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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O Pré-Carnaval dos anos 60

Muitos acreditam que o pré-carnaval de Fortaleza é coisa recente, iniciada nos anos 80 com os blocos que desfilam na Praia de Iracema e no Benfica. Ledo engano. Lá pelos anos 60, o Bloco Prova de Fogo já fazia a festa no bairro Otávio Bonfim e adjacências. Quer saber como era? então leia a crônica do Tarcísio Garcia. 
  
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O ENSAIO DA PARADINHA
 (Tarcísio García)

No começo do ano começava a festa. Lá de casa dava para ouvir o baticum. Os ensaios de janeiro eram um pouco tímidos devido à falta de entrosamento dos músicos, afastados desde o ano anterior. À medida que se entendiam na execução, porém, passavam a tocar com mais desenvoltura, fazendo uma verdadeira algazarra que atraía a atenção dos moradores de toda a redondeza. Aos primeiros acordes da noite a gente se entreolhava, largava o que estava fazendo e começava a frenética e animada preparação para nossa participação no ensaio. Num entra e sai sem fim, driblávamos a vigilância dos pais e escondíamos no jardim de muro baixo, os saquinhos de carteira de cigarro com o material garimpado especialmente para a ocasião.


No repertório revezavam-se dois estilos distintos: marchinha e samba. No primeiro predominava o som dos metais, que se ouvia a quilômetros. No outro, o samba, onde todo arranjo deixava a música parecida com “eu vou pra Maracangalha”, do Dorival Caymmi. Só tinha uma diferença: em todo samba eles botavam uma paradinha, tivesse ou não no original. Até hoje acho graça sozinho quando ouço uma paradinha. Era assim: faziam a introdução, cantavam a letra e depois de um caprichado solo de cornetas, o mestre da bateria dava três apitos e a charanga fazia um breque. Mais dois apitos e novo breque. Mais dois apitos e novo breque. Por último, mais dois apitos, novo breque, dessa vez acompanhado de um frivião no repique, e só então o samba recomeçava.

O cidadão comum, morador de subúrbio não contava ainda com o feitiço da televisão que o anestesia e imobiliza na cadeira, de modo que as noites nesta época, eram dedicadas ao convívio social e à vadiação. Quem não estudava à noite, divertia-se com conversas, flertes e brincadeiras ao ar livre. Velhos, adultos, adolescentes e crianças, todos ocupavam democraticamente as beiras de calçadas. Nossa rua tinha uma posição estratégica que fazia dela um corredor bastante concorrido, ligava a Av. Treze de Maio à antiga Rua Juvenal Galeno, hoje, Bezerra de Menezes. Além disso, passava por ali toda sorte de novidades; de prosaicas boiadas a caminho do matadouro, a tropas de soldados do 23º BC, que iam acampar nas dunas do Papicu.


Nos meses de maio, junho e outubro, por ocasião das festas da igreja, os moradores cortavam as flores dos seus jardins e jogavam os ramalhetes na via pública para enfeitar a passagem das procissões de Nossa Senhora das Dores, Santo Antônio e São Francisco. Com uma vocação cultural dessas, nada passava despercebido ao olhar treinado dos moradores. Até o mais inocente vendedor de algodão doce com sua indefectível lamparina, era avistado de longe, parado pela freguesia e só liberado quando acabava a última colherada de açúcar.

Pois bem... nas semanas que antecediam o carnaval, o Bloco "Prova de Fogo" saía às ruas para corrigir as falhas do desfile, com destaque para a coreografia da paradinha, que depois de exaustivamente ensaiada no coração da Praça Tabajara, passava então para a etapa final da preparação: o ensaio em movimento. Neste propósito, o bloco enchia as noites do Otávio Bonfim com o mais autêntico e acalorado pré-carnaval. O primeiro sinal de que o bloco ia sair do Beco dos Pintos e passar na rua, era o volume do som, que de repente mudava de direção. Estava longe, ficava perto, sumia e voltava, como se estivesse sendo tangido pelo vento. Ficava mais nítido e ia se aproximando gradativamente até alguém na calçada anunciar sua visualização e a dúvida se transformar em certeza, despertando a vontade incontrolável de correr porta afora.


No abre alas, vinha o estandarte preto, enfeitado de espelhos e ostentando o nome do bloco. Carregada pelo porta-bandeira, uma caveira de uns três metros, sacudia braços e pernas de madeira ao sabor das evoluções. Os passistas veteranos seguiam na frente mostrando o estilo para aos jovens aspirantes a folião. Trajavam calça branca, blusa vermelha de mangas compridas e um colete preto adornado com lantejoulas vermelhas. Na cabeça, outro símbolo: um artefato metálico que lembrava ao mesmo tempo, um elmo das armaduras medievais e um capacete de bombeiro. Envolto numa nuvem de poeira, iluminado pelos faróis dos carros que pediam passagem, lá vinha o ensaio da "escola", solto na buraqueira, tomando conta da rua, arrastando a multidão.


Da calçada era possível avistar a silhueta do cortejo se aproximando. Uma piracema de gente acompanhava o desfile, correndo, pulando e achando graça, somando-se aos que se posicionavam em suas casas para ver de perto a performance dos passistas. Num crescendo medonho, o som da charanga cada vez mais alto, invadia todos os espaços, sacolejava a caixa dos peitos, afrouxava o risador. As cadeiras das calçadas eram recolhidas para dar passagem, as mulheres casadas corriam para as janelas pra evitar as mãos bobas, os muros das casas transformavam-se em camarotes cheios de gente de todas as idades. Crianças de braço eram alçadas às cacundas dos pais, as maiores fervilhavam de contentamento, os cachorros latiam inutilmente, os adultos se dividiam: uns torciam a cara achando aquilo uma fuleiragem, outros se empolgavam com a fanfarra e dançavam na calçada. A atmosfera cheirava a poeira, sovaco e cloretil, e o Prova de Fogo agora estava passando na porta de casa.  O povo acompanhava disputando um lugar perto da orquestra. A rua invadida. A música troando. Não sobrava lugar para uma pitomba. 

Ao som ensurdecedor dos tambores e das cornetas, a gente grelava os olhos nos passistas que dançavam de olho grelado no maestro, que no tempo certo da música levantava a batuta e regia a paradinha: pi- pi- piiiiiiiii!!! E todo mundo se abaixava: pi- piiii! Davam um pulinho e mudavam de pose: pi- piii! Mudavam de novo:  pi- pi- paracatum-paracatum-paracatum...e saíam saracoteando alegremente movidos por uma força misteriosa que lhes revigorava o ânimo. Felizes da vida seguiam pela Rua Justiniano de Serpa afora, indiferentes à nossa provocativa participação: uma chuva de areia provocada pelos saquinhos que eu e meus irmãos jogávamos sobre o desfile toda vez que os passistas se abaixavam ensaiando a paradinha.

fotos do arquivo Nirez e Diário do Nordeste
Tarcísio Garcia é cearense de Fortaleza, artista plástico e escritor, autor dos livros
Nó na Língua (1998)
Dicionário do Ceará - as palavras, as expressões e como usá-las - (2000) 
Auto-ajuda na Ruma - neurolinguística cearense (2000)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A Vida Social e o Carnaval



Fortaleza moça, embora comportada, gostava de festas. O Carnaval, por exemplo. Em 1830, brincava-se o entrudo; cuias e mãos lançavam água, zarcão e farinha de trigo nos passantes. Dessa maneira perdurou até 1880, quando se limitou a água de cheiro, confetes e as serpentinas. O boticário Ferreira, na Feira Nova, era conhecido folião.


O carnaval se fazia também pelos papangus, mascarados que cirandavam nas ruas. As fantasias alugavam-se na loja do Areias, à Rua da Palma. Quase todos optavam pela fantasia de dominó, espécie de batina com capuz, ornada de guizos e de cores variadas. Os maracatus também ensaiavam aparecer. Formados só de homens vestidos de mulher, saias brancas e cabeções de renda, traziam o corpo e o rosto pintados de preto. Não dançavam, andavam lentamente. 

foto do site: http://www.nacaofortaleza.com/bra/marace.htm

Havia uma outra espécie de maracatus imitando índios, com tangas e cocares de penas. Marchavam num passo de dança selvagem, saltando para todos os lados, abaixando-se e levantando-se bruscamente. Na década de 1890, o carnaval é dos importados (pierrots, colombinas e arlequins). 
Ruas e clubes disputam o título de maior ostentação. No corso e nos salões desfilam vistosas fantasias, cada um portava seu vidro de Cloretil, espalhando no ar ondas perfumadas. Entre 1912 e 1930 os carnavais eram de extraordinária beleza e grande animação. Na rua desfilavam caminhões artisticamente decorados, imitando cisnes, gôndolas e navios. 

 foto do livro Ah, Fortaleza!

O carnaval de luxo não se misturava com o popular quando se encontravam nas praças. Na Praça do Ferreira cabia aos ricos a exiguidade da Avenida 7 de setembro – uma alameda especialmente ajardinada – pelo receio de contato imediato com os populares à solta por todo o restante do logradouro.

fonte:


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O Entrudo e os Velhos Carnavais

Rua Major Facundo, início do século XX, vista a partir do Passeio Público (Arquivo Nirez)

O controle e o disciplinamento que foram impostos à população em tempos antigos em Fortaleza, abrangeram várias tradições populares. Uma das mais expressões populares mais controladas foi o Carnaval. Originária do entrudo português (de introitum, entrada da Quaresma). 

Mais ou menos entre os anos 1830 e as décadas de 1870/1880, Fortaleza apresentava animados carnavais, a ponto de contemporâneos afirmarem que a cidade “virava ao avesso”. Aos gritos e risos os brincantes traziam baldes de água para molhar os transeuntes  nas ruas e praças, usando cuias, canecas, e até penicos. Invadiam residências e não respeitavam  nem os doentes, pintando-lhes os rostos com zarcão e fugindo em disparada, deixando para trás móveis quebrados e muita sujeira.

Para os que resistiam à brincadeira, vinha o pior, o batismo, isto é banho total, ou tinham a cabeça introduzida à força nos recipientes.  Conta-se que um dos brincantes mais fervorosos era o Boticário Ferreira, presidente da Câmara Municipal.

Para os senhores proprietários, o entrudo era uma brincadeira de vagabundos, vadios e moleques, inadequada a uma cidade que se desejava civilizada e moderna; exigiam providências contra aquela orgia pública.

 Praça do Ferreira com o jardim 7 de Setembro. Alguns clubes realizavam bailes de carnaval na praça, em espaços devidamente isolados, para que o povo não tivesse acesso (Arquivo Nirez)

Após 1870 os agentes civilizadores e disciplinadores da sociedade cearense começaram a combater o entrudo, paulatinamente, até proibi-lo de vez. Naquele mesmo ano exigiu-se que ao invés de baldes ou bacias de águas, os brincantes usassem apenas laranjinhas de borracha com água de cheiro; depois veio a exigência de se usar apenas confetes, serpentinas e lança-perfume nas festas.

O entrudo, no entanto, ainda resistiu por alguns anos até desaparecer. Em 1893, a Secretaria de Justiça baixava um edital proibindo a festa, e em 1905, o intendente Guilherme Rocha reiterava a proibição.
 
Percebe-se claramente que essas normas decretadas pelo poder público se enquadravam na lógica das elites de combater comportamentos incivilizados da população, e evidenciavam, por outro lado, a resistência das massas em manter seus costumes.

 desfile de automóveis, o chamado corso, no carnaval da Avenida Duque de Caxias anos 50
(foto Ah, Fortaleza!)
 
Enquanto se fazia repressão contra o entrudo, a "boa sociedade" frequentava os bailes carnavalescos realizados pelos clubes elegantes, nos quais, obviamente, o povo não tinha acesso. Eram bailes nos moldes do carnaval veneziano – da cultuada civilidade europeia, e caracterizava-se como uma festividade bem comportada, luxuosa e com uso de fantasias de modelos importados (pierrôs,  arlequins, colombinas, etc). a partir dos anos 1880 percebeu-se até uma acirrada competição entre os clubes e suas respectivas sociedades carnavalescas – o Clube Cearense com os Dragões do Averno e o Clube Iracema com os Conspiradores Infernais – para saber qual promoveria os melhores bailes carnavalescos em seus salões e nas praças. 

A sofisticada sede do Clube Cearense, que realizava concorridos bailes de carnaval em fins do século XIX, início do sec XX (foto, Ah, Fortaleza!)
 
No caso destas, as festas ocorriam numa alameda cercada dentro da Praça do Ferreira, sem acesso para os populares.  Realizavam igualmente, nos moldes venezianos, desfiles de pomposos carros alegóricos pelas ruas da cidade.

Fonte:

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Carnaval 2012 - 2a. feira - desfile de blocos











Até que estava boa a organização dos desfiles na Avenida Domingos Olímpio, observação válida para a segunda feira, dia que fui até lá, mas suponho que tenha se repetido nos outros dias de Carnaval, já que foi montada uma estrutura para o evento. Destaque para os bombeiros, ambulâncias, médicos e socorristas terceirizados, eficientes e tendo muito trabalho. Parabéns aos organizadores.  

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Os Antigos Carnavais de Fortaleza

Nos distantes anos 1950, Fortaleza tinha Carnaval, que acontecia nas ruas, nos clubes e até em residências.  O período momino era respeitado e a folia tinha prazo definido: do domingo à terça-feira. O Sábado gordo era a grande véspera, quando todos ultimavam as fantasias, conferiam o estoque de lança-perfumes, de serpentinas e confetes e se concentravam para a grande festa.

Clube Náutico em foto de 1952 (arquivo Nirez)

No domingo havia baile em todos os clubes, exceto o Country que promovia o baile da 2ª. Feira. Apesar do grande número de festas naquele primeiro dia, a animação era absoluta.  Aconteciam bailes no Náutico, Diários, Iracema, Maguary, Líbano, Comercial, Circulo Militar, e Centro Massapeense. A 2ª Feira era exclusiva do Country Clube, sendo aquele o único baile da noite. 

Clube Líbano, palco de grandes bailes carnavalescos (arquivo Nirez)

Na 3ª feira, despedida do carnaval, todos os clubes voltavam a receber os foliões, em bailes que se prolongavam até o amanhecer.

Mas para a maioria das pessoas, o melhor do carnaval acontecia nas ruas do centro de Fortaleza. A Rua Senador Pompeu era a passarela por onde passavam blocos, cordões e maracatus. As fantasias usadas pelos populares eram improvisadas e bastante criativas. É que naquela época a concepção de carnaval era diferente do hoje, e para os foliões, o importante era fazer a caricatura, fazer deboche de pessoas e fatos, especialmente de figuras da política e da administração pública.

O Bloco Prova de Fogo foi fundado em 1936 (arquivo Nirez)

Tudo começava cedo, a partir das duas da tarde, quando o público começava a encher as calçadas da Rua Senador Pompeu. Como não havia um planejamento, nenhum regulamento a ser cumprido, maracatus, blocos, cordões e blocos de sujos, se misturavam, quem chegava ia entrando e fazendo sua apresentação.

Por outro lado os grupos desfilavam à vontade, passavam duas, até três vezes, o importante era satisfazer o público e receber os aplausos.  A Rua Senador Pompeu, quase totalmente residencial, permitia que seus moradores abrissem suas janelas e sacadas que funcionavam como camarotes.

Blocos Turma Bamba e Cordão das Coca-Colas, desfile de 1950 (arquivo Nirez)

Os sargentos da Base Aérea inventaram o Cordão das Coca-Colas, parodiando as moças que namoravam os americanos no tempo da 2ª. Guerra. Outras turmas de marmanjos fundaram o Bloco das Baianas, as Garotas do Sputinik, as Garotas da Pepsi, Turma do Camarão, Turma Bamba, Prova de Fogo, Escola de Samba Luiz Assunção e os Maracatus Leão Coroado, Estrela Brilhante, Az de Ouro, Reis de Paus, Rancho de Iracema e o maior e mais rico de todos, o Maracatu Az de Espadas.

Bloco "Enverga mas não quebra" e o maracatu, desfile de 1950 (arquivo Nirez)

Na Avenida Duque de Caxias passava o corso de automóveis, que ficava reduzido às famílias mais abastadas, porque naquele tempo, possuir automóvel era privilégio de poucos. O casal e as crianças ocupavam o interior do veículo, enquanto rapazes e moças, com suas fantasias, ocupavam a capota e os paralamas dos veículos, todos ostentando suas Rodouro, às vezes um em cada mão enluvada.

Outra particularidade dos velhos carnavais eram os assaltos às residências. Um grupo de mascarados, disfarçando a voz para não serem reconhecidos, invadia a residência de pessoas conhecidas e forçavam a todos a entrar na folia. Os anfitriões, pegos de surpresa, serviam comidas e bebidas e também brincavam. Só vinham  saber quem eram os visitantes depois do Carnaval. Em alguns casos, nunca viriam a saber.

E assim era o Carnaval daqueles tempos. Três dias que eram suficientes para que todos se divertissem numa perfeita ordem e genuína democracia.


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O lança-perfume foi a grande invenção do Carnaval Brasileiro. Surgido em 1906 no Rio de Janeiro, logo veio dar uma aura toda especial às festas de momo de norte e sul do Brasil.  Apareceu com grande publicidade, sendo distribuído em três apresentações — dez, trinta e sessenta gramas. 

Fabricadas pela Rodo Suíça, aquelas ampolas de cloreto de etila, éter, clorofórmio e essência especialmente perfumada,  animaram os nossos carnavais até 1961, quando tiveram a sua produção proibida por decreto do presidente Jânio Quadros.

extraído do livro de Marciano Lopes

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A História de Zé Tatá


Em épocas antigas era comum os comerciantes terem seus estabelecimentos no térreo e residirem no piso superior. Quando os comerciantes se mudaram do centro, os sobrados foram ocupados pelas pensões e cabarés. (arquivo Nirez)

José Vicente de Carvalho  ou simplesmente Zé Tatá, era empresário da noite em Fortaleza, proprietário de diversas casas noturnas que ficaram na crônica e na memória da cidade.  A Pensão Ubirajara funcionava na Rua Major Facundo entre as Ruas Senador Alencar e São Paulo, depois  se transferiu para um sobradão antigo com escadaria de madeira.

A Boate Tabariz ficava na Rua Pessoa Anta n° 120, onde mantinha música ao vivo. Foi neste estabelecimento que Zé Tatá  obteve maior êxito no ramo, pela exuberância do local e pela grande frequência. Depois  o empresário abriu a Pensão Hollywood, na Rua Barão do Rio Branco.

Zé Tatá era uma figura exótica, com aproximadamente dois metros de altura, com quase 120 kg de massa corpórea, traços fisionômicos corretos, prolongada calvície, cor parda, semblante alegre, bem trajado, sem muita afetação,  com sandália quase femininas, mas com roupas adequadas.

Participava ativamente das festas carnavalescas. Durante o período momino se fantasiava e fazia parte do Bloco das Baianas. Com seu porte gigantesco, vestido à La Carmem Miranda, ocupava posição de destaque no bloco, recebendo calorosos aplausos de quantos assistiam o corso que se iniciava na Avenida Dom Manuel, percorria a Avenida Duque de Caxias e ia até a Avenida Padre Ibiapina.

Na rua o homenzarrão despertava curiosidade de todos,  quando circulava sua figura portentosa pelo centro da cidade,  sem jamais ser importunado com vaias, assobios,  piadas ou pilhérias - uma espécie de marca registrada do centro - isto porque, o homossexual mais assumido da época, tinha também o seu lado macho e quando entrava num entrevero, não levava desvantagem.  Com fama de brigão e de não levar desaforo para casa, Zé Tatá atravessa o quartel general do Ceará moleque – a Praça do Ferreira – sob olhares curiosos e bocas bem fechadas.

Na Boate Tabariz – Zé Tatá era quem abria as festas, rodopiando no salão, escalando para seu par uma dançarina que bem pudesse representar o cabaré. A escolhida era quase sempre uma certa Francisca ou na falta desta, Das Dores ou Clébia. De repente todos os presentes começavam a dançar com muita animação e o cabaré se inflamava com as músicas de diversos ritmos.

Um aspecto que era rigorosamente observado pelo proprietário, dizia respeito aos frequentadores dos seus cabarés, que se porventura, com ele cruzasse nas ruas do centro de Fortaleza ou no Mercado Central, onde diariamente fazia suas compras, demonstrava que não conhecia ou simplesmente acenava com o olhar, num cumprimento cauteloso, para não ser notado por outras pessoas nem comprometer o nome e a reputação do cliente.


Mas quem subisse as escadarias de qualquer uma das casas noturnas do temível Zé Tatá, tinha assegurado um tratamento atencioso, um ambiente discreto e seguro e todas as diversões que as noites proporcionavam.

viaduto da FEB, que a cidade chama de Tatazão

A homenagem da cidade ao Zé Tatá, foi dar o nome de Tatazão ao famoso viaduto da Avenida Alberto Nepomuceno, esquina com a Rua José Avelino – antiga Rua Mesquita, pelo fato de se situar o último estabelecimento comercial e residencial no início da primeira quadra da mencionada Rua José Avelino.


Extraído do livro de Zenilo Almada "O Bonde e Outras recordações"  
fotos Fortaleza em Fotos

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os cadetes da escola Militar

Dia da deposição do Governador Clarindo de Queiroz pelos cadetes da Escola Militar do Ceará
(foto Arquivo Nirez)

A chegada da Escola Militar trouxe a Fortaleza uma das épocas mais agitadas da cidade. O Estabelecimento foi classificado pelo jornalista João Brígido como uma instituição nociva à paz pública, a qual desapareceu em meio a maldições. A sua primeira instalação – enquanto o prédio da Avenida Santos Dumont passava por reformas – foi nos fundos do quartel do 11° Batalhão de Infantaria, hoje 23° BC.

Foram matriculados 700 alunos, entre efetivos e adidos. Como a escola não oferecia internato, os alunos formaram “repúblicas” pela cidade. À noite, depois das 21 horas, os cadetes tomavam conta da pacata cidade e praticavam todo tipo de desordens.
Andavam aos bandos, roubavam galinhas, patos e perus dos quintais das residências, e obrigavam as patrulhas policiais a pegar jumentos nos cercados para realizar suas farras noturnas.

Em fevereiro de 1892, usando canhões e metralhadoras, os cadetes cercaram o palácio do governo e exigiram a renúncia do governador Clarindo de Queiroz. Disposto a resistir o governador respondeu ao ataque durante toda noite o que resultou em 13 mortos e inúmeros feridos. Na manhã de 17 de fevereiro, com o palácio crivado de balas, Clarindo de Queiroz, sem munição, rendeu- se e entregou o cargo ao Coronel Bezerril, então comandante da Escola Militar.

Em 1897 os cadetes organizaram para o carnaval um bloco chamado Clube dos Gaiolas.
O clube composto somente por alunos da escola Militar tinha sua sede na Rua Senador Pompeu, num imóvel invadido pelos alunos. Para equipar o clube para o carnaval, roubaram tudo: carroças, sinos (do Passeio Público e da Igreja São Luís), cadeiras, caixões para armações de palanques. Os Gaiolas iam sair à rua no domingo de carnaval. Na véspera começaram a captura de jumentos que seriam utilizados no desfile.

A polícia sabedora de que os cadetes iriam trazer carros de crítica às autoridades, exigiu que os veículos fossem previamente submetidos a sua apreciação. Os cadetes, porém, não tomaram conhecimento da exigência e saíram no dia e hora anunciados.

Os carros de críticas apareceram, com um mascarado à frente, representando o governador do estado, a bancar roleta no palácio; atrás o chefe de policia dormia em uma espreguiçadeira, enquanto as ordenanças jogavam baralho. Os cadetes não temiam nada, nem a própria policia e faziam o que bem entendiam.

A escola era comandada pelo Cel. Siqueira de Menezes, militar austero e disciplinador, que não era bem aceito pelos alunos. Certa noite realizava-se um baile em casa de um oficial da guarnição, na Rua Major Facundo, ao qual compareceu o Cel. Siqueira. Do "sereno" da festa, os cadetes perceberam que o comandante tentava conquistar determinada dama. Confabularam e resolveram dar uma surra no coronel.

Reuniram-se no Passeio Público e armados de toalhas molhadas esperaram sua saída. Graças, porém a interferência do Major José Faustino, que tinha prestigio junto aos alunos, a agressão não se consumou. No dia seguinte a cidade amanheceu com letreiros escritos a piche “Abaixo o Nazareno”, numa referência a aparência do Coronel.

A partir desse dia os alunos não aceitaram mais subordinar-se ao seu comando e aclamaram, em seu lugar no comando da Escola, o Major Faustino. Telegrafaram em seguida ao presidente da república, que concordou com a substituição, dando ordem a Siqueira de Menezes para embarcar de volta para a capital do País.

Os abusos cometidos pelos alunos da escola militar continuaram com maior intensidade e, durante muito tempo, os moradores acordavam sobressaltados à espera de mais alguma ação dos desordeiros cadetes que ficaram famosos por conta dos atos de vandalismo cometidos em Fortaleza.

Fonte:
MENEZES, Raimundo de. Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000.