quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A Participação dos Pracinhas cearenses na 2ª. Guerra mundial


A passeata de estudantes que culminou com a depredação dos estabelecimentos comerciais no centro de Fortaleza (imagem: Ah, Fortaleza!)

Em agosto de 1942, quando o Brasil ainda se declarava neutro no conflito que afligiu o mundo no período de 1939 a 1945, foi realizada em Fortaleza, uma grande passeata, liderada por estudantes, em protesto ao torpedeamento de navios brasileiros. A manifestação acabou provocando um quebra-quebra, no qual a massa enfurecida depredou e saqueou estabelecimentos e residências pertencentes a alemães, italianos, japoneses e simpatizantes daqueles países.

Manifestantes carregando o retrato de Getúlio Vargas, protestam pela neutralidade do governo brasileiro (imagem Ah, Fortaleza!) 

Naquele mesmo mês, o Brasil declarou guerra ao Eixo. Em novembro de 1942 instalava-se a seção local da Liga de Defesa Nacional, que articulou a arrecadação de ferro, alumínio e outros metais para a construção de artefatos de guerra. A campanha trouxe o espírito de guerra à população, fazendo surgir na capital e em outras cidades, verdadeiras “pirâmides” de ferro.  

Os jornais locais davam atenção ao confronto. A Pre-9 – Ceará Rádio Clube mantinha um programa diário, dedicado especialmente aos pracinhas (soldados brasileiros que foram enviados para lutar na Europa). A vida cotidiana de Fortaleza, com suas rodas de cadeiras nos finais de tarde, modificou-se com a participação brasileira no confronto. Houve racionamento de comida, de combustível e energia. Eram formadas grandes filas para se adquirir produtos básicos. Por precaução, os carros particulares foram proibidos de circular. 

O dirigível da Marinha Americana patrulhava a costa cearense. A população ficava em pânico. (foto tirada do livro História da Energia no Ceará, de Ary Bezerra Leite). 

Por temor de ataques germânicos, foram realizados exercícios de defesa passiva antiaérea, na qual se desligava a precária iluminação pública, de modo que a cidade ficasse às escuras à noite, para não virar alvo dos inimigos. Foi decretado o toque de recolher às 22 horas, e a cidade era vigiada por patrulhas do exército, para garantir que todos cumpririam o estabelecido. 

Foi criada a figura do inspetor de quarteirão, um morador da região que deveria orientar os demais em caso de ataques.  O escritor Moreira Campos conta que passou por essa experiência: foi nomeado inspetor de quarteirão. Tomava conta, tinha responsabilidades e instruções para o povo em geral – a qualquer bombardeio, fugir para a primeira casa que encontrasse aberta. O critério de escolha era  que a pessoa fosse conhecida da vizinhança.

Desfile da Força Aérea Brasileira pelas ruas de Fortaleza, antes do embarque para os campos de batalha da Itália (arquivo Nirez)  

Em janeiro de 1944, foram abertas as inscrições para os voluntários da Força Expedicionária Brasileira, que iriam lutar na Europa, contra as forças inimigas. Em torno de 337 cearenses, entre soldados, cabos e sargentos, foram engajados, e partiram para a Itália.

Dizem que os pracinhas não tiveram nenhum preparo nem treinamento militar para participar do combate; que mal sabiam usar as armas que recebiam do exército americano, e os aliados se mostravam preocupados com a inexperiência dos soldados que chegavam do Brasil para lutar na guerra. 


Apesar disso, os soldados brasileiros venceram  algumas batalhas importantes, como a de Monte Castelo, em 21 de fevereiro de 1945, e a de Montese, no dia 14 de abril de 1945. Durante este combate, o cearense Edson Sales de Oliveira perdeu a vida aos 24 anos de idade, sendo sepultado em Pistóia.  (Os bairros Montese e Monte Castelo ganharam esses nomes em referência aos locais de batalha na Europa). 

Em 2008, os ex-combatentes foram homenageados com a Medalha Heróis Expedicionários do Ceará, nas dependências do 23° BC  - fotos da ANVFEB, disponível em 
http://www.anvfeb.com.br/ceara_medalha.htm

De modo geral, os pracinhas vinham de famílias de classe média baixa e de vários municípios cearenses. Seis pracinhas morreram nos campos de batalha. O fim da guerra, por sua vez, deu motivo a muitas comemorações e festejos, pela vitória dos Aliados e pelo fim das privações a que a população fora submetida.

No total, foram mais de sete meses de uma guerra ingrata e impiedosa para a Força Expedicionária Brasileira (FEB), desde o primeiro combate, em setembro de 1944, até a última ação, em abril do ano seguinte. 

Fontes:
História do Ceará, de Airton de Farias
Cadeiras nas Calçadas e Lampiões a Gás em Cada Esquina, (depoimento) de Moreira Campos
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo (NIREZ)
A saga e o despreparo dos pracinhas, de Luís Nassif  - disponível em
 http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-saga-e-o-despreparo-dos-pracinhas

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