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sexta-feira, 4 de maio de 2018

a Trajetória da Educação no Ceará


Ao contrário do que aconteceu em algumas Capitanias, no Ceará o período de organização e consolidação do ensino só teve início em 1622, quando as missões da Ibiapaba passaram a se preocupar, não mais apenas com o catecismo da doutrina cristã, mas também com as noções rudimentares de ler, escrever e contar. Nessa fase os jesuítas incorporaram ao seu trabalho a atribuição do ensino. Por volta de 1655, já os Tabajaras haviam aprendido a escrever, conforme depoimento do padre José Morais, em “História da Companhia de Jesus”.


Mas somente em 8 de janeiro de 1697, foi autorizada a fundação do primeiro hospício do Ceará, localizado em Viçosa, na Serra da Ibiapaba. O programa educacional então adotado foi o mesmo estabelecido para o Colégio da Bahia, em 1585. Isso significando que, decorridos 112 anos, nada havia sido acrescentado ao ensino, mantendo-se inalterada a estrutura educacional concebida pelo padre José de Anchieta, que atribuía à escola a missão de ensinar a ler, escrever e contar, afora alguns cursos de artes.

ruinas da capela do Hospício dos Jesuitas, em Aquiraz

A criação do colégio de Aquiraz data de 1727, ou melhor, a transformação do hospício em colégio, sendo também dessa época a transformação do hospício de Viçosa em colégio. Esses dois núcleos educacionais foram os únicos encarregados do ensino público gratuito, tanto a instrução primária como a secundária, sendo que a instrução secundária era somente para os jovens que se destinavam ao sacerdócio. Na opinião de alguns historiadores, a escola de primeiras letras implantada pelos jesuítas seria a origem da escola primária brasileira.


Quando os jesuítas deixaram o Ceará, expulsos do território brasileiro por determinação do Marquês de Pombal, cinco aldeias já se encontravam em pleno funcionamento: a de Ibiapaba, na Vila Viçosa Real; a de São Sebastião da Paupina, na Vila de Messejana; a de Caucaia, na Vila de Soure; a de Parangaba, na Vila de Arronches; e a de Paiacu, na Vila de Monte Mor Novo (atual Baturité). 

via de acesso a Messejana - 1919 foto Brasiliana Fotográfica


Nas escolas mantidas pelos jesuítas nessas aldeias, 387 alunos frequentavam o curso primário; 23 rapazes aprendiam artes e 150 moças eram iniciadas nos ofícios domésticos de fiar, tecer e coser. Referindo-se à ação jesuítica no Ceará, Plácido Aderaldo Castelo escreveu que, “esses notáveis educadores cuidaram dessa forma, do ensino profissional, do doméstico e do de primeiras letras, base para o aperfeiçoamento cultural e a prova do alto sentido que emprestavam à educação e à instrução, esses mestres da verdade e do conhecimento”. 


Os jesuítas foram, portanto, precursores do ensino profissionalizante no Ceará e no Brasil, realizando em pleno século XVIII o que hoje fazem algumas escolas de 2° grau.

Com o alvará de 28 de junho de 1759, o Marquês de Pombal retirava da Companhia de Jesus o monopólio da educação, e introduzia substanciais reformas no ensino em geral. Mas a estrutura do ensino de humanidades foi conservada, alterando-se apenas os métodos pedagógicos. Ficavam sob a responsabilidade do Estado, tanto o ensino de humanidades como o militar, este a partir de 1772.

imagem: slideshare.net/DINODIAS1963/desenvolvimento-pedagogico

Mas o Ceará não tomou conhecimento da reforma pombalina. A evolução do ensino, sem sistema nem método, perduraria de 1759 a 1772, sob o critério de interesses locais, sem recursos ou subvenções que pudessem proporcionar iniciativas louváveis.

Só muito mais tarde, já no governo de João Batista de Azevedo Montaury (1782-1789) era reconhecido o atraso em que se encontrava a província em matéria de ensino, propondo esse governante o estabelecimento de aulas de gramática latina, em Fortaleza, Aracati e Icó, além de escolas de ler, escrever e contar nas principais vilas e povoados.


Com a finalidade de custear a instrução pública, foi estabelecido em 1772, o imposto denominado Subsídio Literário, cuja contribuição recaía sobre os vendedores de vinho por atacado e açougueiros: um real em cada arrátel ou 429 gramas de carne que vendesse, ficando a manutenção do ensino na Província à mercê dessa irrisória contribuição. (O arrátel era a unidade de base de peso do antigo Sistema Português de Medidas, até a adoção do Sistema Métrico). O presidente José Martiniano de Alencar, reconhecendo a irrelevância do Subsídio Literário, decidiu substitui-lo pelo imposto de “mil réis em cada rês”, do que fosse vendido de carne seca ou verde.


Quando os jesuítas deixaram o Ceará, em 1759, havia em funcionamento 5 escolas nas aldeias por eles missionadas. Passados 63 anos, em 1822, a província só contava com 27 estabelecimentos de ensino, um crescimento totalmente desproporcional em relação ao aumento da população, que por essa época contava com 200 mil habitantes no Ceará.


No ano de 1827, o Imperador D. Pedro I decretou a implantação do ensino mútuo, o que obrigava as cidades, vilas e locais mais populosos a manterem as escolas de primeiras letras, quantas fossem necessárias. Aos professores caberia ensinar a ler, escrever as quatro operações de aritmética, prática dos quebrados, decimais e proporção, noções de geometria, gramática da língua nacional, e os princípios de moral cristã e da doutrina da religião católica, apostólica, romana. Determinava ainda o decreto imperial, a instalação de escolas de meninas nas cidades e vilas mais populosas, excluindo-se do currículo normal a matéria “noções de geometria”, e acrescentando-se assuntos relacionados com a econômica doméstica. 


Prédio do Ensino Mútuo em Fortaleza, na Praça do Ferreira, no local onde hoje se encontra o Palacete Ceará (agência central da Caixa Econômica) foto Arquivo Nirez

O Ensino Mútuo representava o sistema de ensino em que os alunos comunicavam uns aos outros as lições recebidas dos mestres, obtendo-se um maior rendimento do ensino através do estímulo e da emulação. Com a aplicação desse sistema, as escolas passaram a ser mais concorridas, dividindo-se os alunos em oito ou mais seções. Os meninos mais adiantados eram chamados de monitores ou instrutores. Em resumo, o Ensino Mútuo era nem mais nem menos do que o Sistema Lancaster, que revolucionou o nosso processo educacional nas primeiras décadas do século passado.


Fonte: 
Anuário do Ceará 79/80

     

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A Praça é o Parlamento do Povo


Comício na Praça do Ferreira - 1931 (foto do MIS)

Seu tablado, sua rinha, seu grito, sua filosofia, sua alma. Em muitas cidades do mundo existe uma praça-símbolo. Em Fortaleza, a Praça do Ferreira emblema os sentimentos e as emoções do povo. É o coração da cidade.

Praça do Ferreira, final da década de 1820, com o prédio do Ensino Mútuo, que ficava na esquina das Ruas Floriano Peixoto e Guilherme Rocha, onde hoje está o Palacete Ceará (Caixa Econômica Federal). Naquela época a praça não era urbanizada

Até que se chegasse à sua denominação definitiva, a Praça do Ferreira foi Feira Nova, Largo das trincheiras, Praça D. Pedro II e Praça da Municipalidade. Até 1902 a Praça do Ferreira era um imenso areal circundado por “frades de pedra”, tendo ao centro um cacimbão, aqui e ali uma touceira de capim, além de quatro quiosques, um em cada canto, que funcionavam como bares-cafés. 

A velha cacimba foi reencontrada na reforma de 1991 na gestão do prefeito Juraci Magalhães

Os quiosques  da praça eram construções de madeira com pequeno espaço para mesas, balcão e cozinha, seguindo um modelo francês utilizado em feiras e exposições. O primeiro foi o Café Java, erguido em 1886 no canto Nordeste da praça. Seu proprietário, Manuel Ferreira dos Santos, era conhecido como Mané Coco, um sujeito extremamente popular, que a todos saudava com estardalhaço e demonstração de alegria. Gorducho, rosto com marcas de bexiga, paletó branco, sem gravata, costumava recitar, aos brados, versos de Guerra Junqueira, cantarolava modinhas e repetia provérbios e sentenças de almanaque. 

Café Java, no canto Nordeste da Praça do Ferreira. Demolido em 1920


Seu jeito simpático atraía uma freguesia de jovens poetas e artistas. Foi ali no Café Java, que nasceu em 1892, o famoso e original grêmio literário conhecido como Padaria Espiritual. Depois foram surgindo os outros quiosques: o café do Comércio, de José Brasil de Matos, com dois pavimentos no canto noroeste; o Café Iracema, de Ludgero Garcia, no canto sudoeste; e o Café Elegante, de Arnaud Cavalcante Rocha, também com dois pavimentos, no canto sudeste.
A Praça do Ferreira sofreu várias reformas ao longo de sua história, foram várias praças no mesmo lugar. Sua formação se arrastou por muitos anos, até que por volta de 1843, o boticário Antônio Rodrigues Ferreira, presidente da Câmara Municipal, depois de ordenar demolições e alinhamentos, definiu o perímetro do logradouro.

retrato de Antônio Rodrigues Ferreira, o Boticário Ferreira, do acervo do Museu do Ceará

Quando o carioca Antônio Ferreira chegou a fortaleza, em 1825, o que é hoje a Praça do Ferreira era um terreno arenoso, cheio de mongubeiras, castanheiras e pés de oitis, com um cacimbão e um chafariz. Sem qualquer iluminação, de noite o lugar se fazia propício para o banho dos jovens, principalmente dos rapazes do teatro Concórdia na volta dos espetáculos. Todo mundo tomava banho nu e ali mesmo fazia as necessidades físicas que os feirantes encontravam no dia seguinte.

Jardim 7 de Setembro, construído pelo intendente Guilherme Rocha

O boticário fez-se político em Fortaleza, obtendo grande popularidade pelos favores prestados ao povo simples a quem receitava e curava. Presidiu a Câmara Municipal, posição que, na época correspondia ao posto de Intendente, e como tal, reformulou a cidade, aplicando o antigo planejamento urbano elaborado pelo engenheiro Silva Paulet ainda no tempo do Governador Sampaio, em 1813. Na praça em que tinha sua botica, esmerou-se mais. E tanto se identificou com ela que, ao morrer, em 1859, virou seu patrono. Em 1902 o intendente Guilherme Rocha cercou a praça com grades de ferro, calçou-a de cimento rosa e construiu um jardim, o Jardim 7 de setembro, ladeado de bancos. A inauguração contou com a presença do governador Pedro Borges e demais autoridades. 

Café do Comércio de José Brasil de Matos

Em 1920 o prefeito Godofredo Maciel manda retirar os quiosques e o gradil de fero. E em 1925, novamente prefeito, Maciel constrói um coreto, onde a filarmônica da Polícia Militar executava dobrados e allegros à noitinha.
Na reforma de 1920 foi abatido o célebre Cajueiro Botador, também chamado de Cajueiro da mentira. Esta árvore histórica, que ficava em frente ao número 591 da Rua Floriano Peixoto tinha uma particularidade: dava frutos o ano inteiro, bonitos cajus que os boêmios colhiam com um simples esticar de mão para usar como tira-gosto da Cachaça do Cumbe que bebiam nos botequins da época.  O cajueiro era um dos pontos prediletos dos conversadores de todas as tardes que, sob sua copa, se reuniam para tecer futricas. Poetas liam suas produções satíricas e, na semana Santa, o testamento de Judas. 

O Cajueiro da Mentira na Praça do Ferreira. Em 1920 o prefeito Godofredo Maciel mandou cortar a árvore
No Primeiro de abril, dia internacional da mentira, havia grande movimento na Praça. É quando se cumpria a tradição do Concurso de mentiras, quando a população escolhia o maior potoqueiro, o campeão da arte de surrupiar a verdade. Uma urna era colocada debaixo do cajueiro ou no Palacete Ceará e, durante todo o dia procedia-se a votação em meio a grande algazarra dos frequentadores, poetas, seresteiros, estudantes, comerciantes, caixeiros, filósofos de ocasião e vagabundos em geral. Enquanto a banda executava dobrados, marchas e polcas, era proclamado o resultado num grande cartaz afixado no tronco da árvore: o potoqueiro-Mor é fulano de Tal, com direito a retrato e tudo.

A Coluna da Hora foi construída na gestão do Prefeito Raimundo Girão e inaugurada à meia noite na passagem do ano 1933/1934

É impressionante a importância que os cronistas da época dão a esta brincadeira do cajueiro da mentira, escrevendo várias páginas sobre o evento. A capital do Ceará era ainda uma pequena vila de compadres, em que as coisas mais simples tinham imensa importância. O humor puro, direto, envolvia a comunidade que, com certeza tinha mais tempo para o ócio.
Em 1933 nova reforma, desta vez pelo prefeito Raimundo Girão que retira o coreto e ergue a Coluna da hora, com um relógio de quatro faces. Em 1946 o prefeito Acrísio Moreira da Rocha derruba o prédio da Intendência Municipal, na Travessa Pará, e constrói o Abrigo Central, um centro comercial e de lazer com lojinhas, bares e lanchonetes. 

A Praça foi totalmente modificada na década de 60 na gestão do prefeito José Walter Cavalcante. Nesta reforma o local ganhou instalações subterrâneas que abrigava a Galeria Antônio Bandeira.

 Em 1968 o prefeito José Walter Cavalcante faz a demolição completa da praça e ergue uma praça esquisita, com canteiros altos em forma de caixões, interceptando a vista horizontal de tal  modo que, quem estivesse de um lado não enxergava o outro lado.

A mais bela de todas as Praças do Ferreira, na opinião do professor Juarez Leitão


Em 1991 o prefeito Juraci Magalhães atendendo à voz das ruas, restaura a praça e a ressuscita em seu sentido social e político, reerguendo a Coluna da Hora, os bancos, o piso raso e plano e até o cacimbão do século passado. Criando, a que talvez seja, a mais bonita de todas as Praças do Ferreira.


fotos do Arquivo Nirez e do acervo do blog
Extraído do livro de Juarez Leitão
Sábado,  Estação de Viver