domingo, 13 de março de 2011

Praça do Ferreira – a reforma que cidade rejeitou


Existem alguns espaços na cidade que assumem para a população a condição de lugar especial. O que distingue um determinado local da cidade de outros, é o conjunto de significados, as marcas que a cultura local imprimiu nele, as histórias que ali aconteceram, as pessoas que por ali passaram. 
Esse conjunto de valores representado pelos símbolos e significados projetados no espaço físico, confere uma identidade ao lugar, de tal modo que a população se identifica com ele, como se fosse uma extensão de sua própria casa. 
A Praça do Ferreira é um desses lugares especiais de Fortaleza: não é só o coração, como dizem, na verdade a Praça do Ferreira é a cara da cidade, espaço simbólico de encontro de todas as tribos, de todas as vivências, dos afetos, das lembranças, dos aposentados, dos letrados, da politicagem, da molecagem.

Ao longo de sua história, a Praça do Ferreira passou por muitas reformas, diversas intervenções, umas modernizantes, outras embelezadoras, outras desnecessárias.
Mas nenhuma reforma causou tanta polêmica quanto a realizada na gestão do prefeito José Walter Cavalcante (1967-1971). 

Para começar, dois dos principais marcos da praça foram demolidos a golpes de picaretas e com uso de dinamite: a Coluna da Hora, construída em 1933 pelo prefeito Raimundo Girão, e o Abrigo Central, construído pelo prefeito Acrisio Moreira da Rocha, em 1949. 
Prosseguindo o processo de descaracterização, os jardins foram retirados e foram construídos vários blocos de concreto no meio do logradouro.
O despropósito era tão grande que, quem estivesse na Rua Major Facundo, em frente ao Cine São Luiz, não via o outro lado da praça, na Rua Floriano Peixoto.
Durante as escavações para reforma da praça foi encontrada uma urna histórica, enterrada em 1936, contendo uma ata escrita por Demócrito Rocha, além de moedas e jornais da época.

Conta o escritor Alberto Galeno que, ao sair do Presídio Paulo Sarasate, onde fora encarcerado sob a acusação de criticar a ditadura militar então vigente, dirigiu-se à praça, na esperança de encontrar os antigos companheiros. 
E descreve o que encontrou no lugar que ele não reconheceu: 
o que víamos em seus lugares (do Abrigo Central e da Coluna da Hora) eram aqueles estirões de cimento armado, de cinquenta metros ou mais, como se fossem jazigos destinados a sepultar gigantes. Um cemitério surrealista com certeza.
Segundo ainda o escritor, o objetivo da tal reforma era afastar o povo do local, impedir que os cidadãos se comunicassem, que houvesse a troca de idéias.
 Soube ainda, por um amigo, que tanto antes quanto depois da reforma, a Praça do Ferreira tornara-se um local perigoso para se estar. 

Os freqüentadores habituais passaram a ser considerados, ora subversivos, ora vadios, sendo presos e espancados pela polícia. A noite ficava tudo escuro, como breu. Deixavam de acender as luzes, e a escuridão era de meter medo.
Nessa reforma a praça ganhou instalações subterrâneas que abrigava a Galeria Antonio Bandeira. 

Muito tempo depois, já no início dos anos 90, o então prefeito Juraci Magalhães teve o mérito de devolver a Praça do Ferreira à população, reconstruindo alguns dos símbolos que caracterizavam o logradouro e habitavam o imaginário popular, através da bela reforma a cargo do arquiteto Fausto Nilo.
 Em 2001, o espaço foi oficialmente declarado Marco Histórico e Patrimonial de Fortaleza graças à lei municipal 8605 de 20 de dezembro de 2001, provavelmente para que a cidade não corresse  mais o risco, de perder boa parte de sua identidade  nas mãos de administradores/aventureiros, que não respeitam o patrimônio histórico-artístico-cultural de um povo.  

fotos: Arquivo Nirez
Fontes:

Azevedo, Miguel Ângelo de. Cronologia Ilustrada de Fortaleza. Fortaleza: BNB, 2001
Galeno, Alberto S. A Praça e o Povo: homens e acontecimentos que fizeram história na Praça do Ferreira. Fortaleza: Multigraf, 2000. 2ª edição – 100p
Jornal O Povo

6 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Acho que foi rejeição unânime. Deixou de ser a Prç. do Ferreira.
Senti muito, quando vim passar minhas primeiras férias, depois que saí de Fortaleza. Era um espanto...chamavam de "jardim suspenso" aqueles tanques quadrados que realmente impediam de se avistar que estivesse do outro lado.
Uma das mudanças que mais abalou foi a Coluna da Hora...
Novidade, para mim, os "achados" nas escavações.
O povo voltou a conversar nos bancões de madeira. Mesmo maltratada e com aquelas coisas horrorosas no lugar onde ficava o Abrigo Central, tá melhor do que antes....linda, mesmo, era a antes da antes....que a imbecilidade levou..

Ana Luz disse...

Em pastagem anterior deste blog,no título "Ceará moleque"uma foto da Praça do Ferreira,de 1930,nos dava umma idéia de um lugar mais civilizado do que é hoje,o conjunto arquitetônico era bem mais harmonioso.Na Fortaleza bela a Praça do Ferreira não é tão bela assim,mas alguns eventos levam o povo a visitá-la e resalte-se que talvez seja a única livre dos incômodos camelôs.

Ana Luz disse...

Parabéns pelas mais de cem mil visitas,certamente pessoas que colheram muitas informações preciosas,apresentadas de maneira clara pela excelente redatora que é você.

Fátima Garcia disse...

A Praça do Ferreira já teve muitas versões, essa foi talvez a pior delas, principalmente pelo que representava (o afastamento das pessoas do local).Quanto a urna que encontraram, que fim terá levado, onde foi parar?
Concordo com vocês que a praça já conheceu dias melhores, quando contava com gestores mais comprometidos, talvez mais aptos a governar.A gestão atual está mais preocupada com as festas que irá organizar, e os vereadores,a quem cabe fiscalizar a administração, estão mais preocupados em saber como será gasto o dinheiro das dita cujas.

Fátima Garcia disse...

Oi Ana Luz, obrigada pelas referências elogiosas ao nosso trabalho, e se chegamos a 100 mil visitas, foi graças a paciência de leitores como voces que estão sempre por aqui, nos prestigiando.
abs

Anônimo disse...

me lembro "dessa" praça do ferreira. No começo todo mundo ficou com medo de ficar lá por causa da história da caça aos subversivos. depois a coisa foi relaxando, e aos poucos, as pessoas foram voltando. A noite era assim mesmo, escura e deserta. Era sinistro passar por lá.