segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Crescimento Desordenado de Fortaleza


 Vista do centro de Fortaleza, em 1937 (foto de Amélia Earhart)

A partir da década de 1930, Fortaleza começou a crescer desordenadamente, sem plano urbanístico que apontasse soluções convenientes, para o surgimento de favelas, arranha-céus, destruição do perfil arquitetônico anterior, aparecimento de fachadas e monumentos de gosto duvidoso, dentre outras mazelas.  Tais situações decorriam dos interesses e devaneios das elites locais, da inoperância e omissão de sucessivas gestões municipais, da especulação imobiliária e do grande abismo social que separa ricos e pobres de Fortaleza.
Estima-se que a área da cidade, calculada em 6 km² no início do século, passou para aproximadamente 40 km² (zonas urbana e suburbana) no início da década de 1940. Nesse intervalo de tempo, o número de ruas, que era de 61 passou para 150, enquanto que as 23 avenidas existentes em meados da década de 1940, faziam a Fortaleza com seus três boulevards um arremedo de cidade.

 A partir da década de 1920, as familias de maior renda começaram a se mudar do centro, e as residências se tornaram estabelecimentos comerciais

Nesse período intensificou-se o abandono do centro da capital pelos setores mais abastados, processo iniciado na década anterior – a porção central foi assumindo cada vez mais as características de zona comercial. A movimentação pública no centro (carros, lojas, oficinas, clubes), a presença de excluídos ( desempregados, bêbados, loucos, crianças abandonadas, prostitutas), e retirantes da seca, com seus inconvenientes (doenças, furtos, assaltos, mendicância)  levaram parte da classe média e as elites a se deslocarem para outros pontos da cidade, fazendo surgir os primeiros bairros nobres. 

Avenida Filomeno Gomes, no Jacarecanga

Ainda nos anos 1920, o Jacarecanga ganhou essa condição – situado na zona oeste, não ficava distante do centro, o que permitia ainda aos setores abastado terem acesso às opções de consumo e lazer que, então, se concentravam na porção central da cidade.
Nas proximidades da estrada do Jacarecanga, perto do riacho homônimo, as elites comerciais e agrárias começaram a instalar grandes e elegantes casarões, vários deles copiados de modelos europeus, a exemplo do Palacete da família de Pedro Filomeno Gomes. 

 Praça Capistrano de Abreu (Praça da Lagoinha) após a reforma de 1920

Para  deleite dessa elite, em 1920, na primeira gestão do Prefeito Álvaro Weine (1928-30), foi reformada a Praça Coronel Teodorico (após 1965, Praça Capistrano de Abreu, mais conhecida como Praça da Lagoinha), situada exatamente na entrada do refinado bairro e que virou local de reunião e passeios das famílias residentes no Jacarecanga.
Com a reforma, a praça recebeu uma fonte luminosa colorida, a primeira a ser instalada em Fortaleza.

 Prédio do Liceu, inaugurado em 1935, na Praça Gustavo Barroso

Em 1935 inaugurou-se no Jacarecanga a nova sede do prestigiado Liceu do Ceará, na então Praça Fernandes Vieira, que depois de 1960 passou a ser chamada oficialmente de Praça Gustavo Barroso, mas é popularmente conhecida por Praça do Liceu.
Nos anos 1930, as elites fortalezenses foram ocupando em menor escala, a região do Benfica, e vencendo a barreira representada pelo Riacho Pajeú, as áreas da Praia de Iracema e Aldeota, ao leste. 

Avenida Visconde de Cauípe, no cruzamento com a Avenida 13 de Maio, Benfica

Na estrada de Arronches (Parangaba) numa área bastante arborizada e fértil, cujas fontes d’água ajudaram a abastecer Fortaleza até a seca de 1877-79, foi surgindo o que é hoje o bairro do Benfica, ainda no final do século XIX. Aos poucos, os setores dominantes foram se instalando, com suas chácaras, sobrados e bangalôs.  
Nos anos 1930 o Benfica foi alvo de melhorias na gestão do prefeito Álvaro Weine e consolidou-se como um dos locais mais elegantes da cidade, atraindo os fortalezenses por seus bosques, praças, campo de futebol (do Prado) e missa na Igreja dos Remédios.
Nos anos 1920 a antiga Praia do Peixe, até então ocupada por humildes pescadores, começou a ser ocupada pela elite, predominando as casas de veraneio. Aos poucos a visão negativa acerca do mar/litoral ia mudando. 

 Orla Marítima da Praia de Iracema 1930

Ficou famosa a Vila Morena (Atual Estoril), construída para moradia da família Porto, no começo daquela década,  e que durante a 2ª. Guerra Mundial (1939-1945) serviu de espaço de lazer para os soldados americanos instalados em Fortaleza. Com a presença dos ricos, até o nome da praia foi mudado em 1929 para Praia de Iracema (exatamente no ano em que se comemorava o centenário de nascimento do escritor José de Alencar). 
Nos anos 1930/40/50 os pescadores passaram a ser afastados da área, enquanto mais famílias chegavam,  junto com os clubes (Ideal Clube, Praia Clube, Jangada Clube, Gruta Praia), bares/restaurantes (Ramon, Zero Hora) e hotéis (Pacajus, Iracema, Plaza).


Hotel Iracema Plaza, hoje abandonado
 
A Aldeota – nome pelo qual ficou conhecida parte da antiga região do Outeiro – também crescia como bairro residencial em torno da Avenida Santos Dumont (antiga Rua do Colégio), mas ainda se limitando, mais ou menos, ao final da linha dos bondes, entre as Ruas Silva Paulet e José Vilar. No bairro fora erguido o famoso Castelo do Plácido Carvalho, rico comerciante que teria construído a residência nos moldes de um castelo florentino, em homenagem à esposa italiana.
   
O Palácio do Plácido foi demolido em 1974, para a construção de um supermercado da rede Romcy. O terreno, porém ficou abandonado por anos, e acabou sendo desapropriado pelo governo do Estado para a construção da Central de Artesanato Luiza Távora

Também eram referências no bairro, nos anos 1930, o Colégio Militar, a Igreja do  Cristo-Rei e o Cine-teatro Santos Dumont. A partir dos anos 1940/50, a Aldeota tornou-se o bairro mais aristocrático de Fortaleza, com suas mansões e bangalôs, dando margem a muitas controvérsias sobre a origem rápida e duvidosa de alguns dos seus moradores, que buscavam residir longe do Centro, para escapar dos bisbilhoteiros e das autoridades. Setores médios, menos abastados, pequenos comerciantes e mesmo populares ocupavam ainda, áreas no sentido do interior, como as do entorno da Praça do Carmo, do início da Estrada do Arronches/Parangaba – nas imediações da Praça do Encanamento (Clóvis Beviláqua), começo da atual Avenida da Universidade, da Estrada do Soure/ Bezerra de Menezes (bairro Farias Brito ou Otávio Bonfim) e da Estrada de Messejana/Visconde do Rio Branco. Para o sudeste da cidade, no entorno do Boulevard/Estrada de Aquiraz, igualmente se concentrariam residências, dando origem ao bairro Joaquim Távora. 

Torre do Cristo Redentor, na Praça do mesmo nome

A cidade também se expandia no chamado Outeiro da Prainha, onde já havia um seminário desde 1864, um teatro (São José), fundado em 1915 e o monumento do Cristo Redentor,  na antiga Praça da Conceição (atual Praça do Cristo Redentor), inaugurado em 1922 para comemorar o centenário da Independência do Brasil. O bairro mais distante do centro era o Alagadiço, atual São Gerardo, nas proximidades da estrada do Soure e onde havia uma lagoa que inundava áreas próximas, daí o antigo nome do bairro. Percebe-se que o crescimento urbano aconteceu, sobretudo, ao longo dos antigos caminhos que davam acesso a cidade, ficando as áreas entre eles praticamente vazias. Parangaba, Barro Vermelho (Antônio Bezerra) e Messejana eram tidos como zonas rurais do município de Fortaleza. Na área do Arraial Santa Luzia do Cocó, os moradores viviam da agricultura. 

 Hidroavião na Barra do Ceará em 1930

A Barra do Ceará, apesar de suas belezas naturais, também era considerada muito distante do centro de Fortaleza – ali funcionava um hidroporto para atender aos viajantes privilegiados, capazes de assumir os gastos de uma passagem aérea. Com o passar do tempo, a região foi cada vez mais ocupada por pobres, quase que numa extensão do Pirambu.   


fotos do Arquivo Nirez
extraído do livro de Artur Bruno e Aírton de Farias
Fortaleza, uma breve história
 
   

Um comentário:

gabriel guerreiro disse...

não tem como copiar e colar