sexta-feira, 15 de junho de 2012

A Usina do Mucuripe

Falta de Luz é bom pra namorar
mas depois disso nem é bom falar
a usina lá do Mucuripe
todo mês tem gripe
não quer mais funcionar
(Falta de Luz, 
 de Irapuan Lima e Mário Filho)

Prefeito Paulo Cabral de Araújo

A questão do fornecimento de energia elétrica em Fortaleza tornou-se prioridade na gestão do prefeito Paulo Cabral (1951-1955), que promoveu estudos visando a criação de uma autarquia municipal de luz e força e a construção de uma usina termelétrica no bairro do Mucuripe.  Para atenuar o déficit de energia elétrica em Fortaleza enquanto a usina do Mucuripe ainda não estivesse concluída, o governo municipal recorre a fábricas particulares para que estas forneçam o excedente em sua capacidade de geração de energia.  Durante o ano de 1952, são contratadas a Fábrica São José, de Gomes e Cia, e a Fábrica Progresso. No ano seguinte incorpora-se ao sistema a Brasil Oiticica, com o fornecimento de energia elétrica com a demanda máxima de 550 KW, e em 1954, o Cotonifício leite Barbosa, sujeito a demanda máxima de 300 KW.


assinatura do contrato pelo representante da Westinghouse (fabricante dos equipamentos da Usina), assistida pelo Prefeito Paulo Cabral e os deputados Paulo Sarasate e Virgílio Távora - 30.06.1952 

Outra providência adotada para o grave problema de déficit de energia elétrica foi instalada em janeiro de 1954, no bairro do Meireles, na confluência das Avenidas Barão de Studart e Monsenhor Tabosa, um grupo diesel-elétrico. A Usina Auxiliar do Meireles, como passou a ser chamada, foi adquirida pelo valor de CR$ 4.241.787,50, om empréstimos de curto prazo a bancos locais.
Para produzir, transformar e distribuir a energia elétrica no município, foi criada a autarquia municipal Serviço de Luz e Força de Fortaleza – SERVILUZ , pela lei Municipal n° 803, de 20 de maio de 1954.
Coube à administração de Paulo Cabral projetar e executar a construção da usina termelétrica do Mucuripe, com obras iniciadas em 30 de julho de 1952. Compunham a Usina do Mucuripe, três caldeiras munidas de fornalha para queimar fuel oil ou lenha, com instrumentos e equipamentos completos para operação automática. Havia também um conjunto de geradores trifásicos e vários outros componentes.
A inauguração da usina ocorreu no dia 23 de março de 1955, dois dias antes de assumir a prefeitura, para seu segundo mandato, Acrísio Moreira da Rocha. Foi um acontecimento social importante, com amplo interesse popular, por se constituir passagem para a alternativa adequada de geração termelétrica a óleo Bunker C, ao invés de lenha, que já estava esgotada em nosso Estado.


vista aérea da Usina do Mucuripe, na Praia Mansa, próxima ao antigo farol - 1955

Nesta etapa, a usina do Mucuripe servia a região compreendida pelo Mucuripe, Volta da Jurema, Meireles, parte da Aldeota, Estância, Vila Zoraide e Vila Monteiro. Enquanto isso continuavam operando a turbina n° 3 da usina velha do Passeio Público, a usina diesel-elétrica do Meireles, nem como as unidades geradoras das fábricas contratadas no plano de emergência.
Apesar do sistema de geração de energia estar sensivelmente reforçado, na prática, surgiam problemas que determinavam cortes de energia elétrica. O projeto do Mucuripe utilizava água do mar. De um canal, as bombas sugavam a água para resfriamento dos condensadores. Mas quando ocorria a maré baixa, entravam nos tubos areia, peixinhos, crustáceos, etc. ocasionando sua obstrução e frequentes interrupções no fornecimento de energia.  O SERVILUZ teve que manter equipes de mergulhadores, que cumpriam o penoso trabalho de limpeza e deslocamento das bombas de dragagem. 


                     O Engenheiro Jesamar Leão de Oliveira e trabalhadores, na plataforma das caldeiras, comemoram a recuperação da Usina do Mucuripe, depois de dois dias de intensos esforços  - dezembro de 1957

No final de 1957, uma grave pane – o rompimento do tubo interno de aquecimento do óleo combustível – fica na história da usina. Durante os dias 28 e 29 de dezembro, os operários liderados pelo engenheiro Jesamar, ficam impregnados de óleo durante dois dias de contínuo trabalho, para que Fortaleza não passasse as festas de Ano Novo no escuro.
No final da década de 1950, a cidade constata que, mesmo com todo o esforço de governantes e dirigentes do setor elétrico, Fortaleza continuava a viver duros tempos de crises e desesperança, traduzidas em notícias como a que se segue, publicada no Jornal O Povo, de 6 de agosto de 1959. 


Usina do Passeio Público

"Há alguns dias que as noites de Fortaleza estão mais perigosas, embora os poetas ainda achem que as noites são mais belas sob a luz exclusiva da lua e das estrelas. A turbina Stahl, do Serviluz, com capacidade para 7.500 kVA, está em pandarecos, o que deixa grande parte da nossa capital sem energia elétrica durante a maior parte do dia e da noite. Somente a linha n° 3, que fornece energia ao centro da cidade é que continua funcionando regularmente" 

extraído do livro
História da Energia no Ceará
de Ary Bezerra Leite

2 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Isso tudo, é do "meu tempo". Que bom, recordar essa quase marchinha de carnaval. Já não me lembrava dela.

Adorei! Lembro-me de Paulo Cabral mais como radialista do que como prefeito. Bom, recordar esses momentos da nossa Fortaleza!

Fátima Garcia disse...

Paulo Cabral ocupou o cargo de prefeito de Fortaleza ainda muito jovem, aos 28 anos. Dizem que a marchinha virou hit nos anos 50, puro deboche da situação.
abraço, Lúcia