segunda-feira, 5 de março de 2012

O Retorno da Democracia e a Gestão Maria Luiza Fontenele



No dia 15 de novembro de 1985 o Brasil entrou numa nova era política: os municípios voltam a eleger diretamente os prefeitos municipais. Em Fortaleza, a nova fase política também marcou uma das maiores surpresas políticas da história da cidade – a eleição de Maria Luiza Fontenele, do Partido dos Trabalhadores.
A campanha da socióloga, que exercia o segundo mandato de deputada estadual foi vitoriosa em cima dos favoritos Paes de Andrade (PMDB) e Lúcio Alcântara (PFL), que eram considerados os polarizadores da disputa. A chegada de Maria Luiza à prefeitura foi uma aposta da população, que preteriu os políticos tradicionais e velhos conhecidos  em favor de uma nova administração, na expectativa de melhores condições de vida, trabalho e participação política, conforme pregava a doutrina petista. Foi a primeira vez que uma mulher ocupou o cargo.
As pesquisas divulgadas antes da eleição apontavam vitória folgada de Paes de Andrade (PMDB), com quase o dobro das intenções de votos dos concorrentes. Maria Luiza era apenas a terceira, atrás do candidato Lúcio Alcântara. Contrariando as estatísticas, a cidade vivia o clima da vitória da candidata petista. Foi o que aconteceu. Como não havia ainda segundo turno, Maria tornou-se prefeita com a preferência de cerca de um terço do eleitorado.
A então prefeita Maria Luiza num encontro com a militância 

A administração Maria Luiza teve forte traço popular, com instituição de fóruns de decisão dos projetos governamentais, os chamados Conselhos Populares. Através desse mecanismo, a população tinha acesso direto aos centros de decisão da prefeitura. Também foram implantados os Conselhos de Bairros e de associações populares.
A iniciativa da prefeita  enfrentou forte oposição da Câmara Municipal, os vereadores alegavam que os Conselhos interferiam nas atribuições do legislativo. O descontentamento dos vereadores, aliado a problemas administrativos, encontrou apoio na classe média da época.

Fortaleza anos 1980

Com dois meses de gestão, ocorreu a primeira greve de servidores. Só de motoristas de ônibus, foram sete. As greves também pararam o IJF, chegando a provocar mortes por falta de atendimento. Os garis paralisaram as atividades quatro vezes. Como causa da maioria, a falta de pagamento de salários. No segundo ano de gestão, a prefeita decreta emergência.
Os problemas enfrentados pela prefeita foram de toda ordem, com destaque para o déficit habitacional do município. Não raras vezes os terrenos da cidade, públicos e privados eram ocupados, com a conivência e incentivo da prefeitura. Com problemas financeiros, a administração popular atrasou por vários meses o baixo salário dos servidores públicos, praticamente paralisando a gestão. Juntou-se a isso o desgaste das relações políticas dentro do Partido dos Trabalhadores e a resistência de setores da população, contrários ao modelo de gestão petista.

Avenida Beira Mar na década de 1980

As montanhas de lixo espalhadas pela cidade passou para a posteridade como a melancólica marca da administração Maria Luiza Fontenele.
Ainda mais crítica era a situação política de Maria Luiza. Em 1987, o PT rompeu com a administração, expulsou a prefeita e os cargos do partido na Prefeitura foram entregues. Na Câmara, os vereadores a ameaçavam de impeachment por falta de repasses de verbas. Em 1988, o PT lançou a candidatura de Mário Mamede. Maria apoiou Dalton Rosado, do Partido Humanista (PH). Foi eleito Ciro Gomes, então no PMDB. Foi o triste fim da conturbada administração popular em Fortaleza.

Fonte
Revista Fortaleza, fascículo 4
Jornal O Povo

4 comentários:

Francemarie Teodosio disse...

É como foi citado, a construção dos Conselhos foi iniciativa da Gestão Popular, e estão até hoje sendo utilizados como instrumento de luta do Controle Social, só isso já é o suficiente para parabenizar a gestão, Maria Luiza, que lutou também pela municipalização e construção do SUS.

Fátima Garcia disse...

olá Francemarie,
acho que a gestão Maria Luiza Fontenele teve erros e acertos, além de muito boicote por parte do governo do Estado. Só não entendo porque ela abandonou a vida pública.

Moni Saraiva disse...

Olá Fátima!
Muito bom encontrar a sua página, há dados muito relevantes para a minha pesquisa, fico agradecida.
Gostaria de saber se tenho como encontrar essa "Revista Fortaleza" na internet. Já dei busca e não consegui.
Abraços,
Monica Saraiva
monisaraiva@gmail.com

Fátima Garcia disse...

Olá Moni Saraiva,
a Revista Fortaleza foi um encarte que saiu no Jornal o Povo, em 2006, entre abril e junho, que era alusivo ao aniversário da cidade naquele ano. De fato nunca vi na NET, mas acho que o jornal O Povo deve ter os exemplares (12 no total)
abs