quinta-feira, 17 de março de 2011

Rádio Dragão do Mar

     imagem: O Nordeste
A rádio foi montada em 1958, pelo antigo Partido Social Democrata – PSD, visando à campanha sucessória para o Governo do Estado. O governo estava em poder da UDN – União Democrática Nacional, com Paulo Sarasate no cargo de governador e Flávio Marcilio, como vice. 
Governador Paulo Sarasate e o Vice Flávio Marcilio (fora do carro) governaram o Ceará entre 1955 e 1959 (Arquivo Nirez) 
A rádio seria assim o principal instrumento da campanha eleitoral daquele ano. 
E cumpriu seus objetivos já que o eleito para governador foi o candidato Parsifal Barroso, da coligação PSD/PTB. 
A Dragão do Mar funcionava no edifício sede do antigo IAPC (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários), na Rua Pedro Pereira, ocupando todo o quinto andar.
O nome foi uma idéia do radialista José Olavo Peixoto Alencar, e a denominação “Dragão do Mar” já sugeria uma linha de protestos e lutas. 
Edifício do IAPC na Rua Pedro Pereira, onde a Dragão do Mar ocupava todo o quinto andar (arquivo Nirez)
Denunciava as deficiências administrativas e, de modo especial os escândalos dos apadrinhamentos que caracterizavam, a prática política local naqueles tempos.
Dentro do estilo a que se propôs, o prefixo musical que a identificaria, seria uma música de exaltação, a Terra da Luz, de Humberto Teixeira e Lauro Maia. 
Num dos versos da letra de Terra da Luz havia referência ao Dragão do Mar: 
  Eu bem sei que é bem nosso
O orgulho de um gesto que eleva e seduz
o gesto altaneiro, de audaz jangadeiro
mandando que todo navio negreiro
passasse bem longe da Terra da Luz.
O jornalismo da Dragão tinha uma linha primordial: o combate ao governo da UDN e a promoção dos candidatos do PSD. O editorial era a crônica “Nossa Palavra”, que ia ao ar diariamente, às 12h30min. 
A emissora logo ganhou a simpatia popular, o que também contribuía o destaque dado aos esportes, formando uma equipe que contava com nomes de peso, como Ivan Lima, Gomes Farias, Paulino Rocha, Joseoly Moreira e muitos outros.
 Havia ainda os programas de estúdio com produções bem elaboradas. Alguns programas viraram líderes de audiência, como “O Contador de Histórias”, que resumia contos em quadros rápidos e engraçados. 
Destacava-se também o cast de radioteatro, dirigido por J. Oliveira, que encenou algumas das mais ouvidas novelas de rádio da época. Nesse cast apareciam nomes que se consagrariam mais tarde no rádio e no teatro brasileiro, a exemplo de Aderbal Júnior e Oliveira Filho. 
Logo, a Dragão passou a ocupar posição de relevo no campo da radiofonia local, ainda de pequenas dimensões, com a pioneira PRE-9, a Rádio Iracema e a Uirapuru. 
Em alguns horários a Dragão batia amplamente a concorrência, por essa razão passou a ser a emissora preferida de alguns dos maiores anunciantes, como a The Sidney Ross, que mantinha elevados contratos com a emissora para divulgação de seus principais produtos, como Melhoral, Talco Ross e Pílulas de Vida do Doutor Ross.  
Entre os grandes anunciantes da emissora, a empresa The Sidney Ross  
A campanha política assumiu ares de radicalização e violência. A rádio agitava a opinião pública, denunciando os desmandos do governo udenista. Este respondia com mais violência e, em uma ocasião o truculento Secretário de Segurança, General Severino Sombra, mandou prender um carro de reportagens do Dragão, com um grupo de repórteres. 
O fato provocou uma reação histórica da imprensa local, liderada por Perboyre e Silva, presidente da Associação Cearense de Imprensa, que convocou todos os jornalistas a comparecerem ao quartel da PM em Antonio Bezerra, os estavam detidos os funcionários da Dragão, para se considerarem presos também. 
O protesto acabou não acontecendo porque o comando do quartel não permitiu a entrada dos jornalistas, que se dirigiram então para a Praça dos Voluntários, onde aconteceu outra grande manifestação, exigindo a libertação dos presos, e que foi afinal conseguida graças à atuação de Perboyre e Silva.
Concluída a campanha eleitoral, com a eleição de José Parsifal Barroso (1959-1963),  o PSD novamente no poder, o partido decidiu que não tinha vocação nem meios para manter a emissora, que com um elenco milionário, tinha uma folha de pagamento bastante elevada. 
O partido passou então o comando da emissora para Moysés Pimentel. Sob o comando deste, a Dragão tornou-se porta-voz das grandes bandeiras da época, abrindo seus microfones a lideranças operárias, estudantis e camponeses. 
O candidato a Presidência da República, Henrique Teixeira Lott em campanha em Fortaleza. Na mesa Francisco de Menezes Pimentel, Parsifal Barroso e Armando Falcão, em 1959 (Arquivo Nirez)  
Apoiou a candidatura do general Lott á presidência da República, e assumiu posição firme em prol da legalidade, quando da renúncia do presidente Jânio Quadros, sendo a única emissora do estado a lutar em favor da posse do Vice-Presidente João Goulart.
 Em 1962, em decorrência natural da postura da emissora, a cúpula diretiva candidatou-se a vários cargos, sendo eleita com grande votação. 
Moysés Pimentel foi eleito deputado federal, o diretor de programação Blanchard Girão e o diretor administrativo Aécio de Borba, foram eleitos deputados estaduais.
Mas os dias da Dragão do Mar estavam contados. Em 1964, mal estourou o “golpe” os militares  trataram de ocupar a rádio, fechando-a e prendendo  jornalistas e locutores, enquanto dirigentes e ex dirigentes que exerciam cargos políticos, foram cassados e presos.
A Rádio Dragão do Mar permaneceu fora do ar por vários meses. 
Voltou tempos depois sob nova direção – de um militar reformado – totalmente descaracterizada, e de tombo em tomo, acabou na vala comum das emissoras de rádio quase que ignoradas pelo público.
fac-simile da capa do livro de Blanchad Girão, que foi durante uma época, um dos dirigentes da emissora.
Representou, no entanto, um dos melhores momentos do rádio cearense, revolucionando alguns conceitos de rádio-jornalismo e dando um nível cultural de grande evidência à programação radiofônica local.

Fonte:
Lopes, Marciano. Coisas que o Tempo Levou – a era do rádio no Ceará. Fortaleza: Gráfica VT, 1994.   

4 comentários:

Getúlio FM disse...

Cara professora, excelente texto. Como já disse e não me canso de repetir, ler este blogue é uma fonte de surpresas, umas boas, algumas nem tanto, mas todas com a força que garante a memória do nosso povo. Isso nos dá vida. Se der, veja minha última postagem no bloguedofrido.blogspot.com . Nela, leremos sobre a história da destruição de livros no livro de Fernando Báez. Repeitosamente.

Fátima Garcia disse...

Olá Carlinhos, Getúlio FM, ví o seu texto no inicio da tarde, e vou voltar lá p/fazer um comentário. Mas me confesso estarrecida com aqueles numeros que voce colocou lá.
abs

Narcelio Pimentel disse...

FALA-SE DE LULA COM MALUF E COLOR.
SE NÃO FOSSE NOJENTO SERIA ENGRAÇADO NESTA FOTO COM LOTT. TEM GENTE QUE VENDEU A ALMA AO DIABO.

Fátima Garcia disse...

Narcelio Pimentel, isso prova que político é tudo igual, só muda mesmo a época.
abs