quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O Nascimento de uma futura Metrópole: os primórdios de Fortaleza

Vista da Praia Formosa em 1892 -  supõe-se que seja esta uma das fotos mais antigas da cidade (arquivo MIS)

Por resolução do soberano português D. João V, o povoado do Forte ganhou, em caráter definitivo, a condição de vila em 1725, cuja inauguração ocorreria no ano seguinte, oficializada pela fixação do pelourinho, monumento que simbolizava a implementação de um corpo cívico com jurisdição própria.

O período que antecede à emancipação da vila de Fortaleza permite elucidar o lento processo de ocupação das terras, e os desafios enfrentados nas paragens distantes: amplos espaços, população rarefeita, fauna e flora desconhecidas, extrema sujeição às intempéries, vulnerabilidade ao ataque de indígenas, dificuldade de transporte, comunicação incerta e morosa com os principais núcleos da administração colonial. Estes são alguns dos aspectos que distinguiam a condição em que viviam os contingentes sob a tutela do império luso, entre eles os que vieram para o Ceará, nos séculos XVII e XVIII.

vista do Porto de Fortaleza a partir da Ponte metálica - 1933 (arquivo MIS)

O interesse tardio da coroa pela capitania se prendeu, em especial, à necessidade de defesa militar e ao estabelecimento de pontos de apoio para embarcações que percorriam o litoral entre Pernambuco e Maranhão. De qualquer modo, tanto as incursões de Pero Coelho e Martim Soares Moreno, de que resultaram aglomerados de curta existência junto à barra do Rio Ceará, quanto ao largo da segunda expedição holandesa, nas cercanias do Riacho Pajeú, prevaleceu o interesse de cunho estratégico na formação inicial do povoado reunido em torno de um forte de nome estranho: Schoonenborch

A rotina daqueles primeiros colonos, em sua maioria soldados da guarnição, não deve ter sido fácil: marcado pela rusticidade do meio, a instabilidade dos assentamentos e a dura obtenção da subsistência. Além das atividades de caça, pesca e coleta de frutos, plantavam pequenos roçados de mandioca, milho e feijão. Criavam com alguma dificuldade animais de pequeno porte, como cabras, galinhas e porcos, e aprendiam com os nativos o emprego de certos recursos da natureza, principalmente ervas medicinais, buscando enfrentar as enfermidades, venenos e peçonhas, desconhecidos em solo europeu.

Nas modestas casas de farinha e nos engenhos se beneficiava a mandioca e a cana-de-açúcar, esta usada na fabricação de rapadura, que em 1783 o governador João Batista de Azevedo Coutinho de Montaury (1780-1789), pouco afeito às iguarias do lugar, descreveria como uns pães de açúcar muito mascavado e da mais ínfima qualidade, mais para incitar o nojo, que de servir para o paladar.

As habitações, em maioria, de chão batido, feitas de taipa e cobertas de palha, com madeiramento extraído da carnaúba, atestava a enorme simplicidade do padrão das moradias e a falta de acesso a materiais duradouros, como a pedra, a telha e o tijolo.
A escassez de pastagem nas proximidades do Forte inviabilizava a criação extensiva, que nas décadas seguintes promoveria a colonização dos sertões e responderia pela maior geração de riqueza na capitania.

Em 1695 a povoação contava mais ou menos duzentos habitantes, subjugados à vontade do capitão-mor e desassistidos do alcance efetivo da lei. Tal era o predomínio do arbítrio,  do abuso da força, do imperativo da autoridade que, em carta régia de 1699, determinava-se a criação de uma vila no Ceará, onde era salientado o propósito de por termo aos abusos cometidos pelos capitães-mores e se administrar melhor a justiça. 

Após uma série de disputas locais, a primeira vila acabou erguida em Aquiraz. Quando Fortaleza recebeu igual honraria, em 1726, manteve-se, porém, o aspecto de abandono e pobreza. Em tudo pairava um certo ar de desolação, isolamento e senso de contingência ante as adversidades do ambiente.

Compondo um traço fundamental dessa colonização, a violência era o meio usual de resolução dos conflitos. Na precariedade material que saltava à vista – com arruamentos grosseiros, casario modesto, mobiliário parco, padrão técnico rudimentar, carência de vias e pontes, um forte semidestruído – se colhiam indícios de um modo de vida permeado pelo improviso e acomodações provisórias.

Como se as coisas e os espaços fossem feitos para não durar além de duas ou três gerações, transmitindo uma impressão de fragilidade constitutiva que emanava dos núcleos estabelecidos nas bordas do empreendimento colonizador.

Passados pouco mais de três séculos desde os primórdios da ocupação aonde viria sedimentar-se uma das maiores metrópoles brasileiras, os vestígios materiais de então já não são visíveis na paisagem contemporânea. Mas algumas características das antigas parecem ainda influir sobre a maneira como hoje se vislumbra o modo de vida urbano. Pois Fortaleza exibe, com outra roupagem, aquela desconcertante fluidez, que se em tempos coloniais era resultado da penúria econômica, agora é plasmada na efemeridade programada, que fomenta a especulação imobiliária, professa a cultura do novo e impõe a seu espaço construído o estigma do envelhecimento precoce.

Praça Clóvis Beviláqua, em 1935 - um zelo no trato, uma beleza paisagística, um lugar para relaxar, como o cidadão da foto (arquivo Nirez)
Praça Clóvis Beviláqua atual - a arborização cresce de forma espontânea, sem poda e sem ajardinamento. O piso está quebrado, a insegurança está sempre rondando o local.   

A Coluna da Hora era um marco da cidade na Praça do Ferreira. Inaugurada à meia noite, na passagem do ano 1933/1934, na administração do prefeito Raimundo Girão, tinha 13 metros de altura, e um relógio movido a energia elétrica, com quatro faces, duas em algarismos romanos e duas em algarismos arábicos, adquirido nos Estados Unidos, da firma Biynton & Company. Foi demolida em 1966, na administração de Murilo Borges (1963-1967). 
(arquivo Nirez)
    
O monumento foi reconstruído em outro formato, de ferro, no governo de Juraci Magalhães, em 1991, projeto de Fausto Nilo e Delberg Ponce de Leon. 



Em 26 de agosto de 1941, foi demolido todo o quarteirão, onde estava o prédio da antiga Intendência Municipal, que ficava entre as ruas major Facundo, Pará. Floriano Peixoto e Guilherme Rocha, na Praça do Ferreira. O motivo alegado para a demolição foi que seria construído um edifício para uso da Prefeitura Municipal, que nunca foi construído. No local foi iniciada uma pequena praça, depois o Abrigo Central, que também foi demolido. (arquivo Nirez)

No local, foi construído o prolongamento da Praça do Ferreira.

A Praça José de Alencar, quando ainda se chamava Marquês de Herval e tinha o jardim Nogueira Accioly (arquivo Nirez)

Praça José de Alencar hoje. Camelódromo.

Sob a égide do moderno, projeta-se um horizonte longínquo a ser alcançado a qualquer preço. E essa remodelação incessante da fisionomia urbana, apagando rastros de outras épocas, não raro se processa lastreada numa presunção autoritária, segundo a qual tudo seria permitido aos detentores de recursos e de prestígio. Ranços da vila no âmago da metrópole.

Fontes:
o artigo Entre o Círculo e a Reta, de Antônio Luiz Macedo e Silva Filho.
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo

4 comentários:

Anônimo disse...

Por que as praças de Fortaleza não recebem manutenção da prefeitura e nem da população?Com raras exceções adotadas pela iniciativa privada,a maioria absoluta só abriga o comércio informal,que aqui toma conta de TUDO.

Fátima Garcia disse...

cabe à prefeitura a manutenção das praças e demais logradouros públicos, porque são ações que implicam em gastos. Cabe à população zelar pelo espaço, não praticando nem permitindo que pratiquem atos de vandalismo que danifiquem um patrimônio que pertence a todos. As praças estão do jeito que estão, porque nenhum dos dois lados está fazendo sua parte.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Ah! que saudade, da Fortaleza limpa e com o seu patrimônio bem cuidado. Já lá se vão muitos anos que assim era.
Basta ver as fotos, antiga e atual, da antiga Praça da Bandeira, hoje Clóvis Beviláqua...

Não sei se você sabe, Fátima, aí pelos anos 1950, mais ou menos, algumas linhas de ônibus faziam ponto final na praça do Ferreira. Lembro-me que um bom bocado da população ia para a praça pra passagem do ano, ouvir as doze badaladas do relógio da coluna-da-hora antiga...Era uma FESTA, com os gritos e foguetórios...

Bom domingo!

Fátima Garcia disse...

Acho que a Praça Clóvis Beviláqua em matéria de degradação no centro, só perde p/Lagoinha, que, como está passando por reformas, pode ser que seja recuperada. É injustificável esse estado de abandono, ainda mais sendo uma praça em frente a Faculdade de Direito, um lugar onde direitos e deveres faz parte do cardápio diário. Não sabia do reveillon na Praça do Ferreira, sabia que no natal, muita gente ia p/centro para ver as vitrines e a decoração.
bjs