terça-feira, 24 de maio de 2011

As Igrejas do Centro

Quando esteve em viagem pelo Nordeste, no início do Século XVIII, o inglês Henry Kostner, faz uma pequena descrição sobre a Vila de Fortaleza: 
edificada sobre a areia, em formato quadrangular, com quatro ruas, casas só com um pavimento,  ruas sem  calçamento, o Palácio do Governo, a Casa da Câmara, a Cadeia, a Alfândega, a Tesouraria e... três Igrejas. A População girava em torno de mil e duzentos moradores. 

As primitivas igrejas de Fortaleza, à exceção da primeira Igreja da Sé que teve ajuda do governo,  foram construídas por iniciativa de populares e de irmandades religiosas, quase sempre em pagamento de promessas feitas ao santo da devoção.  
Depois de iniciadas, as obras eram adotadas pelos padres e por fiéis que completavam a construção através de campanhas ou da oferta de donativos. As igrejas localizadas no centro, são também as mais antigas de Fortaleza, testemunhas de uma época de grande religiosidade.

A Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção ou Porto do Siará, atribuído a Francisco Antonio Giraldes. Na figura de 1811, podem ser identificadas duas igrejas: a Sé e a do Rosário (Ah, Fortaleza!)
  
Igreja do Rosário



Construída em 1730, com donativos ofertados pelos fiéis, foi feita à mão, pela Irmandade de Nossa Senhora dos Pretos, num local afastado da Vila, a Praça dos Leões. Como toda construção daquele tempo, a capela era feita de taipa e palha. Em 28 de abril de 1742, o visitador Lino Gomes Correia, ao passar pela Vila de Fortaleza, determinou que os senhores de escravos  lhes dessem o dia de sábado e os dias santos para granjearem o sustento para a Igreja Nossa Senhora do Rosário.

A igreja foi reformada em 1753 porque ameaçava ruir, sendo reconstruída com pedra e cal. 
A nova capela ficou pronta em 1755. Era o espaço de sociabilidade dos negros até ser improvisada como matriz entre 1821 e 1854, enquanto se reconstruía a Matriz de São José. Construída em estilo barroco é a igreja mais antiga de Fortaleza. 
Fica na Praça General Tibúrcio (Praça dos Leões). 
Tombamento Estadual de 1983.

Catedral da Sé
 A velha Igreja de São José, antiga Matriz de Fortaleza (Nirez)

A construção da primeira capela-mor de Fortaleza foi decidida em fevereiro de 1699, mas a autorização para o inicio da obra só ocorreu em fevereiro de 1746, quando a câmara escreveu a Sua Majestade pedindo um auxilio para a construção.

Concluída em 1795, a matriz que era de taipa e nela se celebravam os ofícios divinos, em poucos anos ameaçava ruir e apresentava diversas rachaduras no arco da capela mor. Começou-se então a construir outra no mesmo lugar. A seca de 1845 interrompeu os serviços que foram retomados em 1846.

 Nessa época chegou à Fortaleza Frei Serafim de Catânia, que estando de volta ao sertão onde missionava, quis deixar um monumento que eternizasse suas missões;  empreendeu e construiu à custa de esmolas um majestoso cruzeiro que foi colocado na frente da igreja. 

A nova Matriz, dedicada a São José,  foi inaugurada no dia 2 de abril de 1954,  num domingo de Páscoa, pelas 9 horas da manhã com uma grande procissão que saiu da Igreja do Rosário em direção ao novo templo. A majestosa igreja foi demolida em 1938, novamente com a alegação de que ameaçava ruir. 




Em agosto de 1939 foi lançada a pedra fundamental da nova igreja da Sé, no mesmo local da anterior. As obras foram atrasadas em razão da Segunda Guerra, e depois do fim do conflito, por problemas ligados a escassez de recursos. Foi finalmente inaugurada em 22 de dezembro de 1978, tendo o padre Tito Guedes à frente dos trabalhos e Dom Aloísio Lorscheider como Arcebispo Metropolitano de Fortaleza. 
Igreja do Patrocínio
foto: Mauricio Cals 


A pedra fundamental da Igreja do Patrocínio  foi lançada em 02 de fevereiro de 1850, que ficaria pronta dois anos depois. Em 1849, o cabo de esquadra Fortunato José da Rocha, disparando um tiro contra o Capitão Jacarandá acertou no alferes Luis de França Carvalho, que na ocasião conversava com o dito capitão.

Vendo-se em perigo de vida, França fez promessa a Nossa Senhora do Patrocínio, de caso sobrevivesse, erigir-lhe uma igreja.  A planta foi fornecida pelo mestre Antônio da Rosa e Oliveira.

As obras para construção da igreja iniciadas por França só foram concluídas devido aos esforços do cônego João Paulo Barbosa, apesar do auxilio de particulares, das Assembleias Provinciais, da Sociedade Auxiliadora dos Templos,  e dos materiais que de ordem do governo lhe foram doados no período da seca.  
Fica na Praça José de Alencar, que já foi Praça do Patrocínio e Marquês de Herval.

Igreja de São Bernardo



Em 1854, o tenente Bernardo José de Melo construiu uma pequena igreja de taipa em louvor a Nossa Senhora do Bom Parto. No primeiro inverno, a capela desabou sob o peso das chuvas. Usando seu prestígio, o tenente conseguiu do governo um empréstimo de oitocentos mil réis, e com esse dinheiro, construiu a atual igreja de São Bernardo. 

Apesar  de a igreja ser dedicada a Nossa Senhora do Bom Parto, o povo chamava a Igreja do Seu Bernardo. Para justificar o batismo da igreja, o tenente Bernardo mandou vir da Espanha uma bela imagem de São Bernardo, que ficou sendo o titular da Igreja. Fica no cruzamento das Ruas Senador Pompeu e Pedro Pereira.

Igreja do Coração de Jesus



A construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus teve inicio no dia 25 de setembro de 1878, quando o Ceará se debatia em mais um período de estiagem. A fome e as epidemias assolavam as populações da Capital e do Interior. 

Para amenizar a situação de milhares de retirantes famintos foi dada inicio a construção do templo, para aproveitar a mão-de-obra em e arranjar ocupação para esses retirantes. 
Diz a história que a primitiva Igreja do Sagrado Coração de Jesus foi construída por Dom Luís Antônio dos Santos e pela família Albano, nas pessoas do casal José Francisco Albano e sua mulher Dona Liberalina Angélica da Silva Albano, barões de Aratanha, para presentear o filho que cursava seminário em Paris e ordenou-se padre. 

O Padre Antônio Xisto Albano, depois nomeado bispo, foi o primeiro responsável pela administração e direção espiritual da nova igreja até 1901, quando foi transferido para o Maranhão. 
Nessa oportunidade o bispo de Fortaleza, D. Joaquim José Vieira resolveu entregar a igreja aos cuidados da Ordem Seráfica dos Capuchinhos. Fica na Avenida Duque de Caxias, 235.

Igreja de São Benedito



A inauguração da Igreja de São Benedito ocorreu no dia 08 de abril de 1885. Era uma igreja modesta, pequena, com quatro frentes voltadas para os quatro pontos cardeais, com torre de madeira envidraçada. 

Situada ao lado do Boulevard  15 de Novembro (atual  Avenida do Imperador), foi edificada pela comissão composta por José Joaquim Teles Marrocos,  Antonio da Rosa e Oliveira, Tristão de Araripe Macedo, no mesmo local da casa de devoção  dedicada a São Benedito. 

Em 1938 foi instalado o Santuário da Adoração Perpétua , na Igreja de São Benedito. Depois foi construída uma nova igreja na Rua Clarindo de Queiros.  A antiga igreja ficou desativada  até 1947, quando foi demolida. Fica na Avenida Imperador, 1165.

Igreja do Carmo



Foi inaugurada em  25 de março de 1906 com missa oficiada pelo bispo Diocesano D. Joaquim, na Praça do Livramento, depois Gonçalves Ledo, hoje Praça do Carmo. Antes de ser matriz, o que ocorreu em 21 de abril de 1915, era uma capela simples, batizada de Nossa Senhora do Livramento, administrada pela Igreja do Patrocínio. 

A construção da capela deveu-se à devoção da Irmandade existente na freguesia do Patrocínio.  O português Antônio Francisco da Rosa “mestre Rosa” recebeu a incumbência de traçar uma planta e executar os referidos trabalhos, que consistiam no aumento do frontispício da capela e do corpo da nave.
  
Em 1879 o arquiteto Adolfo Hebster foi contratado para confeccionar uma nova planta, semelhante a atual igreja.  Como consequência da seca de 1877/79, a Irmandade de Nossa Senhora do Livramento  entrou em crise e transferiu a capela para os cuidados da Associação de Nossa Senhora do Carmo.
  
Transcorridos catorze anos da transferência, em 1906, procedia-se a benção da nova igreja, com a sagração de um sino e a celebração de missa por Monsenhor Bruno Figueiredo.
Fica na Praça do Carmo

Nota
De acordo com Bezerra de Menezes,  em Descrição da Cidade de Fortaleza, a primeira igreja que nos serviu de matriz foi, incontestavelmente, a Capela de Nossa Senhora d’Assunção, que o autor ainda conhecera os alicerces, dentro do Quartel de 1ª. Linha, que fora construída em terrenos do Padre José Rodrigues. (pg. 103). 
Esta seria muito provavelmente a terceira igreja avistada por Henry Kostner em 1810. 

fotos: Fátima Garcia
fontes: 
Bezerra de Menezes, Antônio. Descrição da Cidade de Fortaleza.  Introdução e notas de Raimundo Girão. Fortaleza: Edições UFC/PMF, 1992.

Fontes, Eduardo. As pouco lembradas Igrejas de Fortaleza. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1983.
Koster, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1978. 

2 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

É muito bonita, a história das igrejas do centro de Fortaleza. Dessas, só não conheci a Sé antiga.
Ia muito à de São Benedito, com meu pai, para a adoração ao Santíssimo. Do sacada de meu apartamento, vejo a torre dessa igreja, ainda...até levantarem um "arranha-céu", para impedir essa visão.
Boa noite, Fátima

Swytz Tavares disse...

06-04-2014: MISSA DÂMASO-GREGORIANA na IGREJA de SÃO BERNARDO (Fortaleza-CE):

http://swytztavares.blogspot.com.br/2014/04/06-04-2014-missa-damaso-gregoriana-na.html