segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Os Bondes Elétricos em Fortaleza

Bonde que fazia a linha Outeiro parado na Rua Floriano Peixoto (Arquivo Nirez)
Os bondes elétricos começaram a circular em Fortaleza em no dia 9 de outubro de 1913, em substituição aos bondes puxados por burros. Mas os bondes de tração animal ficariam ainda por algum tempo, administrados também pela nova concessionária do serviço, a Ceará Tramway Light & Power Co, com sede em Londres.
O lançamento da pedra fundamental da usina e casa das máquinas ocorrera no ano anterior, em 1912. A Usina ficava no Passeio Público, enquanto que a Estação Central era no calçamento de Messejana, depois Boulevard Visconde do Rio Branco.
Havia bondes de “tostão” e de “dois tostões”, isto é, de cem e de duzentos Réis, que eram identificados pela cor. O de segunda classe era prateado e o de primeira classe era pintado de verde.
Os cupons das passagens destacados pelos cobradores, à vista dos passageiros, eram a estes entregues por que valiam a centésima parte de seu preço, desde que resgatados em favor de associações de caridade, como a Santa Casa, o Leprosário, o Asilo de Alienados.
Os bondes eram construídos de ferro e madeira, não tinham frente nem costas, sendo rigorosamente iguais tanto de um lado como do outro, uma vez que os dois extremos possuíam dispositivos que os faziam funcionar.
Isto porque, quase sempre, os bondes faziam seus retornos nas paradas finais sobre os mesmos trilhos, não sendo necessário fazer manobras. Apenas o motorneiro mudava de posto, o condutor virava a posição da lança, e os passageiros giravam os bancos que viravam de frente.
Os veículos possuíam estribos laterais, espécie de degraus de madeira que serviam de acesso ao seus interior e, mais ainda, para abrigar os caroneiros, aqueles que não queriam ou não podiam pagar a passagem.
Viajavam ali, em pé, agarrados aos suportes, inclusive com risco de vida, porque uma queda seria fatal. Motorneiro e condutor usavam uma farda tipo militar e boné com logotipo da empresa que explorava o serviço.
Como eram abertos nas laterais, os bondes possuíam cortinas de lona listrada, que eram acionadas pelos próprios passageiros conforme suas necessidades. Também só podiam circular sobre os trilhos e era uma só linha em cada via, não sendo possível uma linha paralela.
No dia 19 de maio de 1947 circulou o último bonde elétrico em Fortaleza.
Era o fim de 34 anos de funcionamento de bondes elétricos e 67 anos de bondes em geral. Os trilhos começaram a ser retirados em novembro de 1948.
A foto de 1930 mostra um bonde elétrico perto da Praça do Ferreira, na rua Pedro Borges esquina com Floriano Peixoto, em Frente à Mercearia Leão do Sul (foto reprodução)
O Bonde Elétrico n° 13
Por volta do ano de 1917 conta o escritor Otacílio de Azevedo, ele era empregado da Ceará Tramway Ligth & Power, onde havia na frota um veículo de número 13. Era crença geral que nunca esse bonde saía sem que ocorresse um desastre qualquer: um impacto, um abalroamento, um descarrilamento, atropelamento de animais, incêndio do motor, afora outros problemas menores.
A má fama do bonde foi se espalhando e chegou um tempo em que os passageiros começaram a evitá-lo. Sua renda já não dava mais nem para pagar ao condutor.
O número 13 era fatídico – diziam. Não era de admirar que o bonde fosse azarento.
Quando nas oficinas, chegava um comunicado urgente sobre um bonde que havia abalroado com outro, descarrilado ou qualquer outro problema, os operários se entreolhavam desconfiados e apostavam: “foi o número treze”. E era mesmo. E lá se iam os operários, sujos de graxa, carregando alavancas, macacos, ferramentas, rogando pragas ao malfadado bonde, a atender o chamado.
Ao constatar que, de fato, lá estava o número treze, abandonado e quebrado, rugiam entre dentes: “se esta companhia fosse minha, eu mandaria mudar este amaldiçoado treze ou atirar este bonde na estufa ate que ele criasse vergonha...”.
A história acabou chegando aos ouvidos de E.M.O. Ecott, o presidente da companhia, que convocou uma mesa redonda para discutir o assunto. A votação entre os diretores foi de três a um – vencendo a proposta de que o bonde deveria ser retirado de circulação. O voto contrário foi de Mr. Simpson, que achou que aquilo era uma grande tolice, uma lástima. O que havia, segundo o diretor, era desleixo dos condutores e operários.
Um dia o Otacílio foi chamado pelo gerente, e lhe orientou que mudasse o número do bonde 13 para 31. Antes, porém, fizesse um croqui do novo número, pois teria que ficar exatamente igual aos outros. O esboço feito agradou aos ingleses e a troca de número foi efetuada.
A partir daquele dia não aconteceu mais nenhum incidente, nenhuma reclamação sobre o veículo. O bonde 31, enfileirado ao lado dos outros, teve um vida longa e tranqüila.

Fontes:
AZEVEDO, Otacílio. Fortaleza Descalça. Reminiscências. Fortaleza: edições UFC/PMF, 1980.
AZEVEDO, Miguel Ângelo. Cronologia Ilustrada de Fortaleza: roteiro para um turismo histórico e cultural. Fortaleza: Banco do Nordeste, 2001.
LOPES, Marciano. Royal Briar: A Fortaleza dos anos 40, 4 ed. Fortaleza: ABC Coleção Nostalgia, 1996.

5 comentários:

Anônimo disse...

Nasci no Outeiro, na Rua 25 de Março, ao lado do Colégio Justiniano de Serpa. Em 1947, quando circulou o último bonde, eu tinha quase cinco anos.
Sei que andei de bonde, porque minha mãe dizia que sim. E´claro que eu acredito. Mas não me lembrro.
Muitos trilhos, ainda permaneceram por muitos anos. Dos trilhos, eu me lembro..rsrsrs!!!

Andei de bonde, em Santa Tereza(RJ) e em Lisboa(Portugal). É muito "gostoso"!!!!

Legal, Fátima, relembrar os bondes!
Beijos!

Fátima Garcia disse...

O bonde de Santa Tereza no RJ é a prova que os bondes poderiam ter sido preservados no cenário de Fortaleza, pelo menos em alguns trechos. Em algumas ruas de Fortaleza, (acho que vi na Parangaba), ainda tem trilhos dos antigos bondes.

milton disse...

Nos anos 80 em Salvador e mesmo Aracaju estava um plano fortíssimo de retorno dos bondes, só q bondes modernos, fechado. Em Salvador ainda se construiu obras como estacionamento em forma de galpões, o bonde entrava num extremo e saia no outro. Se estivesse chuvendo, o passageiro não se molhava nessas estações. Mas, hove um porem: os protestos popular foi fortíssimo e ferrenho mesmo e p,ra valer, pois nas épocas dos bondes circulando nas cidades não existia esse trânsito empestado de carros pior q formiga de roça e colisões cotidiana e diáia. E com bonde pode haver o q? Era essa a reação popular e foi suspenso o projeto.

Fátima Garcia disse...

Olá Milton,
e assim fica o trânsito das grandes cidades: caótico e sem solução. Em Fortaleza, estamos à beira do caos

Agnes Varraschim Rocha disse...

Olá boa tarde queria saber quais eram as atividades realizadas por um condutor de bondes puxados a burro? Em que essas atividades são semelhantes às realizadas por um condutor


É preciso que vcs me respondem hoje pq é lição de casa e toda quarta tenho História e Geografia pfv agradeço