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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Fortaleza Belle Époque - Cuidados Médicos e Controle Social

A preocupação com o saneamento de Fortaleza surgiu na segunda metade do século XIX, integrado ao processo de remodelação e aformoseamento da Capital. Um conjunto diversificado de intervenções, e reformas sanitárias, disseminou-se pela cidade e entre a população, por todo o período que compreende parte do Império e a primeira República (1889-1930).

milhares de retirantes fugidos da seca do sertão, se concentram na Praça da Estação em Fortaleza, em busca de alimentos, trabalho e assistência médica.

A proporção que Fortaleza se adensava de gente e construções, verificou-se por parte das autoridades e da elite intelectual, toda uma produção de discursos acerca do que as autoridades e os habitantes precisavam ter e fazer para se atingir um desenvolvimento organizado, sistematizado, saudável e civilizado. E daí surgiu uma grande preocupação com a questão social dos menos favorecidos e que, segundo as autoridades, comprometiam o desenvolvimento e o grau de civilidade que se planejava alcançar.

Disciplinar o meio urbano remetia à necessidade de regular o social. Nessa perspectiva, produziu-se uma imagem negativa da população pobre, qualificada como indolente, propensa ao vício e à vadiagem. Assim, não tardou a aparecer a lista de acontecimentos apontados como obstáculos à ordenação de Fortaleza e que deveriam ser combatidos com rigor: epidemias, morbidade e mortalidade consideradas altas, proliferação de lixo, água insalubre, aumento do contingente de loucos, vadios, mendigos, menores abandonados, delinquentes, alagamentos, falta de higiene pública e doméstica, etc.

Santa Casa da Misericórdia - um hospital para os pobres



Os estabelecimentos e instituições foram surgindo à medida que os problemas se agravavam. As secas e epidemias foram as maiores responsáveis pela construção da Santa Casa da Misericórdia e do Lazareto da Lagoa Funda. A decisão de erguer um hospital que a cidade ainda não dispunha, foi motivada pelas doenças e sequelas deixadas pela seca de 1845. Apesar de parcialmente concluída em 1857, a Santa Casa só foi concluída em 1861, no mesmo local em que se encontra até hoje, entre o Passeio Público e a antiga cadeia. Até o início dos anos 30, quando aparecerem as Casas de Saúde, a Santa Casa foi o principal espaço de tratamento da população pobre, desde que não se tratasse de moléstias contagiosas.

Lazareto da Lagoa Funda - um hospital para doenças contagiosas

Para os portadores de moléstias contagiosas foi criado o Lazareto da Lagoa Funda, localizado a 7 km do centro da Cidade, edificado entre 1856 e 1857. O Lazareto foi o primeiro exemplo concreto da medicina urbana e preventiva em Fortaleza, já que foi criado com a finalidade de abrigar os prováveis atingidos pela epidemia de cólera que se espalhava pelos Estados do Nordeste. A epidemia efetivamente chegou e atingiu toda a província entre 1862 e 1864, ceifando a vida de 11 mil cearenses, com 362 óbitos na Capital.

Cemitério de São João Batista - para evitar a contaminação da água e do ar

Ainda na década de 1860, Fortaleza passaria por duas importantes resoluções visando a preservação da salubridade do ar e da água. Uma foi a decisão de transferir o Cemitério de São Casimiro, localizado em área central, para o arrabalde de Jacarecanga, com o nome de São João Batista. No lugar do São Casimiro foi construída, em 1873, a Estação Ferroviária.
A escolha de Jacarecanga para acolher o novo cemitério, deveu-se ao fato de um ser espaço praticamente vazio à época, além de estar a oeste da cidade, isto é, a sotavento. O cemitério não poderia ficar a leste (a barlavento), porque como os ventos correm na direção Leste-Oeste, eles espalhariam os germes do cemitério pela cidade. Pelo mesmo motivo, o Lazareto da Lagoa Funda também foi edificado no mesmo subúrbio de Jacarecanga.

Asilo São Vicente de Paulo - um hospital para os loucos

O Asilo de Alienados São Vicente de Paulo, concluído em 1886 na vizinha localidade de Arronches, hoje Parangaba, foi a décima instituição para loucos edificada no Brasil. Dentre as justificativas para a sua criação, estavam a retirada dos loucos do espaço urbano e afastamento das respectivas famílias que não podiam tratar nem controlar, além de afastá-los do crime. O maior impulso financeiro à construção do Asilo veio da lei provincial de 1876, concedendo à Santa Casa o privilégio de administrar o novo cemitério de São João Batista. Todo o saldo líquido auferido dessa atividade foi empregado na obra de construção do Asilo São Vicente de Paulo.

Dispensário dos Pobres e Asilo de Mendicidade - para os pobres e mendigos


Prédio antigo do Dispensário dos Pobres, no Benfica

O Dispensário dos Pobres foi criado em 1885, situado na atual Avenida da Universidade, no Benfica, entregue aos cuidados das Irmãs da Ordem Filhas de São Vicente de Paulo; também no Benfica foi instalado o novo Asilo de Mendicidade, patrocinado pela maçonaria através da congregação de três lojas maçônicas, a "Igualdade", "Fraternidade Cearense" e "Amor e Caridade". O asilo de Mendicidade foi criado em 1905, na Chácara Amaral, localizada na Avenida Visconde de Cauípe, hoje Avenida da Universidade, sendo depois transferido para a Chácara Virginia Salgado, no bairro Jacarecanga. Hoje é o Lar Torres de Melo.

Para menores abandonados foram criados o Patrocínio dos Menores Pobres, em 1903, a Escola para Menores Pobres (1908), e o Dispensário Infantil (1914).

Patronato Maria Auxiliadora e Internato Bom Pastor - para moças pobres, órfãs e mães solteiras

Para moças pobres e órfãs surgiu o Patronato Maria Auxiliadora (1922), criado pela Liga das Senhoras Católicas e instalado na atual Avenida do Imperador; e o Internato Bom Pastor (1928) situado no bairro do Jacarecanga,  onde eram confinadas as moças que tinham desviado suas condutas e, para não causarem vergonha à família, eram mandadas para lá e ali permaneciam até cair no esquecimento da sociedade.

 Internato Bom Pastor

As internas do Bom Pastor eram, muitas vezes, moças solteiras “de família” que engravidavam, e eram afastadas do convívio familiar, antes que a vizinhança percebesse o acontecido e começassem os comentários maldosos, e as especulações sobre paternidade. Se a mãe solteira fosse descoberta, ficaria “falada” e desonrada, e dificilmente arranjaria um noivo ou teria novamente um relacionamento sério. Assim, o expurgo familiar, evitava que tanto a moça quanto a família viessem a sofrer as consequências da desonra, ou que o bom nome da família fosse maculado.

Depois, com o passar do tempo, e purgado a culpa, as internas retornavam aos lares, depois de terem recebido cursos e aprendido trabalhos manuais sob orientação das irmãs religiosas, como costurar, bordar, cozinhar e outras atividades domésticas. As moças recolhidas ao Bom Pastor tinham uma maneira peculiar de se vestir: se cobriam de preto, lenço na cabeça, e nas ocasiões em que frequentavam missas, usavam um véu no rosto, evitando assim o reconhecimento de pessoas que estavam na igreja e pudessem, porventura identifica-las.

Saíam do Bom Pastor como quem deixa o cárcere depois de ter cumprido pena pelo mal cometido.  A criança fruto desse amor clandestino, era dada em adoção, com a condição de jamais poder ser revelado quem eram os verdadeiros pais. Além das mães solteiras, o Bom Pastor também acolhia órfãs e meninas abandonadas ou em situação de extrema miséria.

Campo Penal Agrícola de Canafístula - prisão agrícola para homens

Colônia Cristina em data anterior à instalação da Prisão Agrícola de Canafístula. À época da foto, o local abrigava retirantes da seca. (foto Brasiliana Fotográfica)   

Em 1925 foi construída e posta em funcionamento a primeira prisão agrícola, situada na Colônia Cristina, em Canafístula, denominada “Campo Penal Agrícola de Canafístula (atual Antônio Diogo). Naquele ano a Colônia registrava a presença de 34 sentenciados, recebendo diárias de mil e oitocentos réis e com direito a plantação de roçados às suas custas. Além do cultivo de algodão, milho, mandioca e feijão, a instituição comercializava lenha com a Estrada de Ferro Baturité. Antes, as terras da Colônia Cristina abrigaram retirantes da grande seca de 1877/1879. Depois que a prisão agrícola foi desativada, passou a funcionar no local o Leprosário de Antônio Diogo.  

Santo Antônio do Buraco - para menores abandonados

Em razão dos sucessivos períodos de secas e da consequente migração de sertanejos para a capital, havia um grande contingente de crianças órfãs, vítimas da estiagem ou de epidemias, que perderam os pais e seus responsáveis, e se viram sozinhas no mundo, sobrevivendo de esmolas, perambulando pelas ruas da cidade. As meninas eram encaminhadas ao Bom Pastor ou ao Patronato Maria Auxiliadora; os meninos, para o Santo Antônio do Buraco.

prédio principal da Estação Experimental de Santo Antônio de Pitaguary

Para esses meninos abandonados, recomendou-se prática regenerativa semelhante ao da Colônia Cristina, através de uma instituição disciplinar específica. Em 1928 surgiu um internato com características prisionais através da Estação Experimental de Santo Antônio do Pitaguary (atual Maracanaú).


Estrada de acesso à Fazenda Santo Antônio alguns anos antes da instalação do Internato 

A escola foi instalada na Fazenda Santo Antônio, de propriedade do Estado e se destinava a regeneração de menores com idade entre 8 e 18 anos. O prédio da escola foi construído com a ajuda de presos sentenciados. A operação de internamento é relatada com minúcia pelo governador:
  • primeiro veio uma lei que conferiu ao juiz municipal da 2ª. Vara a atribuição para recolher menores vagabundos ou mendigos;
  • Em seguida, foram colocados à disposição do juiz, pelo Secretário de Segurança Pública, os policiais requisitados, investidos da função de comissário de menores.
  • Os policiais sem demora, saíram as ruas e delas recolheram 48 menores para a Estação Experimental que funciona no Sitio Santo Antônio, de propriedade do Estado.

Estava assim criado, o reformatório “Santo Antônio do Buraco” como ficou conhecido popularmente. O lendário rigor aplicado aos internos permaneceu por muitas décadas no imaginário infantil cearense como verdadeiro signo de terror.

Fontes:
Fortaleza Belle Époque – reformas urbanas e controle social – 1860-1930, 
Relatório Carneiro de Mendonça - 1936
Benfica de Ontem e de Hoje, de Francisco de Andrade Barroso
fotos Brasiliana Fotográfica, arquivo Nirez, relatório Carneiro de Mendonça


quarta-feira, 13 de maio de 2015

Intervenções médico-urbanas

As primeiras intervenções médico-urbanas em Fortaleza  acontecem a partir da segunda metade do século XIX. No momento em que Fortaleza inicia um movimento inédito de crescimento econômico e social, o saber médico local se estabelece com a volta dos médicos cearenses formados nas faculdades de medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, existentes desde 1832.

foto: http://www.historiaecultura.pro.br

Consta que no século XIX, 80 médicos cearenses foram diplomados, sendo que 30 retornaram e se estabeleceram na Província. Boa parte desses profissionais é descrita como heróis pela história local, pelo pioneirismo e dedicação que demonstraram diante de tantas adversidades naturais, sociais, políticas e tecnológicas da época e da região.

As principais adversidades foram as grandes secas e as epidemias. As secas traziam à Capital, grandes levas de sertanejos famintos e doentes, deixando considerável número de órfãos e abandonados. As epidemias apareceram no rastro das piores estiagens.

retirantes da seca de 1877, vindos de várias localidades do Ceará, para Fortaleza

A seca de 1845 e as epidemias de febre amarela (1815) e do cólera-morbus (1862-64), foram as principais responsáveis pela construção da Santa Casa de Misericórdia e do Lazareto da Lagoa Funda. Apesar de estar parcialmente concluída em 1857, a Santa Casa de Misericórdia só foi inaugurada no ano de 1861, no mesmo local em que se encontra até hoje, em frente ao Passeio Público.

Por ser o único hospital público até o começo dos anos 30, a Santa Casa foi o principal espaço de tratamento da população pobre, desde que os doentes não estivessem acometidos por moléstias contagiosas. Para estes foi criado o Lazareto da Lagoa Funda, localizado à cerca de 7 km do centro. Edificado entre 1856 /57, o Lazareto foi o primeiro exemplo concreto da medicina urbana e preventiva em Fortaleza, já que sua finalidade era a de abrigar os prováveis atingidos pela epidemia de cólera, que já grassava em outras províncias. Enquanto o mal não chegou ao Ceará, o hospital serviu para quarentena dos que desembarcavam em Fortaleza, vindos de lugares já atingidos.

uma multidão de famintos aguarda na estação ferroviária de Iguatu, uma oportunidade de embarcar para a Capital

Como já era esperado, o cólera chegou à Província e ceifou a vida de 11 mil cearenses entre 1862 e 1864. Não há dados sobre como ficou a Capital durante a epidemia, apenas que o número de vítimas foi de 362, bem menor que o de Maranguape, cidade mais próxima com 1.960 óbitos. Ao contrário do que ocorreria nas províncias do Pará, da Bahia e Rio de Janeiro, não se verificou novo surto de cólera no Ceará, como foi o caso das epidemias de febre amarela e varíola, que retornaram com gravidade – a febre amarela em 1892 e permanecendo até 1924, quando começou a ser neutralizada pela ação da “Comissão Rockfeller contra a febre amarela”. Por sua vez, a varíola assolou a região por muito tempo. A varíola, moléstia que mais aterrorizou Fortaleza permaneceu até 1904, quando foi finalmente eliminada por ação da Inspetoria de Higiene e principalmente, pelo farmacêutico Rodolfo Teófilo.

Santa Casa de Misericórdia, o primeiro hospital de Fortaleza

No período de 1850-60, dois dos médicos formados na Bahia e no Rio de Janeiro se destacaram na construção de um investimento médico-higienista sobre a ascendente urbanização de Fortaleza: os doutores Lourenço de Castro  e Silva e Liberato de Castro Carreira. 

Nomeado "médico da pobreza", por portaria de 1845, Castro e Silva atuou na capital até meados de 1850. Enfrentou a epidemia de febre amarela e foi o primeiro a estabelecer os contornos de uma polícia médica para a cidade. Sanear o meio urbano, principalmente através de medidas profiláticas nas ruas, foi a preocupação central de Castro Carreira. Combatendo os pontos urbanos que estavam se transformando em focos infectantes, o médico sugeriu a transferência do matadouro público, uma vez que o mesmo comprometia o ar da cidade. Recomendou ainda, a proibição de salgamento de couros em vias centrais, a criação de porcos nos limites do perímetro urbano e a eliminação das águas estagnadas em quintais. Solicitou às autoridades que fosse providenciada a limpeza das vias públicas, chafarizes e poços além de inspeção constante a todo e qualquer quintal.

Rua São Paulo, prédio da Assembleia provincial em 1908

Essa medida de entrar no espaço doméstico da população e impor-lhe regras de higiene privada continuaria pelo restante do século passado e por todo o período da Primeira República. Os Códigos de Postura municipais daquela época demonstram a intenção de manter-se o controle urbano. As normas intensificam uma fiscalização pormenorizada de ruas, casas, edificações, produtos, gêneros alimentícios, etc. chegavam ao detalhe de proibir a tintura de doces e massas com óxidos, cobre e mercúrio por parte dos confeiteiros, obrigavam a limpeza do riacho que corria nos quintais dos moradores da rua do mercado, limpeza da frente das casas, dentre outras medidas.

Se tais prescrições foram de fato cumpridas, é difícil saber. Entretanto, importa saber que estas determinações municipais revelam a vigência de um saber que cada vez mais vigia a Cidade e o povo em seus mínimos detalhes. Ademais, tais imposições de normas e regras a serem adotadas sob pena de multa, também delineiam a constituição de um novo tipo de poder, aquele que, preocupado com a produção de vida, intervém em tudo que considera como ameaça à saúde da coletividade.


Extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque – reformas urbanas e controle social – 1860-1930
fotos: arquivo Nirez, Álbum de Vistas do Ceará

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Tragédia das Secas: o dia dos mil mortos


Atualmente Fortaleza possui aproximadamente 12 cemitérios, incluindo os localizados na Região Metropolitana. Mas o que aconteceria, em termos de atendimento e funcionamento de infraestrutura, se por um infortúnio, morressem, num único dia, mais de 1000 pessoas na cidade?
Acreditem Fortaleza já passou por uma situação como essa, numa época em que os serviços funerários não existiam e as vítimas de epidemia eram sepultadas num único cemitério. 

 Rua do Centro fins do século XIX/início do Século XX (Arquivo Nirez)
 
A grande seca de 1877-1879 não apenas secou os reservatórios de água, como trouxe graves efeitos sanitários para a cidade. Desde 1845 a província do Ceará não era assolada por este tipo de fenômeno climático. Nos três anos em que perdurou, a estiagem expulsou mais de 100 mil sertanejos para a Capital, então com cerca de 30 mil habitantes. A maior parte desses retirantes ficou em abarracamentos nos subúrbios. Sofrendo com o calor tórrido, expostos às intempéries e vivendo em condições sub-humanas, a multidão foi atingida por uma violenta epidemia de varíola, que ameaçou se alastrar pela cidade.

 Estação de Iguatu no ano de 1877, uma multidão de flagelados aguarda o trem para Fortaleza 

Segundo Rodolfo Teófilo, farmacêutico que testemunhou e registrou detalhadamente o cotidiano de horror causado pela varíola, em apenas 2 meses do ano de 1877, a epidemia vitimou 27.378 retirantes no interior e nos arrabaldes de Fortaleza; no ano seguinte, 24.849 foi o total de mortos. 

O trecho abaixo dá uma ideia da imagem fúnebre que se abateu sobre a capital:
"Tinha Fortaleza o aspecto de sombria desolação. A tristeza e o luto entravam em todos os lares. O comércio completamente paralisado dava às ruas mais públicas a feição de uma terra abandonada. Os transeuntes que se viam eram vestidos de preto ou eram mendigos saídos dos lazaretos com os sinais recentes da bexiga confluente que lhes esburacou a cara e deformou o nariz."

Em apenas 1 dia do mês de dezembro de 1878, o cemitério do Lazareto da Lagoa Funda recebeu 1004 cadáveres. Aquele 10 de dezembro ficou conhecido como “o dia dos mil mortos”. Foram contratados 40 populares para fazer os sepultamentos e os trabalhos entraram pela noite adentro. Ainda assim mais de 100 corpos tiveram de esperar o dia seguinte para serem enterrados.(O Lazareto da lagoa Funda ficava acerca de 3 km a noroeste da cidade, no atual Jacarecanga).


grande número de retirantes se concentram na Praça da Estação em Fortaleza, em busca de trabalho, alimentos e assistência social

A Cidade não estava preparada para tamanha calamidade. Apesar de o governo provincial não poupar despesas e contratar todos os médicos da cidade, não foi possível interromper a marcha epidêmica. O Lazareto de lagoa Funda, com capacidade para 300 enfermos, logo ficou lotado. Outros lazaretos foram improvisados, permitindo mesmo precariamente, que 5 mil pessoas fossem recolhidas e tratadas, noite e dia por médicos e voluntários.

O farmacêutico Rodolfo Teófilo, fundamentado nos preceitos que regiam a medicina urbana, reprovava alguns dos procedimentos adotados durante a vigência da epidemia, como o de transportar os cadáveres dos subúrbios para o cemitério do Lazareto, passando pelas ruas centrais da cidade; reconhecido como inadequado, o trajeto da praia passou então a ser utilizado para o traslado dos corpos. 


vítimas da seca
 Teófilo censura também os carregadores que fazia o trabalho de condução dos cadáveres, arregimentados no seio das camadas urbanas mais pobres e que recebiam diária de mil réis, comida e aguardente. Ordinariamente embriagados, os carregadores descansavam das cargas deixando à vista dos que chegavam às janelas, a visão dos esquifes estendidos na calçada.



A epidemia também ceifou vidas entre os habitantes  de Fortaleza, mesmo estando distantes do museu de horrores em que se transformaram os arrabaldes e postos sanitários onde os flagelados eram atendidos. No final de dezembro de 1878, a mulher do presidente da província faleceu vítima da varíola. A partir daí ninguém mais se julgava seguro e a peste fazia vítimas entre gentes que viviam completamente isoladas.

A partir de 1879 algumas chuvas caíram e isso contribuiu para que a epidemia diminuísse. Em janeiro o número de mortos baixou para 204; em fevereiro, caiu para 176. Finalmente, o inverno de 1880 pôs fim à seca e cessou a epidemia.

 
imagem UOL
 Mas a varíola permaneceu endêmica, uma vez que alguns casos continuaram ocorrendo nos anos seguintes. Com o término da catástrofe a maioria dos retirantes voltou para o sertão ou emigrou para os seringais da Amazônia, porém muitos ficaram a mendigar pela Cidade. 


Eram facilmente identificados pelas marcas deixadas pela doença em seus corpos. O número de cegos pela varíola era incontrolável. Entre a turba de esmoleres, grande número de crianças, pequeninos, órfãos de pai e mãe que em companhia de mulheres vadias, de quem eram o ganha-pão, esmolavam cantando.

A varíola e a seca retornaria a Fortaleza em 1888 e 1900, mas não fez muitas vítimas entre os milhares de retirantes que novamente vieram para a Capital. O que não significa que o Lazareto da lagoa Funda não voltou a ter toda a lotação esgotada por doentes.

Após a seca de 1900, o presidente do Estado o médico Pedro Augusto Borges, mandou fechar o Lazareto da Lagoa Funda em razão do alto índice de impregnação infecciosa do prédio e do seu cemitério anexo.


Extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque – reformas urbanas e controle social – 1860-1930
fotos Google

         


terça-feira, 26 de novembro de 2013

A Seca de 1877-79 em Fortaleza

Com o crescimento de Fortaleza em fins do século XIX, verificou-se uma preocupação do poder público e das elites em controlar e disciplinar as camadas populares da cidade.  Fazia-se necessário racionalizar Fortaleza e também disciplinar, reprimir, corpos e mentes de seus habitantes, de modo a ingressarem no mundo da modernidade e do capitalismo que então se consolidava e lançava a cidade em uma nova era.

Mas o disciplinamento que se desejava foi severamente abalado durante a tragédia que marcou a cidade quando da grande seca de 1877-79. A população de Fortaleza à época era de cerca de 30 mil habitantes. E essa população assistiu horrorizada a chegada de mais de 100 mil sertanejos, que migraram para a capital em busca de auxílio. O Jornal O Cearense, noticiava: não há dia no qual as portas das igrejas e edifícios públicos não estejam atopetadas de mendigos de todas as idades. Esse espetáculo é depõe contra os nossos costumes, além de ser, a maior parte das vezes, imoral e repugnante.
 
retirantes concentrados na Praça da Estação em Fortaleza, fins do séc. XIX (foto do livro Os descaminhos  de ferro no Brasil)
 
As contradições sociais da cidade se acentuaram, incomodando os setores dominantes. A maior parte daqueles flagelados, famintos e depauperados ficou localizada na periferia, em casebres de madeira e palha ou em abarracamentos erguidos pelo governo, ou ainda debaixo das árvores e perambulando pelas ruas da cidade.  A mendicância, a prostituição e os furtos cresceram. A ameaça à ordem e a propriedade privada levou o governo a aumentar o policiamento da cidade, devido ao aumento da tensão social.

Ao calor infernal, à escassez de comida e água e às precárias condições de higiene, juntavam-se surtos de doenças. A multidão de retirantes acabou devastada por uma fulminante epidemia de varíola, que se alastrou por toda a capital. Segundo o farmacêutico Rodolfo Teófilo, contemporâneo dos fatos, em apenas dois meses de 1877 morreram 23.378 pessoas, e no ano seguinte, 24.849 foi o total de mortos.

Rodolfo Teófilo no Morro do Moinho, procedendo  vacinação da população (foto do Arquivo Nirez) 
 
Chegou-se em um só dia a enterrar 1004 pessoas vítimas da doença – era 10 de dezembro de 1878, que ficou conhecido como “o dia dos 1000 mortos”. Cerca de 40 populares foram contratados para enterrar os corpos, homens humildes, os quais recebiam quantias insignificantes e se embriagavam com cachaça para aguentar aquele trabalho. Transportavam os cadáveres amarrados nos pés e mãos a um pau. Era tanta gente morta que o trabalho entrou pela noite, porém mais de 100 corpos tiveram que esperar pelo dia seguinte.

Por mais que médicos, irmãs de caridade e voluntários trabalhassem, a cidade não tinha condições de enfrentar aquela situação, que fugiu ao controle do governo. O Lazareto da Lagoa Funda ficou superlotado. Mas nada detinha a marcha epidêmica. Para aumentar o pânico das classes dominante, até ”gente de posses” que praticavam os preceitos de boa higiene, foram vítimas da varíola, como a mulher do presidente da província, falecida em dezembro de 1878.

A partir de 1879, com algumas chuvas caindo, o número de mortos começou a diminuir. Em 1880, o inverno consolidado cessou a endemia, embora casos esporádicos ainda ocorressem.
Os retirantes  da seca de 1877-79 foram usados de maneira oportunista na construção de várias obras modernizantes e civilizadoras da cidade, que continuavam a ser uma preocupação do poder público, apesar de todo o morticínio provocado pela estiagem.


boa parte os trilhos da Estrada de Ferro Baturité foram assentados utilizando a mão-de-obra de flagelados da seca (foto do livro os descaminhos de ferro no Brasil)

Essa mão-de-obra foi usada na construção de asilos, reforma de praças, aterro de lagoas, reparo em pontes, pavimentação de estradas, e no prolongamento da Estrada de Ferro Baturité, entre outras, sob o discurso de assegurar aos retirantes meios de subsistência para a atenuação da sua miséria. Aproveitava-se assim, aquele contingente, representado por milhares de pessoas, para realização de obras que dificilmente seriam viabilizadas em razão dos altos custos. Aliviava-se igualmente a pressão popular provocada pela seca, afinal os retirantes  estariam recebendo alguma ajuda e sendo submetidos nas obras a uma dura disciplina, o que garantia a manutenção da ordem pública.

As pessoas famintas e numa situação desesperadora, viam-se obrigadas a aceitar as rígidas condições de trabalho. Entretanto, em virtude dos atrasos nos pagamentos dos salários e na distribuição de alimentos, a massa chegou a se rebelar – em 1878, seis mil retirantes lutaram com paus e pedras por horas, na Praça Visconde de Pelotas (atual Clóvis Beviláqua) contra as tropas do exército e da polícia, que reprimiu a revolta com tiros, deixando vários feridos.

Rua Major Facundo, início do século XX (arquivo Nirez)
 
Com o fim da estiagem, a maioria dos retirantes regressou para o interior, mas muitos resolveram ficar em Fortaleza, especialmente viúvas, órfãos e mulheres abandonadas, em decorrência das mortes e da migração de muitos homens para a Amazônia.  Ficaram a perambular pelas ruas, esmolando, cometendo pequenos furtos  ou se prostituindo.  Muitos órfãos foram levados para morar com famílias de periferia e acabaram explorados – crianças eram empregadas em serviços domésticos ou na prática de mendicância.


Fonte:
História do Ceará, de Aírton de Farias 
fotos Arquivo Nirez e Anuário do Ceará