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domingo, 23 de outubro de 2011

Dias de Cão (na Itaoca)


Corria o ano de 1941. O Continente Europeu se via às voltas com um conflito armado, que alguns meses mais tarde haveria de se espalhar pelo mundo.  Os jornais de Fortaleza só falavam da guerra: dos ataques, das tragédias, dos mortos, dos bombardeios. O assunto era uma fonte inesgotável de interesse por parte da população, e as noticias eram fartas.

De repente, surge uma dessas histórias bombásticas, capaz de despertar interesse da população, de ofuscar as noticias da guerra, e de matar de curiosidade os viventes da pacata cidadezinha de pouco mais de 180 mil habitantes:  a de que satanás em pessoa, estava dando o ar da graça numa casa localizada no Beco da Itaoca,  então subúrbio de Fortaleza.

Na época do suposto aparecimento do Diabo, a Itaoca não tinha ruas, somente becos.  Não havia pavimentação, o piso era de areia, as casas simples, cercadas  de vegetação, nas imediações, uma lagoa, aterrada mais tarde.  O bairro era chamado de Pirocaia (nome do poço de água potável localizado próximo ao Beco da Itaoca). No fim dos anos 1940, o Beco da Itaoca passa a se chamar Rua Romeu Martins.

A Rua Romeu Martins atualmente fica no bairro Montese


Segundo testemunhas, na casa de um certo tenente da polícia, chamado João Lima,  fenômenos  estranhos e  acontecimentos inexplicáveis, sugeria a ação de entes invisíveis.  O proprietário do imóvel, homem honrado e trabalhador, andava assustado com os fatos de origem nada natural e sua família andava tomada de explicável nervosismo.

Em outra manifestação na casa, presenciadas por vizinhos e moradores do bairro, o móvel atingido foi o fogão, que deu umas piruetas pela casa e depois caiu sozinho, de pernas para o ar. Todos os utensílios da cozinha da casa voaram pelos ares; a chaleira parecia um zepelim, evoluindo pela casa toda;  os garfos e facas dançavam;  os pratos tiniam;  areia e pedras eram jogadas de todos os cantos, enquanto distintas senhoras jogavam água benta pela casa. Tudo em vão. Um jarro que estava no chão, ergueu-se num voo rasante e quase atingiu uma delas.


Como os fenômenos se repetissem, a policia foi chamada. Em presença das autoridades policias (2 delegados, 1 comissário e vários agentes), nada se registrou de anormal, ainda segundo o repórter. 

No entanto, um verdadeiro terror se apoderou de todos, chamando a atenção da população. A história das aparições na Itaoca se espalhou por toda a cidade, sendo manchete de três jornais e objeto de reportagem da PRE-9, a única emissora de rádio da cidade. Até mesmo o sóbrio Jornal O Nordeste, de propriedade da Diocese de Fortaleza, se pronunciou sobre o caso, reclamando providências. 

Uma multidão de curiosos se aglomerava todos os dias na casa do tenente João Lima, na tentativa de observar as manifestações. As opiniões se dividiam: uns acreditavam em manifestações sobrenaturais, outros em farsa  de espíritos zombeteiros,  enquanto havia quem oferecesse explicações  naturais para os fatos. Os curiosos, procedentes de todos os bairros, de todas as classes sociais, de todas as raças, e credos, se movimentavam fascinadas  pelas plumas imponderáveis da superstição e da curiosidade.

Quintino Cunha, grande humorista cearense, era vizinho da casa onde o cão fazia as estripulias, e arriscou um palpite: para Quintino aquilo era obra de almas bêbadas, talvez dos que foram ébrios em vida. No meio da polêmica até a Federação Espirita do Ceará se propôs a examinar a questão, intervindo, se necessário no caso da Itaoca.

De repente, tão inesperadamente como chegou, o Demo  sumiu, os fenômenos cessaram e os objetos da casa voltaram ao seu estado de inércia. O mesmo repórter que deu início às reportagens do jornal que divulgou o fenômeno, deu sua explicação para o fim do caso: Lúcifer deixou a Itaoca com medo dos catimbozeiros de lá, e resolveu retornar à Europa, onde a demência assume formas mais trágicas. 


Dizem que a história do Cão da Itaoca não passou de uma grande piada, uma história inventada por um jornalista  entediado com a escassez de noticias locais. Provavelmente não contava com a repercussão nem com as proporções que o caso assumiria.  Com a disseminação do caso do Cão em toda cidade, o nome "Itaoca" se firmou em nível local. Atualmente a Itaoca é oficialmente um bairro, situado entre o Montese e a Parangaba.

Do episódio, restaram os versos de um poeta popular, que registrou para a posteridade, o fenômeno que fez Fortaleza esquecer, ainda que momentaneamente, a Guerra na Europa. 

No passo do canguru
O diabo passou o mar
Foi direto a Itaoca
Pra tudo arrebentar

Numa casa bonitinha
Vivem todos incomodados
É que mãos que ninguém vê
Deixa tudo revirado

Chaleira voa pelos ares
Fogão reclama o calor
Vaso pula horrorizado
Tijolo diz que está com dor

Até os santo de casa
Dão mergulho no soalho
Diz o povo que o diabo
Joga em qualquer baralho

As telhas entoam cantiga
Os lençol sobem no vento
Quando voltam para o chão
Viram placa de cimento

Na frente de todo mundo
E em pleno meio dia
Rebolam pedra em cristão
Isso é coisa que arrepia

Eu fiquei muito assombrado
Com a tal exibição
Havia gente chorando
Com medo da danação

Um porco lá no quintal
Sorri com espalhafato
Metia o focinho no chão
E queria calçar sapato

A mesa caía de costa
Levantava bem as perna
Até lembrava coisa feia
De alma na pena eterna

Um peru fazia discurso
Parecia um senador
O bicho tava atuado
Com a alma dum doutor

Itaoca que coisa horrível
Paraíso da macumba
Catimbó dá na canela
E a polícia não faz “bumba”

Na Itaoca galo chora
E pé de pau assovia
Os espirito se assanha
Quer de noite, quer de dia

Gelo se vira em brasa
Os bebê fica velhinho
Velho vira garotinho
E minhoca cria asa.
J. Silva



fotos: ruas da Itaoca
Fontes:
Jornal Gazeta de Notícias, edições de 20, 21, 22 de março de 1941
Jornal o Nordeste, de 22 de março de 1941.
Jornal O Povo, de 28 de novembro de 2006.



quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré


Enquanto corria o ano de 1941, o atual Bairro do Montese não passava de uma extensa área verde muito pouco habitada. Os terrenos eram de propriedade de algumas famílias e se constituíam de grandes sítios onde predominavam cajueiros, mangueiras e plantas medicinais como mangirioba-do Pará e melão Caetano.

Alguns sítios tinham nomes que são conhecidos até hoje: Bom Futuro, Mata do Dummar, Mata do Parreão, Pirocaia e Jardim América.

O Sitio Bom Futuro era de propriedade da família Chaves, do Sr. Sindulfo Serafim Ferreira Chaves e sua mulher, Dulcinéia Gondim Chaves. No dia 09 de setembro de 1939 o casal fez à Arquidiocese de Fortaleza a doação de um terreno para a construção de uma igreja.

Na época existia uma pequena capela localizada na Rua Samuel Uchoa, que pertencia à Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios, dirigida pelos padres lazaristas holandeses. Com a doação do terreno, o Padre Pedro Vermeuler pode iniciar a construção da futura igreja, com base em uma planta feita pelo arquiteto Dr. Aristides Barreto Neto.

A nova igreja deveria ter o formato de uma cruz, mas por falta de recursos foram construídos somente a parte do altar-mor e os dois braços, ficando as obras paradas até 1948. Neste ano assumiu a responsabilidade pela construção o Padre Pedro Haazevoet, que procurou novamente o arquiteto e solicitou uma nova planta, uma vez que a primeira havia-se extraviado.



O arquiteto atendeu ao pedido fazendo uma planta baseada num postal enviado pelo próprio padre Pedro, quando ainda era seminarista, que reproduzia uma igreja na Holanda.
No Sítio do Sr. José Chaves havia uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré, guardada no depósito reservado ao resíduo do gado.

Uma hóspede do Sr. José Chaves, Dona Júlia Guerreiro Rocha, pediu que o dono do sítio doasse aquela imagem para a igreja que estava sendo construída. A imagem foi então restaurada e levada para a Casa de Nazaré, dirigida pelas Irmãs Filhas da caridade de São Vicente de Paula, onde ficou até a construção do altar da nova igreja.



Pelo Decreto n° 81 da Arquidiocese de Fortaleza, o então arcebispo de Fortaleza Dom Antônio de Almeida Lustosa criou a Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, no dia 15 de fevereiro de 1952.

Em 1999 a Paróquia passou por um incidente que abalou o templo e causou comoção nos fiéis: numa noite chuvosa, um raio atingiu a igreja e causou o desmoronamento da torre principal.
A torre foi recuperada em tempo recorde, sem prejuízo das suas características originais.





A Paróquia de Nazaré tem arquitetura moderna, poucas imagens, muita iluminação, muita atividade pastoral pelo bairro do Montese e arredores, e o auge da novidade em igrejas, sinos eletrônicos.

O equipamento foi adquirido há cerca de quatro anos e substitui os sinos tradicionais, feitos de bronze, que continuam na torre da Igreja de Nazaré. A intenção era a de atrair o maior número possível de fiéis, com o som das badaladas, objetivo que já não era alcançado pelo sino de bronze devido ao crescimento da comunidade. Há tempos o pároco queria trocar o sino. Um dia viu um anúncio sobre eletrônicos pela internet. Interessou-se e comprou o equipamento por R$ 12 mil, pagos em parcelas mensais.

O sino eletrônico possui um programa com mais de 300 músicas. O volume da badalada e o intervalo de tempo em que deve soar pode ser programado. O equipamento eletrônico reproduz as badaladas dos sinos do Vaticano, além de tocar hinos religiosos e músicas como a Ave Maria de Schubert, todas as noites às seis, e Noite Feliz, durante o período natalino.


A Paróquia tem um papel de destaque no seio da comunidade católica do bairro do Montese.

Praça da Igreja de Nazaré; ao fundo o Supermercado Extra Montese
A Igreja de Nossa Senhora de Nazaré fica na Rua Jorge Dumar, 2448, Montese, Zona Oeste de Fortaleza


Por quem os sinos dobram?


Nenhum homem é uma ilha isolada;
cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra;
se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída,
como se fosse um promontório,
como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria;
a morte de qualquer homem me diminui,
porque sou parte do gênero humano.
Por isso nunca perguntes por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti.
Jonh Donne (1572 – 1631)


Não se sabe ao certo quem foi o idealizador do sino como é conhecido hoje. Segundo relato de Santo Isidoro de Sevilha, falecido em 636, sua origem é a região da Campânia, Itália, provavelmente na cidade de Nola. No tempo de Carlos Magno, que reinou de 768 a 814, os sinos já eram muito conhecidos.

O sino nasceu católico, sua invenção foi reservada à Igreja. Nos primórdios do cristianismo, era utilizado para chamar os cristãos para as reuniões. Durante o período das perseguições, ficavam silenciosos para não despertar a atenção dos pagãos.

Com a expansão da Igreja católica, a maioria das povoações, colonizadas pelos cristãos europeus, tinha uma igreja dominando a paisagem, e os sinos serviam para regular a vida dos moradores do lugar.

Com seu toque característico, anunciavam as datas festivas e tristes, os nascimentos e as mortes, marcavam eventos como as procissões, casamentos, batizados, alertavam sobre sinistros e ataques, para reunir a população para algum comunicado, avisar aos fiéis sobre o inicio das missas e ofícios religiosos. Os sinos indicavam ainda as chamadas horas canônicas e a passagem das horas do dia.

Em Fortaleza o sino da matriz anunciava o falecimento de moradores, mas o costume foi abandonado a partir de 1878, quando a pior seca da história do Ceará dizimou praticamente a metade da população do Estado e Fortaleza se tornou a Meca dos flagelados.

Nos dias atuais com alcance reduzido devido ao tamanho das cidades, os sinos continuam repicando e remetendo às suas origens. Nas igrejas tocam na sexta-feira santa, para lembrar a crucificação e no domingo de Páscoa, para comemorar a ressurreição.

Tocam no Natal, nas festas dos padroeiros, nas procissões e na chamada para as missas.
Os fiéis católicos dizem que os sinos indicam a presença de Deus no local, por isso, reza a tradição, quando um sino toca, Deus está por perto, e escuta a prece com mais atenção




fontes:
sobre a Igreja de Nazaré - registros do templo.
fotos: Fortaleza em Fotos 2010

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Qual é o Bairro?


Para Os Correios, via CEP, a rua está situada no bairro Vila União;
Para a Prefeitura de Fortaleza o bairro é o Parreão;
Para os moradores, a rua está no bairro do Montese.
É muito bairro pra pouca rua.