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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A chegada do Trem


 Praça da Lagoinha 

Na tarde de 3 de agosto de 1873, uma multidão em torno de oito mil pessoas, apinhou-se em volta da estrada de ferro. A cidade ouviu pela primeira vez, entre amedrontada e maravilhada, o surpreendente apito do primeiro trem que rodou por aqui.
O cenário do histórico evento foi o caminho que ia da Rua da Lagoinha à parada de Chico Manuel. Neste lugar ao longo do qual os trens estacionavam, o coronel Francisco Manoel Alves construiu, no quintal de sua residência, ao lado dos trilhos de ferro, extensos degraus de madeira para facilitar o embarque e desembarque dos passageiros. O povo agradecido batizou aquela parada com o nome de seu criador: a Parada de Chico Manoel.
Na sua viagem inaugural a locomotiva Fortaleza rodou cinco vezes entre a estação provisória e a parada do Chico Manoel, situada na esquina sudeste formada pela travessa das Trincheiras (atual Rua Liberato Barroso) e a Rua do Trilho de Ferro (hoje Avenida Tristão Gonçalves).
Nessa época a Via Férrea de Baturité deixava a cidade pela rua da Lagoinha: um estrito caminho que, depois de alargado com mais de 40 palmos para o poente, serviria à primitiva Estrada de Ferro. Esta rua que a partir de então seria conhecida como Rua do Trilho de Ferro, serviu de principal cenário para o romance “A Normalista”, de Adolfo Caminha. Era chamada de Lagoinha porque ladeava uma pequena lagoa que existia ao lado do Hospital César Cals. As águas dessa lagoa tributavam maior volume ao Pajeú e abasteciam a caixa d’água que servia aos trens, implantada ao lado dos trilhos de ferro.
No dia 14 de setembro daquele ano, abriu-se o tráfego da Estrada de Ferro, com a presença do escritor José de Alencar, que naquela oportunidade discursou sobre o passado e o futuro do Ceará. No dia 29 de novembro solenizou-se a inauguração do trem sob a direção do maquinista José da Rocha e Silva – mestre Rocha. Depois de concluído o serviço entre a Capital e a Vila de Arronches, o trem passou a trafegar  os 9,1 quilômetros detendo-se nas paradas: Chico Manoel, Capela São Benedito, Damas, Asilo de Alienados e Arronches. Neste mesmo dia foi lançada a pedra fundamental da Estação Central no Campo da Amélia, atual Praça Castro Carreira.
No dia 9 de julho de 1880 inaugurou-se a Estação João Felipe em sua magnífica arquitetura dórico-romana, realizada pelo engenheiro austríaco Henrique Folgare.
No século XIX o Brasil integrou-se à economia mundial, como grande fornecedor de matérias primas e gêneros alimentícios. De 1850 a 1860, iniciou-se o período de modernização do país, registrando o aparecimento das primeiras indústrias.
Quase vinte anos depois, ensaiava-se a modernidade no Ceará, estabelecendo o encontro com o progresso anunciado pela locomotiva Fortaleza que ocorreu nos primeiros trilhos da capital, acontecimento fundamental para o desenvolvimento de uma província dependente das exportações das matérias primas oriundas dos sertões.



Extraído do livro
Ideal Clube – história de uma sociedade: memórias, documentos, evocações.
de Vanius Meton Gadelha Vieira. 
foto do arquivo Nirez 
 

domingo, 9 de junho de 2013

A Cidade em Construção - 1860-1880

Em 1860 teve início em Fortaleza a primeira tentativa de construção do porto de Fortaleza. Não se sabe com exatidão qual o local escolhido, mas a Praia do Meireles – naquele tempo deserta e muito extensa, sem as subdivisões, no trecho fronteiriço ao ideal Clube – é uma possibilidade, devido a existência de um antigo espigão. 

Quatro anos depois se instalou o Seminário da Prainha, por iniciativa de Dom Luis, primeiro bispo do Ceará, assim como o Colégio da Imaculada Conceição e a Escola de Aprendizes Marinheiros , nenhum deles onde atualmente se acham, mas a segunda em prédio então existente no lugar em que foi construída  mais tarde a Secretaria da Fazenda do Estado, enquanto o primeiro se instalou em sobrado da então Rua Formosa, esquina noroeste com a rua Guilherme Rocha.

 Rua Barão do Rio Branco com Guilherme Rocha em 1910, com lampiões de gás que não eram acesos em noites de luar. 

O ano de 1887 assinalou a substituição do óleo de peixe pelo gás carbônico na iluminação pública da cidade. É digno de nota o costume de não serem acesos os combustores nos dias de lua cheia, hábito que se prolongou até 1935, quando teve fim esse tipo de iluminação pública. 

 Prédio da Assembleia Provincial

Em 1871 se deu a inauguração do novo prédio da Assembleia, para cuja construção foi necessário derrubar vários casebres, conhecidos como “quartos da Agostinha”. Dois anos depois, em 1873, corria o primeiro trem, cujos trilhos passavam pela atual Avenida Tristão Gonçalves, motivo pelo qual essa artéria e mais larga em relação às do perímetro central da cidade e era conhecida como Rua do Trilho, depois de ser chamada de Rua da Lagoinha. Na praça desse último nome, que depois se chamou Comendador Teodorico e hoje é chamada de Capistrano de Abreu , havia uma caixa d’água para o abastecimento dos trens. Mas adiante, na esquina da Rua Pedro Pereira com a atual Avenida Tristão Gonçalves, havia uma calçada alta, denominada Parada do Chico Manuel, usada por passageiros que vinham de Maranguape, ou para lá se dirigiam. 

Antiga Rua do Trilho, atual Avenida Tristão Gonçalves

O ano de 1875 é assinalado pela elaboração de outro plano Diretor da cidade, da autoria de Adolfo Herbster. Vê-se pela planta respectiva que a cidade já se dilatara e, de sua análise, se conhece outra realidade da história de nossa capital – não existe uma Fortaleza, mas pelo menos duas, pois o trabalho de Adolfo Herbster disciplinou a parte situada à margem direita do Pajeú, quase sem levar em consideração o que havia sido feito nos terrenos da outra margem, criando-se assim sérios problemas futuros, especialmente o da ligação do Outeiro e, menos remotamente, da Aldeota com a parte antiga da cidade, sendo por isso, sendo por isso necessário rasgar e prolongar ruas interligando-as como, por exemplo, a Senador Alencar e a Costa Barros, para que o tráfego se tornasse mais fácil.

  Antiga Praça Carolina atual Praça Waldemar Falcão, de onde inicialmente, partia a linha de bondes de burros

Em 1880 inaugurou-se a linha de bonde de burro, que partia da Praça da Assembleia, também chamada de Carolina, e posteriormente José de Alencar e Capistrano de Abreu. Essa linha alcançava o bairro onde atualmente se ergue a Igreja de Nossa Senhora das Dores, hoje denominado Farias Brito.

 Passeio Público - Avenida Caio Prado, em 1908

Para a vida social da cidade, o ano de 1880 foi de grande importância, porque então se deu a inauguração do 1° Plano do Passeio Público. Mas tarde seriam inauguradas mais duas alamedas, conhecidas como avenidas. Caio Prado, olhando para o mar; a do centro, denominada Carapinima, fronteiriça à porta principal da Santa Casa; e a Mororó, mais próxima do calçamento da Rua João Moreira.  Nelas se observava uma separação voluntária das classes sociais: numa alameda, a grã-finagem; na outra, a classe média; e na terceira as domésticas. Carlos Câmara, na burleta “Casamento da Peraldiana” descreve todos esses aspectos do Passeio Público de então.


Extraído do livro de Mozart Soriano Aderaldo
História Abreviada de Fortaleza e Crônicas sobre a Cidade Amada
fotos do Arquivo Nirez

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Bodegueiros e Lojistas


A bodega na Fortaleza antiga foi sempre nota de realce da vida pacata de sua gente, ponto de convergência e referência  e reduto de importância acima das rotineiras e modestas atividades mercantis. Assim como a farmácia era local de destaque dos vilarejos e burgos do interior, a bodega nas cidades maiores era o elemento divulgador dos acontecimentos que merecessem essa qualificação. 

 no interior, as bodegas ainda resistem 

Nas duas décadas iniciais do século XX, Fortaleza, com seus cinquenta a sessenta mil habitantes, contava com algumas bodegas que se tornaram muito conhecidas pela vida longa que tiverem. 

Essas bodegas eram conduzidas pelos seus proprietários, as vezes sozinhos, sem empregados, outras ajudadas por familiares. Situadas estrategicamente em esquinas, raras seriam as encravadas no meio de quarteirão. Estas não seriam consideradas bodegas, mas quitandas ou vendinhas. As bodegas eram marcadas pelo sortimento que assegurava e espalhava a fama do estabelecimento:
 – a bodega do Fulano tem tudo!

Tinham características que estavam em praticamente todos os estabelecimentos. O balcão de tábuas superpostas era pintado de duas cores, geralmente vivas: verde e vermelho, azul e amarelo, em listas verticais como que separando as tábuas que era assentado. As prateleiras eram rústicas, também pintadas de cores vivas. Algumas tinham uma parte envidraçada para os artigos de miudezas, outras possuíam armários para esses artigos, que eram chamados fiteiros.

Além das casas retalhistas do centro, famosas eram as bodegas do Mané Boi (Avenida do Imperador)  do Zé Ramos (Santa Isabel) do Gambetá Bruno (Imperador), do Maracanã (Imperador), do Zé Macieira e do Chico Ramos (na Tristão Gonçalves), a do Lopicinio, do Eduardo Garcia e do Chico da Mãe Iza, na Rua 24 de Maio

Durante muitos anos eram as bodegas mais conhecidas das ruas centrais, excluídas algumas do centro classificadas como mercearias, e naturalmente as dos bairros e das areias. (as areias eram os subúrbios mais distantes do centro, sem calçamento e sem urbanização). 

Afastadas do centro propriamente dito, isoladas na Rua Senador Pompeu havia também algumas lojas de tecidos e miudezas. Populares eram as casas de Madeira Barros e Miranda, ambas na Senador Pompeu, a de Braz Branco, nas imediações, e a de Francelino Moreira Gomes, na Rua do Imperador.

 antiga Rua Santa Isabel, cenário das antigas bodegas de Fortaleza. Nesta rua ficava a bodega do Zé Ramos (foto Arquivo Nirez)
 
A bodega sortida de Zé Ramos, na Rua de Santa Isabel (Princesa Isabel) tinha uma curiosa característica. De tempos em tempo fechava por dois ou três dias. Era que seu proprietário tomava porres homéricos, aos quais, dizia-se à boca pequena, sua mulher aderia.  E a freguesia logo concluía, com conhecimento de causa: 
- Ze Ramos está bebendo. A bodega está fechada desde ontem.

As bodegas de Chiquinho Ramos e de Zé Macieira ficavam na antiga Rua do Trilho de Ferro, esquina com a São Bernardo (atual Pedro Pereira).  Ficavam em frente uma da outra. A bodega de Zé Macieira, quando já mudara de proprietário, foi palco de uma tragédia nos tempos agitados da queda de Franco Rabelo

A jagunçada do Padre Cícero e de Floro Bartolomeu, afiançada e estimulada pelo governo federal que interviera no Estado, invadiu a cidade.  Nesse período obscuro da vida da capital, houve total subversão da ordem. Todos os dias havia arruaças e até mortes e os roubos eram uma constante.  

O comerciante Francisco Moraes, ex-contramestre de importante fábrica de tecidos, então proprietário da bodega que fora de Macieira, dormia no quarto que ficava ao fundo do estabelecimento. 

Fazia-o por precaução, pois residia perto com a família, mas a época era de pavor e apreensão. Numa noite, Moraes ouviu barulho na bodega. Homem resoluto, apanhou uma espingarda de caça, subiu numa escada e através da bandeirola da porta, disparou. Uma carga de chumbo acertou de frente o ladrão, que era o subdelegado do Arraial Moura Brasil ou do Morro do Moinho. Os demais ladrões fugiram, deixando na rua as mercadorias roubadas.  

Rua 24 de maio com Guilherme Rocha em 1910 (arquivo Nirez)

Na Praça do Patrocínio (antiga Marquês de Herval e atual José de Alencar), esquina com a Rua 24 de maio, a bodega do Lopicinio era muito conhecida. Lopicinio Maia não tinha empregados. Ele mesmo de atendia aos fregueses, não sem alguma dificuldade, pois era fanhoso e não se fazia entender rapidamente. Homem sério, nada simpático e naturalmente desconfiado, com fama de sovina, dizem que certa vez foi desfeiteado por outro fanho que lá apareceu e julgou que o bodegueiro o imitasse.

Na Rua General Sampaio, também com a São Bernardo, rua famosa de bodegas e mercearias, havia o estabelecimento de Francisco Benjamin de Menezes, o pai do escritor Raimundo de Menezes. Era uma mercearia de sortimento de artigos finos, de importação. Mantinha a tradição de vender fogos de artificio. Francisco Benjamin era um velho limpo e saudável, de maneiras finas mesmo no balcão do seu estabelecimento. Era respeitado por sua postura e educação, mas às ocultas, era chamado de Chico Bacurau, que parecia ser apelido de família.

As bodegas de Fortaleza foram destaques da vida e da evolução da capital. Não eram apenas casa comerciais de varejo, mas pontos de referência e locais de efervescência de boatos, de divulgação de notícias. Eram verdadeiros fortins da vida do povo. Centros de abastecimento e de comunicação da cidade, que não se pejava de crescer aos poucos, mas harmoniosamente, com tranquilidade, modéstia e até com alegria.


Extraído do livro de Edigar de Alencar
Fortaleza de ontem e anteontem  

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Fortaleza, 1873: lá vem o trem

a locomotiva Fortaleza que inaugurou o transporte ferroviário na cidade,
foi vendida como ferro velho e desmontada.



Praça Castro Carrero - antigo campo d'Amelia - foi o local escolhido para
a instalação da estação central (foto reprodução)

No dia 3 de agosto de 1873, cerca de 8.000 curiosos, praticamente a totalidade da população de Fortaleza, vieram assistir, na rua do trilho de Ferro, hoje Avenida Tristão Gonçalves, a passagem barulhenta do primeiro trem, com seu apitar estridente e esquisito.

Naquela tarde a locomotiva “Fortaleza” fazia sua viagem inaugural, diante de uma multidão entusiasmada com a novidade. Sob aplausos, o pequenino trem rodou cinco vezes seguidas entre a estação central, localizada no antigo Campo d’Amélia – atual Praça Castro Carrero ou Praça da Estação, como é mais conhecida – e a parada do Chico Manoel, situada na esquina da Travessa das Trincheiras – atual rua Liberato Barroso.

Foi um sucesso difícil de descrever. A expectativa pela inauguração do novo meio de transporte começara um mês antes, quando foram iniciados os trabalhos de assentamentos dos primeiros trilhos da Companhia Cearense da Via Férrea de Baturité Sociedade Anônima, cujo contrato com o governo da província, fora firmado três anos antes, em 1870.

A inauguração oficial ocorreu em 29 de novembro, com a conclusão do primeiro trecho entre Fortaleza e Arronches, (atual Parangaba), com o trem puxado pela locomotiva “Fortaleza” sob a direção do maquinista José da Rocha e Silva. A velocidade do comboio era de 26 k/h, podendo chegar ao máximo de 32 quilômetros/hora.

A locomotiva “Fortaleza”, rodou muitos anos sobre os trilhos da Estrada de Ferro Baturité, até tornar-se obsoleta e ser recolhida ao depósito de ferro velho, onde ficou atirada a um canto. Certo dia sumiu misteriosamente e ressurgiu, noutro ponto da cidade numa oficina de ferreiro, onde foi desmontada, e transformada em peças variadas.
Mais uma vez a nossa Fortaleza, fez jus a fama de cidade sem memória e sem patrimônio histórico que lhe testemunhe as origens.


A Estação da Parangaba foi aberta com o nome de Arronches, em 1873. O imóvel foi tombado pelo Patrimônio Histórico e não poderá ser demolido, como desejava a direção do Metrofor


Fonte: MENEZES, Raimundo. Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000.