sábado, 22 de janeiro de 2011

Pequenos Detalhes da Época de Ouro do Rádio

Na chamada era de ouro do rádio cearense, tudo era realizado com muito esmero e eram observados pequenos detalhes que faziam parte da rotina da programação e das emissoras.
Entre esses detalhes havia os gongos, que serviam para separar os programas ou as sequências de um mesmo programa, ou ainda para dividir as diversas etapas dos noticiários. Outro detalhe era a música de transição, uma espécie de prefixo musical que era utilizado para preencher os espaços vagos nas programações. 
Se um programa musical terminasse antes da hora de inicio da próxima atração, o espaço de segundos ou minutos era preenchido com a música de transição, sempre a mesma melodia em cada emissora. 
Edificio Pajeú, onde passou a funcionar a Ceará Rádio Clube a partir de 1949, na Rua Sena Madureira (arquivo Nirez)
Na Ceará Rádio Clube, a música usada era o Intermezzo, trecho da ópera L’Amico Fritz, de Mascagni
Outro detalhe de importância, era o repertório do programa Audições A Cearense, apresentado pela Ceará Rádio Clube, na hora do almoço, uma criteriosa seleção de músicas clássicas. 
Também de músicas eruditas era o programa semanal noturno Orquestra de Concertos, no chamado horário nobre. A regência da orquestra ficava a cargo do maestro Mozart Brandão, que mais tarde de firmaria no Rio de Janeiro, como um dos maiores arranjadores do Brasil.
Maria de Lourdes Gondim, grande pianista, abrilhantava as noites da PRE-9 com um recital de clássicos (arquivo Marciano Lopes)
Semanalmente havia também na Ceará Rádio clube, o recital de piano de Maria de Lourdes Gondim, um recital noturno com a cantoria Zuila Aquiles, que fazia um estilo musical parecido com a cantora Elizeth Cardoso.  
Zuila Aquiles - antes de integrar o elenco da Ceará Rádio Clube, a cantora foi da Rádio Iracema (arquivo Marciano Lopes)
Zuila raramente se apresentava em programas de auditório, mas tinha público cativo nas suas apresentações de estúdio.
A sede da Rádio Uirapuru, com sua curiosa fachada reproduzindo um rádio de válvulas, chamou a atenção da cidade enquanto a emissora funcionou no velho casarão adpatado da Praça Clóvis Beviláqua, esquina das ruas Clarindo de Queiroz e General Sampaio. Era um rádio com todos os seus detalhes: os botões foram adaptados das entradas de luz do porão da casa; o dial era um enorme painel envidraçado, com números, prefixos e ponteiro, servia também para deixar passar a luz natural para a sala de diretoria.
o prédio onde funcionou a Rádio Uirapuru representava um rádio com todos os detalhes (arquivo Nirez)
Com o advento da revista Folha do Rádio, passou a existir concorrência entre artistas e emissoras, que passaram a cuidar mais da imagem, dos palcos, dos programas de auditório, da programação, e de suas atividades normais. 
Os artistas estavam sempre elegantes, bem vestidos e bem cuidados. O comportamento social também passou por transformações significativas, pois a revista de Neusa e Ciro Colares tinha seus olheiros que registravam tudo, elaborando até listas anuais de elegantes. Foi também a Folha do Rádio que criou ainda que involuntariamente, a idéia do mito, do estrelismo. E todos passaram a se auto-valorizar, cada qual querendo aparecer mais e melhor.   
Nascia a fase de estrelato do rádio cearense, dos artistas da terra. Paralelamente aos cuidados com a aparência e a elegância, os artistas procuravam se aperfeiçoar profissionalmente, de especializar-se em sua área, de serem melhores a cada performance. 
O rádio feito no Ceará, nas décadas de 1940/ 50, tinha o glamour que naqueles tempos coroava todos os acontecimentos relacionados com a arte.
E se o rádio não tinha o recurso da imagem, como o tinham o cinema e a televisão, por outro lado, havia o fascínio e o mistério daquilo que não se vê, só ouve, pois o raciocínio e a imaginação se encarregavam de fazer o que faltava: criar as imagens dos personagens, construir os cenários, imaginar cores e formas.  
O rádio era puro glamour. Do período mais glamoroso que o mundo já viveu.   
  
fonte:
Coisas que o Tempo Levou: a era do rádio no Ceará, de Marciano Lopes

Um comentário:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Subí incontáveis vezes o Edifício Pajeú, para assistir aos programas de auditório, animados pelo Augusto Borges. O elevador era daqueles abertos, tipo grades,de metal dourado,pequeno, que fazia grande barulho, ao fechar e abrir a porta.Ás vezes ia lá com meu irmão Carlos Paiva, que foi radialista/redator.
Lembro-me quando surgiu a Uirapurú, com sua fachada feito os rádios da época....o lá de casa era bem parecido, eu achava interessante. Entrei algumas vezes lá, com o meu irmão, redator, e minha culhada Eliete Regina, que foi locutora e radio-atriz.
Adorava entrar no stúdio e assistir "ao vivo" aos programas.
Lá em casa sempre tinha a revista Folha do Rádio, que punha a gente à par da vida e obra dos radialistas.
Tudo isso, ficou na saudade!

Obrigada, Fátima, por "trazer" de volta fotos e fatos tão importantes!