segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Os Cinemas da Cinemar

Marcello Mastroianni
Desde a evolução do cinema como sétima arte até o apagar das luzes da década de 1940, o maior exibidor cinematográfico do país era o cearense Luiz Severiano Ribeiro. Dono de uma poderosa  cadeia de salas exibidoras espalhadas por todo o país, principalmente no Rio de Janeiro, então Capital Federal.

Em Fortaleza, à exceção de duas ou três salas localizadas em bairros e pertencentes a irmandades religiosas, todos os cinemas eram monopólio  da Empresa Ribeiro, que contava com mais de duas dezenas de cinemas em nossa capital; a Severiano Ribeiro reinava absoluta, sem concorrência que a incomodasse.

Em fevereiro de 1950, os alicerces da possante indústria foram abalados com a inauguração do Cine Jangada, que veio quebrar o monopólio do grupo já consolidado. Idealizado pelo  empresário Amadeu Barros Leal, o Cine Jangada era na verdade a primeira de treze salas de exibição  que deveriam ser implantadas em Fortaleza pela Empresa Cinematográfica do Ceará (CINEMAR).



Numa época em que o cinema era a maior diversão, a inauguração do Jangada causou sensação na cidade. O filme inaugural Monsieur Vincent, aclamadíssima produção francesa, vinha a calhar com o forte sentimento religioso da população, pois tratava da vida de São Vicente de Paulo, o apóstolo dos pobres e dos miseráveis.  

Jean Cocteau teve seus filmes Orfeu e A Bela e a Fera lançados pela Cinemar

A propósito, a Cinemar vinha suprir uma carência na pauta de filmes europeus, uma vez que a Severiano Ribeiro parecia ter contrato de exclusividade com os estúdios de Hollywood  e com seus próprios estúdios que produziam de filmes de grande sucesso.

Funcionando numa sala adaptada, estreita e comprida, o Cine Jangada não tinha decoração requintada nem os luxos dos concorrentes. A única originalidade ficava por conta da sala de espera, que ficava localizada nos fundos. Na verdade, nem era uma sala, era um terraço-jardim com bancos e palmeiras. Ali também ficavam os sanitários.

Sem hall para as bilheterias, estas foram montadas logo à frente, quase na rua, e os espectadores, tão logo entravam no cinema, já estavam dentro da sala de projeção, e de frente para o público. A tela, portanto, servia de fundo para as bilheterias e para o painel de cartazes.

Era exigido aos homens, o uso de paletó e gravata, a exemplo do que já fazia o sofisticado Cine Diogo. Ainda em 1950, a Cinemar abriu a segunda sala de exibição.  Era o Cine Atapu, no bairro Joaquim Távora, cruzamento das Avenidas Visconde do Rio Branco e Treze de Maio. 




Vittorio de Sica, Gina Lollobrigida e Ana Magnani foram nomes de destaque nos circuitos do cinema europeu dos anos 50. Eles foram revelados no Ceará pela cadeia de cinemas criada por Amadeu Barros Leal

De imediato, o local virou um novo point e o nome do cinema ficou tão popular que passou a identificar  aquele pedaço da cidade, deu até para batizar as bodegas, quitandas e postos de gasolina.

O Cine Araçanga foi o terceiro cinema aberto pela Cinemar, num prédio especialmente construído, vasto, confortável, com amplo balcão, duas salas de espera. Tinha inclusive um palco. Ficava nas esquinas da Rua Barão do Rio Branco com Antônio Pompeu.


O público ficava encantado com a beleza suave de Eleonora Rossi Drago

O Samburá foi o quarto cinema inaugurado por Amadeu Barros Leal, um homem obstinado e corajoso. Era o cinema mais luxuoso da nova empresa, também ocupando prédio próprio, construído especialmente para este fim. Localizado na Rua Major Facundo, entre as Ruas Pedro Pereira e Pedro I, tinha sala espaçosa, balcão e duas salas de espera.  A mais bem instalada casa exibidora da Cinemar causou o maior rebuliço, pois inaugurou também a era do cinemascope em Fortaleza, com o filme Pompéia, Cidade maldita.

E veio a quinta unidade da cadeia Cinemar, o Cine Toaçu, localizado na Praça José de Alencar, lado da Rua General Sampaio, mais ou menos onde está agora Galeria Professor Brandão. Com vocação popular, atendia aos antigos frequentadores do Cine Luz, na Praça da Estação, o que permitia a proliferação de comércio de comidas e picolés, como acontecia na frente do Majestic.

Foi o último cinema do sonho projetado pelo ousado Amadeu Barros Leal. A pressão passou a ser mais forte do que sua vontade ferrenha. Pouco a pouco o grupo forte foi absorvendo o mais fraco, encampando as salas, extinguindo o projeto de um homem idealista, que só visava o progresso de sua cidade.

Arroz Amargo, foi um dos muitos filmes europeus exibidos na rede Cinemar

As salas da Cinemar deixaram de herança as lembranças do moderno cinema europeu do pós-guerra, inclusive o cinema russo, e apresentou aos espectadores dos seus cinemas, grandes astros, atrizes, cantores e diretores. Tantas emoções, tantos momentos inesquecíveis durante uns poucos anos, que valeram por uma eternidade.  Tudo em nome de um sonho de Amadeu Barros Leal.


extraído do livro de Marciano Lopes
Os Dourados Anos


2 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Frequentei todos os cinemas de Amadeu Barros Leal, principalmente o Jangada e o Samburá. Mas eu não sabia quem era o dono da Cinemar...agora sei.
Isso é muito bom!
Um abraço, Fátima

Fátima Garcia disse...

Era uma luta de Davi contra Golias, não podia durar, né?
abs