O Jangadeiro era um dos pontos prediletos dos soldados yanques, sempre muito bem acompanhados das deslumbradas meninas, as Coca-Colas, como foram apelidadas pelos rapazes locais, desprezados por elas. O proprietário de O Jangadeiro, José Frota Passos, entusiasmado com a grana dos gringos, passou a dizer que a freguesia cearense não lhe interessava porque não tinham dinheiro.  Depois da guerra, quando os americanos se foram, deixaram além das desfrutadas e saudosas Coca-Colas, um vazio nas mesas do restaurante do Sr. Frota Passos. Ele precisou usar muitas desculpas e pedidos de perdão e até uma nota explicativa nos jornais para recuperar a clientela perdida.  Coisas da guerra.

Extraído do livro de Juarez Leitão
Sábado, estação de viver.  
fotos do arquivo Nirez 

terça-feira, 26 de julho de 2011

Personagens de Fortaleza: O Cangulo

Na primeira década do século XX, nessa Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, o melhor divertimento da cidade era o cinematógrafo em edições melhoradas. 
Havia ao todo três, pequenos e pobres, com cadeiras austríacas e pulgas à vontade: o Pathé, de Vitor di Maio, italiano de cabeça branca e fala apressada, nos fundos da Maison Art-Nouveau, ao lado da Rua Municipal (atual Guilherme Rocha), com luz oxslite e fitas de Francisca Bertini


Quarteirão da Rua Major Facundo na Praça do Ferreira, na esquina ficava o "Maison Art-Nouveau", inaugurada em 1907. Por trás desta loja funcionou a partir de 1908, o primeiro cinema da Fortaleza, o cinematógrafo Pathé, do italiano Victo Di Maio. No mesmo local estiveram depois a "Maison-Riche", o Restaurante Chic, A Pernambucana, a "Broadway", a Rouvani,  e a Tok-Discos.  Hoje funciona no local uma loja de sapatos.


O mesmo imóvel da esquina com as Ruas Major Facundo e Guilherme Rocha. O Pathé, seu vizinho pela Guilherme Rocha, abrigava-se no prédio em frente ao sobradão, que foi demolido para a construção do Excelsior Hotel (arquivo Nirez) 

O Estereopticon, da empresa Cabral & Cia., mais tarde, de Júlio Pinto, que ficava nos fundos do comércio chamado O Palhabote, na Rua Major Facundo;  e o Rio-Branco, na Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), de propriedade do joalheiro Mesiano, nos fundos de sua loja, na Rua Major Facundo, 364, onde outrora funcionara a oficina de encadernação do polaco Louis Cholowiecki, que o povo chamava de Luís Chuvisco. 

Casa Mesiano na antiga Rua Formosa. Nos fundos, pela Rua Major Facundo, funcionava o Cinema Rio-Branco, ambos de propriedade do joalheiro Mesiano (foto: acervo particular de Darth Vader)   

Um jornalzinho satírico dizia que os cinemas de Fortaleza eram do calendário: um é de Maio, outro de Julho e o último de mês e ano. 
Pois um dos personagens mais assíduos destas salas de diversão era o Cangulo, nome de batismo ignorado, conhecido pelo apelido que ganhara nos tempos em que era aluno do Liceu do Ceará, onde cursara o primeiro ano. 
Popularíssimo no meio estudantil devido a feiura, um dia, resolveu largar a cidade natal e ir morar no Rio de Janeiro.  Durante muito tempo, ninguém ouviu falar dele. 
Em agosto de 1909, os cinemas exibiam a reportagem do sepultamento do Presidente Afonso Pena, que falecera no mês anterior. O Pathé estava literalmente cheio de estudantes, quando apareceu o Cangulo, na tela, no melhor estilo papagaio de pirata, de pé por trás do cordão de isolamento dos guardas civis à porta do Palácio do Catete, quando saía o cortejo presidencial. Um grito uníssono  sacudiu a plateia:
 – O Cangulo!!!
Seguiram-se estrepitosas salvas de palmas. Então, por mera coincidência, o Cangulo abriu a bocarra num sorriso sem dentes, como dirigido a seus antigos colegas. Grande aclamação abalou o cinema:

 – Viva o Cangulo! Viva o Cangulo no Catete! Viva o sucessor de Afonso Pena!

O escritor Gustavo Barroso o encontrou anos depois no Rio de Janeiro, vivendo como indigente, desiludido e acabado. O escritor conseguiu com um amigo, que o governo lhe cedesse uma passagem de volta para Fortaleza, onde vivia seu pai, vendedor de banana na feira.  Mas não levou sorte o Cangulo. Pouco tempo depois, já de volta à Fortaleza após uma discussão, foi assassinado, abatido a tiros de revólver, por um certo Barbosa Lapada.  

extraído do livro  de Gustavo Barroso

domingo, 3 de julho de 2011

José de Paula Barros

Num casarão de cinco portas situado à Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), existia, por volta de 1915, um estabelecimento chamado Fotografia Americana, de José de Paula Barros, que além de fotógrafo era pintor e arquiteto.

O trio de pintores (da esquerda para a direta): Antonio Rodrigues, retratista à "crayon" José de Paula Barros, fotógrafo, pintor e arquiteto e Raimundo Ramos (Ramos Cotoco), pintor, poeta, músico e cantor.

O fotógrafo de estatura fora do comum costumava usar um jaquetão de casemira, chapéu de abas largas do tipo cow-boy, gravata de manta colorida, bigodes retorcidos. Assemelhava-se a um mosqueteiro de Dumas. 
 As primeiras  obras de autoria de Paula Barros foram um retrato a óleo do presidente da província Nogueira Accioly, um retrato em pastel de Liberato Barroso, e uma tela em óleo em tamanho natural do coronel Franco Rabelo, que ficava exposta na Maison Art Nouveau.  O nu e a natureza morta foram temas de sua predileção.

Rua Major Facundo, trecho Praça do Ferreira, onde aparece o prédio da Maison Art Nouveau. Inaugurada em 1907 a Maison era bar, café, confeitaria além de vender artigos para copa e cozinha. Lá ficava exposto o retrato do Coronel Franco Rabelo, pintado por Paula Barros.

A espaçosa oficina da Rua Formosa era repleta de quadros de todos os tamanhos, realizados com as mais variadas técnicas: óleo, crayon, pastel, lápis, aquarela. Torsos, cabeças, braços e pés de gesso, vasos, estatuetas de terracota completavam  o cenário de um verdadeiro atelier. 
Ao lado das Três Graças, por terminar, havia pintada numa paleta, a cabeça sonhadora de um Rembrandt, destacada pelos efeitos de luz e sombra. 
Junto com Ramos Cotoco, Paula Barros realizou a decoração do Teatro José de Alencar, destacando-se a alegoria das Três Graças, que representam as três artes – Poesia, Música e Pintura. As musas pareciam soltas no espaço, pelo milagre da perspectiva aérea. 



No foyer do mesmo teatro, há dois retratos de Carlos Gomes e José de Alencar que atestam o poder do seu inspirado pincel. Insatisfeito no Ceará  rumou para o Maranhão, onde trabalhou durante algum tempo. 



O artista faleceu em 1919, após a execução de um grande retrato a óleo de Carlos Gomes, para o Teatro São Luis.  

Extraído do livro de Otacílio de Azevedo.