segunda-feira, 19 de março de 2012

Fortaleza de Outrora Parte 2/2 - Final

Rescaldo – O que sobrou da Guerra do Progresso (por Marciano Lopes)
continuação ...


Cadê a querida PRE-9 e a sua sobriedade de grande estação de rádio, com seus excelentes locutores, seu “regional”, seu radio teatro e suas novelas tão palpitantes? Cadê Tânia Maria, Vera Lúcia, Terezinha Holanda, as irmãs Sousa Moura? O que foi feito de Tereza Moura e do Magalhães que selecionavam os discos de cera para as programações musicais? Parece que tudo virou silêncio.


Discoteca da Ceará Rádio Clube, no Edifício Diogo. Milhares de discos de cera, cuidadosamente guardados em estantes envidraçadas. Parecia um santuário, sob os cuidados de Gerardo Barbosa e Tereza Moura (foto Marciano Lopes)
  
Não se escuta mais o vozeirão de Cabral de Araújo, nem a sonoríssima voz de Manuelito Eduardo, nem a notícia na voz de Aderson Brás, nem a voz pautada de Mozart Marinho. Por que João Ramos não voltará a “amar” Laura Santos? Talvez porque José Limaverde passou a fazer parte das “Coisas que o Tempo Levou”...
Por que retiraram das portas das casas as tabuletas anunciando que ali se faziam “ponto a jour”, “passa-se ponto cairel”, “cobrem-se botões” porque as roupinhas das crianças não tem mais “ponto picot”?

 Irmas vocalistas Cleide e Adamir Sousa Moura, do cast da Ceará Rádio Clube (acervo Marciano Lopes) 
                                                                                                                                             
Por que as famílias não mais se visitam, como antigamente faziam? E era tão bonito, tão humano, tão família. Eram aquelas visitas de tantas saudades, os pontos de união entre as pessoas. Já se sabia: em determinado dia, melhor dizendo, em determinada noite da semana, era a vez de fulano e sua família. E todos eram bem recebidos, as mulheres formavam um grupo onde as conversas giravam sobre as amenidades do dia a dia no lar, os estudos das crianças, a moda, algum disse-que-disse. Os homens formavam outro grupo, falavam de política, da Constituição, do governo Vargas, da guerra e suas sequelas. As crianças brincavam, corriam, cantavam, formavam rodas de ciranda nas calçadas, as meninas mostravam as novas bonecas, “arrumavam a casa para receber as visitas”. Depois, todos em volta da mesa comiam bolos e sequilhos, tomavam café ou licores. 
A televisão e o crescimento da cidade aumentaram as distâncias e separaram as pessoas. Ninguém mais se visita, até mesmo entre familiares o isolamento aconteceu. Todos vivem suas próprias vidas. Cada casa é um gueto.
Por que não mais se escutam os “cantos” dos vendedores de ruas? Por que os supermercados acabaram com as mercearias e bodegas, pontos de aproximação das donas-de-casa, de aconchego entre as pessoas, de momentos de humor entre os merceeiros e os fregueses? Cadê o sorveteiro, o aguadeiro, o padeiro, o leiteiro, o gazeteiro, o figueiro, o verdureiro? Os pregões silenciaram e deixaram com seu silêncio uma lacuna e uma grande nostalgia. No balanço final, a gente constata entristecido que, pouco restou.
de todas as farmácias citadas, a única que permanece no centro é a Oswaldo Cruz (foto Fátima Garcia)

Das tantas farmácias, só ficaram a Pharmácia e Drogaria Oswaldo Cruz, a Farmácia Theodorico, a mais antiga de Fortaleza, a Farmácia Motta, a Farmácia Arthur de Carvalho, na esquina da Avenida Visconde de Cauípe com a Rua Padre Francisco Pinto, no Benfica, e a Farmácia e Drogaria Pasteur, esta última, ocupando prédio pequeno e sem “it”, bem diferente da bonita sede da Praça do Ferreira. 
Na Rua Liberato Barroso, entre as Ruas Barão do Rio Branco e Floriano Peixoto, pululavam os armarinhos. Restaram apenas “A Samaritana”, “A Rendeira” e a “Casa Osmar”.
Das tantas garapeiras do centro, só ficou a Leão do Sul e o Engenho Coração de Jesus. Das sapatarias, só restaram a “Sapataria Belém”, agora compreendendo uma cadeia de bonitas lojas. “Esquisita”, também com cadeia de lojas, inclusive em outras capitais do Nordeste; “Casa Pio”, também dinamizada com diversas lojas muito bem instaladas.


de todas as garapeiras do centro, a única que continua funcionando é a Leão do Sul (foto Fátima Garcia)

Das lojas de fazendas, só ficou a Casa Blanca, que cresceu e instalou outras unidades, construiu moderno shopping center e explora outras atividades comerciais. Das grandes lojas só a Casa Parente sobreviveu, com sua sede melhorada e ampliada, ocupando todo o edifício Parente e instalando lojas em shoppings. De tantas camisarias e lojas de moda masculina, apenas a Casa Bicho e a Casa Americana restaram...


A casa Bicho e a casa Americana ainda estão do centro. A Casa Parente só existe em shoppings (foto da portaria do antigo Excelsior Hotel por Fátima Garcia)

Dos estabelecimentos fotográficos, só restou a sofisticada Aba-Film, que a gente se orgulhava de ser o maior estabelecimento fotográfico da América do sul. Também se desenvolveu e conta várias unidades em Fortaleza e outras cidades.

foto do arquivo Nirez
A Aba Film, o estabelecimento fotográfico que possuía filiais em várias cidades, também não resistiu e encerrou suas atividades. (foto de Fátima Garcia) 

De tantas alfaiatarias que tinham seu foco na Rua Guilherme Rocha, entre as Ruas Barão do Rio Branco e General Sampaio, só restou a Casa Belo Horizonte, que sempre manteve um aspecto diferente. De sua antiga sede, na Rua Floriano Peixoto, mudou-se para a Rua Major Facundo, com seus mostruários de tecidos finos e s o seu serviço impecável.
Das vidraçarias e casas de molduras, só tem agora, O Epitácio e a Moldura Elegante. Das tantas livrarias, pontos de intelectuais da cidade, nada restou.
Destruíram quase tudo. Nos espaços que ficaram vazios, uma grande e imorredoura saudade. Nos espaços ocupados pela irreverência, pelo desamor, pelo descaso, pelo atentado à estética, a minha revolta pelo desrespeito àqueles que, décadas atrás, tiveram visão para querer fazer de Fortaleza, uma cidade aristocrática e bela.
       
fontes:
Royal Briar - a Fortaleza dos anos 40, de Marciano Lopes
Cronologia lustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo
Wikipédia

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