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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Bodegueiros e Lojistas


A bodega na Fortaleza antiga foi sempre nota de realce da vida pacata de sua gente, ponto de convergência e referência  e reduto de importância acima das rotineiras e modestas atividades mercantis. Assim como a farmácia era local de destaque dos vilarejos e burgos do interior, a bodega nas cidades maiores era o elemento divulgador dos acontecimentos que merecessem essa qualificação. 

 no interior, as bodegas ainda resistem 

Nas duas décadas iniciais do século XX, Fortaleza, com seus cinquenta a sessenta mil habitantes, contava com algumas bodegas que se tornaram muito conhecidas pela vida longa que tiverem. 

Essas bodegas eram conduzidas pelos seus proprietários, as vezes sozinhos, sem empregados, outras ajudadas por familiares. Situadas estrategicamente em esquinas, raras seriam as encravadas no meio de quarteirão. Estas não seriam consideradas bodegas, mas quitandas ou vendinhas. As bodegas eram marcadas pelo sortimento que assegurava e espalhava a fama do estabelecimento:
 – a bodega do Fulano tem tudo!

Tinham características que estavam em praticamente todos os estabelecimentos. O balcão de tábuas superpostas era pintado de duas cores, geralmente vivas: verde e vermelho, azul e amarelo, em listas verticais como que separando as tábuas que era assentado. As prateleiras eram rústicas, também pintadas de cores vivas. Algumas tinham uma parte envidraçada para os artigos de miudezas, outras possuíam armários para esses artigos, que eram chamados fiteiros.

Além das casas retalhistas do centro, famosas eram as bodegas do Mané Boi (Avenida do Imperador)  do Zé Ramos (Santa Isabel) do Gambetá Bruno (Imperador), do Maracanã (Imperador), do Zé Macieira e do Chico Ramos (na Tristão Gonçalves), a do Lopicinio, do Eduardo Garcia e do Chico da Mãe Iza, na Rua 24 de Maio

Durante muitos anos eram as bodegas mais conhecidas das ruas centrais, excluídas algumas do centro classificadas como mercearias, e naturalmente as dos bairros e das areias. (as areias eram os subúrbios mais distantes do centro, sem calçamento e sem urbanização). 

Afastadas do centro propriamente dito, isoladas na Rua Senador Pompeu havia também algumas lojas de tecidos e miudezas. Populares eram as casas de Madeira Barros e Miranda, ambas na Senador Pompeu, a de Braz Branco, nas imediações, e a de Francelino Moreira Gomes, na Rua do Imperador.

 antiga Rua Santa Isabel, cenário das antigas bodegas de Fortaleza. Nesta rua ficava a bodega do Zé Ramos (foto Arquivo Nirez)
 
A bodega sortida de Zé Ramos, na Rua de Santa Isabel (Princesa Isabel) tinha uma curiosa característica. De tempos em tempo fechava por dois ou três dias. Era que seu proprietário tomava porres homéricos, aos quais, dizia-se à boca pequena, sua mulher aderia.  E a freguesia logo concluía, com conhecimento de causa: 
- Ze Ramos está bebendo. A bodega está fechada desde ontem.

As bodegas de Chiquinho Ramos e de Zé Macieira ficavam na antiga Rua do Trilho de Ferro, esquina com a São Bernardo (atual Pedro Pereira).  Ficavam em frente uma da outra. A bodega de Zé Macieira, quando já mudara de proprietário, foi palco de uma tragédia nos tempos agitados da queda de Franco Rabelo

A jagunçada do Padre Cícero e de Floro Bartolomeu, afiançada e estimulada pelo governo federal que interviera no Estado, invadiu a cidade.  Nesse período obscuro da vida da capital, houve total subversão da ordem. Todos os dias havia arruaças e até mortes e os roubos eram uma constante.  

O comerciante Francisco Moraes, ex-contramestre de importante fábrica de tecidos, então proprietário da bodega que fora de Macieira, dormia no quarto que ficava ao fundo do estabelecimento. 

Fazia-o por precaução, pois residia perto com a família, mas a época era de pavor e apreensão. Numa noite, Moraes ouviu barulho na bodega. Homem resoluto, apanhou uma espingarda de caça, subiu numa escada e através da bandeirola da porta, disparou. Uma carga de chumbo acertou de frente o ladrão, que era o subdelegado do Arraial Moura Brasil ou do Morro do Moinho. Os demais ladrões fugiram, deixando na rua as mercadorias roubadas.  

Rua 24 de maio com Guilherme Rocha em 1910 (arquivo Nirez)

Na Praça do Patrocínio (antiga Marquês de Herval e atual José de Alencar), esquina com a Rua 24 de maio, a bodega do Lopicinio era muito conhecida. Lopicinio Maia não tinha empregados. Ele mesmo de atendia aos fregueses, não sem alguma dificuldade, pois era fanhoso e não se fazia entender rapidamente. Homem sério, nada simpático e naturalmente desconfiado, com fama de sovina, dizem que certa vez foi desfeiteado por outro fanho que lá apareceu e julgou que o bodegueiro o imitasse.

Na Rua General Sampaio, também com a São Bernardo, rua famosa de bodegas e mercearias, havia o estabelecimento de Francisco Benjamin de Menezes, o pai do escritor Raimundo de Menezes. Era uma mercearia de sortimento de artigos finos, de importação. Mantinha a tradição de vender fogos de artificio. Francisco Benjamin era um velho limpo e saudável, de maneiras finas mesmo no balcão do seu estabelecimento. Era respeitado por sua postura e educação, mas às ocultas, era chamado de Chico Bacurau, que parecia ser apelido de família.

As bodegas de Fortaleza foram destaques da vida e da evolução da capital. Não eram apenas casa comerciais de varejo, mas pontos de referência e locais de efervescência de boatos, de divulgação de notícias. Eram verdadeiros fortins da vida do povo. Centros de abastecimento e de comunicação da cidade, que não se pejava de crescer aos poucos, mas harmoniosamente, com tranquilidade, modéstia e até com alegria.


Extraído do livro de Edigar de Alencar
Fortaleza de ontem e anteontem  

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Colégio Castelo Branco

O colégio Castelo Branco foi fundado no dia 1° de junho de 1900 com o nome de Instituto Miguel Borges, pelo professor Odorico Castelo Branco, na Rua Major Facundo, 156-B. Em 1910 mudou-se para a Rua Senador Pompeu, 24, depois mudou-se para a Praça Senador José Júlio (Praça do Coração de Jesus) onde permaneceu até a morte de Odorico, em 1921. Após o falecimento do seu fundador, o estabelecimento de ensino  recebeu a denominação de Colégio Castelo Branco, teve seu patrimônio alienado à Arquidiocese de Fortaleza e mudou-se para a Avenida Dom Manuel no final da década de 1930.

    foto do arquivo Nirez

O arquiteto autodidata José Barros Maia (Mainha),  aluno do estabelecimento quando este funcionava na Rua Senador Pompeu, conta que o professor Odorico Castelo Branco era um grande educador e disciplinador. No internato, eram oito ou dez alunos, onde havia um aluno chamado Paulo Sanford, um dos melhores do colégio. Todas as vezes que o professor Castelo saía, mandava que Sanford tomasse conta da secretaria.

Odorico Castelo Branco tinha uma filha Odorina, cuja mãe morreu no parto. O professor nunca consentiu que ninguém tomasse conta da filha, ele fazia isso sozinho.  Um dia, ele saiu e chegando na varanda posterior da casa, olhou e viu que o banheiro estava com a porta semiaberta. Perguntou quem era o “imoral” que estava usando o banheiro.  Disseram que era o Paulo Sanford. E então, à tarde, na hora que ele precisava, mandou chamá-lo e disse:  
- ô Paulo, vá tomar conta da secretaria.  O aluno respondeu: 
- não vou, porque um imoral não pode tomar conta da casa onde o senhor tem uma filha. O professor disse:  
- pois o senhor está expulso!

Aí o colégio todo ficou ao lado do Paulo Sanford. Ele pediu desculpas porque estava no meio do ano. No dia seguinte, estavam todos expulsos. Por causa de interferências externas, ele tornou sem efeito a expulsão. Mas expulsou todos os alunos solidários com a providência que ele tinha tomado.

As escolas funcionavam em casas antigas, adaptadas, raramente alguém construía um prédio especificamente para o funcionamento de uma escola. Geralmente o diretor-proprietário  botava a secretaria e algumas salas no corpo principal da casa, o restante era esse complemento de quintal. 

A relação professor/alunos era de muito respeito, o próprio arquiteto Mainha,  para não ser flagrado fumando,  pelo professor Castelo, apagou o cigarro na mão, o que lhe valeu uma marca que ele carregou para o resto da vida.  
    

Fonte:
Lembrar é Viver de Novo, depoimento de José Barros Maia (Mainha)
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez) 

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os cadetes da escola Militar

Dia da deposição do Governador Clarindo de Queiroz pelos cadetes da Escola Militar do Ceará
(foto Arquivo Nirez)

A chegada da Escola Militar trouxe a Fortaleza uma das épocas mais agitadas da cidade. O Estabelecimento foi classificado pelo jornalista João Brígido como uma instituição nociva à paz pública, a qual desapareceu em meio a maldições. A sua primeira instalação – enquanto o prédio da Avenida Santos Dumont passava por reformas – foi nos fundos do quartel do 11° Batalhão de Infantaria, hoje 23° BC.

Foram matriculados 700 alunos, entre efetivos e adidos. Como a escola não oferecia internato, os alunos formaram “repúblicas” pela cidade. À noite, depois das 21 horas, os cadetes tomavam conta da pacata cidade e praticavam todo tipo de desordens.
Andavam aos bandos, roubavam galinhas, patos e perus dos quintais das residências, e obrigavam as patrulhas policiais a pegar jumentos nos cercados para realizar suas farras noturnas.

Em fevereiro de 1892, usando canhões e metralhadoras, os cadetes cercaram o palácio do governo e exigiram a renúncia do governador Clarindo de Queiroz. Disposto a resistir o governador respondeu ao ataque durante toda noite o que resultou em 13 mortos e inúmeros feridos. Na manhã de 17 de fevereiro, com o palácio crivado de balas, Clarindo de Queiroz, sem munição, rendeu- se e entregou o cargo ao Coronel Bezerril, então comandante da Escola Militar.

Em 1897 os cadetes organizaram para o carnaval um bloco chamado Clube dos Gaiolas.
O clube composto somente por alunos da escola Militar tinha sua sede na Rua Senador Pompeu, num imóvel invadido pelos alunos. Para equipar o clube para o carnaval, roubaram tudo: carroças, sinos (do Passeio Público e da Igreja São Luís), cadeiras, caixões para armações de palanques. Os Gaiolas iam sair à rua no domingo de carnaval. Na véspera começaram a captura de jumentos que seriam utilizados no desfile.

A polícia sabedora de que os cadetes iriam trazer carros de crítica às autoridades, exigiu que os veículos fossem previamente submetidos a sua apreciação. Os cadetes, porém, não tomaram conhecimento da exigência e saíram no dia e hora anunciados.

Os carros de críticas apareceram, com um mascarado à frente, representando o governador do estado, a bancar roleta no palácio; atrás o chefe de policia dormia em uma espreguiçadeira, enquanto as ordenanças jogavam baralho. Os cadetes não temiam nada, nem a própria policia e faziam o que bem entendiam.

A escola era comandada pelo Cel. Siqueira de Menezes, militar austero e disciplinador, que não era bem aceito pelos alunos. Certa noite realizava-se um baile em casa de um oficial da guarnição, na Rua Major Facundo, ao qual compareceu o Cel. Siqueira. Do "sereno" da festa, os cadetes perceberam que o comandante tentava conquistar determinada dama. Confabularam e resolveram dar uma surra no coronel.

Reuniram-se no Passeio Público e armados de toalhas molhadas esperaram sua saída. Graças, porém a interferência do Major José Faustino, que tinha prestigio junto aos alunos, a agressão não se consumou. No dia seguinte a cidade amanheceu com letreiros escritos a piche “Abaixo o Nazareno”, numa referência a aparência do Coronel.

A partir desse dia os alunos não aceitaram mais subordinar-se ao seu comando e aclamaram, em seu lugar no comando da Escola, o Major Faustino. Telegrafaram em seguida ao presidente da república, que concordou com a substituição, dando ordem a Siqueira de Menezes para embarcar de volta para a capital do País.

Os abusos cometidos pelos alunos da escola militar continuaram com maior intensidade e, durante muito tempo, os moradores acordavam sobressaltados à espera de mais alguma ação dos desordeiros cadetes que ficaram famosos por conta dos atos de vandalismo cometidos em Fortaleza.

Fonte:
MENEZES, Raimundo de. Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000.