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sábado, 8 de fevereiro de 2025

Memórias da Praia de Iracema

 

O Coqueiral da Maria Júlia


imagem Diário do Nordeste

O proprietário do sítio era Tancredo de Castro Bezerra, mas era conhecido como “coqueiral da Maria Júlia” porque era ela quem administrava o lugar. Casados, Tancredo e Maria Júlia moraram no sítio com cinco filhos até o final da década de 50; estava localizado entre a atual avenida Historiador Raimundo Girão e as ruas, ainda sem pavimentação, Dragão do Mar, Joaquim Alves e Gonçalves Ledo.

Com uma área de aproximadamente dois hectares, o sítio tinha um casarão e uma grande plantação do coqueiro gigante, tipo cocos nucifera linnaeus, uma espécie de coqueiro que atinge até 30 metros de altura, e podia ser visto de longe. A produção artesanal de coco seco, sem os tratos culturais necessários e dependente das águas de chuva, era destinada a comercialização, e tinha grande aceitação.

A área não possuía muros nem cercas, como também as demais propriedades locais. Como não realizavam capinas, os coqueiros eram intercalados por grande variedade de plantas que favorecia a existência de várias espécies de animais, possibilitando uma fauna diferenciada.

No inverno, parte do coqueiral ficava alagada, em virtude da superficialidade do lençol freático. No verão, quando o terreno estava seco, a meninada capinava o mato para fazer um campo de futebol improvisado, embora intercalado de coqueiros. No segundo semestre do ano, as alunas do Colégio das Doroteias ministravam aulas de catecismo às crianças, todas as quintas-feiras. Depois as professoras emprestavam bolas de futebol para recreação. No sítio também aconteciam quermesses.

Além da atividade econômica, o sítio da Maria Júlia, cumpriu uma importante função social para a Praia de Iracema dos anos 50.

 

O Poço da Maria Félix


postal dos anos 30

O poço da Maria Félix era uma escavação no sítio de Almir Freitas, localizado na avenida Historiador Raimundo Girão, e as ruas Dragão do Mar, Gonçalves Ledo e dos Ararius. A parte baixa do sítio tinha o lençol freático muito superficial, que favorecia a exploração de poços e cacimbas.  

Maria Félix era moradora do sítio do Almir. Ela escavou um poço próximo de sua casa, na confluência das ruas Dragão do Mar e Gonçalves Ledo. O poço era de forma circular, seis metros de diâmetro e metro e meio de profundidade. A finalidade era obtenção de água para consumo, regar suas plantas frutíferas e auferir renda lavando roupas das famílias da vizinhança. Maria dedicava boa parte do seu tempo a cuidar da casa, das plantas, da água do poço e não gostava de invasores em seus domínios. 

Sabendo disso, muitos jovens ao retornarem do banho de mar, aproveitavam para mergulhar na fonte da Maria Félix, às escondidas, enquanto ela estava dento de casa. Mas o barulho produzido contra superfície da água, alertava a lavadeira para o fato de haver intrusos poluindo a água, turvando sua transparência, já que a lama do fundo subia após o contato com os pés dos nadadores.

Imediatamente Maria pegava um porrete e corria para pegar os meninos que sempre eram mais rápidos do que ela. Outra forma de importunar a lavadeira era através da captura de jia no seu poço, com utilização de linha de pesca, anzol e iscas. Além disso a moradora vivia preocupada com os constantes furtos de frutas que ocorriam no seu terreno.

O sítio, o poço da Maria Félix, e as árres frutíferas, sumiram no tempo, junto com as reformas e a modernidade da Praia de Iracema. 

 

 A Piscininha

imagem do livro Fortaleza 27 graus

Até os anos 90 existia na Praia de Iracema, uma piscininha que se formava duas vezes por dia, sempre na maré alta. Tinha o formato de uma pequena lagoa e surgiu quando construíram o quebra-mar de pedra, para conter o avanço do mar sobre a zona residencial da faixa litorânea.

Praticamente todos os anos, nos primeiros meses, a maré alta invadia a faixa de areia cada vez com mais intensidade, e chegava até a rua dos Tabajaras, destruindo as edificações que estavam pelo caminho.

A partir da construção do quebra-mar, a onda perdeu a força destruidora de antigamente. A localização da piscininha correspondia às imediações do início da rua dos Tremembés, próximo ao Estoril. Era o local ideal para quem desejava aprender a nadar, em razão de suas ondas de pequena intensidade, oriundas da maré alta, mas que ficavam amortecidas ao passarem no quebra-mar. Na maré baixa o reservatório perdia a totalidade de suas águas. A profundidade era variável, sendo mais fundo próximo às pedras.

Em 2009 a Prefeitura de Fortaleza promoveu mais uma obra de engorda que aumentou a faixa de praia em 80 metros. O processo de requalificação da área para ampliação do calçadão, riscou a piscininha do cenário, que acabou sendo aterrada. Com isso, as boas memórias de muita gente foram aterradas junto com a piscininha.    

 

Extraído do livro A Praia de Iracema dos anos 50/Jaildon Correia Barbosa/Fortaleza: Premius, 2010/informações adicionais do G1.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Memórias do Mucuripe

 

A Criação do Cemitério 


É de bom tamanho nem largo nem fundo  
é a parte que te cabe neste latifúndio 
(João Cabral de Melo Neto-Chico Buarque)


Seu Arcanjo morava no Mucuripe. Pobre e portador de hanseníase, não vivia confinado nem afastado da convivência de seus amigos, como era recomendado aos portadores desse mal. No Mucuripe, ninguém tinha medo da doença de “seu” Arcanjo, e muitos vizinhos até davam uma ajuda nos serviços da casa dele.

Seu Arcanjo, sentado em frente ao seu casebre, vendo passar quase todo dia, pessoas com uma estaca atravessada nos ombros, carregando defunto numa rede, para enterrar no Cemitério São João Batista, resolveu que aquela situação não podia continuar. E teve a ideia de lutar por um cemitério próprio para o Mucuripe. O ano era 1916, depois da seca de 1915, que deixou um rastro de miséria, fome, doença e morte.

Procurou o “coronel” Jesuíno, o homem mais importante do lugar, nome de rua importante do bairro atualmente, dono de extensos terrenos naquela região. Manuel Jesuíno também tinha bom coração e doou a terra para o cemitério. Mas não havia dinheiro para cercar o terreno. Então, seu Arcanjo pensou numa maneira de arrumar os recursos, e inventou a “associação do vintém”. Pescadores, labirinteiras, boleiras, cuscuzeiras, chegaram juntos na campanha do vintém, e arrecadaram o bastante para comprar os arames. O coronel autorizou a retirada das estacas das suas matas, que se estendiam dum lado e do outro do Maceió, subindo até a região do Cocó.

Com estaca e arame, o resto foi fácil. Logo o terreno estava todo cercado e o cemitério criado. O melão de São Caetano e a salsa cresceram naturalmente, formaram uma cerca viva em torno do terreno e impediram a entrada de animais. O cemitério concebido por “seu” Arcanjo, o hanseniano, implantado em terras de Manuel Jesuíno, o latifundiário, e cercado pelo povo com os vinténs de cada um, localizado em plena Avenida da Abolição, olhando para a matriz de Nossa Senhora da Saúde, dizem, está superlotado.

O cemitério do Mucuripe, denominado São Vicente de Paula (o correto seria São Vicente de Paulo, nascido Vincent de Paul, sacerdote francês), é o segundo cemitério público criado em Fortaleza e é também o menor da cidade, com menos de 600 jazigos. O amontoado de jazigos é tão grande que as covas ficam coladas até o portão de entrada. De acordo com a prefeitura, a falta de recuo em relação aos imóveis do entorno vem desde a construção do espaço.


As Meninas da Rua da Frente


Boneca noturna que gosta da lua Que é fã das estrelas e adora o luar  Que sai pela noite e amanhece na rua  E há muito não sabe o que é luz solar. (Adelino Moreira-Nelson Gonçalves)

casas na Praia do Meireles - rua da Frente anos 40 imagem IBGE (colorizado por computador)

A Rua da Frente era como era chamado um trecho da atual Avenida Beira Mar. E era uma babel, uma misturada de gente, de famílias tradicionais, netos e filhos de jangadeiros pobres, e muitas, numerosas prostitutas. E eram estas que animavam a vida daquela praia. As “meninas” faziam a diferença, viviam aquela vida desregrada, trocavam o dia pela noite, bebendo, amando, brigando por causa de homens, geralmente pescadores e marinheiros, que aportavam no Mucuripe, vindo de mares desconhecidos.

orla marítima do Mucuripe anos 40 - imagem IBGE

Da mesma forma que o curral do antigo Arraial Moura Brasil, o Mucuripe foi durante muitos anos, uma animada zona de prostituição, onde o vicio e o pecado caminhavam ao lado do trabalho e da solidariedade. Os moradores da mesma área testemunhavam que essas mulheres, no que pese a vida libertina que levavam, eram generosas, prestativas e tinham espírito solidário.

Quando chegou a urbanização, invocação do progresso, uma das primeiras providências foi pensar numa maneira de como acabar com a Rua da Frente a fim de implantar a moderna Avenida Beira Mar. E como transferir aquela gente, muito com raízes fincadas desde os primórdios da cidade.

De pronto apareceu uma proposta. As mulheres iriam para um local, as famílias para outro. Coube às primeiras a zona do farol e para os jangadeiros e outros moradores, a Praia do Futuro e adjacências. A mudança foi monitorada pelo então vigário padre José Nilson e coordenada por uma das “meninas” que negociou com representantes do prefeito Cordeiro Neto. A prefeitura pagou indenizações e providenciou a construção de casas para moradia. Nada menos de 1.332 mulheres foram conduzidas da Rua da Frente para o Mucuripe.

região do farol antes da mudança - 1935 - imagem Arquivo Nirez 


Depois da mudança - anos 60 (imagem Anuário do Ceará

A transferência foi aceita pela maioria até com certa satisfação. Foram adotadas diversas iniciativas para assegurar as mínimas condições de moradia para o local em que as mulheres seriam acomodadas. Assim, foram introduzidos melhoramentos na área, como água, luz, e  transporte.

Surgia assim, ampliando os limites do Mucuripe, a zona do Farol, que a prefeitura batizou depois de Vicente Pinzon, numa homenagem ao primeiro estrangeiro que andou pelo Mucuripe. Da mesma forma, os outros moradores foram transplantados para diferentes pontos, em especial para a Praia do Futuro, em casas construídas pela prefeitura.  

 

Extraído do livro “Mucuripe de Pinzon ao Padre Nilson/Blanchard Girão/Fortaleza/Edições Fundação Demócrito Rocha/1998/informações adicionais dos Jornais Diário do Nordeste e o Povo/Publicação Fortaleza em Fotos

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quinta-feira, 31 de março de 2016

As Atribuições da Câmara Municipal na Fortaleza Antiga

No período colonial – 1530 a 1822 – apenas as localidades elevadas à categoria de vila podiam instalar uma câmara municipal. No Brasil as câmaras passaram a existir oficialmente a partir de 1532, com a instalação da Vila de São Vicente

A Câmara Municipal de Fortaleza, a segunda do Ceará, foi instalada quando o aglomerado recebeu a denominação de Vila de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, em 13 de abril de 1726, com a eleição de dois juízes e de três vereadores.
  
Ate 1889, todas as funções de organização sociopolítica da cidade eram exercidas pela Câmara Municipal. O poder era tanto que os camareiros se permitiam algumas excentricidades, como na vez em que o presidente da câmara propôs que a cidade fosse dividida em tantos bairros quanto fosse o número de vereadores.

E eram muitas as atribuições dos vereadores: cabia a Câmara Municipal fazer a fiscalização das lojas, vendas e açougues da cidade. Em companhia de um almotacé  (antigo oficial municipal encarregado de da fiscalização de pesos, medidas, preços e das condições de funcionamento dos estabelecimentos), os membros da câmara visitavam as casas comerciais, para detectar possíveis irregularidades.


Praça Carolina (atual Praça Waldemar Falcão) com o café Fenix - A câmara era responsável pela fiscalização dos estabelecimentos comerciais.
 

Nos registros feitos pela câmara, no ano de 1860, foi encontrado o seguinte registro: 
"nesta vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, Capitania do Siará Grande, nas casas da câmara, delas saíram em correição, o juiz presidente e mais oficiais da câmara, e correndo todas as lojas, não se condenando a pessoa alguma por se achar tudo corrente, só se indo ao açougue a ver e rever os pesos, achou-se o açougue indigno de que se cortasse carne nele por se achar o cepo e tarimba com uma grande porquidade em cima da sangueira da mesma carne e da mesma forma a casa cheia da mesma porquidade, paredes e chão, e igualmente fazendo-se da cadeira em que se assenta o almotacé, igualmente tarimba de se bater carne em cima, que achava muito porca, e por estes motivos, o mesmo Senado condenou o dito contratador em     6$000 (seis mil) réis para as despesas do Senado". 

A forma dos despachos era às vezes insolente.  João Joaquim, que requeria não se sabe o quê,  teve como resposta o indeferimento do pleito - "por ser falto de verdade". Tinha também a competência para impor o "Termo do Bem Viver", o que levava os moradores a subscreverem as maiores ignomínias. 

Termo do Bem Viver era um documento imposto a pessoas de conduta pouco recomendáveis, aos que causavam distúrbios ou que perturbassem a ordem estabelecida. Depois que a pessoa assinava este termo, ela ficava obrigada perante a justiça a não criar mais conflito. Se desrespeitasse, era punida de acordo com a lei vigente. 


A legenda da foto descreve o grupo acima como "uma bando de vagabundos que se reunia na Rua da Praia". Pessoa de conduta fora da normalidade eram obrigadas a assinar o Termo do Bom Viver ( fonte: Revista Ceará Ilustrado)

O professor régio da vila se indispôs com os vereadores, quase todos portugueses, por lhe terem recusado atestado para receber seus vencimentos. A câmara o fez assinar o seguinte termo: "Aos 267 do mês de novembro de 1802, em vereação da Câmara e Senado desta Vila, mandou o presidente dela e mais vereadores, por ordem dos ilustríssimos senhores governadores interinos desta Capitania, chamar à sua presença o pardo João da Silva Tavares, mestre de Gramática Latina desta Vila, para assinar termo na presença de todos de viver daqui em diante com a paz e quietação, conforme as leis do reino e costumes de que deve fazer profissão. E sendo vindo o dito João da Silva Tavares, pelo dito Senado lhe foi dito, que para ocorrer ao sossego e tranquilidade pública perturbada pela língua difamadora, libertinagem e péssimos costumes, movendo ainda dele João da Silva Tavares, o justo castigo que por eles merecia, o advertiram de não continuar mais no exercício de mexeriqueiro, enredador e perturbador do público, magistrados e repúblicos, pondo fim à dissolução de sua vida e assinando termo de viver como bom vassalo de sua Alteza Real e bom vizinho desta Vila, sob pena, se o contrário praticar, de ser na conformidade da lei exterminado para os lugares d'África, além das mais penas, com que seus delitos agravassem a primeira; o que sendo ouvido pelo dito João da Silva Tavares prometeu mudar de conduta debaixo da dita pena e assinou com o mesmo Senado este termo para a todo tempo constar da sua emenda ou recalcitração, conforme o disposto pelo Regimento do mesmo Senado e leis do Reino."  

A esse termo seguiu-se uma longa contestação entre a Câmara e o professor. A Câmara negou-lhe ainda atestados e ele agravou para o príncipe. Na concessão deste recursos, a Câmara, assistida por um assessor que tomou para a causa, prendeu o agravante porque, estando o termo de agravo já lavrado e em meio, o mesmo professor entrou com palavras impetuosas , dizendo ser o escrivão suspeito e por dizer que o insultavam com o tratamento de "pardo". Tavares ainda andou muito tempo em conflito com os vereadores, até que finalmente chegaram a um consenso.


Rua 24 de Maio trecho Praça José de Alencar - era atribuição da Câmara a abertura de vias


A Câmara também julgava crimes de injúria, contratando um assessor a quem pagava de 640 a 1$600 réis por cada conselho. Promovia a aposentadoria dos magistrados, designando a casa que deviam ocupar e fazendo-lhes a despesa que regulava em torno de $600 réis por mês.  O missionário frei Vidal teve igual favor quando veio ao Ceará. Em dezembro de 1790 a Câmara designou para residência do frade a casa do alfaiate Salvador, na Rua do Quartel

Tratava da abertura e conservação dos caminhos, e obrigava os camponeses a plantar mandioca e cereais diversos, sob pena de multa e cadeia. 


Em 1803 a Câmara de Vereadores lançou um estranho Código de Postura em que cada lavrador era obrigado a caçar  30 pássaros de bico redondo a cada ano: papagaios, periquitos e maracanãs


Uma postura de março de 1803 impunha a cada lavrador a obrigação de apresentar anualmente em Câmara, 30 cabeças de pássaros de bico redondo. Esta perseguição que era feita em todas as Câmaras da Capitania, se referia a papagaios, periquitos e maracanãs. 

A Câmara promovia manifestações de regozijo ou de pesar, graduando-se pela sensibilidade do governador. Em março de 1812, por ocasião do nascimento de um filho do infante D. Pedro Carlos, comunicado ao governador por meio de ofício, expediu editais para que a população o festejasse com luminárias, três noites consecutivas.

Em abril de 1816, sendo-lhe igualmente comunicado o decreto que deu ao Brasil o título de reino, em testemunho público da reconhecida gratidão pelo privilégio, ordenou que, em ação de graças, se expusesse o Santíssimo Sacramento na matriz da Vila no dia 12 de maio e se oferecesse a Deus o sacrifício de uma missa cantada, em que se pedisse a conservação do príncipe regente e sua família.

Quando foi comunicada a morte de D. Maria I, em 1816, mandou que todo o povo da vila e distrito vestisse luto rigoroso por seis meses e aliviado por um ano. Atendendo a que a pobreza e os escravos não podiam satisfazer rigorosamente a esta exigência, permitiu que homens trouxessem nos chapéus e as mulheres na cabeça, qualquer retalho preto. Os que se recusassem teriam 30 dias de cadeia para cada vez que fossem encontrados sem distintivo.


O prédio da Intendência Municipal foi o primeiro sobrado de tijolo e telha, construído por Francisco Pacheco de Medeiros em 1825. Em 1831 a Câmara comprou o prédio mudou-se para a nova sede em 1833. 
(foto do Arquivo Nirez)


Nas audiências gerais dos corregedores, solenidade a que comparecia todo o mundo oficial, vinha à Câmara em corporação ouvir os provimentos e advertências do magistrado. Lavrava-se de tudo um termo, que era assinado por ela e pelos repúblicos, como se encontra nos manuscritos do tempo.

fonte: Ceará (homens e fatos) de João Brígido
Revista Fortaleza, fascículo 4

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Bairro da Paupina

Na memória de Fortaleza, três aldeamentos famosos: Parangaba, Paupina (atual Messejana) e Soure (Caucaia). Quando o Marquês de Pombal decretou o fechamento da Companhia de Jesus, em Ordem Régia de 14 de setembro de 1758, as missões foram convertidas em vilas. 

Estrada de acesso a Caucaia antiga Vila Nova de Soure (foto de 1919.)
 
Assim Caucaia se transformou em Vila Nova de Soure, guiada pelo vigário Antônio Carvalho da Silva; Parangaba mudou para Vila Nova de Arronches, sob o comando do padre Antônio Coelho Cabral; Paupina passou a Vila Nova de Messejana, dirigida pelo vigário Manuel Pegado de Siqueira Cortez. Os jesuítas da extinta Companhia de Jesus seguiram para Pernambuco, e de lá, para as masmorras de Portugal.

 Estrada de acesso a Messejana, antiga Aldeia da Paupina, em foto de 1919.

A colonização portuguesa no Ceará começa a florescer efetivamente com a incursão de Martim Soares Moreno. Um dos fatores para esse processo foi a construção do Forte de São Sebastião na região conhecida hoje como Barra do Ceará, com o auxílio de Jacaúna e de sua tribo, vindos da região do Jaguaribe, o que gerou uma aglomeração junto à fortaleza. Tempos depois, essa aglomeração foi destacada para as terras do Mondubim, onde foi formado o Arraial do Bom Jesus da Parangaba por solicitação dos jesuítas. 

 Estrada de acesso a Parangaba, antiga Vila Nova de Arronches, em foto de 1919

Apenas nos idos dos anos de 1690 é que é formada a aldeia de Paupina, povoada por parte da população que fazia parte da aldeia de Parangaba, criada por volta de 1662. Sobre a Paupina conta-se que havia uma aldeia indígena de nome Paranamirim, sob o comando espiritual do padre Luis Jacome. Um dia o padre aplicou um  castigo a um índio rebelde, o que causou grande revolta contra os padres por parte de toda a aldeia. Tal celeuma levou a Junta Missionária de Pernambuco a transferir essa aldeia para a Paupina. A nova aldeia formada em 1741, comandada pelos jesuítas, ficou assim dividida: de um lados, os índios de paranamirim; do outro, os índios da Paupina, com uma grande praça no meio separando os povos. 
Dizia-se que Paupina seria uma corruptela de Padre Pinto, nome escolhido pelos índios em memória do Padre Francisco Pinto  chefe da missão jesuítica, sacrificado pelos índios no sopé da Serra da Ibiapaba. Para os historiadores dificilmente se pode provar a procedência de tal nome, dada a distância de 152 anos que separam o mártir da Ibiapaba, morto em 1608, dos índios que viviam em 1760, em Paupina. Acreditam que os índios não teriam tanta memória nem tal preocupação. O nome Paupina é indígena, e significa, segundo o historiador Teodoro Sampaio, "lagoa limpa" ou "lagoa descoberta".
No Guia Turístico elaborado pela Prefeitura de Fortaleza em 1961, não figura um bairro chamado Paupina. Hoje, na Fortaleza do século XXI, o bairro Paupina, urbanizado a partir dos anos 70, já não se confunde com Messejana.



Localizado no limite entre os municípios de Fortaleza e Eusébio, Paupina conta com privilégios que muitos já perderam: uma extensa área verde, baixa densidade demográfica, ruas calmas, poucos automóveis, moradores que se conhecem desde sempre. As árvores ainda estão pelo bairro, especialmente nos sítios que resistem numa área que ganha cada vez mais condomínios fechados. Um dos sítios pertence a Manoel Bezerra da Silva, de 78 anos. Talvez mantendo vivo um hábito da meninice vivida ali, o portão do terreno amplo, cheio de pássaros, não se fecha. Casas vizinhas também mantêm portas abertas.

 foto de Macilio Gomes - site Panorâmio

O equipamento mais famoso do bairro é o Mosteiro de São Bento,  fundado há 19 anos e localizado numa parte elevada, no limite entre a Paupina e o Bairro São Bento. Os monges beneditinos rezam a missa, aos domingos, com cânticos gregorianos e orações em latim. É a única missa nesse estilo na Capital. O canto de entrada é em português, mas logo começam os cânticos gregorianos e as orações em latim como o Credo e o Pai Nosso.
Do alto do templo, a cidade se alarga. Do lado direito, vê-se o Eusébio. Do lado esquerdo, um paredão de prédios, também chamada de Fortaleza. Na vista da frente, a Lagoa da Precabura, limite entre os dois municípios. O Mosteiro, para os moradores, torna-se mais atrativo no último dia do ano. Como é muito alto. Muita gente vai para lá no dia do Réveillon. Dá para ver os fogos de artifício de toda a cidade.


O bairro sofre com graves problemas como acúmulo de lixo nas ruas, desabastecimento de água, escassez de postos de saúde, ruas sem pavimentação e falta de segurança.  
Limita-se com os bairros Messejana, São Bento, Coaçu, Ancuri e Pedras. De acordo com o IBGE (pelo Censo de 2010) o bairro contava com 14.665 habitantes, sendo 7.042 homens e 7.623 mulheres. 

fontes:
História do Ceará, Airton de Farias
Revista do Instituto do Ceará - A Aldeia de Paupina e Outras Aldeias, de Aires de Montalbo.
Guia Turístico da Cidade, 1961
fotos P&B do site Brasiliana Fotográfica 
demais fotos: Fortaleza em Fotos - jan/2016

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Povoadores da Terra em Fortaleza


Povoadoras de extensos territórios, nos quais se levantariam vilas e cidades, os clãs constituíam-se de numerosas famílias coesas e ligadas a uma ancestralidade comum. Ramificações dos velhos troncos dos povoadores dessa terra, colonizadores dos antigos sertões, essa parentela formaria uma poderosa aristocracia latifundiária, conquistando posições de relevo na vida política da província. No segundo Reinado (1840-1889) nas primeiras décadas da república, gerações desses clãs se alternariam no poder, então disputado pelos Partidos Conservador e Liberal


 Rua Barão do Rio Branco, início do século XX

Ao atingir a supremacia política da província, Fortaleza – até esse tempo, um simples ajuntamento de pequenas casas – passou a abrigar os casarões residenciais. A partir de 1841, o Partido Conservador firmou-se em torno da família Carcará e de seu patriarca, o Visconde do Icó, Francisco Fernandes Vieira. Grande criador dos Inhamuns, dono de uma considerável extensão dos sertões, o Visconde tinha orgulho em dizer que “depois de Mombaça, só se pisava em terras suas até o Alto Jaguaribe”. Saíam anualmente destes vastos domínios, cinco mil bois para venda em Pernambuco. Seu filho, o senador Miguel Fernandes Vieira, presidiu o Partido Carcará até seu falecimento, em 1862. 

 Casa onde residiu o Barão de Aquiraz, na Praça do Ferreira, primeiro imóvel à direita. Na sequência, a Farmácia Pasteur e o Cineteatro Majestic-Palace. 

A partir daí, o partido dividiu-se em dois subgrupos. O chamado Miúdo foi continuador da velha legenda Carcará, chefiado pelo Barão de Aquiraz, Gonçalo Batista Vieira, sobrinho e genro do Visconde do Icó. O outro subgrupo, o Graúdo – a ala dissidente – ficou sob o comando do Visconde de Jaguaribe, Domingos José Nogueira Jaguaribe, e do Barão de Ibiapaba, Joaquim da Cunha Freire.
Homem de sociedade, sócio do Clube Cearense, o Barão de Aquiraz instalou sua residência no palacete que pertenceu a Martinho de Borges, que mais tarde abrigaria por muitos anos, a sede da empresa Severiano Ribeiro, na Praça do Ferreira. 

 Cidade de Aracati, terra natal do Visconde Jaguaribe

O Visconde de Jaguaribe, nascido em Aracati, casado com Clodes de Alencar, irmã de Ana Josefina e de Praxedes de Alencar, mulheres de seus primos Senador Alencar e Major Antônio da França Alencar. Jaguaribe ocupou posteriormente a Pasta da Guerra, no Ministério do Visconde do Rio Branco. 

 prédio que seria para o Asilo de Mendicidade e terminou servindo à Escola Militar, atual Colégio Militar de Fortaleza 

O Barão de Ibiapaba, natural de Caucaia, mandou construir o prédio onde funcionou o Asilo de Mendicidade, no qual funciona nos dias atuais o Colégio Militar de fortaleza. Residiu num casarão de 4 portas para a Rua Major Facundo e 11 para a Rua Senador Alencar e faleceu sem descendência em 1907.

 Sobrado do Barão de Ibiapaba, na esquina das ruas Major Facundo e Senador Alencar

O Partido Liberal este sob a direção do Senador Alencar até 1860. Ricos e de largo prestígio social, a família Alencar possuía verdadeiros feudos sertanejos nos rincões do Vale do Cariri, voltados à criação de gado, plantio da cana-de-açúcar e do algodão. Derrotados nas Revoluções de 1817 e 1824, a família foi perseguida politicamente, tendo seus bens confiscados. Fugindo de retaliações, o futuro Senador Alencar trouxe seus parentes para a Vila de Messejana – um dos mais salubres arrabaldes de Fortaleza – e em suas terras alagadiças, molhadas por um rio e uma dezena de lagoas, cultivou a cana-de-açúcar transportada do Cariri. 

Sítio Alagadiço Novo, em Messejana, onde se estabeleceu a família do Senador Alencar
  
Nas imediações da Vila, o Senador Alencar fundou o sítio Alagadiço Novo e, com os resultados positivos desta empresa açucareira, seus primos instalaram ali outros sítios de engenho: Cambeba, Carrapicho, São Francisco – em cujas terras estava a famosa lagoa de Messejana – Ancori, Gravito, Visgueiro, Janguruçu, Prismamuna, São Cristóvão e Tusculano.  Presidente da Província por duas vezes, o Senador Alencar residiu por muitos anos no Rio de Janeiro, exercendo sua liderança política.
Seu sucessor, o Senador Thomaz Pompeu de Souza Brasil, tornou-se então, a maior autoridade deste Partido no Ceará. Pertencia o Senador Pompeu à ilustre dinastia  dos Pinto de Mesquita de Santa Quitéria, nos sertões do Ceará. Do clã de Santa Quitéria também fez parte por casamento, o Senador Francisco de Paula Pessoa, seu genro, o Conselheiro Rodrigues Júnior.  

Senador Francisco de Paula Pessoa, o "Senador dos Bois"
 
Dono de numerosas propriedades rurais, o Senador Paula Pessoa, por sua fortuna em gado, recebeu de seus adversários o apelido de “Senador dos Bois”. Com o falecimento do senador Pompeu em 1866, o Partido Liberal passou a ser chefiado pelo clã de santa Quitéria, tendo como presidentes Vicente Alves de Paula Pessoa e o Conselheiro Rodrigues Junior.
Esta facção foi a mais poderosa, de 1880 ate a proclamação da República, nela se destacando Meton de Alencar, João Cordeiro, João da Rocha Moreira e Francisco Barbosa de Paula Pessoa. A outra facção dos liberais ficou com o grupo Pompeu, liderado pelo genro do Senador Pompeu, o Comendador Antônio Pinto Nogueira Accioly, contando entre os maiores representantes do partido, Thomaz Pompeu Filho, João Brígido, Joaquim Bento de Souza Andrade, João Lopes, Virgílio Brígido e Liberato Barroso.
Na República, a oligarquia aciolina dominou o Ceará por 16 anos, quando o Comendador Nogueira Accioly conservou em mãos a maior soma de poderes que um homem público jamais reunira no Norte. 


fonte:
de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do Arquivo Nirez