quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O Governo Pedro Borges (1900 – 1904)


Pedro Augusto Borges nasceu em 29 de abril de 1851, em Fortaleza, filho do coronel  Vitoriano Augusto Borges e Umbelina Rocha Moreira. Formado em medicina pela Universidade da Bahia, participou das tentativas de erradicação das epidemias provocadas pelas grandes secas de 1877-1879. Médico do Exército, alcançou o posto de general-de-divisão. Na juventude defendeu o abolicionismo e foi desterrado na Colônia Chopin, no extremo norte. Faleceu em 12 de setembro de 1922, no Rio de janeiro.

Eleito deputado federal por duas legislaturas (1894/1897), Pedro Augusto Borges foi indicado candidato ao governo do Estado pelo Ministro da Fazenda Joaquim Murtinho.  Sob a sigla do Partido Republicano, compôs sua chapa ao lado de Nogueira Accioly – 1° vice-presidente, coronel Salustiano Moreira da Costa Marinho – 2° vice-presidente e coronel José Belém de Figueiredo – 3° vice-presidente. 

Em 12 de julho de 1900, assumiu a presidência do Ceará e em outubro do mesmo ano, renunciou ao mandado na Câmara Federal. Nogueira Accioly assumiu o mandato em seu lugar.

A administração Pedro Borges nasceu sob o signo da oligarquia comandada por Accioly. O vínculo político que o mantinha ligado ao Dr. Nogueira Accioly fez de sua administração um elo partidário ligado a corrente que estagnou o Ceará por longo período, uma continuação da administração de Accioly. Quase nada ficou registrado em termos de realização.

Praça General Tibúrcio tendo ao fundo o Palácio da Luz e a Igreja do Rosário (arquivo Ah, Fortaleza!)

O primeiro problema sério enfrentado por Pedro Borges foi  a polêmica a respeito dos limites territoriais entre o Ceará e o Rio Grande do Norte, conhecida como a “Questão de Grossos”. Os limites dos dois estados eram regulados pela Carta Régia de 1793.  Mas muitos habitantes de Areias (região produtora de sal), dirigiram uma representação à Assembleia Nacional solicitando modificação dos limites. O Ceará levou o caso à justiça, aceitando depois uma composição, em março de 1902.

Pelo acordo, a área em litigio ficou com o Ceará, na conformidade do reconhecimento do conselheiro Lafayete Rodrigues Pereira.  Mas o Rio Grande do Norte recorreu da decisão  e em 30 de setembro de 1908, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa ao estado vizinho.

Até chegar a este resultado, o conflito evoluiu para uma quase guerra entre os dois estados. Em 1903 Pedro Borges enviou ao povoado de Grossos (área em litigio), localizado no Rio Mossoró, uma força militar a fim de acabar com alguns atos abusivos.  O governo do Rio Grande do Norte, em represália, mobilizou todo seu contingente militar. 

Diante da situação o governo do Ceará determinou que um batalhão de soldados estacionasse em Aracati,  caso fosse necessário o uso de força. Com a decisão do supremo, o Presidente da República determinou o fim da questão, ordenando a volta das tropas aos respectivos quartéis.  A polêmica foi motivada pela ação dos industriais de salinas do Rio Grande do Norte que avançaram as fronteiras até a povoação de Grossos, então pertencente ao Estado do Ceará.

O governo Pedro Borges enfrentou novo conflito em 3 de janeiro de 1904, desta vez em Fortaleza, onde os trabalhadores do cais do porto, se recusaram a participar de um sorteio para trabalho no mar, a serviço da Marinha.

O conflito teve inicio quando os catraieiros se recusaram a fazer os serviços de embarque e desembarque no navio Lóide, que tinha atracado naquela data. A polícia estadual, chamada pelo capitão do porto Lopes da Cruz, dirigiu-se até a praia. 

Havia no local grande número de pessoas, que acorreram ao porto para presenciar o movimento paredista, que tinha caráter pacifico. A certa altura, sem nenhum aviso prévio, sem motivação, a força armada disparou suas armas contra a multidão aglomerada no local. 

A revolta que tal ataque produziu na população foi indescritível. O comércio cerrou as portas durante três dias. O confronto armado partiu do ajudante de ordens do governador, capitão Raimundo Guilherme que se sentiu ofendido pelos insultos recebidos da multidão. Ele destacou alguns soldados e marchou contra os estivadores, estabelecendo-se o pânico.  
Foi o suficiente para que os demais soldados, sem comando, passassem a atirar a esmo, do que resultaram alguns mortos e muitos feridos. 

A multidão revoltada, levando nos braços o cadáver do comerciário Adelino Marques Dias, marchou em passeata até o Palácio da Luz, exigindo justiça e punição dos responsáveis.  Mas Pedro Borges apoiou a ação da polícia e mandou dispersar a manifestação pela força da cavalaria. 

Inconformados, os manifestantes se dirigiram à residência de João Brígido, jornalista de maior prestigio na época, denunciando os atos praticados com a conivência do governador.  João Brígido, que seguia  a mesma orientação política do governo, rompeu com Pedro Borges, passando para a oposição.

A indignação popular era tão grande que, no dia seguinte, quando o presidente do Estado tomou um bonde para a Praça do Ferreira, todos os passageiros desceram acintosamente, deixando que o veículo partisse com aquele único passageiro.

prédio da Assembléia Provincial que também sediou o Liceu do Ceará, a Faculdade de Direito, a Biblioteca Pública. Construído por Adolfo Herbster, foi concluído em 1871. Conhecido como Palácio Senador Alencar, abriga atualmente o Museu do Ceará.  Cartão Postal de 1907 (arquivo Nirez)

No governo de Pedro Borges  foi fundada a Faculdade Livre de Direito do Ceará, instalada inicialmente no Liceu do Ceará, em 1° de março de 1903. A primeira diretoria esteve a cargo de Nogueira Accioly.  
Pedro Borges deixou o governo do Ceará em 12 de julho de 1904, sem fazer jus ao seu passado, quando participava de memoráveis campanhas abolicionistas.



Fonte:
Rogaciano Leite Filho  


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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Parque Del Sol: parece mas não é











Há mais ou menos uns 6 ou 7 anos aquela área hoje chamada de Parque del Sol, no bairro Cidade dos Funcionários era uma praça pública, bastante movimentada. Lá eram realizadas feiras de artesanato nos finais de semana, num amplo espaço aberto que contava com bancos de madeira, grandes árvores, locais para estacionar e um riacho canalizado que cortava todo o logradouro. 

Nos dias de realização das feiras, o lugar era frequentado por milhares de pessoas,  inclusive muitas crianças que aproveitavam aquela excelente área de lazer. Um empreendimento imobiliário anunciava o lançamento de unidades residenciais que seriam construídas no entorno da valiosa área verde. 

Vejo agora, com muita surpresa, que a tal imobiliária anuncia a praça, que chamam de Parque del Sol (não sei se esse é o nome oficial do logradouro), como sendo área anexa ao loteamento, inclusive com portaria e cancelas, que não funcionavam no dia que fui lá bater essas fotos. Os anúncios dos apartamentos citam a área verde como prerrogativa dos condôminos que adquirirem imóveis da dita construtora/imobiliária. 

É bem verdade que a área não era assim tão bem cuidada, nem tão ajardinada, nem tão bonita, e é evidente que alguém está desembolsando recursos para sua manutenção. (basta passar o olhar pela cidade para ver que não é a prefeitura). 

Mas urbanizar um logradouro público não dá direito ao cuidador de se apossar nem de comercializar um espaço que pertence à cidade e a população.

Apesar de se querer passar a impressão de que se trata de área privativa, com a presença de muros e cancelas, o Parque Del Sol é área pública, até que se prove o contrário. Que não se enganem os compradores dos apartamentos. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Palácio do Bispo - entre a Igreja e o Estado

Não se sabe ao certo a data de construção do prédio, mas sabe-se que foi um dos primeiros casarões de Fortaleza do século XIX, e foi na primeira metade desse século que Fortaleza ganhou ares de cidade. 
 Palácio do Bispo depois da reforma feita por Mainha (imagem ofipro)
Ainda como colônia portuguesa, o comércio da vila se intensificava:  já chegavam navios da Europa, o primeiro mercado fora inaugurado, o primeiro chafariz fora construído. Um ano após a Independência do Brasil, em 1823, Fortaleza passou à condição de cidade, nomeada pelo Imperador Dom Pedro I de Fortaleza de Nova Bragança.

O edifício  da Rua São José era um armazém de alimentos de propriedade do Sargento-Mor e comerciante português Antônio Francisco da Silva, um ascendente da família Albano. O Barão de Aratanha, José Francisco da Silva Albano, e Ildefonso Albano, que foi prefeito de Fortaleza e governador do Ceará, são seus descendentes.

Dos Albano, o armazém passou para os Guimarães, outro poderoso clã da cidade.  No século XIX, a chácara dos Guimarães era um oásis à beira do Pajeú e ainda afastado do Centro da cidade, embora fosse perto da Catedral .
E foi essa proximidade com a Catedral o principal motivo que levou o Paço a mudar de dono mais uma vez. Em 1860, o prédio foi comprado pelo Governo Imperial para ser a sede do Bispado de Fortaleza.

 arquivo Nirez

À época, a Igreja Católica ainda era vinculada ao Estado.  Registros oficiais do Império datam de 21 de abril de 1860 a compra do imóvel  por escritura pública perante a Tesouraria da Fazenda da Província do Ceará ao comendador Joaquim Mendes da Cruz Guimarães, a sua mulher dona Joaquina Mendes Ribeiro e ao coronel José Mendes da Cruz Guimarães, pela quantia de 60 contos de réis.

Em julho de 1860, apesar de não dispor de estrutura suficiente, já que a província do Ceará só se tornou diocese em 1854, o imóvel da Rua São José foi entregue à Igreja. Ainda não havia bispo naquela época.  Dom Luiz Antônio dos Santos, embora nomeado o primeiro prelado da diocese do Ceará em 1859, só chegou a Fortaleza em 1861, mas não ocupou o Palácio.

O primeiro a ocupá-lo, a partir de 1892, foi Dom Joaquim José Vieira, nomeado bispo do Ceará em 1883. Versões apontam que Dom Joaquim, cônego em Campinas, tenha vindo para o Ceará por uma represália de Dom Pedro II, após uma ofensa ao monarca.

O Palácio Episcopal passou por várias obras de 1866 a 1892 para adaptação do prédio às suas funções diocesanas. E, no ano em que se tornou moradia dos bispos, foi declarado pelo Estado como pertencente ao Episcopado para seu usufruto como residência do Bispo Diocesano.

Boatos do início do século XX dizem que havia um túnel subterrâneo que ligava o Palácio à antiga catedral. Esse fato nunca foi comprovado, mas povoou o imaginário dos moradores de Fortaleza até o início da construção da nova catedral em 1938.

Com a proclamação da República em 1889, a relação entre Igreja e Estado mudou no Brasil e repercutiu no Palácio Episcopal. O Governo Federal passou o imóvel ao Governo Estadual, que o pôs à venda em 1912. A Diocese, em seus últimos dias sob o comando de Dom Joaquim, adquiriu o prédio, e garantiu a permanência do Palácio Episcopal na Rua São José. 

Uma grande reforma foi realizada em 1931. Entre as mudanças, o redesenho da fachada pelo arquiteto prático José de Barros Maia, o Mainha.  A fachada atual ainda segue as linhas projetadas por Maia na época do bispado de Dom Manuel da Silva Gomes, mesmo depois de outras reformas, como a de 1973, quando, de sede do poder religioso, o prédio passou a sede do poder público municipal.

Em 1973, quando o arcebispo Dom José Delgado estava à frente da Diocese, o Palácio foi novamente posto à venda.  A Prefeitura de Fortaleza comprou o prédio por mais de três milhões de cruzeiros para ser o Paço Municipal. Depois de novas reformas, o prédio é reaberto em 10 de agosto de 1973 e passa a abrigar o Gabinete do Prefeito e outros órgãos da administração municipal. Isso ocorreu na gestão do prefeito Vicente Fialho. 

O Paço Municipal foi  sede da administração de Fortaleza ininterruptamente até 1991, quando o prefeito Juraci Magalhães levou seu Gabinete para o bairro Serrinha. Seu sucessor, Antônio Cambraia, reformou o Paço e trouxe o Governo Municipal de volta ao Centro. 

Juraci voltou à Prefeitura em 1997, sendo reeleito em 2000. Em seu terceiro mandato, novamente tirou seu gabinete do Palácio, deixando o prédio para a utilização de diversas secretarias.


 Em janeiro de 2010, depois de nova reforma o palácio do Bispo recebeu de volta o Paço Municipal. Mais uma vez, a administração municipal voltou ao centro de Fortaleza.  

Fonte:
Nirez
http://www.oestadoce.com.br
vídeo: jangadeiro online

Origens do Passeio Público - Parte II (Final)

O Passeio Público de Fortaleza

Nas cidades do Brasil Imperial, por imitação da Corte fluminense,  surgiram novas e amplas áreas arborizadas e ajardinadas, oferecidas ao público e fruídas por uma população avidamente voltada à aquisição de hábitos ditos civilizados, permeados com modos de comportamento de viés romântico.

Em razão da dimensão dos espaços requeridos para execução desses projetos paisagísticos, os passeios ou jardins públicos nasceram da intervenção física ou da recomposição ambiental de áreas urbanas, então sem interesse de uso.



Os três Planos do Passeio Público: Avenida Mororó, Avenida Carapinima e Avenida Caio Prado. 1908 

O Passeio Público de Fortaleza passou por esse tipo de critério, pois, em sua origem, não passava de um vasto areal em rampa, que descia da Rua da Misericórdia (Dr. João Moreira)  até a praia, então ainda próxima. Mantivera-se inóspito durante longo tempo por temor de explosões, pois a área fora ocupada pelo paiol da pólvora da fortaleza da Assunção, até quando este foi removido para o alto do morro do Croatá.

Quem primeiro idealizou construir o Passeio Público naquele local, foi o presidente da província, Dr. Fausto Augusto de Aguiar (1848-1850). Em  relatório que apresentou à Assembleia Provincial em 1850, assinalava que tinha como obra necessária a construção de uma muralha que, estendendo-se em frente do largo do paiol, desde a ponta da fortaleza (Quartel da 10ª. RM), até o lugar onde se achava edificado o hospital da caridade (Santa Casa de  Misericórdia), pudesse embargar o desmoronamento do morro, que se continuasse gradualmente como vinha ocorrendo, abreviaria o largo e ameaçaria o hospital.
E que sendo ajardinado, se tornaria um belo passeio público. Até 1861, porém, nada se fez a respeito.
Em 11 de junho daquele ano o vereador Fidelis Barroso apresentou à câmara, um requerimento no qual alertava para a necessidade de se urbanizar o espaço entre o Hospital da Santa Casa e o terreno  entre as duas travessas que desciam para a praia, bem como a feitura de rampas e calçamento destas.

O requerimento foi aprovado, mas esse projeto também não se concretizou.  Mais tarde um novo requerimento foi apresentado, onde era solicitado o nivelamento do largo e a construção de um paredão tendo como parametros a quina da fortaleza à quina da Santa Casa.

Vênus e o Cupido - 1908
Apesar de estar sempre figurando nas atas da Câmara, não havia andamento nas propostas, parecia que não havia interesse no assunto.  Assim, é que, para surpresa dos estudiosos do assunto,  em ata de 18 de fevereiro de 1864, aparece referências às obras já  realizadas, constando de um belo passeio e jardim público na praça entre o quartel e o hospital da caridade.

No relatório do presidente Lafaiete Rodrigues Pereira, no ano de 1866, se constata que a confecção dos portões e do gradil de ferro que cerca o passeio, foram contratadas com o ferreiro alemão Henrique Erich pela quantia de 9.500$000. A medida era necessária para se manter a arborização do parque e para defender da ação de animais soltos.   Em abril de 1877, na ata do dia 6, ficou acertado que o logradouro ficaria a cargo do município.

Avenida Caio Prado em 1905 (nirez)

A arborização do Passeio, providenciada na época e favorecendo espécies da flora local ou adaptada, deveu-se a um certo Barbosa, Engenheiro da Província.  Assim, tudo leva a crer que, nesse período, na parte mais alta, já consolidada, foi plantado pelo Senador Pompeu o sesquicentenário baobá do Passeio, com muda talvez vinda do Recife, onde já floresciam  inúmeros espécimes trazidos da África.

E vão surgindo, pouco a pouco os diversos melhoramentos. Assim é que foi construída uma cacimba no terceiro plano. Logo depois vem o encanamento de gás para o botequim ali existente. Em fevereiro de 1881 é autorizado o pagamento 303$340 a Boris Fréres pela compra de duas estátuas para o Passeio Público.

Quiosque instalado no centro do Passeio Público, onde estava instalado o Café Caio Prado (nirez)

Previsto inicialmente para se desenvolver em  dois planos, a demora das obras redundou em um projeto paisagístico composto por três patamares,  popularmente conhecidos por planos.

O primeiro Plano, em posição elevada, na cota dos 17 metros sobre o nível do mar, densamente arborizado e iluminado a gás hidrogenado, estendia-se (e ainda se estende) da Rua da Misericórdia (Dr. João Moreira) até o novo muro de arrimo, transformado em alameda de onde se descortinava esplêndida vista do mar.

O 2° Plano, situado uns seis metros mais baixo, podia ser divisado do alto do guarda-corpo da esplanada superior.

Escadaria do 2° Plano - 1908 (Nirez)

No 3º Plano, ainda mais abaixo, um pouco acima do nível do mar, foi escavado um lago artificial alimentado pelas águas do riacho Pajeú.  As margens do lago eram revestidas de pedra  vinda do Mucuripe; e bem ao centro, sobre uma coluna destas pedras, de  tridente em punho, uma estátua de Netuno olhava e dominava o oceano.

As escadas do segundo e terceiro planos foram mandadas construir por Alexandre Beviláqua por 550$500. A enorme estátua de netuno colocada no terceiro plano, custos a importância de 606$000.

Caixa d'água do Passeio Público - 1908

Por proposta do vereador Antônio Olegário dos Santos a Câmara denominou o primeiro plano de Tito Rocha; o segundo – Rocha Lima e o terceiro – Mártires. Em sessão de 19 de novembro de 1890, foi autorizada a aquisição de bancos para o local.  A Joaquim Felício de Oliveira foi paga a importância de 200$000 pela aquisição de 11 jarros.

Por proposta do vereador João Eduardo Torres, em 11 de janeiro de 1879 foi aprovada a denominação de Praça dos Mártires, em memória dos cidadãos que ali foram sacrificados, mudando consequentemente os nomes da avenidas que passaram a ostentar os nomes do revolucionários mortos.  
Finalmente a 5 de junho de 1880, entre festas, ao som de bandas de música, teve solene inauguração o primeiro plano.

Estátua de Ceres (desaparecida) 1908

A Avenida Caio Prado foi inaugurada também sob festa, em 09 de julho de 1888. A ligação das Avenidas Caio Prado e Mororó, transformadas em uma aleia única, foi realizada na gestão do prefeito Godofredo Maciel  (1920-1920 e 1924-1928)  
O Passeio Público foi sempre, em todos os tempos, o logradouro predileto da cidade. Devido a sua esplêndida localização, de frente ao mar, as famílias se reunião ali antigamente, para a prosa de todas as noites.
Muitas, numerosas e concorridas quermesses de caridade foram ali realizadas, em épocas diversas, com êxito fora do comum. Várias gerações de namorados, se conheceram, encontraram e ajustaram casamentos nas alamedas silenciosas da Caio Prado, ao embalo das ondas da Praia Formosa.

Pesquisa:
Coisas que o tempo levou – crônicas históricas da Fortaleza antiga, de Raimundo Menezes.
Passeio Público, espaços, estatuária e lazer, de José Liberal de Castro. Revista do Instituto do Ceará.  
http://www.passeiopublico.com/htm/sec21-04.asp
wikipédia
fotos do passeio público:
Passeio Público, espaços, estatuária e lazer, de José Liberal de Castro

Origens do Passeio Público - Parte I

Desde a antiguidade, aqueles que desejavam desfrutar de convívio tranquilo em ambientes urbanos tumultuados, ou  entregar-se  à contemplação, buscavam espaços confinados, de uso restrito. Procuravam os jardins.   

Num entendimento amplo, os jardins podem ser referidos como inconfundível modalidade de ocupação física dos espaços urbanos. Datariam do começo dos tempos, criações divinas como o Jardim do Éden, a que se referem as Escrituras Sagradas.

 Lisboa, Passeio Público
[Entrado sul do antigo Passeio Público]
Fotografia, Eduardo Portugal, ca 1880


Os jardins amplos e cuidados, constituíram por longo tempo espaços de uso particular, pertencentes à coroa, à nobreza e ao alto clero ou, mais recentemente, a  uns raros burgueses. Jardins abertos ao público, ainda que de acesso restrito, eram poucos, contados como exceções no sistema. 

Na Europa ocidental, a presença maciça da população nos jardins  urbanos remonta ao século XVIII.  Tornados espaço público aos poucos, patenteavam tentativas conciliatórias de valorização social de espaços abertos para frequência da burguesia, cada vez mais poderosa, pois, até então, o privilégio de um relacionamento despreocupado com a natureza ficavam praticamente restritas à aristocracia, em seus parques de uso privado.

Os jardins públicos surgiram na Europa quase simultaneamente aos primeiros espaços ajardinados na América. O arquiteto e professor Hugo Segawa em seu livro -  Ao Amor do Público: Jardins do Brasil -  faz um estudo detalhado sobre a importância dos jardins públicos e botânicos na formação das cidades, e de como eles se constituíram em uma forma peculiar  de urbanização e consolidação dos espaços urbanos.

De acordo com o autor, os jardins públicos não se confundem com as praças.  A praça é do povo, o jardim público não o era, em sua origem. Estes foram uma criação da aristocracia que estabeleceu um lugar para seu lazer, um lugar para “ver e ser visto”. 

Nestes espaços privilegiados, foram introduzidas práticas sociais de educação e postura, normas de comportamento que eram antagônicas a balbúrdia e a irreverência típica das praças. Assim, apesar de públicos em seu momento de instauração, esses jardins conformaram espaços segregados na cidade, construídos por e para uma elite econômica e social, e estabeleceram  elegantes e comportados padrões para um grupo social diferenciado. 

Não por acaso, esses logradouros eram gradeados.  Essas distinções foram mais nítidas no passado, hoje estão completamente diluídas e já não fazem mais sentido como antigamente.

O conceito de jardim público chegou ao Brasil no final do século XVIII. O Passeio Público do Rio de Janeiro é o primeiro parque ajardinado do Brasil e foi concebido por um dos maiores artistas do período colonial brasileiro: Mestre Valentim da Fonseca e Silva.

Passeio Público do Rio de Janeiro
foto: panoramio

Construído em 1783, o Passeio Público foi o grande ponto de encontro da população carioca nos séculos XVIII e XIX. Em seu interior podia-se contemplar, além de variadas espécies da flora nacional, obras de arte confeccionadas por Mestre Valentim, como chafarizes, esculturas e pirâmides. 
Depois veio o Passeio Público de Salvador, Bahia,  inaugurado em 1810 pelo 8º Conde dos Arcos, Dom Marcos de Noronha e Brito, então governador da Bahia (1810 – 1818). Ornado de flores e árvores frutíferas, transformou-se num importante espaço de lazer, onde aconteciam grandes festas populares. O terreno foi adquirido para esse fim em 1803 pelo governador da Bahia na época, Francisco da Cunha e Menezes.
O Passeio Público de Curitiba-PR, é o parque mais central e o primeiro da cidade. Inaugurado em 1886 com cerca de 70 mil m² de mata natural, nas margens do rio Belém. Na época sua iluminação era feita por lampiões alimentados por azeite de peixe.

Passeio Público de Curitiba (foto divulgação)

No século 19, foi por algum tempo o Jardim Botânico de Curitiba. Foi, também, o primeiro zoológico e, até hoje, possui alguns animais em cativeiro, além de um aquário.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A Livraria Imperial (A Imperial Porta)

A Livraria Imperial foi inaugurada em 05 de outubro de 1935, de propriedade dos irmãos Anglada e Japi Magalhães. Em agosto de 1936 mudou de dono passando às mãos de Clóvis Mendes e Anita Penha Cisne, já na Rua Guilherme Rocha, 166, baixos do Edifício Excelsior.

Alguns frequentadores da Imperial Porta: Raimundo Girão, Silveira Marinho, Carlos Studart Filho, Martins de Aguiar, Pedro Sampaio e João de deus Cavalcante (foto do livro Geografia Estética de Fortaleza)

A Imperial prestou relevantes serviços a cultura cearense. Chamada de Imperial Porta por seus frequentadores,  foi durante muitos anos o último refúgio dos intelectuais da terra , os mesmos que frequentaram os cafés Richie, Art Nouveau, O Iracema, o Avenida, a Rotisserie, o Globo, confeitarias Nice e Glória, e por fim, o Abrigo Central. 
Rua Major Facundo em 1924, vendo-se à esquerda o café Riche e à direita o Café Emygdio. (foto do livro Fortaleza Descalça). 

Nessa porta podiam ser encontrados pela manhã, e às vezes a tarde, intelectuais como Raimundo Girão, Martins de Aguiar, Otacílio de Azevedo, Silveira marinho, João de Deus Cavalcante, Hugo Catunda, Carlos Studart Filho, Batista Fontenele, Pedro Sampaio, Mozart Soriano Aderaldo, e outros.

A livraria fechou com a aposentadoria do proprietário, Clóvis Mendes, que não era apenas um vendedor de livros:  Conhecedor do produto que vendia, indicava, discutia, orientava, escolhia autores e leitores. 

A Livraria Imperial era a única que ostentava uma vitrine inteira com obras publicadas no Ceará, tal era o interesse de Clóvis Mendes pelos autores da terra.

Extraído do livro de Otacílio de Azevedo

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Estado Novo e a Criação da Central de Polícia do Ceará

Para confrontar com as lutas reivindicatórias, as críticas ao regime e a insatisfação do povo cearense que nascia e se ampliava a partir da  Praça do Ferreira, a interventoria de Menezes Pimentel (1937 a 1945 e 1946 a 1950), mandou construir na Praça dos Voluntários, um arremedo de bastilha, o atual prédio da Polícia Civil.


Antigo prédio do Liceu na Praça dos Voluntários. Foi demolido para dar lugar ao prédio da Central de Polícia. (Marciano Lopes)  

A edificação de pedra e cal foi erguida no local antes ocupado pelo Liceu do Ceará.  O prédio foi construído com trabalho escravo: a maior parte do operariado empregado na construção era constituída de presos correcionais, obrigados a trabalhar de graça, para o Estado. Tinham direito a apenas refeições de péssima qualidade,  o necessário à sobrevivência.  Quem se negava a trabalhar, apanhava. 

Edifício da Central de Polícia, atual secretaria de Segurança Pública, na Praça dos Voluntários (arquivo Marciano Lopes).

Estavam os operários sob o regime da lata, sistema de trabalho escravo imposto pelo então chefe de polícia, Capitão Cordeiro Neto, o mesmo que havia comandado a destruição do Caldeirão do beato José Lourenço e fundado no Arraial Moura Brasil o gueto das prostitutas, apelidado de Curral das Éguas.
Época de ditadura Getulista, do Estado Novo.  A figura do ditador Getúlio Vargas não podia ser esquecida, de modo que lhe levantaram na praça em frente um monumento de bronze, uma homenagem de Pimentel,  ao ditador e a ditadura. 

busto do Presidente Getúlio Vargas na Praça dos Voluntários, trabalho do escultor Agostinho Balmes Odisio. Inaugurado em 1° de maio de 1941. (foto de Fátima Garcia) 

A partir daí,  a praça, antes frequentada por alunos do Liceu, fervilhava de soldados.  Entre eles destacam-se uns brutamontes de farda cáqui, gorros vermelhos e debruns da mesma cor. Formavam a Polícia Especial, a Gestapo cabocla, responsável pela manutenção do terrorismo oficial no Ceará durante o estado Novo.
A Polícia Especial era  uma divisão uniformizada da Polícia Civil, fundada durante o Governo  Vargas. Era organizada como uma "força de choque", ou de intervenção, treinada e aparelhada para enfrentar distúrbios populares e manter a ordem pública, num período de grande efervescência política.

Praça do Ferreira, década de 1940

Nas dependências do prédio da Central de Polícia, funcionavam as diversas delegacias, sempre abarrotadas de presos de toda sorte. Os contraventores comuns, o "povão", depois de surrados eram encaminhados para o trabalho escravo do regime da lata.
O mesmo não acontecia com os infratores pertencentes à classe alta, desordeiros contumazes, ou especialistas na prática de quebra-quebra nos bares e nas pensões alegres. Estes, após algumas horas de detenção eram postos em liberdade, cabendo-lhes pagar os prejuízos ocasionados.
Havia em Fortaleza um médico chamado Amadeu Sá, o qual se tornara famoso devido a prática desse tipo de arruaça. Certa vez o médico comandou  um quebra-quebra no bar do Majestic, na Praça do Ferreira, tendo enfrentado todo um pelotão da Policia Especial. 


Bar no interior do Cine Majestic, na Praça do Ferreira (Ah, Fortaleza!)

Dominado e preso, foi libertado horas depois.  O mesmo, entretanto, não acontecia com os valentões pés de chinelos. Cacheado, um popular com fama de valente, morador do Campo do Pio e Barroso, residente no Coqueirinho (atual Parquelândia), foram ambos assassinados pela polícia sem qualquer motivo plausível. Simplesmente por gozarem da fama de desordeiros.
Muitos homens e mulheres estiveram presos ou detidos na bastilha da Praça dos Voluntários, muitos sofrendo torturas.  Apesar do rigor da censura oficial, houve casos que escaparam do controle das autoridades e chegaram ao conhecimento público.
Dentre estes casos figura o acontecido com Danilo Borges, um jovem de família distinta, mas que cometia desordens quando alcoolizado. Durante um confronto com a Policia Especial, Danilo deu e recebeu pancadas, sendo afinal subjugado e preso. No dia seguinte, o rapaz amanheceu morto por  enforcamento. Pela versão da polícia, Danilo teria cometido suicídio, mas para a família e amigos do morto, ele teria sido assassinado. 


manifestação na Praça do Ferreira, contra o fascismo (Ah, Fortaleza!)

Outro caso bastante comentado foi o que envolveu Fidélis Silva, ex-secretário do interventor Menezes Pimentel, acusado da autoria de um desfalque. Para confessar o delito, colocaram-no numa masmorra sob uma lâmpada de 500 watts durante várias horas. Ainda não eram conhecidas outras formas de tortura como o pau-de-arara, os choques elétricos e outras que chegaram aqui com a revolução dos generais. Em consequência do sofrimento, Fidélis adoeceu seriamente, tendo de ser hospitalizado. Tempos depois, levado a júri popular, foi absolvido por falta de provas.
Caso diferente e que virou piada na cidade, foi o de Asclepíades, chantagista interestadual que se fazia passar por emissário de Getúlio Vargas. Jornalista desempregado, bom de lábia, e conhecedor dos expedientes usados nos meios oficiais, o vigarista se dizia enviado pelo ditador a fim de auscultar a opinião dos interventores acerca da situação política, nacional e internacional.
Já havia percorrido várias capitais com a mesma conversa, extorquindo os interventores, ganhando hospedagem, dinheiro e passagens aéreas. Descoberta a fraude, Asclepíades foi preso e transferido do Excelsior Hotel – onde era hóspede às expensas dos cofres públicos – para um dos cárceres da Polícia Central. 
Foi colocado em uma das celas externas do presídio, a fim de que pudesse ser visto por todos.  Bem vestido, simpático, risonho e descontraído, o espertalhão não se deixava abater, cumprimentando cortesmente a quantos iam vê-lo. Os jornais publicavam suas fotos, acompanhadas de longas entrevistas. Até namoradas Asclepíades conseguiu, apesar da situação vexatória em que se achava.
A Polícia Especial foi extinta no dia 10 de abril de 1947 e seus integrantes foram incorporados à Guarda Civil. 


extraído do livro
de Alberto S. Galeno

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O Palácio que o tempo Esqueceu

Gustavo Barroso em A Margem da História do Ceará, ao fazer alusão ao chamado Palácio da Luz, que já foi sede do Governo do Estado, advertia que o velho Palácio, carregado de significados, tradições e história, já não era adequado ao fim a que se destinava. E por isso,  uma grave ameaça pairava sobre o imóvel, porque em nossa terra, só existe desprezo pelo que chamam de velharias

A previsão só se confirmou em parte, visto que o imóvel não foi demolido, como temia o escritor. Mas tal como está, não é o retrato do que foi o Palácio da Luz.  

Cartão postal do Largo do Palácio ou Praça do Palácio (atual Praça General Tibúrcio), com a antiga sede do governo do Estado, com vista a partir do cruzamento da Rua Conde d'Eu à esquerda e Visconde de Sabóia. À direita a torre da Igreja do Rosário. (Foto de 1900, do livro Lembranças do Brasil) 

No tempo da Fortaleza antiga, o atual palácio era um casarão situado fora dos limites do perímetro da futura cidade, que era compreendido, praticamente entre o velho Quartel da Força de Linha (atual 10ª RM) e as ruelas que, vindas da beira do mar, avançavam poucas quadras para o sul, entre o Campo da Pólvora (atual Passeio Público) e o Largo do Conselho (Praça da Sé). 

A edificação do casarão foi iniciativa do capitão-mor Antônio de Castro Viana para sua residência particular, em fins do século XVIII. O capitão-mor faleceu em 1801, em situação de débito para com os cofres públicos, razão pela qual a Junta da Fazenda penhorou o imóvel, vendendo-o à Câmara Municipal por Oitocentos Mil Réis.


Palácio da Luz em 1908 ainda com a parte que foi demolida anos mais tarde. (arquivo Nirez)

E tão avultada era a quantia investida,  que o Senado da Câmara, para honrar a dívida, criou o imposto especial sobre a cachaça importada de Pernambuco, à base de quatro mil réis por pipa.

Em 1803 o terreno foi cercado  com uma paliçada de altas estacas juntas de pau-ferro, detalhe que  denota a pobreza dos cofres públicos. Em 1811 o governador Barba Alardo empreendeu pequenas obras de adaptação interna. 

A Praça do Palácio em 1910, com o Palácio da Luz à esquerda. 

Em 1839, já império o Brasil e Fortaleza já guindada à condição de cidade, o prédio ganhou ampliação que o levou até a Rua de Baixo, o que lhe deu o aspecto assobradado que tem até hoje.  É desse tempo o antigo salão de recepções, de janelas avarandadas que davam para o antigo Largo do Palácio (atual Praça General Tibúrcio).

Sacada do palácio da Luz - frente para a Rua Sena Madureira

Lá se conservou  a sede do Poder Executivo do Ceará até os anos 1960. Lá concordavam em residir, com as famílias os mais antigos mandatários do poder, os presidentes estaduais de antes da Revolução de 1930. Continuaram  a enfrentar os sacrifícios da hospedagem pouco pomposa  outros governadores de após 30. 

Mas com o crescimento da cidade, o surgimento de bairros, os terrenos centrais se valorizaram.  Para muitos passou a ser desperdício a área de terreno ajardinada do velho palácio, a apenas dois passos da Praça do Ferreira. 

Então se decidiu pela demolição da antiga parte social doméstica do Palácio da Luz. O argumento é que a cidade ganharia, para o lado leste, mais um quarteirão, enriquecendo a curta Rua São José (antiga Travessa das Almas).

Palácio da Luz frente para a Rua Pedro Borges

O projeto foi executado com  rapidez. Abriu-se ladeira abaixo, no rumo da Rua Conde d’Eu o sonhado quarteirão, a porta para a futura abertura de uma via que dali partiria, mediante algumas pequenas desapropriações, até a Praça da Escola Normal.

No entanto, logo depois, surgiram naquele trecho apontado como a ser desapropriado, novas e grandes construções, deitando por terra a falácia da abertura de vias e revelando as verdadeiras intenções dos partidários da demolição de parte do imóvel. 

O Palácio da Luz ainda funcionou como sede do Governo e residência do governador até 1963, quando a sede do poder for transferida para a Avenida Barão de Studart. Atualmente o imóvel abriga a Academia Cearense de Letras e a Sociedade Amigas do Livro. 
Fica na Rua do Rosário n° 1, centro de Fortaleza.


extraído do livro de Otacílio Colares
fotos antigas do Largo do Palácio retiradas do livro Lembranças do Brasil As capitais Brasileiras nos Cartões Postais, de João Emilio Gerodetti e Carlos Cornejo

domingo, 21 de agosto de 2011

O Assassinato do Major Facundo

Casa em que residia e foi assassinado o Major Facundo em 1841. De 1854 a 1959 nela funcionou a Casa Vilar. Ficava na Rua da Palma esquina com a Rua das Belas (atual Rua São Paulo). arquivo Nirez
  
João Facundo de Castro Menezes Nasceu em Aracati, Ceará,  no dia 12 de julho de 1787, filho do Capitão – Mor José de Castro e Silva e Joana Maria Bezerra de Menezes.  Em 1818 transferiu-se para Fortaleza, onde se dedicou à politica.

Contrário à Junta Governativa formada por Tristão Gonçalves, Padre Mororó e Pereira Filgueiras, foi preso e enviado para o Rio de Janeiro, sendo libertado por ordem de D. Pedro I.
Era defensor das ideias políticas da família Castro, e chefe do Partido Liberal, por ocasião da Confederação do Equador.

O militar, chefe do partido Liberal e comandante do Batalhão dos Nobres de Fortaleza, tinha inimigos influentes. Divergências políticas. Para se ter  ideia, o chefe de Polícia da Comarca, Miguel Fernandes Vieira, e o comandante da milícia, major Franklin de Lima, eram desafetos de Facundo.  Não cruzavam a mesma esquina. Adversários irreconciliáveis, integrantes do Partido Conservador.

Toda a Província já sabia que o militar estava jurado de morte.  Já tinha sofrido dois atentados, conseguindo escapar ileso:  primeiro, uma tocaia na rua da Ponte. Tiros. E depois, atentado na Praça Carolina, esquina das ruas da Boa Vista e antiga Assembleia Provincial, nas imediações  do atual Museu do Ceará.

No dia 9 de maio é nomeado um novo Presidente do Ceará, Brigadeiro José Joaquim Coelho (1841-1843). O Major Facundo, embora fosse seu Vice-Presidente, lhe fazia cerrada oposição. As divergências e os ânimos se acirravam.

O crime aconteceu em 8 de dezembro de 1841, dia dedicado a Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Fortaleza.  O major Facundo foi morto, em casa, por pistoleiros pés de chinelos. Dispararam os tiros e fugiram no meio da noite em Fortaleza. Iluminação natural e raros combustores a gás.

Facundo e sua mulher, Florência de Andrade Bezerra e Castro, tinham acabado de jantar. Por volta das 20 horas, alguém bateu à janela. O major foi atender,  peito aberto, talvez nem tenha tido tempo de pensar. Recebeu três tiros certeiros na cabeça.

Pelo estrondo e tamanho do estrago, bacamarte fora a arma usada. Desespero. Gritaria. O homem estava morto e sua mulher sangrava na mão, atingida por estilhaços.  O cirurgião-mor da Província do Ceará Grande, Joaquim da Silva Santiago, junto com  outro médico, Francisco José de Matos, examinaram o corpo. As balas por pouco não arrancaram a cabeça da vítima.

A mulher do presidente conservador José Joaquim Coelho foi apontada como mandante do crime. Apesar da acusação, ela nada sofreu.
Os executores, Antônio Manoel Abrahão e Pedro José das Chagas, foram condenados a galés perpétuas pelo júri de Fortaleza. Joaquim Ferreira de Sousa Jacarandá, intermediário da pistolagem, foi julgado e absolvido três vezes.


A Igreja do Rosário e a lápide do túmulo do Major Facundo.

A  família do major  sempre imputou  o crime aos interesses palacianos, e mais diretamente, à esposa do Presidente da Província, convicção tão profunda, que na laje do túmulo do major, a viúva mandou escrever que, o Major Facundo falecera no dia 8 de dezembro de 1841, assassinado, sendo presidente José Joaquim Coelho.

Ainda hoje, na Igreja do Rosário, se conserva esse mármore de dor e de ódio, único dos muitos que estiveram pelas paredes daquele templo.
A antiga Rua da Palma, onde ocorreu o assassinato virou Rua Major Facundo em 1888.

pesquisa livros de 
Raimundo Girão e Mozart Soriano Aderaldo
Jornal O Povo