sexta-feira, 11 de março de 2011

Cidade da Criança: O Primeiro Jardim de Infância

Na Cidade da Criança, um casamento na roça, dentro da preocupação de preservar as nossas raízes culturais (arquivo Blanchard Girão)


Na década de 1930, a educadora Zilda Martins Rodrigues concebeu, montou e dirigiu uma escola infantil que chamou de Cidade da Criança, implantada no então Parque da Liberdade, às margens da antiga Lagoa do Garrote, onde vicejava então um vasto e bonito arvoredo. 
Pela primeira vez a nível local, se punha em ação o que de mais avançado existia no País, no campo da Psicologia e da Pedagogia, voltados para a infância.
Foi o primeiro jardim de infância de Fortaleza



Era o surgimento da escola entendida como complementação e prolongamento do lar, buscando adaptar a criança, pela metodologia mais adequada ao processo de aprendizagem. Recebendo o apoio do Estado, Dona Zilda estabeleceu naquele espaço privilegiado a sua Cidade da Criança, que reunia, em diversas dependências, os equipamentos indispensáveis a uma prática simultânea de escolarização e diversão.
Escola eclética, dispunha de salas de aulas equipadas conforme a faixa etária das crianças, cadeiras e mesas de pequeno porte, biblioteca infantil rica e variada, onde contos de autores nacionais e estrangeiros estimulavam o hábito da leitura. 



Área para encenações teatrais, salão de jogos (xadrez, damas, entre outros), sala para ensaio de dança e manifestações folclóricas – a exemplo das quadrilhas no período junino e os pastoris, na época natalina. 
A escola contava ainda, com campos para prática de esportes, como futebol e vôlei, de onde saíram atletas para as equipes dos principais clubes da cidade.
Tudo sob monitoração de servidores qualificados, zelosos e responsáveis. Uma organização que perdurou por muitos anos, sob a direção de Dona Zilda, como padrão no Ceará e exemplo para o país. 



Inaugurada no início da década de 1940, A Cidade da Criança contou com a presença do Presidente Getúlio Vargas, que impressionado com a organização do empreendimento, convidou Dona Zilda para fazer estágios no Rio Grande do Sul e São Paulo.
A construção constava de três casinhas, reservadas para o 1°, 2° e 3° graus do Jardim da Infância, devidamente mobiliados e com material adequado ao estágio em que se encontrava o aluno. 



Havia ainda o parque do recreio, com balanços, escorregadores, roda-gigante e outros aparelhos infantis.
A própria Dona Zilda fez o treinamento das professoras, das serventes e de todo o corpo funcional. Entre as professoras preparadas por Dona Zilda, Alba Frota, Aderbalina e Lenoa Nunes Freire, Ailza Ferreira Costa, Gerarda Costa Bezerra, Marizaura e Iracema Araujo, Maria José Fontes e Maria Frota.



Pela manhã funcionava o Jardim de Infância propriamente dito. Havia também a merenda escolar, onde as crianças eram ensinadas a usar guardanapos, como sentar à mesa, e a se servirem com boas maneiras, seguindo-se o recreio livre pelos gramados da nova escola.
A Escola oferecia aos pequenos alunos, aulas de danças e cantos sob a orientação do maestro Paurilo Barroso, acompanhados ao piano por Alba Frota. A tarde era reservada para os alunos que freqüentavam a escola comum, onde sob a orientação das professoras, eram ministradas aulas com o auxílio de jogos educativos, biblioteca e esportes. 


O ancoradouro construído durante a reforma da década de 1920, utilizado pelos alunos maiores para passeios no lago


Os alunos maiores iam ao parque de recreio onde faziam passeios no lago. 
Até aos sábados e domingos a escola era aberta, atendendo a pedidos dos alunos e seus familiares. 
Foi inaugurado ainda na Cidade da Criança uma hora de rádio, com o auxilio do professor Manuel Ribeiro Campos e do corpo técnico da Ceará Rádio Clube – PRE-9.  
Esse programa de rádio feito para as crianças do jardim de infância, contava com a colaboração do jornalista e historiador Hugo Vítor, que relatava viagens pelo Brasil. 
O projeto andava às mil maravilhas, mas a diretora Dona Zilda mudou-se para o Rio de Janeiro acompanhando o marido que fora eleito deputado federal. 
A partir da saída de Dona Zilda, a escola ficou a mercê das administrações municipais – que assumiram em 1945, a responsabilidade do funcionamento da instituição – a Cidade da Criança passou a intercalar períodos de esplendor e decadência.

Fonte:
Girão, Blanchard. “Sessão das Quatro” cenas e atores de um tempo mais feliz. ABC Fortaleza – 1998

5 comentários:

Ana Luz disse...

parece um oásis no meio da selva de pedra.Pena ser tão mal tratada.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Neste oásis, Ana Luz,eu brincava quase todos os dias, na infância.Morava a 3 quarteirões. Neste oásis,Ana Luz, eu namorava nos finais de semana, na adolescência.Neste oásis, Ana Luz, eu passava de 2ª à 6ª, quando vinha do Justiniano de Serpa pegar o ônibus...aí mesmo, na calçada do parque, em frente ao antigo IBEU da rua Solon Pinheiro.
Minha irmã Margarida estudou nesse Jardim de Infância, 46/47, quando a Diretora era Alba Frota. Depois da morte dela (no mesmo avião que levava o Castelo Branco), a escola passou a ter o nome Alba Frota. Creio que já não funciona na Cidade da Criança.
Hoje, tenho receio de entrar nele.
Ironia dos tempos!!!!!

Fátima Garcia disse...

A escola não funciona mais no parque, os edifícios são ocupados por alguns órgãos ligados a prefeitura, que lidam com crianças carentes e em situação de vulnerabilidade. A área do parque é muito mal cuidada, com muitos mendigos e desocupados uns perambulando, outros dormindo no chão e nos bancos. A escolinha foi um projeto pioneiro de algumas professoras que fizeram história, tamanha era a ousadia da empreitada. Pena que durou pouco.

Lorena Freire disse...

Quando vinha de ferias para Fortaleza, minha tia Ernestina sempre levava eu e meu irmão para passearmos na Cidade da Criança. Lá tinha um mini zoológico, gostávamos de olhar os animais. Agora as vezes penso em levar meu filho para conhecer esse local do qual tenho boas lembranças, mas me falta coragem, passo pela praça do Coração de Jesus com medo, andando rápido e segurando a bolsa. Saudades de um tempo de tranqüilidade!

Fátima Garcia disse...

tem razão Lorena, vivemos um tempo novo, que a violência tomou conta da cidade e a única providência adotada pelos poderosos de plantão foi providenciar segurança pessoal p/eles mesmos. A cidade da criança ainda é um lugar agradável, mas os frequentadores mais assíduos são drogados e desocupados dormindo nos bancos ou abordando pessoas pedindo dinheiro. Faz bem em não levar seu filho p/aquele lugar atualmente.