terça-feira, 5 de outubro de 2010

Deposição do Governador Clarindo de Queiroz

Ao entardecer do dia 16 de fevereiro de 1892, depois das 17 horas, Fortaleza foi tomada de pânico.
Os boatos corriam a cidade de lado a lado, alarmantes, inquietadores, criando uma atmosfera de terror na população. Nas ruas, o movimento de tropas, num vaivém desencontrado, numa correria nervosa. Os raros transeuntes procuravam saber o que estava de fato acontecendo, o que havia de verdade sobre os acontecimentos.
Através de brechas de portas e janelas, escondidas atrás das paredes, as mulheres amedrontadas, espiavam timidamente, esquadrinhando os que passavam, tentando obter noticias que satisfizessem sua curiosidade e amenizasse seus medos.
Tudo em vão. Ninguém sabia informar nada, apenas se esperava que algo de extraordinário iria acontecer. O ambiente estava carregado, todos mostravam preocupação, os rostos apreensivos, tensos.
Os raros lampiões começavam a brilhar na noite quente de Fortaleza, quando, lá pros lados da Aldeota começaram os estampidos secos e surdos das balas.
A principio, espaçados, depois mais intensos. E o vento trazia o som dos estampidos, espalhando por toda parte, aumentando ainda mais o terror dentro da noite, aqueles estrondos que pareciam querer arrebentar tudo.
Em breve o bombardeio ficou ensurdecedor, tenebroso, com o uso de balas de canhão.
 
Dia da deposição do governador Clarindo de Queiroz pelos cadetes da escola Militar do Ceará (Arquivo NIREZ) 

Informava-se vagamente que os cadetes da Escola Militar do Ceará (atual Colégio Militar de Fortaleza) haviam-se revoltado, abandonado o quartel e marchavam para a cidade, em demanda da Praça General Tibúrcio, com a finalidade de depor o Governador José Clarindo de Queiroz (1891-1892).
Mais tarde, forças federais aquarteladas na cidade aderiram ao movimento revoltoso, enquanto os soldados do Corpo de Segurança procuravam defender o palácio, onde se encontravam o governador e quase todos os seus secretários, improvisando, desordenadamente, trincheiras em redor do casarão.
O ataque ao Palácio e ao Governador contava com o apoio do governo federal, e do Presidente Floriano Peixoto, que queria fora dos governos estaduais todos os aliados do antecessor Deodoro da Fonseca.  
E o bombardeio ficou mais forte à medida que a noite avançava, a luta desenrolava-se cada vez mais intensa, mais vibrante, mais encarniçada.
Já se contavam vários feridos e treze mortos entre os contendores. As tropas oposicionistas continuavam avançando, e dentro de algumas horas, tiros de canhão atingiram a praça onde se erguia a estátua do General Tibúrcio, herói da guerra do Paraguai, fronteiriça ao palácio.
 

 o estado em que ficou o Palácio do Governo por ocasião da deposição do governador Clarindo de Queiroz (foto Raimundo de Menezes) 

A essa altura, as paredes já estavam escavadas pelas balas, e os gritos dos feridos entremeavam-se ao trovejar dos tiros. A luta parecia interminável, a madrugada raiava. As primeiras luzes do dia já se anunciavam no nascente, quando o tiroteio foi diminuindo por parte dos palacianos.
Pouco a pouco os estampidos foram rareando. Numa das sacadas do palácio, inesperadamente, surgiu uma melancólica bandeira branca. A luta cessou por completo. O Governador José Clarindo de Queiroz rendia-se impotente, passando o governo ao comandante da Escola Militar, coronel José Freire Bezerril Fontenele. No mesmo dia Clarindo de Queiroz seguiu para o Rio de janeiro, onde foi preso.
No largo em frente, a estátua do General Tibúrcio tombara do seu pedestal, atingida em cheio por uma bala de canhão. Caíra, porém de pé, resistindo ao terrível tiroteio daquela noite de revolta.

Extraído do livro
Coisas que o Tempo Levou, de Raimundo Menezes.     

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