domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ceará Moleque: apelidos e vaias como forma de protesto

 Praça do Ferreira em 1930  - ainda podiam ser vistos o coreto (demolido em 1932) o prédio da Intendência (demolido no início da década de 1940),  o Sobrado do Pastor e o Palacete Ceará que ainda resistem. (Arquivo Nirez)

Um povo sofrido como o cearense haveria de encontrar uma maneira de se vingar dos seus detratores. E uma das maneiras encontradas foi através dos apelidos, usados como uma maneira de expor o apelidado ao ridículo. A outra seria através das vaias. 
De uma forma ou de outra, o fato é que nenhuma autoridade detestada pelo povo escapou de um apelido. Nem mesmo os representantes do alto clero, a exemplo dos arcebispos Dom Manuel da Silva Gomes, apelidado de bolo confeitado e Dom Antonio de Almeida Lustosa, de envelope aéreo.
O Comendador Nogueira Accioly, costumava se referir ao povo como a arraia miúda, em troca era chamado pelo mesmo povo de babaquara, pelo fato de Accioly, diziam, viver se babando. 
Outro governante o Presidente João Tomé de Sabóia e Silva (1916-1920), que era engenheiro e inventor de uma máquina de fazer chover, ganharia o apelido de manda-chuva
Pé-de-valsa e as maravilhas era o apelido do Presidente Matos Peixoto (1928-1930) e seus assessores.
Faustino de Albuquerque (1947-1951), foi mais um governador a ganhar apelido: Chiquita Bacana. Ficavam a salvo dos apelidos, os governantes benquistos, porque os apelidos constituíam-se uma vingança do povo contra os que os ofendiam. 



  
A Praça do Ferreira é desde sempre o quartel-general do ceará moleque. As fotos mostram o cruzamento das Ruas Major Facundo com a Guilherme Rocha em datas distintas. Em comum, o prédio do Excelsior Hotel. (Arquivo Nirez)

As vaias surgiam sempre que o povão entrava em discordância contra fatos muitas vezes banais, mas que eram considerados chocantes. Contra as extravagâncias no modo de vestir ou se portar em público. Contra afirmações, ditos ou juízos que iam de encontro ao senso comum. Contra, principalmente, as presenças indesejadas.
A balbúrdia – gritos, assovios, apupos, risadas – surgia inesperadamente, de todos os lados, despertando a atenção da polícia, que procurava a todo custo, conter os manifestantes. Sempre que isso acontecia, a própria policia também era vaiada. 
As manifestações do Ceará-moleque não livravam ninguém nem faziam concessões.  

Uma das vítimas da irreverência popular foi o Barão de Studart, que ao atravessar a Praça do Ferreira, trajando fraque, cartola e com um guarda-chuva a tiracolo, foi recebido aos gritos de Cobrão!  Jararaca! E sob estrondosa vaia.
A polícia entrou em ação distribuindo bordoadas, realizando prisões, salvando o barão da massa ignara, que parecia desconhecer o representante máximo da historiografia cearense. 

No entanto, a maior de todas as manifestações de desagrado estaria reservada a Manoel Sátiro, um político do tempo do império, por ocasião da campanha eleitoral de 1937. Partidário ardoroso da candidatura Armando Salles de Oliveira, o político compareceu à recepção prestada no aeroporto ao candidato dos banqueiros paulistas à presidência da república. 
Em frente ao Excelsior Hotel, onde ficaria hospedado o político bandeirante, juntara-se uma multidão que se estendia até a Rua Barão do Rio Branco, composta em sua maioria de curiosos, já que a preferência do eleitorado cearense recaía sobre o Ministro José Américo de Almeida.
Questão de identidade, de afinidade, de relacionamento, de regionalismo. Armando, além de sulista era representante dos banqueiros de São Paulo, enquanto José Américo era nordestino, com serviços relevantes prestados na assistência aos flagelados da seca de 1932. 
Daí a preferência pelo Ministro de Viação e Obras Públicas.

Em frente ao hotel iam descendo dos automóveis um a um os convidados para a recepção. 
A multidão chiava baixinho, manifestando dessa forma sua desaprovação. Então Manoel Sátiro desce de um dos veículos, apoiado em uma bengala. Olha com desprezo para a aglomeração e acenando a cartola no ar, exclama a plenos pulmões:

- Viva o Brasil, canalhas!
O povão que até então protestava baixinho, explodiu aos gritos e assovios na maior vaia já presenciada nas redondezas. 
O candidato Armando Sales e sua comitiva, curiosos sobre o que estaria acontecendo na rua, assomaram às janelas do Excelsior, sendo vaiados também. 


Praça do Ferreira foto de dezembro de 2010

Pois nem o sol, apelidado de astro-rei pela nobreza literária do Café Art-Nouveau, escapou de ser vaiado pelo povaréu da Praça do Ferreira, quando surgiu sobre a Coluna da Hora, depois de uma semana sem aparecer.

extraído do livro
A Praça e o Povo (homens e acontecimentos que fizeram história na Praça do Ferreira), de Alberto S. Galeno.    

3 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

O cearense é mesmo o povo mais moleque que existe, tem essa fama e gosta...deita e rola...Mamãe falava de uma mulher do povo,do Aracati, que apelidava Deus e o mundo..São geniais, certos apelidos, caem como uma luva... envelope aéreo, pra Dom Lustosa, era perfeito! Nas vaias e nos protestos se completam a MOLECAGEM....que matéria gostosa!

Fátima Garcia disse...

outro dia vi uma das mais legitimas demonstrações da molecagem cearense em plena Praça do Ferreira: duas mulheres, se pegaram aos tapas e puxões de cabelos. Em poucos minutos se formou uma roda em volta das duas, com gritos de incentivos, vaias, assovios e apupos. Até que o Ronda chegou e acabou com a festa.

Anônimo disse...

engraçado é que acompanhamos todas essas mudanças de cenários na praça do ferreira, sem nem perceber que elas ocorreram. excelente post!