terça-feira, 26 de novembro de 2013

A Seca de 1877-79 em Fortaleza

Com o crescimento de Fortaleza em fins do século XIX, verificou-se uma preocupação do poder público e das elites em controlar e disciplinar as camadas populares da cidade.  Fazia-se necessário racionalizar Fortaleza e também disciplinar, reprimir, corpos e mentes de seus habitantes, de modo a ingressarem no mundo da modernidade e do capitalismo que então se consolidava e lançava a cidade em uma nova era.
Mas o disciplinamento que se desejava foi severamente abalado durante a tragédia que marcou a cidade quando da grande seca de 1877-79. A população de Fortaleza à época era de cerca de 30 mil habitantes. E essa população assistiu horrorizada a chegada de mais de 100 mil sertanejos, que migraram para a capital em busca de auxílio. O Jornal O Cearense, noticiava: não há dia no qual as portas das igrejas e edifícios públicos não estejam atopetadas de mendigos de todas as idades. Esse espetáculo é depõe contra os nossos costumes, além de ser, a maior parte das vezes, imoral e repugnante.
 
retirantes concentrados na Praça da Estação em Fortaleza, fins do séc. XIX (foto do livro Os descaminhos  de ferro no Brasil)
 
As contradições sociais da cidade se acentuaram, incomodando os setores dominantes. A maior parte daqueles flagelados, famintos e depauperados ficou localizada na periferia, em casebres de madeira e palha ou em abarracamentos erguidos pelo governo, ou ainda debaixo das árvores e perambulando pelas ruas da cidade.  A mendicância, a prostituição e os furtos cresceram. A ameaça à ordem e a propriedade privada levou o governo a aumentar o policiamento da cidade, devido ao aumento da tensão social.
Ao calor infernal, à escassez de comida e água e às precárias condições de higiene, juntavam-se surtos de doenças. A multidão de retirantes acabou devastada por uma fulminante epidemia de variola, que se alastrou por toda a capital. Segundo o farmacêutico Rodolfo Teófilo, contemporâneo dos fatos, em apenas dois meses de 1877 morreram 23.378 pessoas, e no ano seguinte, 24.849 foi o total de mortos.

Rodolfo Teófilo no Morro do Moinho, procedendo  vacinação da população (foto do Arquivo Nirez) 
 
Chegou-se em um só dia a enterrar 1004 pessoas vítimas da doença – era 10 de dezembro de 1878, que ficou conhecido como “o dia dos 1000 mortos”. Cerca de 40 populares foram contratados para enterrar os corpos, homens humildes, os quais recebiam quantias insignificantes e se embriagavam com cachaça para aguentar aquele trabalho. Transportavam os cadáveres amarrados nos pés e mãos a um pau. Era tanta gente morta que o trabalho entrou pela noite, porém mais de 100 corpos tiveram que esperar pelo dia seguinte.
Por mais que médicos, irmãs de caridade e voluntários trabalhassem, a cidade não tinha condições de enfrentar aquela situação, que fugiu ao controle do governo. O Lazareto da Lagoa Funda ficou superlotado. Mas nada detinha a marcha epidêmica. Para aumentar o pânico das classes dominante, até ”gente de posses” que praticavam os preceitos de boa higiene, foram vítimas da varíola, como a mulher do presidente da província, falecida em dezembro de 1878.
A partir de 1879, com algumas chuvas caindo, o número de mortos começou a diminuir. Em 1880, o inverno consolidado cessou a endemia, embora casos esporádicos ainda ocorressem.
Os retirantes  da seca de 1877-79 foram usados de maneira oportunista na construção de várias obras modernizantes e civilizadoras da cidade, que continuavam a ser uma preocupação do poder público, apesar de todo o morticínio provocado pela estiagem.


boa parte os trilhos da Estrada de Ferro Baturité foram assentados utilizando a mão-de-obra de flagelados da seca (foto do livro os descaminhos de ferro no Brasil)

Essa mão-de-obra foi usada na construção de asilos, reforma de praças, aterro de lagoas, reparo em pontes, pavimentação de estradas, e no prolongamento da Estrada de Ferro Baturité, entre outras, sob o discurso de assegurar aos retirantes meios de subsistência para a atenuação da sua miséria. Aproveitava-se assim, aquele contingente, representado por milhares de pessoas, para realização de obras que dificilmente seriam viabilizadas em razão dos altos custos. Aliviava-se igualmente a pressão popular provocada pela seca, afinal os retirantes  estariam recebendo alguma ajuda e sendo submetidos nas obras a uma dura disciplina, o que garantia a manutenção da ordem pública.
As pessoas famintas e numa situação desesperadora, viam-se obrigadas a aceitar as rígidas condições de trabalho. Entretanto, em virtude dos atrasos nos pagamentos dos salários e na distribuição de alimentos, a massa chegou a se rebelar – em 1878, seis mil retirantes lutaram com paus e pedras por horas, na Praça Visconde de Pelotas (atual Clóvis Beviláqua) contra as tropas do exército e da polícia, que reprimiu a revolta com tiros, deixando vários feridos.

Rua Major Facundo, início do século XX (arquivo Nirez)
 
Com o fim da estiagem, a maioria dos retirantes regressou para o interior, mas muitos resolveram ficar em Fortaleza, especialmente viúvas, órfãos e mulheres abandonadas, em decorrência das mortes e da migração de muitos homens para a Amazônia.  Ficaram a perambular pelas ruas, esmolando, cometendo pequenos furtos  ou se prostituindo.  Muitos órfãos foram levados para morar com famílias de periferia e acabaram explorados – crianças eram empregadas em serviços domésticos ou na prática de mendicância.
Fonte:
História do Ceará, de Aírton de Farias  
 



 

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