terça-feira, 31 de maio de 2016

Fortaleza Belle Époque (As Transformações Urbanas e Sociais)

Belle Époque é o termo em francês que expressa a euforia de setores sociais urbanos com as invenções e descobertas científicas e tecnológicas decorrentes da Segunda Revolução Industrial (1850-1870) e demais novidades, modas e produções artístico-culturais ocorridas entre 1880 e 1918, ano que marcou o fim da Primeira Guerra na Europa; no Brasil, a belle époque se estendeu até os anos1920. 


O surgimento vertiginoso nesse período de máquinas e inovações fantásticas como o automóvel, o cinema, o telefone, a eletricidade e o avião, causou furor e o culto à ciência e ao progresso. Trata-se, portanto, de uma época de intensas transformações que afetaram a economia e a política, e alteraram de maneira profunda o modo de viver, perceber e sentir.

Inglaterra e França foram os principais centros produtores desses novos objetos, valores e padrões que irradiaram mundialmente atingindo sobretudo as cidades. Não escaparam a esse processo, os principais centros urbanos brasileiros, que respaldados pelo crescimento advindo da exportação de matérias primas e objetivado por uma nova geração de políticos e de agentes do saber, foram remodelados tendo como referência a modernização urbana da Europa.

Remodelar cidades e sociedades compreendia introduzir equipamentos e serviços urbanos modernos, introduzir noções de higiene, trabalho, beleza e progresso, eliminar os focos naturais de insalubridade e disciplinar o grande contingente de miseráveis, vadios, loucos – estigmatizados como a horda de bárbaros que colocavam em perigo a constituição de uma nova ordem social modernizante e excludente.Foi assim que Fortaleza foi preparada para viver a belle époque. A época, portanto, só foi bela para as elites e parcelas sociais médias; para os pobres foi um tempo de vigilância, controle de hábitos e confinamento de corpos. 


O processo remodelador que significou a inserção de Fortaleza, teve como base econômica as exportações de Algodão, através do seu porto a partir da década de 1860. Daí em diante Fortaleza acumulou capital, expandindo-se em todos os sentidos – comercial, populacional, espacial, cultural, etc – e tornou-se ainda no final do século XIX, o principal centro urbano do Ceará e um dos primeiros do Brasil. Empolgados com esse crescimento, a burguesia enriquecida com as vendas do algodão, negociantes estrangeiros radicados na cidade, médicos e demais elites políticas e intelectuais, procuraram modernizar a cidade por meio de reformas e empreendimentos que a alinhasse aos padrões materiais e estéticos de grandes metrópoles ocidentais.


Isso posto, Fortaleza inicia sua belle époque na década de 1880, absorvendo com rapidez algumas inovações que acabavam de despontar nos centros de referência, o que demonstra o estreito convívio que a capital tinha com a Europa. 

Dessa forma, ainda nos anos 80 foram instalados equipamentos nunca vistos na cidade e que causaram a maior sensação: bondes e Passeio Público (1880); fotografia, telégrafo submarino, ligando Fortaleza ao Sul do País e à Europa (1882); telefone (1883); e cafés afrancesados na Praça do Ferreira. Além disso surgiu o Clube Iracema (o segundo clube elegante da Cidade) e a abolição da escravatura (1884); o Asilo da Parangaba (1886), para confinar os loucos e o Asilo de Mendicidade, para enclausurar os idosos pobres.


Dos equipamentos cabe destacar o Passeio Público, por ter sido projetado por ser o lugar, por excelência, da fruição daqueles belos tempos da cidade. Nenhum outro logradouro de Fortaleza era tão belo, tão confortável, tão iluminado – tinha vista para o mar, bancos, coreto, jardins, lagos artificiais, estátuas de figuras mitológicas, árvores frondosas e grades. Era um éden a servir de passarela para o desfile de elegantes e palco para o exercício de uma sociabilidade europeizada. Não era à toa que o Passeio Público ficava lotado às quintas e domingos, dias em que as bandas tocavam.  Assim era o primeiro plano, inaugurado e logo ocupado pelas elites. Pouco depois construíram no declive da encosta o segundo e o terceiro planos, não tão ornamentados como o primeiro, e que acabaram sendo utilizados, respectivamente, pelas camadas médias e populares.

Na década seguinte, as fascinantes novidades continuaram a chegar, trazidas pelos quatro navios que vinham mensalmente da Europa: o fonógrafo, em 1891, o kinetoscópio (que fazia fotografia em movimento, precursor do cinema), e o Mercado de Ferro em 1897, todo em art-nouveau – estilo bastante enfeitado que reinou absoluto durante a belle époque. Enquanto isso as ruas se enchiam de sobrados, palacetes e mansões que completavam os adornos do novo perfil da então intitulada “princesa do Norte”.


Mal começou o tão aguardado século XX, as principais praças – a do Ferreira, a Marquês do Herval (atual José de Alencar) e a da Sé – sofreram intervenções estéticas entre 1902 e 1903, recebendo amplos jardins com gradis e adornos semelhantes ao Passeio Público. Por ser o coração da cidade, a Praça do Ferreira já vinha sendo aformoseada desde os anos 1880 com a construção de quatro cafés à feição de chalés franceses nos cantos do logradouro.



Boêmios e janotas deviam sentir-se como que em Paris enquanto sentavam nas mesas ao ar livre desses cafés e contemplavam fascinados o belo jardim do centro da praça e, no entorno, o surgimento na cidade da loja Maison Art-Nouveau, do Cinematógrafo Parisiense (1907) do automóvel (1909) e dos bondes, passando de tração animal a elétricos (1914).

Fonte: Fortaleza Belle Époque -1880-1925, de Tião Pontes
fotos Arquivo Nirez e do livro Ah, Fortaleza! 

2 comentários:

Helga Hoffmann disse...

Beleza de registro histórico.

Cecília Albuquerque disse...

Como eu amo a Fortaleza antiga... ♥