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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Bairro da Paupina

Na memória de Fortaleza, três aldeamentos famosos: Parangaba, Paupina (atual Messejana) e Soure (Caucaia). Quando o Marquês de Pombal decretou o fechamento da Companhia de Jesus, em Ordem Régia de 14 de setembro de 1758, as missões foram convertidas em vilas. 

Estrada de acesso a Caucaia antiga Vila Nova de Soure (foto de 1919.)
 
Assim Caucaia se transformou em Vila Nova de Soure, guiada pelo vigário Antônio Carvalho da Silva; Parangaba mudou para Vila Nova de Arronches, sob o comando do padre Antônio Coelho Cabral; Paupina passou a Vila Nova de Messejana, dirigida pelo vigário Manuel Pegado de Siqueira Cortez. Os jesuítas da extinta Companhia de Jesus seguiram para Pernambuco, e de lá, para as masmorras de Portugal.

 Estrada de acesso a Messejana, antiga Aldeia da Paupina, em foto de 1919.

A colonização portuguesa no Ceará começa a florescer efetivamente com a incursão de Martim Soares Moreno. Um dos fatores para esse processo foi a construção do Forte de São Sebastião na região conhecida hoje como Barra do Ceará, com o auxílio de Jacaúna e de sua tribo, vindos da região do Jaguaribe, o que gerou uma aglomeração junto à fortaleza. Tempos depois, essa aglomeração foi destacada para as terras do Mondubim, onde foi formado o Arraial do Bom Jesus da Parangaba por solicitação dos jesuítas. 

 Estrada de acesso a Parangaba, antiga Vila Nova de Arronches, em foto de 1919

Apenas nos idos dos anos de 1690 é que é formada a aldeia de Paupina, povoada por parte da população que fazia parte da aldeia de Parangaba, criada por volta de 1662. Sobre a Paupina conta-se que havia uma aldeia indígena de nome Paranamirim, sob o comando espiritual do padre Luis Jacome. Um dia o padre aplicou um  castigo a um índio rebelde, o que causou grande revolta contra os padres por parte de toda a aldeia. Tal celeuma levou a Junta Missionária de Pernambuco a transferir essa aldeia para a Paupina. A nova aldeia formada em 1741, comandada pelos jesuítas, ficou assim dividida: de um lados, os índios de paranamirim; do outro, os índios da Paupina, com uma grande praça no meio separando os povos. 
Dizia-se que Paupina seria uma corruptela de Padre Pinto, nome escolhido pelos índios em memória do Padre Francisco Pinto  chefe da missão jesuítica, sacrificado pelos índios no sopé da Serra da Ibiapaba. Para os historiadores dificilmente se pode provar a procedência de tal nome, dada a distância de 152 anos que separam o mártir da Ibiapaba, morto em 1608, dos índios que viviam em 1760, em Paupina. Acreditam que os índios não teriam tanta memória nem tal preocupação. O nome Paupina é indígena, e significa, segundo o historiador Teodoro Sampaio, "lagoa limpa" ou "lagoa descoberta".
No Guia Turístico elaborado pela Prefeitura de Fortaleza em 1961, não figura um bairro chamado Paupina. Hoje, na Fortaleza do século XXI, o bairro Paupina, urbanizado a partir dos anos 70, já não se confunde com Messejana.



Localizado no limite entre os municípios de Fortaleza e Eusébio, Paupina conta com privilégios que muitos já perderam: uma extensa área verde, baixa densidade demográfica, ruas calmas, poucos automóveis, moradores que se conhecem desde sempre. As árvores ainda estão pelo bairro, especialmente nos sítios que resistem numa área que ganha cada vez mais condomínios fechados. Um dos sítios pertence a Manoel Bezerra da Silva, de 78 anos. Talvez mantendo vivo um hábito da meninice vivida ali, o portão do terreno amplo, cheio de pássaros, não se fecha. Casas vizinhas também mantêm portas abertas.

 foto de Macilio Gomes - site Panorâmio

O equipamento mais famoso do bairro é o Mosteiro de São Bento,  fundado há 19 anos e localizado numa parte elevada, no limite entre a Paupina e o Bairro São Bento. Os monges beneditinos rezam a missa, aos domingos, com cânticos gregorianos e orações em latim. É a única missa nesse estilo na Capital. O canto de entrada é em português, mas logo começam os cânticos gregorianos e as orações em latim como o Credo e o Pai Nosso.
Do alto do templo, a cidade se alarga. Do lado direito, vê-se o Eusébio. Do lado esquerdo, um paredão de prédios, também chamada de Fortaleza. Na vista da frente, a Lagoa da Precabura, limite entre os dois municípios. O Mosteiro, para os moradores, torna-se mais atrativo no último dia do ano. Como é muito alto. Muita gente vai para lá no dia do Réveillon. Dá para ver os fogos de artifício de toda a cidade.


O bairro sofre com graves problemas como acúmulo de lixo nas ruas, desabastecimento de água, escassez de postos de saúde, ruas sem pavimentação e falta de segurança.  
Limita-se com os bairros Messejana, São Bento, Coaçu, Ancuri e Pedras. De acordo com o IBGE (pelo Censo de 2010) o bairro contava com 14.665 habitantes, sendo 7.042 homens e 7.623 mulheres. 

fontes:
História do Ceará, Airton de Farias
Revista do Instituto do Ceará - A Aldeia de Paupina e Outras Aldeias, de Aires de Montalbo.
Guia Turístico da Cidade, 1961
fotos P&B do site Brasiliana Fotográfica 
demais fotos: Fortaleza em Fotos - jan/2016

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A Atuação dos Padres Jesuitas no Ceará



A fé move montanhas e molda cidades. No Ceará, como na Bahia, Pernambuco e São Paulo, os padres jesuítas instalaram aldeamentos para facilitar a conversão dos índios. Essas missões eram aldeias artificiais militarizadas, tendo como chefe um missionário que usava de todos os métodos para domesticar os indígenas. No início, a catequese era frágil: pregações de aldeia em aldeia, de ano em ano. Depois perceberam que o modo mais eficaz de exercer um controle sobre essas populações, era retirá-las do espaço onde estavam. 

À força, em nome de Deus e da civilização, os índios eram afastados dos líderes religiosos, os pajés. O invasor oferecia-lhe três opções: a morte no combate, a fuga no mato ou a religião estrangeira.

O sino da igreja determinava o dia na aldeia artificial. Às cinco horas, despertava as mulheres para as orações e sermões. Pelas quatro da tarde, anunciava o jantar e o rosário. Entre um badalar e outro, o serviço doméstico, a agricultura, a pecuária. Para as crianças, as aulas de leitura, a escrita e religião. À noite eram os homens que eram convocados para a doutrinação. Nas missões, falavam também os instrumentos de tortura – o pelourinho e as mutilações físicas.


A evangelização era feita primordialmente pelos jesuítas, ainda que frades franciscanos tenham atuado. As reações iam desde a aceitação resignada até a rejeição irredutível, que acabava em morte do nativo. O mais comum foi a absorção dos princípios católicos sem abandono das crenças nativas, promovendo o surgimento de uma prática sincrética característica da religiosidade católica cearense.

Para os missionários a religião ancestral era ruim e pecaminosa, enquanto a religião europeia era legítima. Entre outras verdades feitas, pregava-se que os índios só se salvariam mediante o casamento abençoado pelos padres e insistia-se na confissão dos pecados.

Documentos jesuítas, encontrados em arquivos portugueses, guardam o resultado dessa colonização espiritual: os índios vêm à igreja de mãos postas e erguidas, adoram a Deus, que fez o céu e a terra, confessam ao senhor de tudo, assistem em silêncio o santo Ofício, ouvem os avisos e obedecem,  armados de arcos e flechas, mas com o arco em repouso.

Sobre os Padres Jesuítas



A ordem religiosa da Companhia de Jesus integra o clero regular da igreja colonial no Brasil, voltado para a catequese e educação de índios e colonos. É como parte do mundo da Contra- Reforma que o Ceará passará a fazer parte dos projetos jesuíticos de evangelização. Em 1695 este plano começará a ganhar forma com a fundação da aldeia de Nossa Senhora da Assunção da Ibiapaba – atual cidade de Viçosa do Ceará. 

A partir daí construíram uma rede de aldeamentos. Esta será a condição do Ceará até a expulsão da Companhia, governado politica e religiosamente pelos jesuítas, economicamente assentados na pecuária. Os jesuítas atuaram no Ceará entre 1609 e 1759. Os primeiros registros encontram os padres Francisco Pinto – o Paipina para os índios que acreditavam em seu poder de fazer chover – e Luis Filgueiras entre os tuxaua da Ibiapaba. No tempo dos sermões em latim, a língua sagrada, em que a alta divindade se expressa, os jesuítas ousaram fazer a catequese na língua do nativo.

Sobre as Aldeias Artificiais

 indios Tapebas, em Caucaia

Na memória de Fortaleza, três aldeamentos famosos Parangaba, Paupina (atual Messejana) e Soure (Caucaia). Quando o Marquês de Pombal decretou o fechamento da Companhia de Jesus, em Ordem Régia de 14 de setembro de 1758, as missões foram convertidas em vilas. 

Assim Caucaia se transformou em Vila Nova de Soure, guiada pelo vigário Antônio Carvalho da Silva; Parangaba mudou para Vila Nova de Arronches, sob o comando do padre Antônio Coelho Cabral; Paupina passou a Vila Nova de Messejana, dirigida pelo vigário Manuel Pegado de Siqueira Cortez. Os jesuítas da extinta Companhia de Jesus seguiram para Pernambuco, e de lá, para as masmorras de Portugal.


Fonte:
Artigo em Nome de Deus e da Civilização, publicado na Revista Fortaleza, fascículo 2 de 16 de abril de 2006