Mostrando postagens com marcador avenida do imperador. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador avenida do imperador. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A Tipografia Minerva e as Artes Gráficas

Primeira sede da Tipografia Minerva, nos anos 20 e atualmente: virou estacionamento

A última década do século XIX trouxe para o Ceará a marca da arte e da cultura. Em maio de 1892 nascia a Padaria Espiritual, agremiação que reunia jovens pintores, músicos e escritores cearenses, para falar abertamente sobre suas expressões artísticas. Seus componentes chamados de padeiros, assinavam crônicas, contos, editoriais e poesias, num jornal editado por eles e simbolicamente chamado “O Pão”. Pouco antes,  em 15 de março o livreiro Gualter Rodrigues Silva instalava uma nova oficina tipográfica em Fortaleza em um antigo prédio da Travessa da Assembleia, n 41 (atual Rua São Paulo), inspirado na deusa romana da sabedoria e das artes, das técnicas de guerra e padroeira das artes úteis, dá a empresa o nome de Tipografia Minerva. Ali seriam impressos “A Fome” de Rodolfo Teófilo e “Lendas e Canções Populares” de Juvenal Galeno.

Pouco tempo, no entanto, lhe restaria para experimentar a arte de perpetuar em tipos impressos o falar dos amigos. Ao completar 48 anos foi vítima e de um aneurisma que o levou para a eternidade, deixando à pintora Isabel Ribeiro da Silva Gualter o triplo desafio de pintar, imprimir e vender livros. Seis anos depois, em 1898, optando por manter a Libro Papelaria Gualter, Isabel vende para Francisco Assis Bezerra de Menezes uma oficina com três pequenas impressoras, uma máquina de cortar e algumas caixas de tipos. Junto iria o único operário da Minerva, o impressor José Flamínio Benevides.

 Proprietários e funcionários da Tipografia Minerva. O proprietário Assis Bezerra, está na fila da frente, sentado, o 4° da esquerda p/direita

De acordo com Aluísio Bezerra, no mesmo ano de fundação da Tipografia Minerva em 1892, Assis Bezerra havia perdido o pai, Antônio Bezerra de Menezes e assumira, juntamente com o irmão mais velho, Manuel Felício (Bezerrinha) a responsabilidade de amparar a mãe e os irmãos. Em 1894 havia trabalhado como dirigente de um hotel em Quixeramobim; mais tarde, em sociedade com um primo, instalara uma indústria de beneficiamento de algodão na então vila de Pedra Branca. Agora, com 29 anos de idade, investe dois contos e 800 mil réis em um empreendimento que marcaria para sempre a vida da família Bezerra.

Em 1904 a Tipografia Minerva mudaria suas instalações para a Rua Major Facundo, n° 111 a 113, em prédio alugado por 110$000 mensais. Pouco mais de 20 anos depois, o aluguel já alcançava a casa dos 500$000, o que inviabilizava o negócio. Em 1926, Moacir Bezerra faz um investimento de 50.000$000 e compra duas casas na Rua Barão do Rio Branco n° 788, promove ampla reforma e instala as máquinas da gráfica naquela que seria a primeira sede própria da Tipografia Minerva. Ali permaneceu por quatro décadas, mudando-se para outro imóvel localizado na Avenida Imperador, ficando na antiga sede a livraria e a papelaria.


sábado, 18 de janeiro de 2014

A Presença Maçônica no Ceará



A primeira loja Maçônica do Ceará, instalada em Fortaleza, no ano de 1859 foi a Fraternidade Cearense 136. Mas não foi a primeira manifestação maçônica no Estado: antes, a maçonaria atuara de modo decisivo em questões de cunho político, que culminaram com a Confederação do Equador e o sacrifício de alguns maçons, inclusive do Padre Mororó.

A maçonaria brasileira esteve unificada sob a denominação de Grande Oriente do Brasil (GOB) a partir de 1883. Nesse período atuavam no Ceará as lojas maçônicas Fraternidade Cearense (1859) e Igualdade (1882). 

Depois surgiram Liberdade IV (1901), Porangaba (1905), Amor e Caridade III (1905), dentre outras. Em 1927 ocorre a do Grande Oriente do Brasil, passando a se organizarem em cada Estado da federação as Grandes Lojas Simbólicas, vinculadas à Confederação da Maçonaria Simbólica, gozando de autonomia e soberania dentro e fora do país.


Loja maçônica Igualdade 405, fundada em 27 de junho de 1882. Fica na Rua Senador Pompeu, 578, centro de Fortaleza. Foto de 2013

A presença maçônica nos movimentos sociais no Ceará, ganha destaque através de sua inserção na organização dos trabalhadores através da Sociedade Artística Beneficente (1902) e Centro Artístico Cearense (1904), seguindo-se diversas outras, inclusive no interior do estado. 

Essa atuação correspondia ao novo apostolado da Maçonaria brasileira, a questão social, nos primeiros anos do século XX, em continuidade à sua participação na campanha abolicionista. 

A Grande Loja do Ceará é fundada em 19 de março de 1928, resultante da coligação de três Lojas: Deus e Camocim (1921), Porangaba (1905) e Fortaleza (1928). Essa reorganização da Maçonaria brasileira daria nova dinâmica, em termos estaduais, para a atuação dos pedreiros-livres.

 Palácio Maçônico Francisco Dias da Rocha, na Avenida do Imperador, fundada em 19 de outubro de 1929. (foto de Erikson Salomoni)


Em razão de seu caráter sigiloso e do desconhecimento dos seus objetivos,  (há evidências de que somente os maçons que chegam ao último grau (33º grau no rito escocês sabem verdadeiramente os reais objetivos da Maçonaria), a entidade foi um dos alvos mais constantes da Igreja Católica.


A maçonaria é o principal ingrediente do livro "O Símbolo Perdido", de Dan Brown, lançado em 2010. A trama se passa em Washington, cidade cheia de símbolos da maçonaria.  Alguns são bem evidentes, como o obelisco, símbolo da divindade, com uma pirâmide, que representa a evolução dos seres humanos. A influência dos maçons se refletiu na criação da biblioteca do Congresso americano, hoje a maior do mundo. 

 Evocação da ideia de Deus - Representada pelo Triângulo, Delta Luminoso ou por Três Pontos.
Dan Brown, autor do livro  lembra que o símbolo mais sagrado da nação, que está nas notas de 1 dólar, é a pirâmide da maçonaria, encimada por um olho que simboliza a sabedoria. Segundo o escritor, a pirâmide incompleta, sem o vértice, é um símbolo de que o ser humano, e o país, nunca estão prontos, sempre podem se aperfeiçoar 

Nos ataques à entidade – que em alguns períodos chegavam a ser diários – o jornal clerical O Nordeste procura desqualificar a Maçonaria, classificando-a, dentre outras coisas como sociedade criminosa. Tome-se como exemplo o ano de 1925, em que O Nordeste traz reportagens do tipo: ”Perseguição religiosa na França, onde divulga nota do cardeal  Dubois, responsabilizando a Maçonaria pelas medidas do governo contra a Igreja Católica (9 de fevereiro); A Câmara italiana aprova o projeto contra a maçonaria. Naquela ocasião Mussolini Declarou que a maçonaria é o maior inimigo do fascismo“.

Augusta respeitável Loja Simbólica Fortaleza - 3a. Loja Maçônica, na Avenida da Universidade (foto de 2010, do acervo do blog) 

O jornal O Ceará, do jornalista, professor e maçom Júlio de Matos Ibiapina se colocou na defesa irrestrita da Maçonaria, ante os ataques do diário católico: "os leitores do órgão pio desta capital na estarão esquecidos da campanha quase diária que ali se faz contra a Maçonaria. Os conceitos emitidos contra essa instituição poderão levar ao povo ignorante a impressão de que a Maçonaria é criação diabólica, digna de ser condenada, não somente pelos católicos, mas por todos que se interessam pelo progresso social, tão negras são as cores que se pintam os intuitos dos maçons."


Pesquisa
Artigo: Maçons, espíritas e católicos nos embates religiosos da Primeira República no Ceará, de Marcos José Diniz Silva, disponível em
http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.0279.pdf
Jornal Diário do Nordeste
http://www.lojasaopaulo43.com.br/simbolismo.php 
http://renanabiff.blogspot.com.br/2010/01/dan-brown-lanca-livro-sobre-simbolos-da.html


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Bodegueiros e Lojistas


A bodega na Fortaleza antiga foi sempre nota de realce da vida pacata de sua gente, ponto de convergência e referência  e reduto de importância acima das rotineiras e modestas atividades mercantis. Assim como a farmácia era local de destaque dos vilarejos e burgos do interior, a bodega nas cidades maiores era o elemento divulgador dos acontecimentos que merecessem essa qualificação. 

 no interior, as bodegas ainda resistem 

Nas duas décadas iniciais do século XX, Fortaleza, com seus cinquenta a sessenta mil habitantes, contava com algumas bodegas que se tornaram muito conhecidas pela vida longa que tiverem. 

Essas bodegas eram conduzidas pelos seus proprietários, as vezes sozinhos, sem empregados, outras ajudadas por familiares. Situadas estrategicamente em esquinas, raras seriam as encravadas no meio de quarteirão. Estas não seriam consideradas bodegas, mas quitandas ou vendinhas. As bodegas eram marcadas pelo sortimento que assegurava e espalhava a fama do estabelecimento:
 – a bodega do Fulano tem tudo!

Tinham características que estavam em praticamente todos os estabelecimentos. O balcão de tábuas superpostas era pintado de duas cores, geralmente vivas: verde e vermelho, azul e amarelo, em listas verticais como que separando as tábuas que era assentado. As prateleiras eram rústicas, também pintadas de cores vivas. Algumas tinham uma parte envidraçada para os artigos de miudezas, outras possuíam armários para esses artigos, que eram chamados fiteiros.

Além das casas retalhistas do centro, famosas eram as bodegas do Mané Boi (Avenida do Imperador)  do Zé Ramos (Santa Isabel) do Gambetá Bruno (Imperador), do Maracanã (Imperador), do Zé Macieira e do Chico Ramos (na Tristão Gonçalves), a do Lopicinio, do Eduardo Garcia e do Chico da Mãe Iza, na Rua 24 de Maio. 

Durante muitos anos eram as bodegas mais conhecidas das ruas centrais, excluídas algumas do centro classificadas como mercearias, e naturalmente as dos bairros e das areias. (as areias eram os subúrbios mais distantes do centro, sem calçamento e sem urbanização). 

Afastadas do centro propriamente dito, isoladas na Rua Senador Pompeu havia também algumas lojas de tecidos e miudezas. Populares eram as casas de Madeira Barros e Miranda, ambas na Senador Pompeu, a de Braz Branco, nas imediações, e a de Francelino Moreira Gomes, na Rua do Imperador.

 antiga Rua Santa Isabel, cenário das antigas bodegas de Fortaleza. Nesta rua ficava a bodega do Zé Ramos (foto Arquivo Nirez)
 
A bodega sortida de Zé Ramos, na Rua de Santa Isabel (Princesa Isabel) tinha uma curiosa característica. De tempos em tempo fechava por dois ou três dias. Era que seu proprietário tomava porres homéricos, aos quais, dizia-se à boca pequena, sua mulher aderia.  E a freguesia logo concluía, com conhecimento de causa: 
- Ze Ramos está bebendo. A bodega está fechada desde ontem.

As bodegas de Chiquinho Ramos e de Zé Macieira ficavam na antiga Rua do Trilho de Ferro, esquina com a São Bernardo (atual Pedro Pereira).  Ficavam em frente uma da outra. A bodega de Zé Macieira, quando já mudara de proprietário, foi palco de uma tragédia nos tempos agitados da queda de Franco Rabelo. 

A jagunçada do Padre Cícero e de Floro Bartolomeu, afiançada e estimulada pelo governo federal que interviera no Estado, invadiu a cidade.  Nesse período obscuro da vida da capital, houve total subversão da ordem. Todos os dias havia arruaças e até mortes e os roubos eram uma constante.  

O comerciante Francisco Moraes, ex-contramestre de importante fábrica de tecidos, então proprietário da bodega que fora de Macieira, dormia no quarto que ficava ao fundo do estabelecimento. 

Fazia-o por precaução, pois residia perto com a família, mas a época era de pavor e apreensão. Numa noite, Moraes ouviu barulho na bodega. Homem resoluto, apanhou uma espingarda de caça, subiu numa escada e através da bandeirola da porta, disparou. Uma carga de chumbo acertou de frente o ladrão, que era o subdelegado do Arraial Moura Brasil ou do Morro do Moinho. Os demais ladrões fugiram, deixando na rua as mercadorias roubadas.  

Rua 24 de maio com Guilherme Rocha em 1910 (arquivo Nirez)

Na Praça do Patrocínio (antiga Marquês de Herval e atual José de Alencar), esquina com a Rua 24 de maio, a bodega do Lopicinio era muito conhecida. Lopicinio Maia não tinha empregados. Ele mesmo de atendia aos fregueses, não sem alguma dificuldade, pois era fanhoso e não se fazia entender rapidamente. Homem sério, nada simpático e naturalmente desconfiado, com fama de sovina, dizem que certa vez foi desfeiteado por outro fanho que lá apareceu e julgou que o bodegueiro o imitasse.

Na Rua General Sampaio, também com a São Bernardo, rua famosa de bodegas e mercearias, havia o estabelecimento de Francisco Benjamin de Menezes, o pai do escritor Raimundo de Menezes. Era uma mercearia de sortimento de artigos finos, de importação. Mantinha a tradição de vender fogos de artificio. Francisco Benjamin era um velho limpo e saudável, de maneiras finas mesmo no balcão do seu estabelecimento. Era respeitado por sua postura e educação, mas às ocultas, era chamado de Chico Bacurau, que parecia ser apelido de família.

As bodegas de Fortaleza foram destaques da vida e da evolução da capital. Não eram apenas casa comerciais de varejo, mas pontos de referência e locais de efervescência de boatos, de divulgação de notícias. Eram verdadeiros fortins da vida do povo. Centros de abastecimento e de comunicação da cidade, que não se pejava de crescer aos poucos, mas harmoniosamente, com tranquilidade, modéstia e até com alegria.


Extraído do livro de Edigar de Alencar
Fortaleza de ontem e anteontem  

quinta-feira, 28 de junho de 2012

As Antigas Padarias

Não tinha muita lógica. A água não era boa, mas o pão era excelente, elogiado por todos. Tão bom quanto os melhores do Brasil, diziam. No entanto, o pão fabricado em Fortaleza perdeu a qualidade. Está longe de ser o que foi, leve, saboroso e de bom aspecto. 

Inaugurada em 1925, a Padaria Ideal funcionou inicialmente na Rua Barão do Rio Branco. Depois foi vendida e mudou-se para a esquina da Rua Guilherme Rocha com a Avenida do Imperador. 

Não seriam muitas as padarias de Fortaleza nas duas primeiras décadas deste século. Talvez não chegassem a uma dúzia, mas o pão era de boa qualidade. Havia a Padaria Aveirense, a Palmeira,  a Industrial, a Fábrica Aliança – movida a vapor e talvez por isso, a primeira a se designar fábrica – e a tradicional Santo Antônio, de Emilio Sá, na Rua do Livramento (atual Clarindo de Queirós) , a única de propriedade de cearenses, pois as demais pertenciam a portugueses e italianos.

A Padaria Palmeira funcionava na esquina das ruas Senador Pompeu com Guilherme Rocha, para onde mudou-se em 1923. Pertencia a firma Ferreira da Silva & filho. Além da panificação atuava também no ramo de torrefação com o Café Palmeira.
     
Em Parangaba havia a Padaria Natalense, de José Pedra, crioulo forte simpático, que além do pão fabricava à tarde umas rosquinhas de grande procura, principalmente nas festas de Bom Jesus, em dezembro.  Diziam que o segredo das rosquinhas vinha do uso da água da lagoa vizinha. O fato é que nenhum outro estabelecimento de Fortaleza chegou a imitar a deliciosa iguaria fabricada pelo Zé Pedra. 

A Padaria Imperial de Antônio Escudeiro de Almeida e José Antônio da Silva, foi fundada em 1923, na Avenida Visconde do Rio Branco. Em 1934 passou a pertencer ao grupo de M.Dias Branco.  

Nos velórios daqueles tempos era costume dos presentes irem buscar na padaria mais próxima, de madrugada, os pães quentes para matar a fome dos que “faziam o quarto”. Os mais afamados eram os pães sovados da Padaria de Emilio Sá. Na Rua 24 de maio instalou-se na década de 1910 a padaria do português José da Silva Bottas,  que pôs o nome de Padaria Biju. A designação dava margem a comentários. Teria o proprietário aportuguesado a palavra francesa ou usado apenas uma variante de beiju? O certo é que os pães a Biju eram gostosos e as famílias freguesas recebiam de brinde no Natal um bonito e enfeitado pão doce, especialmente fabricado para a época. 

Em 1875 surgiu a fábrica de produtos alimentícios que deu origem à Padaria e Confeitaria Lisbonense.  A Lisbonense foi fundada em março de 1916, por Pelágio Rodrigues de Oliveira, José Teixeira de Abreu e Abílio Rodrigues de Oliveira. Em 20 de abril de 1927, passou a funcionar na Rua Pedro Borges, 151/57. Encerrou suas atividades em 10 de outubro de 1983, sob a acusação de estar poluindo o centro da cidade.

Também houve um tempo em que começou a aparecer a tarde o chamado pão do chá. Eram pães especiais, vendidos em latas carregadas pelos padeiros que o apregoavam – olha o pão do chá! – bem apresentados, ainda quentes e nos baús de lata pintados de verde. As famílias ficavam à espera dos pães para o café da merenda, que nunca era chá, que ninguém estava doente...

Os pães da tarde, fabricados com esmero por duas ou três padarias eram de três tipos: o pão do chá, o pão suíço e o pão de leite. Também havia o pão-baliza que dava margem a trocadilhos pitorescos.

Certa vez um desses entregadores de pão da tarde propiciou uma cena tragicômica. Passou anunciando mais tarde do que no seu horário habitual:
- pão de leite, suíço e doce.
Devido a meia língua do vendedor novato e o pregão fora de hora, uma senhora entendeu que era o grito de um gazeteiro, anunciando que o “Padre Leite suicidou-se”, e tratou de espalhar a noticia.

Quanto ao pão da manhã era entregue em domicilio pelos padeiros que o conduziam ao ombro em grandes cestos de vime que arriavam e levantavam, numa rápida e habilidosa operação. 

Padaria Americana
A Padaria Americana foi instalada na Rua General Sampaio, quando o proprietário João Otávio Vieira Filho, transferiu o estabelecimento de Aracati para Fortaleza em 1880. Foi a primeira fábrica de biscoitos e bolachas do Ceará.  

Mas nem só de pão viviam os cearenses da capital. Havia as bolachinhas de manteiga, e de coco; havia ainda os pães-doces, pequenos ou artisticamente desenhados;  e havia o já mencionado pão sovado (Provença), de formato curioso a que Pedro Nava chamou de pão de Provença, em forma de bundinhas e que se dividia separando as duas nádegas.

Curiosas eram também as bolachas fogosas, grandes, redondas e grossas, um tanto maçudas, mas apreciadíssimas no café da manhã. Essas bolachas não eram fabricadas regularmente  embora tivessem muita procura. 

Todos esses produtos há muito deixaram de ser fabricados em Fortaleza.  O que temos nos dias atuais, é o manjado pãozinho com bromato:  grande, oco, seco, só casca, que se esfarela ao ser tocado.


Extraído do livro
Fortaleza de ontem e anteontem, de Edigar de Alencar
      

domingo, 13 de novembro de 2011

As Quermesses de São Benedito

Nos idos dos anos 1950 a Avenida do Imperador abrigava, em centenas de casas quase todas geminadas, inúmeras famílias de classe média que, pela proximidade da moradia, viviam de maneira quase fraternal. Daquele tipo de relacionamento que permitia as visitas constantes, a troca de favores, os pedidos de empréstimos, coisas assim, que faziam de um lar o prolongamento do outro, salvo algumas exceções.

Avenida do Imperador, década de 1950 (arquivo Marciano Lopes)

E no meio dessas famílias, fortalecendo laços, estava a Igreja de São Benedito, localizada entre as transversais das ruas Clarindo de Queiroz e Meton de Alencar. Nas atividades típicas da época, a Igreja de São Benedito, sob a responsabilidade dos padres Sacramentinos, além das obrigações religiosas, fazia constantes festas e quermesses. 


Antiga Igreja de São Benedito, (inaugurada no ano de 1885) ficava na Avenida do Imperador. Quando o novo templo foi construído, no mesmo quarteirão, uma livraria católica passou a funcionar no local. A antiga igreja foi demolida na década de 1990. (arquivo Nirez)
   
No Natal, na Páscoa, nas festas juninas de Santo Antônio, São João e São Pedro, os padres não deixavam por menos: organizavam quermesses aproveitando os generosos espaços em frente e o lado da igreja, decorando-os com bandeirolas coloridas, mesinhas para jogos de prendas e outros atrativos, onde o ponto alto era um animado e barulhento leilão.

As novenas e quermesses de São Benedito integravam o calendário festivo não apenas dos moradores da Imperador e adjacências – Tristão Gonçalves, 24 de Maio, Princesa Isabel, Meton de Alencar, Praça São Sebastião – mas de pessoas de outros bairros mais distantes, todos atraídos pela animação características dos eventos.


A Atual Igreja de São Benedito 

Entre os coordenadores destas festas estava a figura carismática de José Limaverde, locutor pioneiro do rádio cearense, apresentador de dois dos mais famosos programas da antiga PRE-9 – primeira e, por muito tempo única, estação de rádio da cidade: Coisas que o Tempo Levou nas noites de 6ª feira, e Bazar de Música, nas noites de domingo. Limaverde e esposa, junto com outros casais, cuidavam da organização das quermesses de São Benedito com carinho e desvelo. 




Os frequentadores eram praticamente os mesmos que iam à igreja: adolescentes, crianças, senhoras e cidadãos respeitáveis, se divertiam num ambiente tranquilo, que favorecia a aproximação e inicios de novas amizades. 


Foi neste cenário harmônico que, certa noite, no auge da movimentação das quermesses, aportou uma turma de rabos-de-burro – denominação pelo qual era conhecido um grupo de desordeiros que agia em diversos pontos da cidade. O chefe da súcia era um elemento dado a arruaças, valentão e perigoso, mas que exercia indiscutível liderança entre os que, como ele, se dedicavam a desordens e confusões. Tratava-se de um jovem de classe média alta, filho de um empresário, que comandava um grupo de outros jovens grã-finos, motorizados e violentos.

À chegada deles se instalou o caos. Praticaram toda sorte de desmandos. Quebraram mesas e cadeiras, agrediram rapazes, desrespeitaram mulheres e crianças e os que tentavam contê-los em sua fúria. Como sempre acontecia quando eles chegavam, a festa. acabava.

O fato teve enorme repercussão na imprensa. O bando começou a ser fustigado, denunciadas suas arruaças, deste e de vários outros bandos de malfeitores que infestavam a cidade, todos, como se sabia, vindos das famílias mais ricas, sentindo-se por isso, imunes a qualquer punição.

Na redação do Jornal Correio do Ceará, o secretário Orlando Mota discutia com repórteres uma maneira mais enérgica de abordar os episódios envolvendo os repulsivos filhinhos de papai. Nesse encontro, por sugestão do redator Luiz Edgar de Andrade, foi cunhada a expressão que identificou os malfadados indivíduos que ficaram para todo o sempre como rabos-de-burros.


Fonte:
Blanchard Girão