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terça-feira, 16 de maio de 2023

A Segunda Tentativa de Colonização do Ceará – Pela Força da Fé

 

Mal Pero Coelho de Souza havia se retirado da região, derrotado pelos ataques indígenas e pela violenta estiagem que ainda assolava a capitania do Siará Grande, quando em janeiro de 1607, dois religiosos portugueses da ordem dos jesuítas, se assentaram na capitania, dispostos a conquistar os indígenas, não pela força das armas, mas pelos ensinamentos cristãos. Os padres Francisco Pinto e Luís Figueiras tinham o Maranhão como destino, onde pretendiam enfrentar os franceses e organizar uma missão religiosa da Companhia de Jesus, destinada a catequizar os nativos.




Vindos de Pernambuco e tendo desembarcado em Mossoró, os dois religiosos acompanhados de cerca de 70 índios cristianizados, caminharam até as dunas do Mucuripe, onde se estabeleceram depois de fazerem as pazes com um morubixaba de grande prestígio na região, o famoso chefe Amanai, nome que os historiadores traduziam por Algodão. Pregando habilmente os ensinamentos cristãos, converteram inúmeros selvagens e, auxiliados por eles, fundaram aldeamentos juntos às tribos dos Aratanhas, Caucaias e Parangabas, dando início ao núcleo de evangelização que serviriam de base para pequenos povoados nas imediações da futura cidade de Fortaleza.


Fundaram no seio das tribos das redondezas, que acampavam às margens de lagoas ou na aba das serras próximas, quatro aldeias ou reduções que ainda hoje figuram na toponímia local: Pitaguari, na Aratanha, Caucaia, Paupina e Parangaba, antigos aldeamentos, hoje integrados à Fortaleza ou à sua Região Metropolitana.


Os aldeamentos representaram uma forma diversa de violência, às vezes mais sutil, mas não menos prejudicial à integridade dos povos indígenas. Os missionários, imbuídos da necessidade de ensinar aos nativos a verdadeira religião cristã, escandalizavam-se com os hábitos e costumes locais, que incluíam as práticas pagãs, a nudez, a poligamia, encaradas como satânicas e pecaminosas. Deu-se então o inevitável confronto entre duas culturas desiguais.



Villa Nova de Arronches - antigo aldeamento da Parangaba
Gravura de José Reis de Carvalho que participou da Comissão Científica do Império, e visitou o Ceará entre 1859 e 1861.

Os jesuítas não entendiam que a relação dos nativos com a terra era bem diferente da visão mercantilista do mundo europeu. A maioria dos indígenas recusavam a delimitação da área do aldeamento, e ao trabalho de cultivar a terra, preferindo a liberdade natural de rios e matas.


Findos os trabalhos e deixando essas reduções funcionando, os dois sacerdotes deixaram essas reduções e continuaram sua marcha onde chegaram à Serra Grande ou Ibiapaba, reduto dos índios Ipus.


Depois subiram a serra e fizeram contato com os índios da nação dos Tabajaras, que os apelidaram abaúnas (homens pretos). Os jesuítas encontravam-se no seio da maior taba daquelas paragens, espécie de capital das nações indígenas, aliadas aos franceses que haviam enfrentado as tropas de Pero Coelho de Souza em 1604, e sido derrotados.


A indiada, ainda ressabiada com a derrota, recebeu-os com grande desconfiança, olhando com descrédito aqueles homens vestidos de preto e palavras mansas que lhe falavam de um Deus desconhecido. Alguns franceses que ainda permaneciam no meio dos gentios, os incitavam às escondidas contra os religiosos. Todavia, estes conseguiram com grandes esforços erigir uma capela, onde rezavam missa, pregavam e batizavam. 

 


chacina do Padre Francisco Pinto em 1608  
Por Michiel Cnobbaert - Biblioteca Nacional, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=17315678


Da mesma forma que ocorreu com Pero Coelho, a história não acabou bem para os dois jesuítas. Padre Francisco Pinto foi flechado e morto a golpes de tacape em janeiro de 1608, enquanto rezava uma missa na capela que ajudara a construir na Ibiapaba.  O padre Luiz Figueira escapou do ataque, e ajudado por alguns indígenas, varou os sertões inóspitos, alcançou as aldeias do litoral, onde o foi acolhido pelo chefe Algodão. O padre continuou sua missão evangelizadora até 1637, quando também foi morto por indígenas na Amazônia.



Fontes:

História urbana e Imobiliária de Fortaleza, de Lira Neto e Cláudia Albuquerque.

À Margem da História do Ceará, de Gustavo Barroso 

imagens da Internet   


   

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Bairro da Paupina

Na memória de Fortaleza, três aldeamentos famosos: Parangaba, Paupina (atual Messejana) e Soure (Caucaia). Quando o Marquês de Pombal decretou o fechamento da Companhia de Jesus, em Ordem Régia de 14 de setembro de 1758, as missões foram convertidas em vilas. 

Estrada de acesso a Caucaia antiga Vila Nova de Soure (foto de 1919.)
 
Assim Caucaia se transformou em Vila Nova de Soure, guiada pelo vigário Antônio Carvalho da Silva; Parangaba mudou para Vila Nova de Arronches, sob o comando do padre Antônio Coelho Cabral; Paupina passou a Vila Nova de Messejana, dirigida pelo vigário Manuel Pegado de Siqueira Cortez. Os jesuítas da extinta Companhia de Jesus seguiram para Pernambuco, e de lá, para as masmorras de Portugal.

 Estrada de acesso a Messejana, antiga Aldeia da Paupina, em foto de 1919.

A colonização portuguesa no Ceará começa a florescer efetivamente com a incursão de Martim Soares Moreno. Um dos fatores para esse processo foi a construção do Forte de São Sebastião na região conhecida hoje como Barra do Ceará, com o auxílio de Jacaúna e de sua tribo, vindos da região do Jaguaribe, o que gerou uma aglomeração junto à fortaleza. Tempos depois, essa aglomeração foi destacada para as terras do Mondubim, onde foi formado o Arraial do Bom Jesus da Parangaba por solicitação dos jesuítas. 

 Estrada de acesso a Parangaba, antiga Vila Nova de Arronches, em foto de 1919

Apenas nos idos dos anos de 1690 é que é formada a aldeia de Paupina, povoada por parte da população que fazia parte da aldeia de Parangaba, criada por volta de 1662. Sobre a Paupina conta-se que havia uma aldeia indígena de nome Paranamirim, sob o comando espiritual do padre Luis Jacome. Um dia o padre aplicou um  castigo a um índio rebelde, o que causou grande revolta contra os padres por parte de toda a aldeia. Tal celeuma levou a Junta Missionária de Pernambuco a transferir essa aldeia para a Paupina. A nova aldeia formada em 1741, comandada pelos jesuítas, ficou assim dividida: de um lados, os índios de paranamirim; do outro, os índios da Paupina, com uma grande praça no meio separando os povos. 
Dizia-se que Paupina seria uma corruptela de Padre Pinto, nome escolhido pelos índios em memória do Padre Francisco Pinto  chefe da missão jesuítica, sacrificado pelos índios no sopé da Serra da Ibiapaba. Para os historiadores dificilmente se pode provar a procedência de tal nome, dada a distância de 152 anos que separam o mártir da Ibiapaba, morto em 1608, dos índios que viviam em 1760, em Paupina. Acreditam que os índios não teriam tanta memória nem tal preocupação. O nome Paupina é indígena, e significa, segundo o historiador Teodoro Sampaio, "lagoa limpa" ou "lagoa descoberta".
No Guia Turístico elaborado pela Prefeitura de Fortaleza em 1961, não figura um bairro chamado Paupina. Hoje, na Fortaleza do século XXI, o bairro Paupina, urbanizado a partir dos anos 70, já não se confunde com Messejana.



Localizado no limite entre os municípios de Fortaleza e Eusébio, Paupina conta com privilégios que muitos já perderam: uma extensa área verde, baixa densidade demográfica, ruas calmas, poucos automóveis, moradores que se conhecem desde sempre. As árvores ainda estão pelo bairro, especialmente nos sítios que resistem numa área que ganha cada vez mais condomínios fechados. Um dos sítios pertence a Manoel Bezerra da Silva, de 78 anos. Talvez mantendo vivo um hábito da meninice vivida ali, o portão do terreno amplo, cheio de pássaros, não se fecha. Casas vizinhas também mantêm portas abertas.

 foto de Macilio Gomes - site Panorâmio

O equipamento mais famoso do bairro é o Mosteiro de São Bento,  fundado há 19 anos e localizado numa parte elevada, no limite entre a Paupina e o Bairro São Bento. Os monges beneditinos rezam a missa, aos domingos, com cânticos gregorianos e orações em latim. É a única missa nesse estilo na Capital. O canto de entrada é em português, mas logo começam os cânticos gregorianos e as orações em latim como o Credo e o Pai Nosso.
Do alto do templo, a cidade se alarga. Do lado direito, vê-se o Eusébio. Do lado esquerdo, um paredão de prédios, também chamada de Fortaleza. Na vista da frente, a Lagoa da Precabura, limite entre os dois municípios. O Mosteiro, para os moradores, torna-se mais atrativo no último dia do ano. Como é muito alto. Muita gente vai para lá no dia do Réveillon. Dá para ver os fogos de artifício de toda a cidade.


O bairro sofre com graves problemas como acúmulo de lixo nas ruas, desabastecimento de água, escassez de postos de saúde, ruas sem pavimentação e falta de segurança.  
Limita-se com os bairros Messejana, São Bento, Coaçu, Ancuri e Pedras. De acordo com o IBGE (pelo Censo de 2010) o bairro contava com 14.665 habitantes, sendo 7.042 homens e 7.623 mulheres. 

fontes:
História do Ceará, Airton de Farias
Revista do Instituto do Ceará - A Aldeia de Paupina e Outras Aldeias, de Aires de Montalbo.
Guia Turístico da Cidade, 1961
fotos P&B do site Brasiliana Fotográfica 
demais fotos: Fortaleza em Fotos - jan/2016

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A Vida Difícil dos Catequizadores



Nos primeiros séculos da colonização, a cruz era muito pesada. Eram poucos os clérigos, sobretudo nos momentos iniciais da colonização, que tinham interesse de vir para a capitania do Siará, terra muito pobre, de índios belicosos e selvagens, com rudes habitantes, muitos dos quais criminosos, negros e mulatos, todos em constantes pecados com as índias, e gerando famílias de grosseiros mestiços, os primeiros cearenses.
Além disso, a remuneração era baixíssima. Muitos desistiam no meio do caminho, preferindo permanecer entre os gentios domésticos, na segurança e relativo conforto das aldeias já catequizadas. 

 Ruínas jesuítas de São Miguel das Missões, na Região das Missões. Patrimônio da Humanidade desde 1983 no Rio Grande do Sul, Brasil.

Tornados padres por determinação dos pais, desejosos de ter um filho ministro de Deus, muitos esqueciam os votos sagrados e constituíam família. Os livros dos cartórios civis estão cheios de registros de escrituras e testamentos, em que sacerdotes católicos confessam a fragilidade humana dos seus acasos com mulheres.

Muitos clérigos entregavam-se aos prazeres materiais. No final do século XVIII, colonos e soldados do fortim de N. S. da Assunção, acusavam o padre José Leite de Aguiar de se dedicar mais ao seu curral bovino do que às questões religiosas, e de ter sucumbido cedo às tentações da carne, vivendo licenciosamente com índias e mestiças. Sacerdotes assediavam sexualmente negras, nativas e em fase mais avançada da colonização, as nem sempre recatadas donzelas e matronas da sociedade.

  Vista do Quartel de N. Sra. da Assunção, antigo Schoonenborch, com o gasômetro ao fundo (arquivo Nirez)

Longe dos olhares dos superiores do bispado de Olinda, a ação dos padres da aldeia da fortaleza e das vilas interioranas era quase sempre de complacência com as "faltas" dos colonos, soldados e autoridades da capitania, mesmo porque as relações entre o poder constituído e o clero, nem sempre foram cordiais. 
Em muitos momentos verificavam-se confrontos entre os representantes da Coroa e os padres. Em 1787, uma carta dos párocos das igrejas matrizes da capitania do Ceará denunciava o capitão-mor João Batista de Azevedo Coutinho de Montauri. A Igreja se dizia vítima da arbitrariedade da autoridade, que era comparado a Nero.  

Entre os filhos de padres notáveis da provinciana Fortaleza, estava o escritor José de Alencar, da estirpe do padre José Martiniano de Alencar (Senador Alencar), polêmico político do século XIX, que se amasiou com uma prima.

Os padres que desviaram caminho dos votos de castidade são personagens em um cenário maior. O século XIX pegou a Igreja Católica desprevenida. Quando os anos 1800 chegaram, trouxeram os protestantes (O primeiro a chegar ao Ceará foi o reverendo presbítero De Lacy Wardlan em 1882, num programa missionário promovido pelas igrejas Presbiterianas do sul dos Estados Unidos), a maçonaria, e a corrente filosófica que explica racionalmente a fé. A Igreja Católica reagiu no segundo tempo. O Concilio Vaticano (1869-1870) determinou que só uma estrutura centralizada poderia fazer o catolicismo triunfar. 


 Com a criação da Diocese em 1861, o padre Luis Antônio dos Santos foi nomeado o primeiro bispo do Ceará. Ele permaneceu a frente da Diocese entre 1861 e 1881. Nesse período fundou o Seminário da Prainha (1864), e o Colégio da Imaculada Conceição (1865).  fotos do Arquivo Nirez

É por esse motivo que o Ceará se prestará tão bem aos propósitos da reforma religiosa do Brasil, em curso no século XIX. Em 1861 se instala a Diocese do Ceará, sete anos depois de autorizada.  Fortaleza então se equipara ao Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. E se completa a emancipação do Ceará, que ainda estava ligada eclesiasticamente a Pernambuco.  A criação da Diocese do Ceará foi um momento de luta entre a Igreja e o Estado.

 
fontes:

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A Atuação dos Padres Jesuitas no Ceará



A fé move montanhas e molda cidades. No Ceará, como na Bahia, Pernambuco e São Paulo, os padres jesuítas instalaram aldeamentos para facilitar a conversão dos índios. Essas missões eram aldeias artificiais militarizadas, tendo como chefe um missionário que usava de todos os métodos para domesticar os indígenas. No início, a catequese era frágil: pregações de aldeia em aldeia, de ano em ano. Depois perceberam que o modo mais eficaz de exercer um controle sobre essas populações, era retirá-las do espaço onde estavam. 

À força, em nome de Deus e da civilização, os índios eram afastados dos líderes religiosos, os pajés. O invasor oferecia-lhe três opções: a morte no combate, a fuga no mato ou a religião estrangeira.

O sino da igreja determinava o dia na aldeia artificial. Às cinco horas, despertava as mulheres para as orações e sermões. Pelas quatro da tarde, anunciava o jantar e o rosário. Entre um badalar e outro, o serviço doméstico, a agricultura, a pecuária. Para as crianças, as aulas de leitura, a escrita e religião. À noite eram os homens que eram convocados para a doutrinação. Nas missões, falavam também os instrumentos de tortura – o pelourinho e as mutilações físicas.


A evangelização era feita primordialmente pelos jesuítas, ainda que frades franciscanos tenham atuado. As reações iam desde a aceitação resignada até a rejeição irredutível, que acabava em morte do nativo. O mais comum foi a absorção dos princípios católicos sem abandono das crenças nativas, promovendo o surgimento de uma prática sincrética característica da religiosidade católica cearense.

Para os missionários a religião ancestral era ruim e pecaminosa, enquanto a religião europeia era legítima. Entre outras verdades feitas, pregava-se que os índios só se salvariam mediante o casamento abençoado pelos padres e insistia-se na confissão dos pecados.

Documentos jesuítas, encontrados em arquivos portugueses, guardam o resultado dessa colonização espiritual: os índios vêm à igreja de mãos postas e erguidas, adoram a Deus, que fez o céu e a terra, confessam ao senhor de tudo, assistem em silêncio o santo Ofício, ouvem os avisos e obedecem,  armados de arcos e flechas, mas com o arco em repouso.

Sobre os Padres Jesuítas



A ordem religiosa da Companhia de Jesus integra o clero regular da igreja colonial no Brasil, voltado para a catequese e educação de índios e colonos. É como parte do mundo da Contra- Reforma que o Ceará passará a fazer parte dos projetos jesuíticos de evangelização. Em 1695 este plano começará a ganhar forma com a fundação da aldeia de Nossa Senhora da Assunção da Ibiapaba – atual cidade de Viçosa do Ceará. 

A partir daí construíram uma rede de aldeamentos. Esta será a condição do Ceará até a expulsão da Companhia, governado politica e religiosamente pelos jesuítas, economicamente assentados na pecuária. Os jesuítas atuaram no Ceará entre 1609 e 1759. Os primeiros registros encontram os padres Francisco Pinto – o Paipina para os índios que acreditavam em seu poder de fazer chover – e Luis Filgueiras entre os tuxaua da Ibiapaba. No tempo dos sermões em latim, a língua sagrada, em que a alta divindade se expressa, os jesuítas ousaram fazer a catequese na língua do nativo.

Sobre as Aldeias Artificiais

 indios Tapebas, em Caucaia

Na memória de Fortaleza, três aldeamentos famosos Parangaba, Paupina (atual Messejana) e Soure (Caucaia). Quando o Marquês de Pombal decretou o fechamento da Companhia de Jesus, em Ordem Régia de 14 de setembro de 1758, as missões foram convertidas em vilas. 

Assim Caucaia se transformou em Vila Nova de Soure, guiada pelo vigário Antônio Carvalho da Silva; Parangaba mudou para Vila Nova de Arronches, sob o comando do padre Antônio Coelho Cabral; Paupina passou a Vila Nova de Messejana, dirigida pelo vigário Manuel Pegado de Siqueira Cortez. Os jesuítas da extinta Companhia de Jesus seguiram para Pernambuco, e de lá, para as masmorras de Portugal.


Fonte:
Artigo em Nome de Deus e da Civilização, publicado na Revista Fortaleza, fascículo 2 de 16 de abril de 2006 
  

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O longo Caminho entre a Vila Nova de Arronches e o Bairro da Parangaba


Praça dos Caboclinhos

Imóvel antigo

A Parangaba foi formada a partir de um aldeamento, também chamado de missões, áreas em que se erguiam espécies de aldeias indígenas artificiais –  diferentes das aldeias originais dos nativos – para onde os jesuítas conduziam e mantinham os índios da região, no intuito de convertê-los ao catolicismo. A ideia era manter os nativos sob constante vigilância dos padres, os quais deveriam funcionar como guias, para que sua cultura ancestral fosse esquecida.  Quando os jesuítas foram expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal, já na segunda metade do século XVIII, alguns aldeamentos foram transformados vilas. Os jesuítas tiveram seus bens sequestrados e deixaram a administração das vilas indígenas, que ficaram a cargo de diretores. A Lei do chamado Diretório Pombalino era de 1758, mas foi implementada no Ceará no ano seguinte.  A partir desse fato surgiram as vilas de Viçosa do Ceará,  Vila Nova de Soures,  e Vila Nova de Arronches, em 1759. No ano seguinte – 1760 – foi criada a Vila Nova de Messejana, e em 1764, as Vilas de Monte-mor-Novo (Baturité) e Crato. Eram as chamadas “vilas de índios”. Três dessas vilas ficavam nos arredores de Fortaleza: Soures (Caucaia), Arronches (Parangaba) Messejana (Paupina).

foto MIS

Paróquia de Bom Jesus dos Aflitos

A Vila Nova de Arronches foi incorporada a Fortaleza pela lei n° 2, de 13 de maio de 1835; depois foi restaurado município pela lei n° 2097, de 25 de novembro de 1885, com o nome de Porangaba;  uma nova lei, a de n° 1913, de 31 de outubro de 1921, incorpora novamente o município à capital. 
No século VVIII, o  Arronches  se destaca como ponto intermediário no transporte de gado, com a estrada do Barro Vermelho-Parangaba, estrada que ligava o bairro Antônio Bezerra a  Parangaba; e a Estrada da Paranjana,  que ligava a Messejana a Parangaba.


A estação ferroviária foi inaugurada em 1873 com o nome de Arronches. Na época, era um município, que acabou sendo anexado a Fortaleza nos anos 1920. Em janeiro de 1944 teve o nome alterado para Parangaba, por determinação do  Conselho Nacional de Geografia. Era este o nome de antigo aldeamento dos jesuítas.  (foto do site estações ferroviárias)

O trem metropolitano veio substituir a antiga composição ferroviária. O trecho Parangaba/Pacatuba foi inaugurado no final do primeiro semestre de 2012, depois de 13 anos de espera por parte da população.   

Com a inauguração da Estrada de Ferro de Baturité, em 1872, uma estação de trem é instalada no ano seguinte, a Estação de Arronches, e Parangaba estava ligada com a Capital. Em 1941, a malha ferroviária de Parangaba é expandida com direção ao Mucuripe e em 1944 o nome da estação é alterado para Parangaba. Esta estação é nos dias de hoje parte do metrô de Fortaleza.


A feira a céu aberto, é uma das marcas registradas do bairro, onde são comercializadas todo tipo de mercadorias, lícitas e ilicitas. A desorganização, a sujeira e a grande diversidade são caracteristicas do lugar, frequentado por multidões de compradores.

Nos anos 1960, de acordo com o Guia Turistico da Cidade, publicado pela Prefeitura de Fortaleza, a a cidade era dividida em Distritos, na conformidade da lei de divisão territorial do Estado, a saber: Distrito Central, de Messejana, de Parangaba e de Antônio Bezerra. 
o Distrito de Parangaba limitava-se ao Norte, pela Avenida Carneiro de Mendonça e Estrada do Pici; a Leste pelas Ruas Peru, Casimiro de Abreu, e Avenida Godofredo Maciel; ao sul pela Estrada Parangaba-Messejana e Ruas Nereu Ramos e Júlio Braga; e a Oeste, pela Rua Augusto dos Anjos e seu prolongamento ideal, estrada de Caucaia e Rua General Osório de Paiva.

 As garças e outros pássaros aquáticos estão de volta à lagoa da Parangaba
 com aproximadamente 41 hectares de área e profundidade máxima de 4,6 metros, a Lagoa da Parangaba é a principal referência do bairro. As margens estão repletas de lixo, principalmente nas proximidades da feira. Pertence à Bacia hidrográfica do Rio Maranguapinho

O distrito englobava os seguintes bairros: Parangaba (sede do Distrito), Taperi (e não Itaperi), Maraponga, Vila Peri, Bonsucesso, São Cristóvão, Marupiara, Pan-Americano, Bela Vista, Vila União, Dias Macedo e Alto da Balança.  
A expansão da cidade, e principalmente a atuação de vereadores da capital, desejosos de prestar homenagens, muitas vezes, a ilustrissimos desconhecidos, provocou a mudança de nome de muitos desses bairros e logradouros.    


fotos de julho/2012
por Rodrigo Paiva e Fátima Garcia
pesquisa:
História do Ceará, de Airton de Farias
Guia Turistico da Cidade - Prefeitura Municipal de Fortaleza, administração do General Manuel Cordeiro Neto, 1961.
wikipédia

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Messejana, terra de Alencar



Antes da chegada dos portugueses com as missões militares e religiosas, este local era habitado pelos índios Potiguara, segundo o relato de antigos navegadores.  Em 1607, os padres Jesuítas Francisco Pinto e Luís Figueira, durante a jornada no Ceará rumo ao Maranhão, mantiveram contatos com os Potiguara e nomearam o local onde este tinham suas habitações, como  São Sebastião da Paupina.
Em 18 de março de 1663, o nome foi oficializado e a então aldeia Potiguara passou a ser a Aldeia de São Sebastião da Paupina.

Um dos principais marcos de Messejana  é sua centenária Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, ao redor da qual Messejana cresceu. Foto da década de 1920 (arquivo Nirez)

Os Jesuítas foram os responsáveis pela urbanização de Messejana. Construíram a primeira capela neste local, que em 1° de outubro de 1871 foi elevada de paróquia à igreja. A base da atual Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição foi feita sobre a base da 1ª fase iniciada em 1760 e concluída em 1873.

Em 1750, Sebastião José de Carvalho e Melo, o marquês de Pombal, assumiu o posto de primeiro-ministro do reino português. Entre as medidas adotadas nesse período estava a lei de 1758, que retirava os indígenas do controle dos padres jesuítas. Desse modo, os padres foram expulsos, os aldeamentos foram extintos, e os aglomerados humanos se tornaram vilas. Daí Caucaia virou a Vila Nova de Soure, Parangaba, vila Nova de Arronches e Paupina passou a ser, a partir de 1° de janeiro de 1760, a Vila Nova de Messejana.

Nos séculos XVII, Messejana viveu de progresso e teve uma importante função econômica dentro do Ceará, pois serviu de via de seu escoamento de gado na época da carne de sol e charque. Deste período ainda existem vestígios da Estrada Parangaba-Messejana, e a Estrada do Fio

trecho da antiga estrada de Messejana, na foto, a primeira ponte, que ficava na altura do Makro. Todas essas carnaubeiras foram sacrificadas. (Arquivo Nirez)

Mais tarde no século XIX, esta foi uma das vias de escoamento do algodão vindo das regiões Jaguaribana e Sertão do Central, que foi exportado via Porto de Fortaleza.
No ano de 1839, Messejana  foi  incorporada ao  território de  Fortaleza, pela  Lei nº 188, de dezembro de 1839, sob ordem do então Presidente da Província, João Facundo de Castro Menezes (Major Facundo), perdendo, assim, a sua autonomia e parte de seu território.  
Em 1878, passados 30 anos de município extinto, Messejana volta a gozar das prerrogativas de outrora como vila e município.


Messejana na década de 1920, local com várzeas e áreas alagadas, onde eram realizados muitos passeios e piqueniques. (arquivo Museu da imagem e do som)

Em 1921 por ato do então governador do Ceará Justiniano de Serpa (1920-1923),  Messejana (assim como Parangaba), foi  novamente rebaixada de município para distrito, sendo anexado à Fortaleza. Em 1938 foi  elevada a Distrito.  
  
A partir da criação da região metropolitana de Fortaleza, em 1973, Messejana tornou-se área urbana, fortemente ligada à dinâmica da Capital.
A principal referência do bairro é a Lagoa da Messejana, onde há uma estátua representando a índia Iracema, da obra de José de Alencar. Outros lugares e instituições referenciais do bairro são: o Hospital de Messejana (construído em 1930, projeto do arquiteto Emílio Hinko), que recebe pacientes de todo o Ceará.

Lagoa de Messejana, a principal referência local

Atualmente, Messejana se configura como área de intensa expansão da Capital, fato evidenciado pelo aumento considerável de empreendimentos imobiliários e empresas que estão buscando o Distrito para alocar investimentos. Esta expansão é viabilizada pela abertura e melhoria de estradas, como a BR 116 e CE 040. 

A casa de José de Alencar ainda não tinha sido definida como o local onde ele nasceu e ainda existia a casa grande, quando uma comissão da Prefeitura com membros do Instituto do Ceará ali estiveram, ocasião em que foi decidida a derrubada da casa grande. (foto do Arquivo Nirez) 

ruínas do primeiro engenho de cana, no sitio Alagadiço Novo, hoje pertencente a Universidade Federal do Ceará.
  
Entre as famílias ilustres de Messejana, destaca-se a família Alencar. O primeiro engenho de cana a vapor do Estado foi construído em 1836, pelo então Presidente da Província, José Martiniano de Alencar. O engenho foi construído em terreno por trás da casa onde vivia a família, no sítio Alagadiço Novo em Messejana.

A presença da igreja Católica sempre foi forte em Messejana, vila urbanizada pelos padres jesuítas. Essa presença ainda é notável no local. Na foto, o Convento das Irmãs Missionárias Capuchinhas. 

pesquisa:
Wikipédia
Messejana da Educação: a ação educacional da igreja católica na produção espacial (século XX), de Katiane Maciel Pereira (Dissertação de mestrado em geografia, da Universidade Estadual do Ceará – UECE).