segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Origens do Passeio Público - Parte II (Final)

O Passeio Público de Fortaleza

Nas cidades do Brasil Imperial, por imitação da Corte fluminense,  surgiram novas e amplas áreas arborizadas e ajardinadas, oferecidas ao público e fruídas por uma população avidamente voltada à aquisição de hábitos ditos civilizados, permeados com modos de comportamento de viés romântico.

Em razão da dimensão dos espaços requeridos para execução desses projetos paisagísticos, os passeios ou jardins públicos nasceram da intervenção física ou da recomposição ambiental de áreas urbanas, então sem interesse de uso.



Os três Planos do Passeio Público: Avenida Mororó, Avenida Carapinima e Avenida Caio Prado. 1908 

O Passeio Público de Fortaleza passou por esse tipo de critério, pois, em sua origem, não passava de um vasto areal em rampa, que descia da Rua da Misericórdia (Dr. João Moreira)  até a praia, então ainda próxima. Mantivera-se inóspito durante longo tempo por temor de explosões, pois a área fora ocupada pelo paiol da pólvora da fortaleza da Assunção, até quando este foi removido para o alto do morro do Croatá.

Quem primeiro idealizou construir o Passeio Público naquele local, foi o presidente da província, Dr. Fausto Augusto de Aguiar (1848-1850). Em  relatório que apresentou à Assembleia Provincial em 1850, assinalava que tinha como obra necessária a construção de uma muralha que, estendendo-se em frente do largo do paiol, desde a ponta da fortaleza (Quartel da 10ª. RM), até o lugar onde se achava edificado o hospital da caridade (Santa Casa de  Misericórdia), pudesse embargar o desmoronamento do morro, que se continuasse gradualmente como vinha ocorrendo, abreviaria o largo e ameaçaria o hospital.
E que sendo ajardinado, se tornaria um belo passeio público. Até 1861, porém, nada se fez a respeito.
Em 11 de junho daquele ano o vereador Fidelis Barroso apresentou à câmara, um requerimento no qual alertava para a necessidade de se urbanizar o espaço entre o Hospital da Santa Casa e o terreno  entre as duas travessas que desciam para a praia, bem como a feitura de rampas e calçamento destas.

O requerimento foi aprovado, mas esse projeto também não se concretizou.  Mais tarde um novo requerimento foi apresentado, onde era solicitado o nivelamento do largo e a construção de um paredão tendo como parametros a quina da fortaleza à quina da Santa Casa.

Vênus e o Cupido - 1908
Apesar de estar sempre figurando nas atas da Câmara, não havia andamento nas propostas, parecia que não havia interesse no assunto.  Assim, é que, para surpresa dos estudiosos do assunto,  em ata de 18 de fevereiro de 1864, aparece referências às obras já  realizadas, constando de um belo passeio e jardim público na praça entre o quartel e o hospital da caridade.

No relatório do presidente Lafaiete Rodrigues Pereira, no ano de 1866, se constata que a confecção dos portões e do gradil de ferro que cerca o passeio, foram contratadas com o ferreiro alemão Henrique Erich pela quantia de 9.500$000. A medida era necessária para se manter a arborização do parque e para defender da ação de animais soltos.   Em abril de 1877, na ata do dia 6, ficou acertado que o logradouro ficaria a cargo do município.

Avenida Caio Prado em 1905 (nirez)

A arborização do Passeio, providenciada na época e favorecendo espécies da flora local ou adaptada, deveu-se a um certo Barbosa, Engenheiro da Província.  Assim, tudo leva a crer que, nesse período, na parte mais alta, já consolidada, foi plantado pelo Senador Pompeu o sesquicentenário baobá do Passeio, com muda talvez vinda do Recife, onde já floresciam  inúmeros espécimes trazidos da África.

E vão surgindo, pouco a pouco os diversos melhoramentos. Assim é que foi construída uma cacimba no terceiro plano. Logo depois vem o encanamento de gás para o botequim ali existente. Em fevereiro de 1881 é autorizado o pagamento 303$340 a Boris Fréres pela compra de duas estátuas para o Passeio Público.

Quiosque instalado no centro do Passeio Público, onde estava instalado o Café Caio Prado (nirez)

Previsto inicialmente para se desenvolver em  dois planos, a demora das obras redundou em um projeto paisagístico composto por três patamares,  popularmente conhecidos por planos.

O primeiro Plano, em posição elevada, na cota dos 17 metros sobre o nível do mar, densamente arborizado e iluminado a gás hidrogenado, estendia-se (e ainda se estende) da Rua da Misericórdia (Dr. João Moreira) até o novo muro de arrimo, transformado em alameda de onde se descortinava esplêndida vista do mar.

O 2° Plano, situado uns seis metros mais baixo, podia ser divisado do alto do guarda-corpo da esplanada superior.

Escadaria do 2° Plano - 1908 (Nirez)

No 3º Plano, ainda mais abaixo, um pouco acima do nível do mar, foi escavado um lago artificial alimentado pelas águas do riacho Pajeú.  As margens do lago eram revestidas de pedra  vinda do Mucuripe; e bem ao centro, sobre uma coluna destas pedras, de  tridente em punho, uma estátua de Netuno olhava e dominava o oceano.

As escadas do segundo e terceiro planos foram mandadas construir por Alexandre Beviláqua por 550$500. A enorme estátua de netuno colocada no terceiro plano, custos a importância de 606$000.

Caixa d'água do Passeio Público - 1908

Por proposta do vereador Antônio Olegário dos Santos a Câmara denominou o primeiro plano de Tito Rocha; o segundo – Rocha Lima e o terceiro – Mártires. Em sessão de 19 de novembro de 1890, foi autorizada a aquisição de bancos para o local.  A Joaquim Felício de Oliveira foi paga a importância de 200$000 pela aquisição de 11 jarros.

Por proposta do vereador João Eduardo Torres, em 11 de janeiro de 1879 foi aprovada a denominação de Praça dos Mártires, em memória dos cidadãos que ali foram sacrificados, mudando consequentemente os nomes da avenidas que passaram a ostentar os nomes do revolucionários mortos.  
Finalmente a 5 de junho de 1880, entre festas, ao som de bandas de música, teve solene inauguração o primeiro plano.

Estátua de Ceres (desaparecida) 1908

A Avenida Caio Prado foi inaugurada também sob festa, em 09 de julho de 1888. A ligação das Avenidas Caio Prado e Mororó, transformadas em uma aleia única, foi realizada na gestão do prefeito Godofredo Maciel  (1920-1920 e 1924-1928)  
O Passeio Público foi sempre, em todos os tempos, o logradouro predileto da cidade. Devido a sua esplêndida localização, de frente ao mar, as famílias se reunião ali antigamente, para a prosa de todas as noites.
Muitas, numerosas e concorridas quermesses de caridade foram ali realizadas, em épocas diversas, com êxito fora do comum. Várias gerações de namorados, se conheceram, encontraram e ajustaram casamentos nas alamedas silenciosas da Caio Prado, ao embalo das ondas da Praia Formosa.

Pesquisa:
Coisas que o tempo levou – crônicas históricas da Fortaleza antiga, de Raimundo Menezes.
Passeio Público, espaços, estatuária e lazer, de José Liberal de Castro. Revista do Instituto do Ceará.  
http://www.passeiopublico.com/htm/sec21-04.asp
wikipédia
fotos do passeio público:
Passeio Público, espaços, estatuária e lazer, de José Liberal de Castro

3 comentários:

Anônimo disse...

axei linda a sua pesquisa. parabéns

Fátima Garcia disse...

obrigada Anônimo. Volte sempre.

Abner Farias disse...

O passeio público é um lugar muito harmônico, adorei sua matéria parabéns.