Por volta do ano de 1955 havia
muitos cinemas espalhados pelos Centro e em alguns bairros de Fortaleza. Frequentá-los implicava em ter que aceitar algumas regras. Assistir
filme no Cine Diogo, por exemplo, exigia pompa e circunstância. Para entrar no cinema tinha que estar de paletó e gravata, da mesma maneira que para comparecer à
aula da Faculdade de Direito.
Por essa época vários
estabelecimentos do Centro alugavam paletós. Um desses locais era o Café
Cearazinho, que dispunha de meia dúzia de paletós surrados, para emprestar aos
clientes da casa, que pretendiam ir assistir uma fita, mas viviam esquecendo tal
formalidade. Numa das paredes do café, alguém escreveu um versinho à
mão:
Estás desanimado?
Esmorecido, sem fé?
Põe o trabalho de lado.
Vem tomar um café...
Uma letrinha miúda, encabulada,
completava o convite:
(“No Cearazinho”)
O Diogo pertencia, como o futuro Cine São
Luiz, à cadeia nacional de cinemas, fundada por um cearense de Baturité, Luiz
Severiano Ribeiro. Mas não era a única. Havia outra rede de casas exibidoras
montada com capital cearense, pertencente a Amadeu de Barros Leal, Álvaro Melo, Pedro Coelho de Araújo e Rui Firmeza e possuía entre
outros, o Cine Atapu, localizado na esquina da Avenida Pontes Vieira com Visconde
do Rio Branco, no rumo de Messejana. Ficava ao lado da casa do Sr. Amadeu de Barros Leal, um
bangalô branco, com placa na porta, como era moda então, anunciando seu nome e
sua profissão. Foi o segundo cinema da rede Cinemar, e como era longe do
centro, era assegurado aos frequentadores das sessões noturnas, que ao final
destas, haveria um ônibus da empresa São Francisco, com destino ao Centro.
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Cine Atapu, fachada original e depois da reforma |
Numa época em que os filmes americanos ainda seguiam alguns critérios de censura, que proibia alguns deslizes de comportamento no campo da moral e dos bons costumes, o Atapu levou ao seu público o realismo do cinema francês. Assim, começou a exibir sessões clandestinas de filmes eróticos, em sessões noturnas às 22horas. O público ficava sabendo por avisos que se propagavam rapidamente em conversas informais da Praça do Ferreira. O fato é que esses festivais de filmes curtos de sexo explícito, despertavam interesse do público, simplesmente por se constituir em evento proibido. Como resposta, o Atapu sofreu denuncias de jornais como O Povo e censuras de publicações da Igreja Católica. O Cine Atapu se manteve por 11 anos, fechando em 1960.
Cine Samburá, onde depois funcionou o Cine Fortaleza
Outro cinema importante era o
Cine Samburá, principal investimento da Cinemar e o quarto de sua propriedade, onde
se dizia que, com os movimentos certos, podia-se namorar sem qualquer
limitação. Era um cinema amplo, com 700 lugares, com endereço à Rua Major
Facundo, 802, a dois quarteirões da Praça do Ferreira. Com uma inauguração
festiva, a sessão de abertura no dia 15 de agosto de 1952, exibiu uma produção
histórica italiana: “Pompeia, Cidade Maldita”. Nove anos depois, a 18 de maio
de 1969, o cine Samburá fecha as portas com o filme “Aquele que Deve Morrer”.
Fazia parte da rede cearense o Toaçu, localizado à Rua General Sampaio, 927 – Praça José de Alencar. Era um cinema popular, inaugurado as 9 horas do dia 13 de março de 1956 em concorrida solenidade, que contou com a presença de autoridades e da imprensa. As instalações do Toaçu eram um forno e uma armadilha. O calor era intenso e a decoração toda feita de esteiras de palha de carnaúba, um perigo sempre presente. E não deve ter sido à toa que passou por um incêndio, tendo sido recuperado e equipado com tela panorâmica. O único cinema a se instalar na Praça José de Alencar teve duração de 8 anos, encerrando as atividades em 1963.
Cine Toaçu, fachada original e depois da reforma
Fora do perímetro central havia o
Cine Ventura, o primeiro cinema da Aldeota, propriedade do português Júlio Ventura,
que visando investir no segmento, construiu um imóvel destinado a exibição de
filmes, que fosse um divertimento barato e acessível aos moradores. Ficava na
Avenida Barão de Studart, 1521, esquina com a Rua João Carvalho. Foi inaugurado
em 1941 e encerrou as atividades em 1973.
Na Praça da Estação à rua General
Sampaio, 526, havia o Cine Luz, com 800 lugares, status de cineteatro,
propriedade de Luiz Severiano Ribeiro, Inaugurado em 1939, fechado em 1951.
O Cine Rex na Rua General
Sampaio, 1263, empreendimento da empresa Clóvis Janja & Cia Ltda, foi
entregue ao público no dia 10 de agosto de 1940. Era dotado de ampla sala de
espera, extenso hall com cartazes e vasto salão com 640 cadeiras. O cinema
fechou as portas pouco mais de um ano depois da inauguração, em 13 de setembro
de 1941. Foi reaberto em 10 de maio de 1944, como sala secundária do Grupo
Severiano Ribeiro.
Cine Rex, na Rua General Sampaio
O Cineteatro Centro Artístico Cearense
funcionava na Rua Tristão Gonçalves, 1008, e esteve em atividade entre 1926 e
1956, quando foi fechado.
Muitas outras salas de projeção ofereciam a mais pura diversão com a oferta
de grandes filmes, que despertavam diversão e bom entretenimento no público: o
Cine Moderno, o Araçanga, o Majestic, o Nazaré, o Cristo Rei, o Popular, o Benfica, o Merceeiros, o Navegantes, o Parangaba, e muitos outros.
Fontes:
A Tela Prateada, de Ary Bezerra
Leite, 2011
Louvação de Fortaleza, de Lustosa
da Costa. 1995