Mostrando postagens com marcador urbanização. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador urbanização. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

As Ruas e Avenidas que Mudaram de Nome

Ultrapassado o estágio inicial do seu povoamento, quando Fortaleza ainda era uma  de vila de índios e alguns colonos, invadida por soldados holandeses e portugueses e cortada por riachos de águas límpidos, os nomes de travessas, ruelas e becos eram dados pelos moradores, de acordo com algum referencial que o lugar oferecia: assim, tivemos o Beco da Apertada Hora, supostamente utilizado nos apertos fisiológicos; o Beco das Almas, a Travessa da Municipalidade, da Misericórdia, a rua de Baixo, de Cima, da Direita, do Quartel, da Cacimba, do Gasômetro. 

 

Rua Major Facundo, início do século XX (original p&b do Arquivo Nirez)
    

Com o passar do tempo, os logradouros foram sendo disciplinados. A partir de 1800 a cidade já contava com um arruador, mas o disciplinamento começou realmente a partir de 1812, com a chegada do governador Sampaio que trouxe a Fortaleza, o tenente coronel de engenheiros Silva Paulet, que elaborou a “Planta do Porto e Villa da Fortaleza”, em 1813.

Com o crescimento e a consequente urbanização, ruas foram alinhadas, becos foram eliminados, as calçadas demarcadas e a identificação dos logradouros ganhou ares de modernidade, a identificação pela funcionalidade virou coisa do passado. Assim, muitas vias tiveram seus nomes modificados, algumas delas, várias vezes. As ruas e avenidas aqui citadas, estão entre os logradouros mais antigos de Fortaleza, motivo pelo qual não registram modificações recentes.

Apesar disso mudança de nomes de vias públicas, é coisa corriqueira em nossa cidade. A prática cria transtornos reais, não só aos moradores, que de repente, mudam de endereço sem sair do lugar, mas também aos prestadores de serviço que dependem de informações exatas, para bom desempenho de suas tarefas, como os motoristas de aplicativos, os estabelecimentos que atuam no sistema de entregas, e os funcionários do Correio. Vejam como se chamaram antes algumas avenidas e ruas de Fortaleza.



Avenida Bezerra de Menezes – antiga Rua do Alagadiço; (Teófilo Rufino Bezerra de Menezes, advogado, professor do Liceu, deputado provincial e jornalista, natural de Fortaleza)

Duque de Caxias – antigos Boulevard do Livramento e Travessa nº 1 (Luís Alves de Lima e Silva – o Duque de Caxias, Patrono do Exército Brasileiro, nascido no Rio de Janeiro). 

Dom Luís – antiga rua Farias Brito (Luís Antônio dos Santos – primeiro bispo do Ceará, nascido no Rio de Janeiro) 

Francisco Sá –  antiga Estrada do Urubu, avenida Demóstenes Rockert, avenida 6 de Julho; (Francisco Sá, Senador da República, Ministro de Estado, natural de Minas Gerais). 

Santos Dumont – antiga Rua do Colégio, Gustavo Sampaio, Boulevard Nogueira Accioly e Travessa 9-A; (Alberto Santos Dumont, o “Pai da Aviação”. Nasceu em Minas Gerais).

Tristão Gonçalves – Rua da Lagoinha, 14 de Maio, Trilho de Ferro; (Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, famoso pelas lutas da independência no Ceará, revolucionário da Confederação do Equador. Nascido no Crato, Ceará). 



Almirante Tamandaré - antiga rua Três de Outubro, Avenida Epitácio Pessoa e Atlântica; (Joaquim Marques Lisboa, Visconde de Tamandaré, Patrono da Marinha do Brasil, nascido no Rio Grande do Sul). 

Visconde do Rio Branco – antiga rua Joaquim Távora, Estrada de Messejana, Calçamento de Messejana e Rua 13; (José Maria da Silva Paranhos, conselheiro do Império, natural de Salvador, BA) 


Avenida da Universidade – antigo Boulevard Visconde de Cauípe, Rua do Benfica (nome antigo em homenagem a Severiano Ribeiro da Cunha, comendador e visconde , nascido em Caucaia, CE); nome atual em homenagem à universidade Federal).

Senador Virgílio Távora – antiga Avenida Estados Unidos; (Virgílio de Morais Fernandes Távora, político e militar, ex-governador do Ceará, natural d Jaguaribe – CE).

Historiador Raimundo Girão – antiga avenida Aquidabã (Raimundo Girão, escritor, político, historiador, ex-prefeito de Fortaleza, natural de Morada Nova, CE).

Avenida Domingos Olímpio – antiga Travessa dos Coelhos, Travessa nº 8. (Domingos Olímpio Braga Cavalcante, jornalista, cronista e romancista, nascido em Sobral, autor do romance "Luzia Homem", dentre outros).

Avenida Gomes de Matos – antiga Estrada do Gado, Boulevard 14 de Julho. (Raimundo Gomes de Matos, jurista e professor cearense nascido no Crato). 


Avenida Beira Mar

Avenida Beira Mar – antiga Avenida dos Jangadeiros, Getúlio Vargas, e Presidente Kennedy. 

As Ruas e seus nomes Antigos 

Adolfo Caminha – antiga Pessoa Anta; (Adolfo Ferreira Caminha, romancista, autor dentre outras obras, do famoso “A Normalista”. Natural de Aracati – CE.). 

Adolfo Herbster – antiga Rua Paraíba; (Adolfo Herbster era Pernambucano de nascimento, engenheiro, arquiteto, responsável pela urbanização e pelo desenho de ruas e avenidas de Fortaleza). 

Antônio Augusto – antiga Rua Monte Flor; (Antônio Augusto de Vasconcelos foi catedrático e um dos fundadores da Faculdade de Direito do Ceará. Natural de Maranguape).

Barão de Aracati – antiga Rua do Aracati; (José Pereira da Graça, Barão de Aracati, nascido em Fortaleza. Magistrado, deputado geral e provincial, membro do Supremo Tribunal de Justiça. Foi presidente da Província do Maranhão). 


Rua João Brígido

João Brígido – antiga Rua da Assunção, da Bomba, Conselheiro Liberato Barroso (João Brígido dos Santos foi a figura mais representativa do jornalismo de combate no Ceará; deputado provincial e geral; historiador e cronista. Natural de São João da Barra, RJ). 

Rua Justiniano de Serpa – antiga Estrada do Gado; (Justiniano de Serpa, jurisconsulto, parlamentar, orador. Deputado Federal pelo Ceará e pelo Pará. Presidente do Ceará entre 1920 e 1924, faleceu antes de completar o mandato. Nasceu em Aquiraz, CE). 

Dom Jerônimo – antigas Rua Alto Alegre e Major Rangel (Jerônimo Tomé da Silva, natural de Sobral, era doutor em filosofia e teologia. Bispo do Pará e Arcebispo Primaz do Brasil). 

José Avelino – antigas Ruas do Chafariz, Singlehurst, General Mesquita e Travessa19-B; (José Avelino Gurgel do Amaral, jornalista, advogado, deputado federal e poligrafo. Cearense de Aracati).

Marechal Deodoro – antiga Rua da Cachorra Magra; (Manuel Deodoro da Fonseca, líder da Proclamação da República, primeiro presidente republicano, nascido em Alagoas).

Pedro Borges – antiga Rua do Cajueiro e Travessa 7-B; (Pedro Augusto Borges, médico do Exército, deputado federal, senador e presidente do Ceará no período de 1900 a 1904. Natural de Fortaleza). 

Senador Alencar – antiga Rua das Hortas e Travessa nº 13; (Padre José Martiniano de Alencar, nascido em Barbalha, então Distrito do Crato-CE. Senador do Império, pai do escritor José de Alencar).
 

Rua Dr. João Moreira esquina com Barão do Rio Branco (Anuário do Ceará)

Dr. João Moreira – antiga Rua Nova da Fortaleza, Travessa do Quartel, da Misericórdia, General Tibúrcio e Travessa nº 17; (João da Rocha Moreira, natural de Fortaleza. Médico da Santa Casa de Misericórdia, Professor do Liceu e Inspetor de Saúde). 

Gustavo Sampaio – antiga Rua da Aratanha; (Gustavo Sampaio nasceu em Baturité. Tenente do Exército, morreu lutando na Revolta da Armada, em 1893). 

Conselheiro Tristão – antiga Rua da Cruz e Rua nº 16; (Tristão de Alencar Araripe, conselheiro do Estado, Ministro do Supremo Tribunal de Justiça, Ministro de Estado, historiador e jurisconsulto. Presidiu as províncias do Rio Grande do Sul e do Pará. Natural de Icó, CE).


Rua Clarindo de Queiroz (Arquivo Nirez)

Clarindo de Queiroz – Antiga Rua do Livramento e Travessa nº 2 ; (José Clarindo de Queiroz, presidente das províncias do Amazonas e do Ceará. Natural de Fortaleza, foi deposto do Governo do Ceará em 1892). 

Padre Francisco Pinto – antiga Rua N. S. dos Remédios (Francisco Pinto, natural dos Açores, era um padre jesuíta que veio para o Ceará em 1607, em companhia de Luís Figueira, em missão de colonização. Foi atacado e sacrificado pelos índios Tacarijus). 


Rua Dona Isabel (Arquivo Nirez)

Rua Princesa Isabel – antiga Rua Santa Isabel e Dona Isabel (Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon-Duas Sicílias e Bragança, foi a segunda filha, a primeira menina, do imperador Pedro II. Na qualidade de regente assinou a Lei Áurea que aboliu a escravatura no Brasil em 13 de maio de 1888. A Princesa Isabel nasceu no Rio de Janeiro) 


Fontes: 
Coisas que o Tempo Levou – crônicas históricas da Fortaleza antiga, de Raimundo de Menezes
Guia Turístico da Cidade – Prefeitura Municipal de Fortaleza – 1961
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão
Fotos: Fortaleza em Fotos, Google

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O Disciplinamento das Ruas

A rua é uma rede emaranhada de vivências, cuja origem se perde no tempo e se confunde com a existência das cidades, fazendo parte da memória do mundo, abrigando tanto os grandes acontecimentos como os pequenos incidentes do cotidiano. É local de intenso fluxo de mudanças, de movimento e de novas relações sociais. Tem a sua importância como um dos lugares das experiências humanas nas cidades.


atual Rua Formosa - 1908

A partir de princípios do século XIX a rua vai ganhando um novo prestígio dentro do nosso sistema de relações sociais. Ela deixa de ser apenas um lugar para as águas servidas dos sobrados, da escuridão, de poças de lama, bicho morto, etc, e passa a ganhar dignidade e importância social.
Um dos exemplos dessa mudança é o aparecimento no início do século XIX dos primeiros Códigos de Posturas Municipais, que procuravam defender a rua, inibindo os abusos cometidos por particulares e das residências, que se instalavam nas cidades com os mesmos modos e com a mesma arrogância da casa de engenho ou da fazenda, fazendo da calçada picadeiro de lenha, atirando no meio da rua o bicho morto, o resto de comida, a água servida, e as vezes, até a sujeira do pinico.


atual Rua Liberato Barroso s/data

Tais posturas fixaram, assim, a importância, a respeitabilidade e os direitos da rua, antes tão violados. Com elas criaram-se restrições à liberdade dos particulares, proibindo-se, aos proprietários das casas, certos absurdos, como o hábito de criar animais soltos na via pública, e as bicas que lançavam águas pluviais sobre as calçadas. Também foram proibidas a lavagem de roupa nas bicas do centro da cidade pelas negras dos mucambos, e a surra de escravos por parte dos senhores depois que o sino da matriz badalasse nove horas da noite.
No entanto, o que se procurou com esses códigos de Posturas, foi dar uma nova e mais eficaz funcionalidade à cidade, para que seu ordenamento de hábitos, de sociabilidade e dos espaços de vivências estivessem de acordo com as pretensões civilizatórias e modernas.


Lagoa do Garrote, no Parque da Liberdade (Cidade da Criança)

No relato de suas memórias de infância, Gustavo Barroso nos fala de um passeio pela manhã de 5ª. Feira, dia de folga (não houve aula), que realizara com sua tia até o Parque da Liberdade, onde existia “....grande lago represado em magelas de cimento como um tanque, que foi a antiga Lagoa do Garrote”. Naquele dia, ele vira no reservatório do Pajeú, “caboclinhos e moleques” a tomarem banho livremente, o que lhe causou inveja, mesmo que por um instante, por não poder brincar como eles, porque era um filho-família. O episódio por si só demonstra a diferença de hábitos, sendo o banho de lagoa e/ou rio um costume que não deveria ser mais praticado, por ir de encontro às posturas do município, que não só proibia o banho nos reservatórios públicos, como ameaçava com punição ao infrator. O titulo VI em capitulo de n° II legisla sobre “bulhas, vozerias, obscenidades e ofensas à moral” com a novidade: punição para a pessoa que se banhar à luz do dia “no corrente da Rua do Poço, na Lagoa do Garrote, Pajeú e outros lugares expostos às vistas dos viandantes ou de quem estiver em casa”. 


O Açude do Pajeú ficava no atual Parque Pajeú (ou Parque das Esculturas) localizado entre a rua 25 de Março e a Avenida Dom Manuel. (foto anuário do Ceará)

Entretanto, essa regra municipal que atenta para a condução e preservação de um pudor e de uma moral comunitária, já estava presente em códigos anteriores, em que os banhos na Lagoa do Garrote, em que se empenhavam os rapazes nus, provocou a vigência do artigo 70, de posturas de 11 de maio de 1849, proibindo a apresentação de qualquer pessoa despida das seis da manhã às 6 da tarde.
Se as mudanças do espaço urbano se deram já na primeira metade do século XIX, seria no entanto, a partir da segunda metade que a rua iria sofrer significativas alterações, isso porque essas modificações eram fruto de um processo de transformação capitalista do mundo, e da expansão de uma nova ordem burguesa que ora se mundializava atingindo em cheio as mais diversas áreas.
Em decorrência, o que aconteceu nesse contento foi a emergência de uma ordem urbano-industrial que exigiu desse espaço público sua adequação aos padrões desejados de modernidade e progresso. Assim, a rua refletiu a transformação do espaço e a reordenação da vida.


Portão de acesso ao Passeio Público, onde a Avenida Caio Prado era a vitrine das elites durante o período conhecido como Belle Epoque 

Em Fortaleza essas mudanças coincidiram com o início do período conhecido como belle époque, onde a elite formada por comerciantes e profissionais liberais vindos de outras regiões do Brasil e do exterior, ajudou a promover diversas mudanças importantes em Fortaleza. De influência francesa e baseada em ideais de civilidade, esse contingente teve atuação destacada no período compreendido entre 1860 até por volta da metade dos anos 1920, onde a cidade foi amplamente influenciada pelas ideais de modernidade estética e comportamental.

Extraído do livro 
Humor, Vergonha e Decoro na Cidade de Fortaleza (1850-1890)
De Marco Aurélio Ferreira da Silva 
Coleção Outras Histórias
fotos do Arquivo Nirez e postais antigos

terça-feira, 31 de maio de 2016

Fortaleza Belle Époque (As Transformações Urbanas e Sociais)

Belle Époque é o termo em francês que expressa a euforia de setores sociais urbanos com as invenções e descobertas científicas e tecnológicas decorrentes da Segunda Revolução Industrial (1850-1870) e demais novidades, modas e produções artístico-culturais ocorridas entre 1880 e 1918, ano que marcou o fim da Primeira Guerra na Europa; no Brasil, a belle époque se estendeu até os anos1920. 


O surgimento vertiginoso nesse período de máquinas e inovações fantásticas como o automóvel, o cinema, o telefone, a eletricidade e o avião, causou furor e o culto à ciência e ao progresso. Trata-se, portanto, de uma época de intensas transformações que afetaram a economia e a política, e alteraram de maneira profunda o modo de viver, perceber e sentir.

Inglaterra e França foram os principais centros produtores desses novos objetos, valores e padrões que irradiaram mundialmente atingindo sobretudo as cidades. Não escaparam a esse processo, os principais centros urbanos brasileiros, que respaldados pelo crescimento advindo da exportação de matérias primas e objetivado por uma nova geração de políticos e de agentes do saber, foram remodelados tendo como referência a modernização urbana da Europa.

Remodelar cidades e sociedades compreendia introduzir equipamentos e serviços urbanos modernos, introduzir noções de higiene, trabalho, beleza e progresso, eliminar os focos naturais de insalubridade e disciplinar o grande contingente de miseráveis, vadios, loucos – estigmatizados como a horda de bárbaros que colocavam em perigo a constituição de uma nova ordem social modernizante e excludente.Foi assim que Fortaleza foi preparada para viver a belle époque. A época, portanto, só foi bela para as elites e parcelas sociais médias; para os pobres foi um tempo de vigilância, controle de hábitos e confinamento de corpos. 


O processo remodelador que significou a inserção de Fortaleza, teve como base econômica as exportações de Algodão, através do seu porto a partir da década de 1860. Daí em diante Fortaleza acumulou capital, expandindo-se em todos os sentidos – comercial, populacional, espacial, cultural, etc – e tornou-se ainda no final do século XIX, o principal centro urbano do Ceará e um dos primeiros do Brasil. Empolgados com esse crescimento, a burguesia enriquecida com as vendas do algodão, negociantes estrangeiros radicados na cidade, médicos e demais elites políticas e intelectuais, procuraram modernizar a cidade por meio de reformas e empreendimentos que a alinhasse aos padrões materiais e estéticos de grandes metrópoles ocidentais.


Isso posto, Fortaleza inicia sua belle époque na década de 1880, absorvendo com rapidez algumas inovações que acabavam de despontar nos centros de referência, o que demonstra o estreito convívio que a capital tinha com a Europa. 

Dessa forma, ainda nos anos 80 foram instalados equipamentos nunca vistos na cidade e que causaram a maior sensação: bondes e Passeio Público (1880); fotografia, telégrafo submarino, ligando Fortaleza ao Sul do País e à Europa (1882); telefone (1883); e cafés afrancesados na Praça do Ferreira. Além disso surgiu o Clube Iracema (o segundo clube elegante da Cidade) e a abolição da escravatura (1884); o Asilo da Parangaba (1886), para confinar os loucos e o Asilo de Mendicidade, para enclausurar os idosos pobres.


Dos equipamentos cabe destacar o Passeio Público, por ter sido projetado por ser o lugar, por excelência, da fruição daqueles belos tempos da cidade. Nenhum outro logradouro de Fortaleza era tão belo, tão confortável, tão iluminado – tinha vista para o mar, bancos, coreto, jardins, lagos artificiais, estátuas de figuras mitológicas, árvores frondosas e grades. Era um éden a servir de passarela para o desfile de elegantes e palco para o exercício de uma sociabilidade europeizada. Não era à toa que o Passeio Público ficava lotado às quintas e domingos, dias em que as bandas tocavam.  Assim era o primeiro plano, inaugurado e logo ocupado pelas elites. Pouco depois construíram no declive da encosta o segundo e o terceiro planos, não tão ornamentados como o primeiro, e que acabaram sendo utilizados, respectivamente, pelas camadas médias e populares.

Na década seguinte, as fascinantes novidades continuaram a chegar, trazidas pelos quatro navios que vinham mensalmente da Europa: o fonógrafo, em 1891, o kinetoscópio (que fazia fotografia em movimento, precursor do cinema), e o Mercado de Ferro em 1897, todo em art-nouveau – estilo bastante enfeitado que reinou absoluto durante a belle époque. Enquanto isso as ruas se enchiam de sobrados, palacetes e mansões que completavam os adornos do novo perfil da então intitulada “princesa do Norte”.


Mal começou o tão aguardado século XX, as principais praças – a do Ferreira, a Marquês do Herval (atual José de Alencar) e a da Sé – sofreram intervenções estéticas entre 1902 e 1903, recebendo amplos jardins com gradis e adornos semelhantes ao Passeio Público. Por ser o coração da cidade, a Praça do Ferreira já vinha sendo aformoseada desde os anos 1880 com a construção de quatro cafés à feição de chalés franceses nos cantos do logradouro.



Boêmios e janotas deviam sentir-se como que em Paris enquanto sentavam nas mesas ao ar livre desses cafés e contemplavam fascinados o belo jardim do centro da praça e, no entorno, o surgimento na cidade da loja Maison Art-Nouveau, do Cinematógrafo Parisiense (1907) do automóvel (1909) e dos bondes, passando de tração animal a elétricos (1914).

Fonte: Fortaleza Belle Époque -1880-1925, de Tião Pontes
fotos Arquivo Nirez e do livro Ah, Fortaleza! 

sábado, 9 de abril de 2016

Uma Vila Inexpressiva

A cidade antiga é próxima, pois é o lugar que reconhecemos como casa; ou como deveria ser uma Fortaleza. Então temos o nosso encontro marcado com o tempo, o tempo de fazer da cidade o que de melhor seria para cada um de nós; com o tempo de construirmos a cidade que sonhamos e que perdemos. 
(do artigo O Encontro marcado com o tempo do professor Antônio Otaviano Vieira Junior) 

Centro de Fortaleza  (foto de Muhammad Said)

Uma das Capitanias hereditárias criadas na época da colonização portuguesa, a Capitania do Ceará foi praticamente relegada ao abandono por parte do seu donatário, Antônio Cardoso de Barros. Apenas índios habitavam o sitio onde viria a surgir Fortaleza. Somente em 1603, o açoriano Pero Coelho de Sousa construiu o forte de São Tiago, na Barra do Ceará, ao redor do qual nasceu o povoado de Nova Lisboa.

Vista da Barra do Ceará com o Forte de São Sebastião. Desenho de Frans Post - 1645 

Em 1612 o capitão português Martim Soares Moreno edificou o forte de São Sebastião no mesmo local, mais precisamente junto a ermida de Nossa Senhora do Amparo.

A Capitania do Ceará esteve subordinada à Capitania do Maranhão e Grão-Pará e depois a Pernambuco, além de ter sido alvo da cobiça colonialista europeia.

Forte de São Sebastião, na Barra do Ceará, construído em 1612 por Martim Soares Moreno, no mesmo local onde,  em 1603, o açoriano Pero Coelho, erguera o fortim de São Tiago. 

Em 1637 chegou ao Ceará a primeira expedição holandesa que ocupou o semi-abandonado  forte de São Sebastião, onde permaneceu por sete anos explorando sal e âmbar gris, até que seus integrantes foram dizimados pelos índios. 

Outra expedição holandesa comandada por Matias Beck, desembarcou em 1649 no Mucuripe, e construiu o forte Schoonenborch, na embocadura do Riacho Pajeú, para defender-se dos nativos aliados dos portugueses, ali permanecendo também por sete anos. Assim que os invasores foram expulsos, o forte foi apropriado pelos portugueses e renomeado de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. 

Entre 1660 e 1698 surgiu um acanhado povoado, no qual foi erigida uma capela dedicada a Nossa Senhora da Assunção, além de uma praça de armas. 

A Carta Régia que autorizou a criação da Vila do Ceará ou de São José de Ribamar em 1699, originou muita polêmica em torno da questão fundamental onde estabelecer o Pelourinho, coluna de pedra ou madeira simbolizando a autonomia municipal. Os desentendimentos entre as autoridades levaram a decisão de elevar Aquiraz à condição de vila e sede da Capitania em 1713.
    
A decisão de instalar a vila em Aquiraz não foi das mais acertadas. Em agosto de 1713 os índios atacaram aquela comunidade ocasionando muita destruição e morte – cerca de 200 pessoas  perderam a vida –  levando muitos habitantes a buscarem proteção dos ataques no fortim de Nossa Senhora de Assunção.  Dos ataques dos índios Paiacus e Anassés, só escapou quem fugiu para Fortaleza. 

A ofensiva levou os próprios integrantes da Câmara, os chamados camareiros, a mudarem de ideia. Passaram então a defender que a sede da Vila do Ceará deveria ficar em Fortaleza. 

 Primeira planta da Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, de 1726, atribuída ao capitão-mor Manuel Francês. O traço forte do Pajeú divide a Vila em duas.

Contrariado com a situação, o rei de Portugal, em vez de simplesmente transferir a sede da vila, mandou criar outra. Assim, a 13 de abril de 1726 foi instalada a vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, a segunda do Ceará,  pelo capitão-mor Manuel Francês. A motivação para a instalação desta segunda vila foi o de incentivar o desenvolvimento da capitania.
 
Planta da Villa de Fortaleza de Antônio da Silva Paulet

A "Planta da Villa", elaborada por Antônio da Silva Paulet, em 1818, mostra prédios dispersos nas margens do Pajeú e na Prainha, e caminhos que chegavam do interior. Coube ao mesmo Silva Paulet a proposta de um novo arruamento para a vila, o projeto e a construção da nova Fortaleza da Assunção.

fontes: 
Fortaleza, 27 Graus - Prefeitura de Fortaleza
História do Ceará - Airton de Farias 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Um Par de Becos e Meia Dúzia de Ruas

Segundo Mozart Soriano Aderaldo, nossa capital, a exemplo de Roma, é construída sobre colinas. As elevações repartiam os cursos d’água que iam ter com o mar, o Pajeú ou o Cocó. O riacho que partia da Praça do Ferreira em direção ao Pajeú, alcançando-o na altura do Mercado Central, era um eles. Outro curso d’água se dirigia da Praça Clóvis  Beviláqua em demanda da lagoa do Garrote, passando nas proximidades da Praça do Livramento (atual Praça do Carmo). Esses riachos serpenteavam entre os outeiros.


Lagoa do Garrote, hoje um lago canalizado dentro da Cidade da Criança (Parque da Liberdade)
  
O caminho das águas foi interrompido pelas ruas. O forte, contíguo ao quartel da Guarda Nacional, serviu de parâmetro, daí surgindo a rua do Quartel, hoje General Bezerril, e a rua de Baixo, à margem esquerda do Pajeú ou dos Mercadores, ou Rua Direita (atuais Avenida Alberto Nepomuceno, e ruas Sena Madureira e Conde D’Eu. Os bairros apareciam identificando a cidade: do Outeiro, da Prainha e do Comércio, este último representando a cidade propriamente dita.


estrada Fortaleza-Parangaba, em 1929 (foto O Povo)

Sendo Fortaleza meia dúzia de ruas, duas praças e um par de becos (o Beco das Almas, que cresceu Rua São José e o Beco da Apertada Hora, renomeado Rua Governador Sampaio). Distantes as estradas de Messejana, Parangaba e Jacarecanga. Até a metade do século XIX, a cidade se via nas ruas: era a Rua da Amélia, Praça do Ferreira, Praça Carolina, Rua das Flores (Castro e Silva), pelo rastro dos mortos. Travessa da Municipalidade (Rua Guilherme Rocha), por ladear o prédio da Intendência Municipal; da Misericórdia (Dr. João Moreira), por conta da Santa Casa; São Bernardo (Pedro Pereira), devido a Igreja de São Bernardo; Rua do Cajueiro (Pedro Borges). As travessas da Assembleia (São Paulo) do Gasômetro (Senador Jaguaribe) e do Chafariz (José Avelino) são autoexplicativas.


Ladeira do Gasômetro, sentido praia/sertão com o prédio da Santa Casa no alto 

Em 1817 os vereadores determinaram o uso de placas com o nome dos logradouros. Mas o povo continuava a se orientar pelos nomes conhecidos e pelo cotidiano de flores, almas, trincheiras e chafarizes. O costume era tão arraigado entre a população que até os responsáveis pelas procissões davam ciência dos itinerários através de publicações na imprensa, comunicando que a procissão passaria em frente à casa de pessoas conhecidas da população.


Igreja de São José, a antiga Catedral de Fortaleza

Um exemplo desse hábito corrente na Capital é o anúncio publicado no jornal “A Constituição” pelo vigário interino da catedral sobre o percurso da procissão de encerramento do mês mariano de 1864:
Hoje às 4h da tarde sairá em procissão a imagem da Santíssima Virgem conduzida pelos fiéis, cuja direção será a seguinte:
Sairá da Catedral pela Rua de Baixo, entrará na Rua do Garrote pela travessa que existe diante da casa do Sr Cônsul Gouveia, e daí prosseguirá em direção à Praça da Municipalidade, passará na frente da casa do Sr. Feijó, em cuja travessa entrará em direção ao Palácio Episcopal, prolongando-se pela rua abaixo, voltará na quina do Senhor Cônsul Rocha Júnior, em procura da frente do Senhor Barbosa, e daí entrará na travessa mais próxima, que é a do Senhor Santos, encaminhando-se à casa da Carolina, passará na frente do Senhor Paes Pinto, onde voltará para a Catedral da Sé.
Assinado: João Leite de Oliveira – vigário interino.     

fontes:
Revista Fortaleza, fascículo 9
Fortaleza Velha, de João Nogueira
fotos do Arquivo Nirez

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A Formação Urbana


Capital do século XIX, Paris foi molde para as cidades que se formavam.  Feita por linhas tortas à época, seguindo  o curso dos rios, a então Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção remodela-se à imagem e semelhança de Paris. A cidade não se instalou por acaso, seguiu um traçado urbano, a reforma urbana que aconteceu em Paris serviu de modelo para Fortaleza. Mas a cidade demorou a crescer. O Ceará é de colonização tardia devido a fatores diversos como o difícil acesso, o mar de vagas traiçoeiras, o terreno arenoso das dunas, rios que desaparecem no meio do curso, e o clima semi-árido, quente com areias escaldantes.


Construído na primeira metade do Século XIX, foi adquirido pela Tesouraria da Fazenda em 1886 e transferido em 1892 para o Bispado de Fortaleza. 

A cidade vista dos seus outeiros cabia no espaço de uma janela. A Fortaleza de 1861 era um arremedo de cidade. Situava-se entre as ruas da Praia atual Avenida Pessoa Anta e da Misericórdia atual Dr. João Moreira (Norte), de Baixo, atual Rua Conde D'Eu, (Oeste), Dom Pedro, atual Pedro I (sul) e Amélia (Oeste). Fora deste circuito, excetuados o Palácio do Bispo, (atual Paço Municipal) o Colégio das Irmãs (da Imaculada Conceição), e o Seminário da Prainha, tudo eram areias, casas de palha, uma ou outra casa de tijolo com sofrível aparência. 


o Colégio da Imaculada Conceição foi inaugurado em 1865, pelo bispo Dom Luis Antônio dos Santos    

Considerava-se uma loucura edificar para além destes limites, tão longe se ficava da cidade.
Por volta de 1887, a capital do Ceará apresentava praticamente as mesmas características da cidade colonial de 20 nos antes. Para além das cinco ruas limítrofes, apenas sítios que demorariam a serem os bairros – Outeiro, Otávio Bonfim, Jacarecanga, Tauape, Alagadiço, Calçamento de Messejana – naqueles tempos tomados de cajueiros esgalhados, de coqueiros esbeltos e copadas mangueiras.


Praia Formosa, na foto considerada a mais antiga de Fortaleza, datada de 1892

Só com o algodão,  Fortaleza, então uma das cidades mais inexpressivas na história urbana do Brasil, consegue se inserir no cenário comercial. A exportação do produto torna a vila a sétima capital brasileira em fins do século XIX. Esse período foi o máximo do aformoseamento e de um processo civilizatório que modifica costumes e construções. Na medida em que Fortaleza tem acumulação do capital, vai ter o glamour correspondente: surgimento dos clubes, de uma elite, de tudo que está ligado a um padrão francês de qualidade – que é a manifestação do modus vivendi da burguesia copiando o padrão da nobreza europeia. 

O Passeio Público foi o simbolo do glamour e do afrancesamento de Fortaleza  

Paris era o modelo cultural, mas não se pode esquecer a presença britânica. O capital e as técnicas eram ingleses. Comerciantes franceses e ingleses, colonizadores portugueses e religiosos alemães, holandeses e italianos dão um toque  a um lugar feito à base de farinha, carne-de-sol,  peixe moqueado, manteiga de garrafa. Apesar de ser forte essa cultura de sertão, o estrangeiro influencia a classe média alta da cidade, que sempre copiou os maneirismos dos visitantes.  


fontes:
Revista Fortaleza - fascículo 9 - extraído do artigo Cidade "A La Belle Maniere"
fotos do arquivo Nirez