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domingo, 12 de abril de 2026

Fortaleza 300 anos

 


Àquele tempo – oh, como eu conheço tão pouco tua história - - haveria já a praça que seria do Ferreira (teu coração palpitante), mas sem o boticário malicioso e enérgico, sentado à porta de sua farmácia, de dia “à sombra do frondoso cajueiro” e à noite – quem poderá dizer com certeza? – à luz da lua ou das estrelas, vá lá, contando casos ou ouvindo histórias que se passavam “naquelas ribeiras”, como é mesmo que diziam?  Vila e forte de Nossa Senhora da Assunção, como um marzão lindo botando pra bem longe os fantásticos brigues que jamais incomodaram os nossos avós que eram uma dureza, grandes na guerra e maiores ainda na paz... 

Extraído da Crônica “Fortaleza meu Amor” de Antônio Girão Barroso



A escolha do dia 13 de abril de 1726, como marco da criação da cidade de Fortaleza, foi decorrente de um projeto, apresentado e defendido pelo vereador Idalmir Feitosa, que foi transformado na lei Municipal n° 7535, de 16 de junho de 1994, que instituiu a data de 13 de abril como o Dia da Cidade.
A lei, aprovada pela Câmara Municipal entrou em vigor no ano seguinte e logo se incorporou ao calendário de eventos da cidade.

A data comemora o dia da instalação da Vila de Fortaleza de Nossa senhora da Assunção da Capitania do Siará Grande, ocorrida há 300 anos. Refere-se a data da emancipação política e administrativa do município, seu nascimento oficial. Lembra ainda a data da instalação da Câmara Municipal de Fortaleza e da assembleia diretiva dos destinos da Cidade.

Os Primeiros de Fortaleza 

Primeiro mapa – atribuído ao capitão mor Manuel Francês – 1726

Primeira Casa de Exportação e Importação – do irlandês William Wara – 1810

Instalação da Alfândega – 1812


Edifício da Alfândega

Instalação dos Correios – 1812

Primeiro Jornal – Diário do Governo do Ceará – 1824   

Primeira Farmácia – Farmácia Mamede – 1829

Farmácia Mamede
 
Primeiro teatro - Teatro da Concórdia – 1830

Primeiro colégio público – Liceu do Ceará – 1845 

Primeiro Farol – no Mucuripe – 1846

Primeiro trem – Estrada de Ferro Baturité – 1873

Primeiro espaço público urbanizado – Passeio Público – 1879

Primeiro Transporte Coletivo – Bondes de Burros – 1880

Primeiro telefone – na Casa Confúcio – 1883

Primeira Igreja Protestante – Igreja Presbiteriana de Fortaleza – 1883

Primeira foto da cidade – mostrando a região da Praia Formosa – 1892


ramal ferroviário trecho Praia Formosa 

Primeiro relógio público – na Intendência Municipal – final do Século XIX

Primeira Faculdade – Faculdade Livre de Direito do Ceará – 1903     

Primeiro Porto – Ponte Metálica – 1906  

Primeiro cinema – Cine Di Maio – 1908

Primeiro Automóvel – importado por Júlio Pinto e Meton de Alencar – 1909

Primeira concessionária de energia elétrica – Ceará Gaz Company Ltd– 1913


Usina Ceará Gaz no Passeio Público

Primeiro time de Futebol – Rio Branco Football Clube atual Ceará Sporting Clube – 1914

Primeiro edifício de Fortaleza – Excelsior Hotel – 1931

Primeira Estação de Rádio – Ceará Rádio Clube – 1934

Primeiro Canal de TV – TV Ceará Canal 2 – 1960

Primeiro Supermercado – Supermercado Sino da rua 24 de maio – 1960

Primeiro Shopping Center - Shopping Center Um – 1974

Primeira viagem do Metrô – Percurso Pacatuba/Parangaba – 2012


 


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Os Primeiros Teatros: Fortaleza entra em Cena

O primeiro prédio identificado com a atividade teatral em Fortaleza, aparece em 1830, em frente à Igreja do Rosário, atual Praça General Tibúrcio. Chamava-se popularmente Teatrinho da Concórdia, embora fosse também considerada Casa de Ópera, tendo sido obra de negociantes portugueses e empregados do comércio. Depois de 12 anos, mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco com o nome de Teatro Taliense, funcionando ali até 1842. 

Praça General Tibúrcio por volta de 1900

Em 1876 aparece outro Teatro, o São José.  Instalou-se originalmente na Rua Senador Pompeu onde ficou até 1884. Seu palco era ocupado frequentemente pelas animadas comédias do grupo amador Recreio Familiar. Esse teatro foi destruído por um incêndio em 1898.

Na esquina das ruas Barão do Rio Branco com João Moreira, defronte ao Passeio Público, foi inaugurado em 1877, o Teatro de Variedades, espaço ao ar livre, em que a plateia providenciava as próprias cadeiras. Após três anos, de 1880 a 1896, no mesmo local, funcionou o mais importante de todos os teatros que antecederam o José de Alencar: o Teatro São Luís. Por ele passaram as companhias que excursionavam em direção ao Norte e faziam escala em Fortaleza, apresentando óperas, operetas, dramas e comédias. Além de espetáculos teatrais, o São Luís acolheu grandes acontecimentos, como a oratória inflamada de José do Patrocínio e a execução da ouverture de O Guarani, na presença do próprio Carlos Gomes. Fechou em 1896, devido as confusões que os alunos da escola Militar faziam a sua volta. 

Esquina das ruas Formosa (Barão do Rio Branco) com Travessa da Misericórdia (Dr. João Moreira - postal de 1905 

Por um ano, a cidade ficou sem espaço para espetáculos, mas em 1897, o Clube de Diversões Artísticas, dirigido por Papi Junior, levanta um pequeno teatro, o Iracema, na Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), num terreno pertencente ao Clube Iracema que funcionava no prédio do Reform Club. A experiência deu tão certo que, em 1898, foi criado o Grêmio Taliense de Amadores, do qual fizeram parte Ramos Cotoco e Carlos Câmara. O Taliense estabeleceu seu pequeno teatro na Rua Senador Pompeu, esquina com Liberato Barroso.

Na rua Major Facundo, fundou-se, em 8 de fevereiro de 1904, o Centro Artístico Cearense. Depois, em 28 de abril de 1912, o Centro mudaria definitivamente a sua sede para o endereço de esquina da rua Tristão Gonçalves com a Duque de Caxias, onde, em 1925, iniciaria as suas atividades com o cinema, e, em 16 de dezembro de 1931, inauguraria um palco para apresentações teatrais.

Entre 1904 e 1905 foi fundado o Clube Atlético, que era uma sociedade esportiva formada por jovens do comércio, onde além das práticas atléticas, também organizavam seus dramas e tragédias. Esse grupo criou o Teatro João Caetano, no mesmo local em que estivera o “Variedades”, do Grêmio Taliense, na rua Senador Pompeu com a Liberato Barroso. O pequeno Teatro João Caetano tinha capacidade para cerca de 400 cadeiras. Na sede, o palco se localizava em cima de um poço, por se acreditar que melhorava a acústica. O teatro, que ficava ao lado do Clube Atlético, foi destruído por um incêndio originado de um depósito de madeiras na rua Liberato Barroso, deixando a cidade sem um teatro popular, o que fez com que as companhias de teatro, quando aqui chegavam, se apresentassem no pequeno palco do cinema Rio Branco. 

Em 1910 surgiu o teatro oficial da cidade, O Theatro José de Alencar. Inaugurado oficialmente no dia 17 de junho de 1910, o José de Alencar comemorou seus 106 anos como a mais bela e a mais importante casa das Artes cênicas do Ceará, e a maior referência cultural do Estado.

O raro espécime de arquitetura eclética foi erguido entre dois outros edifícios, uma escola e um quartel de polícia. Além da sala de espetáculos, em ferro fundido e madeira importada da Europa, compunham o teatro um primeiro prédio que o guardava do contato da praça, e uma caixa de cena em tijolo e madeira, com inovações técnicas até então inusitadas para o teatro local. 

Para países não industrializados como o Brasil, assim como para as províncias como a do Ceará, onde tudo que se alcançara em matéria de progresso era o comércio exportador-importador com a Europa, ter um teatro de ferro dava a ilusão de haver entrado no pórtico da civilização. Vinha ele somar-se a uma série de outros edifícios e equipamentos urbanos que caracterizaram o período da belle époque no Ceará.

Um novo Teatro São José foi criado em 1914 como alternativa de lazer cultural para trabalhadores que não tinham acesso fácil ao luxuoso Teatro José de Alencar, inaugurado em 1910. Num terreno baldio ao lado da Igreja da Prainha, o padre alemão Guilherme Wassen, identificado com o movimento dos trabalhadores cristãos, deu início à obra com a ajuda voluntária de operários. Em um galpão com coberta de zinco eram apresentadas peças, sessões de cinema, dramas e jogos visando angariar verbas para a obra. 

 Em primeiro plano, a Igreja da Conceição da Prainha, e ao fundo, o Teatro São José

Em 1915 o Teatro São José passou a funcionar onde está hoje, na Praça Cristo Redentor, local onde se instalou também, a sede do Círculo Operário de Trabalhadores Cristãos de Fortaleza. O teatro operário conheceu muitas glórias. Peças do cearense Carlos Câmara foram quase todas encenadas lá. Companhias locais e de outros estados atraiam o público. O teatro serviu também para recepcionar visitantes ilustres como o ex-presidente Juscelino Kubitschek. 

Fortaleza ainda contou com outras salas de artes cênicas, as vezes improvisadas como teatro, a exemplo do Cinema Rio Branco, de Henrique Mesiano, e do Politeama, na Praça do Ferreira, de José Rola. 

O dia 14 de julho de 1917, marca a inauguração do Cine Teatro Majestic Palace, com a inauguração do palco e dia 20, inauguração do cinema. O Majestic foi instalado num imponente edifício de quatro andares, na Rua Major Facundo, na Praça do Ferreira. A sala de projeção que também era teatro, era toda em ferro como no Teatro José de Alencar. Tinha 650 cadeiras no térreo e nos dois andares onde ficavam os camarotes e a geral.


Entre 1919 e 1939 o autor Carlos Câmara arrastava multidões que lotavam o teatro improvisado do Grêmio Dramático Familiar, no calçamento da Messejana, atual Visconde do Rio Branco.  Na peça de estreia do autor, intitulada “A Bailarina”, há registros sobre a chegada da devastadora gripe espanhola, que veio para a cidade a bordo do vapor Ceará. Acometido da doença Carlos Câmara levou ao palco o que havia de moleque em torno da influenza. Como não acertava com o nome da doença, o populacho batizou a gripe de Bailarina.


fontes:
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão
Theatro José de Alencar: o teatro e a cidade, Terra da Luz Editorial
fotos do arquivo Nirez, e do livro Theatro José de Alencar: o teatro e a cidade 


sexta-feira, 11 de julho de 2014

Sobre Sete Colinas


Vista aérea do Outeiro da Prainha em 1900

À semelhança de Roma, Fortaleza cresceu entre sete colinas. Aproximando-se da cidade pelo mar avistava-se a primeira dessas elevações, ao nascente e fronteiro a praia: O Outeiro da Prainha. Despontando de seu barranco, no alto de suas ladeiras que já serviram de arraial de índios, o par das afuniladas torres da Igreja de N.S. da Conceição, dava o rumo aos navegantes. A origem dessa igreja deveu-se a secular veneração em Lisboa pela confraria da Imaculada Conceição. 


Escolheram para sua construção um local distante da cidade, quase deserto, com noites estreladas e dias luzidos pela belíssima paisagem de coqueirais, que se perdia lá em baixo, ao longo da costa verdejante, vivamente movimentado pela brisa vinda do mar.
Houve um tempo em que os muros da igreja eram pintados de preto. Ressaltava-se assim, o sentimento grave e místico daquele sítio perdido no areal, rodeado por um respeitoso silêncio, só quebrado pelas constantes peregrinações de seus fiéis, clareando o morro com seus círios luminosos.
Quando o casario começou a ladear a igreja, alguns membros da família Borges foram morar ali em graciosas mansões, e doaram ao templo preciosos objetos de arte e devoção: o primogênito Antônio doou uma imagem de Santo Antônio, vinda de Portugal que media sete palmos de altura. Também deixou ali uma grande cruz de madeira prateada. Outro membro da família ornou o altar mor com a imagem da padroeira Nossa Senhora da Conceição, com seu hábito de cetim branco, manto azul e coroa de prata, que ainda se encontra no templo.
Atrás do Outeiro da Prainha situava-se a Elevação da Aldeota, no sítio em que mais tarde findaria a linha de bondes da Cia. Ferro-Carril, organizada e dirigida por Tomás Pompeu de Sousa Brasil. Nesse elevado em tempos remotos, os índios vindos da Vila Velha erigiram ali uma aldeia, de onde vem a denominação Aldeota.


 antigo Quartel de 1ª Linha, atual 10ª Região Militar 

No lado oposto do Outeiro da Prainha, na margem esquerda do regato Pajeú e estendendo-se até a praia, estava a Colina da Misericórdia. Nesse local se levantou o Forte de N.S. de assunção, o Quartel de Primeira Linha, hoje ocupado pela 10º região Militar, o Passeio Público, a Santa Casa de Misericórdia – o primeiro hospital da cidade – e a Casa de Detenção, hoje ocupada pela EMCETUR,  centro de turismo e artesanato.
A Oeste da Misericórdia subia o Morro do Croatá e com ele se formou o antigo Campo da Amélia, atual Praça Castro Carreira. Neste local foi instalado o observatório construído pela Comissão Científica de Exploração, uma iniciativa do Instituto Histórico e Geográfico, executada por iniciativa do Imperador Pedro II, cujo objetivo era estudar os locais menos conhecidos do Brasil.


Praça Castro Carreira fins do século XIX 

No lado poente desse largo, em terreno pertencente a sesmaria de Jacarecanga e doado pela família Braga Torres, criou-se, em 1848, o primeiro cemitério da cidade, o São Casemiro que não demorou muito a ser desativado, por conta das areias que o vento trazia das dunas vizinhas, soterrando aquele campo santo. Antes da existência desse cemitério os sepultamentos da cidade eram feitos sob os pisos ou nas paredes das igrejas ou em seus arredores. Somente em 1865 seria inaugurado o Cemitério São João Batista.
Na parte setentrional do Campo da Amélia, do alto de seus 15 metros, inaugurou-se em 1880  Estação central da Estrada de Ferro Baturité. A obra iniciada em 1879, segundo o plano do austríaco Henrique Foglare, foi elogiada por todo o império, pela solidez e beleza de seu traçado dórico-romano. 


Estação central da Estrada de Ferro Baturité em 1926

Por trás do atual Parque da Liberdade e à margem direita do riacho Garrote situava-se o Alto da Pimenta. Em seu declive o Boticário Ferreira construiu uma igrejinha sob a invocação de N.S. das Dores, sem, contudo, poder concluí-la. Mais tarde seria construída neste local, pela família Albano, a Igreja do Coração de Jesus, sobre um morro de dois metros de altura e curiosamente chamado de Morro do Pecado.


Igreja do Coração de Jesus, construída em 1848 no alto do Morro do Pecado. 


A colina do Taliense  apresentava seu ponto mais alto no sobrado do Conselheiro Rodrigues Junior, onde hoje está o Edifício Diogo. Recebeu esse nome por estar nela localizado o Teatro Taliense, originado do teatrinho particular Concórdia, que já exibia seus espetáculos em 1824, ao lado da Igreja do Rosário. Com o nome de Teatro Taliense, foi o Concórdia em 1842, para a Rua Formosa, atual Barão do Rio Branco. O Teatro Taliense funcionava num sobradão, então número 112, servindo além de teatro, de salão de bailes de máscaras. Ao ser demolido em seu lugar se instalou a Casa Singer, na Rua Barão do Rio Branco. 
A Colina do Taliense e a colina ao sul do córrego do Garrote, onde começava o sítio do Benfica, serviam de referência as estradas que por ali passavam a estrada de Jacarecanga e a de Arronches.


Rua Guilherme Rocha, antigas estrada de Jacarecanga e Travessa Municipal
  
A estrada de Jacarecanga era continuamente molhada pelas águas que escoavam da baixada da Lagoinha. Essa estrada, mais tarde chamada de Travessa Municipal, nascia na Rua do Rosário, passando em frente ao prédio da Intendência Municipal, formando assim a face setentrional da Praça do Ferreira. Atravessando todo o centro da cidade, esta estrada se dirigia ao poente, entrando no bairro do Jacarecanga.


Extraído do livro Ideal Clube – História de uma sociedade
De Vânius Meton Gadelha Vieira
fotos do Arquivo Nirez
  

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Os Primeiros Teatros de Fortaleza

O primeiro edifício teatral da cidade registrado pela história aparece em 1830, em frente à Igreja do Rosário, na esquina da Travessa Municipal (atual Guilherme Rocha) e a Rua do Quartel (atual General Bezerril).  Era chamado popularmente de Teatrinho da Concórdia, embora também fosse chamado de Casa de Ópera.


O Teatro Concórdia, o primeiro de Fortaleza, funcionava na Praça General Tibúrcio, em frente à igreja do Rosário (arquivo Nirez)

A criação desse teatro foi obra de negociantes portugueses e empregados do comércio. Ali em 16 de setembro de 1832, se representou a tragédia Brutus, de Voltaire, em homenagem ao presidente da província José Mariano de Albuquerque Cavalcante (8/10/1831-23/11/1833), que voltava do sul da província, onde fora combater os rebeldes do caudilho Pinto Madeira.

Após doze anos, o Concórdia mudou-se para a Rua Formosa,  atual Barão do Rio Branco, com o nome de Teatro Taliense, ali funcionando até 1872. Em 1876 aparece o Teatro São José, se instalando originalmente na Rua Senador Pompeu  (antiga Rua Amélia),  onde ficou até 1884. Seu palco era frequentemente ocupado pelas animadas comédias do grupo amador Recreio Familiar. 

O Teatro São José já na sua sede própria na Praça Cristo Redentor para onde se mudou em 1915 (foto Ofipro)

Conta-se que de todas as peças tristes ou alegres levadas no São José, as que mais agradaram foram as operetas burlescas – De Baturité à Lua, Madame Angot na Monguba e Sinos de Corneville em Arronches.

Essas representações eram pontilhadas de incidentes verdadeiramente desastrosos, mas que em vez de provocarem protestos eram recebidos com incrível bom humor. 

Em certo espetáculo, uma dama devia em cena, cantar ao piano, uma terna canção de amor. Um grupo de amadores bateu a cidade, mas não encontrou quem lhe emprestasse aquele instrumento. Em desespero de causa e já no dia do espetáculo, alguém sugeriu que se pintasse, em uma das cortinas, um piano junto ao qual a artista cantaria, fingindo que tocava. A ideia foi aceita, mas qual não foi a decepção dos diretores da peça quando viram que o piano fora pintado fechado! Como não houvesse mais tempo para abri-lo, resolveram levar a cena assim mesmo. Chegado o momento, a moça tomou posição, fingindo dedilhar, ao tempo em que, atrás dos bastidores, uma flauta fininha fazia às vezes de piano.  Por pouco o teatro não desaba diante da algazarra e das gargalhadas da plateia.

Na esquina das ruas Barão do Rio Branco com Dr. João Moreira, defronte ao Passeio Público, foi inaugurado em 1877 o Teatro de Variedades, espaço ao ar livre, em que a plateia providenciava as próprias cadeiras.  Haveria espetáculo se não chovesse. A entrada custava $500.
Rua Dr. João Moreira, onde no século XIX, funcionaram o Teatro de Variedades e, mais tarde, no mesmo local, O Teatro São Luís (arquivo Nirez)
 
Após três anos, funcionou de 1880 a 1896, no mesmo local, o  mais importante de todos os teatros que antecederam o José de Alencar, no caso, o Teatro São Luís. Por ele passavam as companhias que excursionavam em direção e Norte e faziam escala em Fortaleza, apresentando óperas, operetas, dramas e comédias, para um público já bastante mais exigente.  

Além de espetáculos teatrais, o São Luís acolheu grandes acontecimentos, como a oratória inflamada  de José do Patrocínio e a execução da ouverture de O Guarani, na presença do próprio Carlos Gomes. Segundo relato de Raimundo Girão, de passagem por Fortaleza, o compositor recebeu uma manifestação improvisada pelas pessoas cultas da cidade, sendo levado à noite ao Teatro São Luís, onde a banda do 15° Batalhão do Exército faria uma apresentação em sua homenagem. 

O maestro Carlos Gomes, autor da opera O Guarani

Apanhada de surpresa e mal ensaiada, a Banda do 15°, torceu, ofendeu, assassinou a obra prima de Carlos Gomes. De pé, braços cruzados, à entrada do camarote presidencial, o compositor assistiu impávido à tortura de sua filha primogênita. O Teatro São Luís fechou em 1896, devido às confusões que os alunos da escola Militar faziam à sua volta.

Por um ano a cidade ficou sem espaço para espetáculos, mas logo em 1897, o Clube de Diversões Artísticas, dirigido por Papi Junior, levanta um pequeno teatro na Rua Formosa, atual Barão do Rio Branco, onde a depois famosa atriz Maria de Castro se iniciou. A experiência deu tão certo que, em 1898, foi criado o Grêmio Taliense de Amadores, do qual fizeram parte Ramos Cotoco e Carlos Câmara. O Taliense estabeleceu seu pequeno teatro na Rua Senador Pompeu, quase esquina com Liberato Barroso.

Desde meados do século XIX, a ambição dos governantes da província voltava-se para o propósito de construir um teatro oficial. Inúmeros deles tentaram alguns até iniciaram. Nessa época, sempre havia espetáculos em busca de palcos, uma vez que companhias de teatro que demandavam o norte do país, transitavam por Fortaleza.  


Praça José de Alencar, antiga Praça do Patrocínio, local escolhido para a construção do teatro oficial da cidade, em foto de 1929 (arquivo MIS) 

A primeira tentativa de construção de um teatro oficial aconteceu já em 1859 e coube ao então presidente da província Dr. João Silveira de Sousa (27/7/1857-15/9/1859). No entanto, já desconfiando da precocidade de sua ideia, já previa objeções desde o lançamento do projeto.  

Mesmo não sendo realizada de pronto, a proposta de João Silveira de Sousa ganhou adeptos e, em fevereiro de 1864, a ideia de construir o teatro é retomada. Para acolher a edificação, o local escolhido foi a Praça do Patrocínio (mais tarde Marquês de Herval e atual José de Alencar). O então presidente da província José Bento de Figueiredo Júnior (5/5/1862-19/2/1864), colocou a pedra fundamental do teatro que teria o nome de Santa Tereza em homenagem à imperatriz. 

Entretanto, os argumentos em defesa da construção do teatro não vingaram, a oposição atacou a iniciativa pela imprensa, qualificando a obra como supérflua e cara.  O resultado é que em outubro do mesmo ano, a Assembleia Legislativa decide suspender a obra.

Teatro José de Alencar, construído e inaugurado na primeira década de 1900 (arquivo MIS)

O projeto do teatro oficial só é retomado, desta vez com sucesso, em 1904, com a volta ao poder de Nogueira Accioly, que através de lei, autoriza sua construção reservando para tal a quantia de 400 contos.  Coube ao oligarca, por ironia, a glória do feito, mesmo que dois anos após a inauguração do teatro, tenha sido apeado do poder pelas forças progressistas urbanas, em nome da luta contra as oligarquias conservadoras.  

Extraído dos livros
Teatro José de Alencar – o teatro e a cidade
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão