terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O Pré-Carnaval dos anos 60

Muitos acreditam que o pré-carnaval de Fortaleza é coisa recente, iniciada nos anos 80 com os blocos que desfilam na Praia de Iracema e no Benfica. Ledo engano. Lá pelos anos 60, o Bloco Prova de Fogo já fazia a festa no bairro Otávio Bonfim e adjacências. Quer saber como era? então leia a crônica do Tarcísio Garcia. 
  
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O ENSAIO DA PARADINHA
 (Tarcísio García)

No começo do ano começava a festa. Lá de casa dava para ouvir o baticum. Os ensaios de janeiro eram um pouco tímidos devido à falta de entrosamento dos músicos, afastados desde o ano anterior. À medida que se entendiam na execução, porém, passavam a tocar com mais desenvoltura, fazendo uma verdadeira algazarra que atraía a atenção dos moradores de toda a redondeza. Aos primeiros acordes da noite a gente se entreolhava, largava o que estava fazendo e começava a frenética e animada preparação para nossa participação no ensaio. Num entra e sai sem fim, driblávamos a vigilância dos pais e escondíamos no jardim de muro baixo, os saquinhos de carteira de cigarro com o material garimpado especialmente para a ocasião.


No repertório revezavam-se dois estilos distintos: marchinha e samba. No primeiro predominava o som dos metais, que se ouvia a quilômetros. No outro, o samba, onde todo arranjo deixava a música parecida com “eu vou pra Maracangalha”, do Dorival Caymmi. Só tinha uma diferença: em todo samba eles botavam uma paradinha, tivesse ou não no original. Até hoje acho graça sozinho quando ouço uma paradinha. Era assim: faziam a introdução, cantavam a letra e depois de um caprichado solo de cornetas, o mestre da bateria dava três apitos e a charanga fazia um breque. Mais dois apitos e novo breque. Mais dois apitos e novo breque. Por último, mais dois apitos, novo breque, dessa vez acompanhado de um frivião no repique, e só então o samba recomeçava.

O cidadão comum, morador de subúrbio não contava ainda com o feitiço da televisão que o anestesia e imobiliza na cadeira, de modo que as noites nesta época, eram dedicadas ao convívio social e à vadiação. Quem não estudava à noite, divertia-se com conversas, flertes e brincadeiras ao ar livre. Velhos, adultos, adolescentes e crianças, todos ocupavam democraticamente as beiras de calçadas. Nossa rua tinha uma posição estratégica que fazia dela um corredor bastante concorrido, ligava a Av. Treze de Maio à antiga Rua Juvenal Galeno, hoje, Bezerra de Menezes. Além disso, passava por ali toda sorte de novidades; de prosaicas boiadas a caminho do matadouro, a tropas de soldados do 23º BC, que iam acampar nas dunas do Papicu.


Nos meses de maio, junho e outubro, por ocasião das festas da igreja, os moradores cortavam as flores dos seus jardins e jogavam os ramalhetes na via pública para enfeitar a passagem das procissões de Nossa Senhora das Dores, Santo Antônio e São Francisco. Com uma vocação cultural dessas, nada passava despercebido ao olhar treinado dos moradores. Até o mais inocente vendedor de algodão doce com sua indefectível lamparina, era avistado de longe, parado pela freguesia e só liberado quando acabava a última colherada de açúcar.

Pois bem... nas semanas que antecediam o carnaval, o Bloco "Prova de Fogo" saía às ruas para corrigir as falhas do desfile, com destaque para a coreografia da paradinha, que depois de exaustivamente ensaiada no coração da Praça Tabajara, passava então para a etapa final da preparação: o ensaio em movimento. Neste propósito, o bloco enchia as noites do Otávio Bonfim com o mais autêntico e acalorado pré-carnaval. O primeiro sinal de que o bloco ia sair do Beco dos Pintos e passar na rua, era o volume do som, que de repente mudava de direção. Estava longe, ficava perto, sumia e voltava, como se estivesse sendo tangido pelo vento. Ficava mais nítido e ia se aproximando gradativamente até alguém na calçada anunciar sua visualização e a dúvida se transformar em certeza, despertando a vontade incontrolável de correr porta afora.


No abre alas, vinha o estandarte preto, enfeitado de espelhos e ostentando o nome do bloco. Carregada pelo porta-bandeira, uma caveira de uns três metros, sacudia braços e pernas de madeira ao sabor das evoluções. Os passistas veteranos seguiam na frente mostrando o estilo para aos jovens aspirantes a folião. Trajavam calça branca, blusa vermelha de mangas compridas e um colete preto adornado com lantejoulas vermelhas. Na cabeça, outro símbolo: um artefato metálico que lembrava ao mesmo tempo, um elmo das armaduras medievais e um capacete de bombeiro. Envolto numa nuvem de poeira, iluminado pelos faróis dos carros que pediam passagem, lá vinha o ensaio da "escola", solto na buraqueira, tomando conta da rua, arrastando a multidão.


Da calçada era possível avistar a silhueta do cortejo se aproximando. Uma piracema de gente acompanhava o desfile, correndo, pulando e achando graça, somando-se aos que se posicionavam em suas casas para ver de perto a performance dos passistas. Num crescendo medonho, o som da charanga cada vez mais alto, invadia todos os espaços, sacolejava a caixa dos peitos, afrouxava o risador. As cadeiras das calçadas eram recolhidas para dar passagem, as mulheres casadas corriam para as janelas pra evitar as mãos bobas, os muros das casas transformavam-se em camarotes cheios de gente de todas as idades. Crianças de braço eram alçadas às cacundas dos pais, as maiores fervilhavam de contentamento, os cachorros latiam inutilmente, os adultos se dividiam: uns torciam a cara achando aquilo uma fuleiragem, outros se empolgavam com a fanfarra e dançavam na calçada. A atmosfera cheirava a poeira, sovaco e cloretil, e o Prova de Fogo agora estava passando na porta de casa.  O povo acompanhava disputando um lugar perto da orquestra. A rua invadida. A música troando. Não sobrava lugar para uma pitomba. 

Ao som ensurdecedor dos tambores e das cornetas, a gente grelava os olhos nos passistas que dançavam de olho grelado no maestro, que no tempo certo da música levantava a batuta e regia a paradinha: pi- pi- piiiiiiiii!!! E todo mundo se abaixava: pi- piiii! Davam um pulinho e mudavam de pose: pi- piii! Mudavam de novo:  pi- pi- paracatum-paracatum-paracatum...e saíam saracoteando alegremente movidos por uma força misteriosa que lhes revigorava o ânimo. Felizes da vida seguiam pela Rua Justiniano de Serpa afora, indiferentes à nossa provocativa participação: uma chuva de areia provocada pelos saquinhos que eu e meus irmãos jogávamos sobre o desfile toda vez que os passistas se abaixavam ensaiando a paradinha.

fotos do arquivo Nirez e Diário do Nordeste
Tarcísio Garcia é cearense de Fortaleza, artista plástico e escritor, autor dos livros
Nó na Língua (1998)
Dicionário do Ceará - as palavras, as expressões e como usá-las - (2000) 
Auto-ajuda na Ruma - neurolinguística cearense (2000)

Um comentário:

Valéria disse...

Um resgate histórico muito bem humorado!