sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O Poeta e o Porto

Antigamente atribuía-se aos poetas o dom da premonição. Coincidência ou não, em Fortaleza havia um poeta que tinha fama de adivinho. Chamava-se Antônio Antunes, poeta satírico e afamado repentista, que apareceu por aqui por volta dos anos 1840. 

Nesse ancoradouro ainda em construção, localizado na então Praia do Peixe (atual Praia de Iracema), o Conde D'Eu desembarcou em Fortaleza, no ano de 1889. (foto do Arquivo Nirez)
 
Reza a tradição que em eras remotas, tentaram construir um trapiche na costa de Fortaleza, em frente a cidade. Dizem ainda, que naquela época a praia era como hoje, de mar aberto; e que os desembarques, sendo igualmente difíceis, eram menos perigosos do que se tornaram depois.
A invenção da cadeirinha ou paviola, que data de 1850, foi um grande progresso, e podia-se então, sair em terra sem perigo e, graças a esse melhoramento, acabaram-se os banhos que os passageiros tomavam ao desembarcar.
Mais tarde, com o abandono da paviola, os banhos voltaram, e de quando em vez, chegavam à praia,  passageiros completamente ensopados. 

Um dos primeiro (ou o primeiro) ancoradouro de Fortaleza foi o da Prainha, situado entre o centro e a Praia de Iracema. A embarcação ancorava a uma distância considerável, e o viajante descia para um paquete menor que o conduzia para um ponto mais próximo da praia. Então vinham dois escravos fortes e altos com uma cadeira sobre os ombros, chamada paviola. O viajante sentava na cadeira e os negros transportavam o navegante, desviando das ondas mais rebeldes até a beira da praia. (foto Ah, Fortaleza!)

Naqueles tempos atrasados não se falava de pessoas que chegavam em terra com um braço quebrado, ou suspensos no ar em posição perigosa; nada se falava dos quase afogados; de outros com sérios machucados por terem metido um pé entre as tábuas da ponte; ou de objetos de valor perdidos ou quebrados. Em suma, não se falava desses acidentes, aliás, sem muita importância. Não era também necessária, como se tornou depois, uma certa agilidade e mesmo um pouco de ginástica para passar do escaler para a escada da Ponte Metálica, e vice-versa.

Antes da construção da Ponte Metálica, existiram vários trapiches, usados pra embarque e desembarque de passageiros e mercadorias. Esse ficava nas imediações da atual Rua São José, posto que aparecem na foto o Palácio do Bispo e a Antiga Sé (foto Arquivo Nirez)   

Voltando ao trapiche. Gastou-se um tempo imenso na discussão sobre o modo de se construir e sobre o local da obra.  Escolhido o local, o trapiche tornou-se ponto de reunião de curiosos e palestradores que, pela tarde iam ver as obras e dar seus palpites. E nestas visitas e revistas se escoaram longos meses.
Reconheceu-se enfim, que o serviço não marchava a contento, o desânimo já começava a se instalar. Uma tarde, um grupo de palestradores criticava com pessimismo e mordacidade a administração da obra, e o poeta Antônio Nunes, que se encontrava presente,  bateu na testa, e disse: 

O mato que a serra tem
Todo feito taboado
E este trapiche acabado,
Nunca o há de ver ninguém 

Ponte dos Ingleses (Viaduto Lucas Bicalho), sua construção foi iniciada em 24 de setembro de 1921, e interrompida no governo de Artur Bernardes. Um novo projeto para sua recuperação só surgiu em 1994. Sua estrutura foi desenhada por engenheiros da empresa inglesa que mantinha interesses comerciais no Ceará, daí veio a nome de “Ponte dos Ingleses” (foto do Arquivo Nirez)

O grupo aplaudiu e voltou alegre para a cidade, onde dentro em pouco a quadra se espalhou e fez rir a quantos ouviram.  Fosse por causa da galhofa que provocou, ou fosse por questões financeiras, o que é certo é que os construtores foram aos poucos, abandonando a obra, e o trapiche não foi concluído. 

 A Ponte Metálica foi o Porto de Fortaleza por mais de 20 anos (foto do Arquivo Nirez)

Com o progresso vertiginoso, os projetos de trapiches rudimentares foram substituídos pelo de um porto, que fosse compatível com o nosso desenvolvimento. Um curioso, acompanhando essa evolução, substituiu também na quadra acima, trapiche por porto e, com certa admiração, notou que, além do verso não ficar quebrado, adaptava-se perfeitamente ao caso do porto começado em 1883, porto que também não foi terminado.
Espantado com esta descoberta, experimentou sucessivamente cais, muro (quebra-mar) ponte, trapiche, etc, e viu que o verso resistia á toda prova. E mais ainda, que tais mudanças apenas serviam para aumentar, na quadra, o grau de malignidade e a surpresa e admiração pelo previsão de Antunes. 

A Ponte dos Ingleses foi construída para ser o Porto de Fortaleza, em substituição a antiga Ponte Metálica. No entanto, nunca funcionou como porto. (foto do acervo do Blog)

A cada mudança, o verso ou dava com um desastre ou anunciava outro. E assim o poeta foi-se transformando em profeta, a consonância dos vocábulos ajudando a transformação e os fatos tornando-os sinônimos. E nada de porto.

extraído do livro de João Nogueira
Fortaleza Velha 
        

3 comentários:

Prof. Felipe Albuquerque disse...

Na terceira foto, a igreja vista ao fundo não seria a do Seminário, já que a construção vista em "plano médio" parece ser a Alfândega.

Vicente Lidorval disse...

Um ótimo blog,viajei bastante nesse blog!parabéns...

Vicente Lidorval disse...

Um ótimo blog,viajei bastante nesse blog!parabéns...