sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Nogueira Accioly, a oligarquia deposta pelo povo

Quando Campos Sales assumiu a presidência da República, em 1898, encontrou o país numa de suas maiores crises econômicas e financeiras. Na tentativa de modificar tal quadro e evitar obstáculos ao seu plano de governo por parte da oposição, resolveu partir para o fortalecimento político dos governos estaduais. 

Campos Sales - Presidente da República 

Em troca do apoio, o poder central não diplomava qualquer liderança oposicionista eleita. Recurso utilizado: forjava-se uma denúncia de fraude eleitoral de todos os postulantes contrários à orientação do governante local, que era sustentado pelos coronéis do interior, donos dos currais eleitorais.

Até então, apenas os chefes das capitanias hereditárias, no inicio da colonização brasileira, concentraram tanto poder. Os governadores estaduais utilizaram-se do privilégio, daí surgindo as velhas oligarquias (sistema de governo sob o comando de uma família ou partido).  Em quase todo o Brasil, as famílias mais importantes se encastelaram no poder estadual. 

Município de Icó, terra natal de Nogueira Accioly (IBGE)

No Ceará Antônio Pinto Nogueira Accioly, natural de Icó, nascido em 11 de outubro de 1840, já fortificava seu domínio político. Filho do tenente-coronel José Pinto Nogueira e Ana Pinto Nogueira, formado em Ciências Jurídicas na Academia de Olinda, tinha ocupado vários cargos na magistratura e na Câmara dos deputados, quando assumiu o governo em 12 de julho de 1896. 

Quando da proclamação da república, foi impedido de assumir uma cadeira no Senado. Monarquista, teve de se adaptar ao novo tempo republicano, na expectativa de manter os antigos privilégios.  Ao casar-se com a filha do senador Thomaz Pompeu de Souza Brasil, deu o passo certo na carreira, crescendo sua influência na vida partidária local.

Jardim Sete de Setembro na Praça do Ferreira, construído na gestão do intendente  Guilherme Rocha (arquivo Nirez) 

Nogueira Accioly ocupou cargos de promotor público nas cidades de Icó e Saboeiro;  juiz municipal de Baturité e Fortaleza; deputado geral (1880) e vice-presidente do Ceará (1884) senador (1889) e finalmente, governador. Apesar da experiência no campo político, Accioly não era detentor de conhecimentos culturais e filosóficos, mas sabia como lidar com a política provinciana, preparando o terreno para consolidar-se como líder máximo do Estado.  Tanto que em 1884, recusou o cargo de presidente do Espirito Santo. Não queria afastar-se do Estado nem perder a influência nas lideranças que o apoiariam mais tarde.


Jardim Nogueira Accioly, na Praça Marquês de Herval (atual Praça José de Alencar) foi completamente destruída na revolta que depôs o oligarca (arquivo Nirez)

Escolhido no governo do General Bezerril para ser candidato à presidência pelo Partido Republicano, Nogueira Accioly percorreu todo o interior em campanha, na primeira eleição direta do Ceará. Eleito, para o período 1896-1900, pouco fez em seu primeiro mandato para melhoria social.  

O sucessor de Accioly foi Pedro Borges que em 12 de julho de 1900, assumiu o governo do Estado. Vinculado à oligarquia local, era mais uma espécie de testa de ferro de Accioly. Nada realizou que merecesse destaque, constituindo-se uma espécie de marionete de sua tendência partidária.

Nogueira Accioly voltou ao poder pela segunda vez em 1904, administrando os conflitos registrados no interior, principalmente com relação às desavenças entre os coronéis. Não se interessou pelos problemas sociais, nem investiu no progresso do Estado, limitando-se as interesses políticos. 

O que não impediu que Accioly fosse novamente eleito, para um terceiro mandato  iniciado em 1908, governando o Estado de forma intransigente e radical, respaldado pelo prestígio político-partidário e a força de sua família, que ocupava os mais importantes cargos da administração, além de serem donos de mandatos legislativos.  

Neste período,  Accioly prorrogou o contrato de iluminação a gás por trinta e cinco anos, o que fez retardar a chegada da iluminação elétrica  em Fortaleza, pois nessa época, certos estabelecimentos já  dispunham de iluminação elétrica, a exemplo do Quartel de Polícia.

Através de banqueiros franceses, obteve empréstimos de 15 milhões de Francos para os serviços de abastecimento de água na capital. Em 1910 inaugurou o Teatro José de Alencar. Colaborou também para a instalação do teleférico em algumas cidades do interior. 

O seu prefeito, Guilherme Rocha, urbanizou a Praça do Ferreira,  a Praça José de Alencar e construiu o mercado de Fortaleza, erguido em estrutura de ferro a exemplo do teatro José de Alencar. A máquina administrativa funcionava de forma promissora, mas do ponto de vista político, a insatisfação popular era geral.

Mercado de Ferro, construído pelo Intendente Guilherme Rocha, ficava na Praça Carolina (atual Praça Waldemar Falcão. (imagem do livro Ah, Fortaleza!)

Após 15 anos de liderança política, Nogueira Accioly percebeu que os conflitos se aguçavam , indicando desgaste do poder. Os primeiros indícios da ruina já se mostravam:  começaram com  divergências  entre as lideranças sertanejas, da mesma linha partidária. Séquitos de capanga se armavam e investiam contra facções da mesma linha, o que deu origem a uma autêntica babel política alimentada e estimulada pelas ambições de mando. Essa situação se refletiu diretamente no governo.


Theatro José de Alencar, construído na gestão de Nogueira Accioly (foto Aba Film) 

Apesar de ser defendido pelos jornais A República e  O Tempo, Accioly sofria com as criticas ferinas e sistemáticas de João Brígido, do Unitário e de Agapito dos Santos e Waldemiro Cavalcanti no Jornal do Ceará. Os escritores e intelectuais se manifestavam contra a situação, divulgando manifestos e denunciando a forma arbitrária do governo. 

Ao final do seu mandato, Nogueira Accioly constatou que já não havia mais condições de candidatar-se a uma nova eleição, tamanho era o repúdio popular. Resolveu indicar para a sua sucessão o desembargador aposentado Domingos Carneiro, que renunciaria ao cargo, a fim de que José Accioly, filho do governador – assumisse o cargo. Descoberto o plano, o povo começou a manifestar-se em passeatas e comícios, e a defender a candidatura de Franco Rabelo para concorrer ao governo do Ceará.

As passeatas se sucediam  cada vez mais concorridas e destemidas. Chegou-se a até a reunir crianças numa Liga Infantil, e foi numa delas, realizada no dia 21 de janeiro de 1912, constituída de mais de seiscentas crianças, que funcionou como estopim para a exploração do movimento armado popular. A cavalaria investiu contra os manifestantes sem respeitar a presença das crianças, resultando em mortos e feridos.  A população reagiu atirando contra a polícia e travando luta corpo a corpo. Vários policiais foram abatidos, assim como várias crianças foram crivadas de balas e jaziam na rua. O comércio fechou as portas, foram levantadas barricadas e os policiais eram recebidos a bala. 

Passeata das Crianças, manifestação em prol da candidatura Franco Rabelo, duramente combatida pela polícia por ordem do governador Accioly (arquivo Nirez)

A multidão invadiu a delegacia Fiscal, a Cadeia Pública e cercou o Palácio do Governo.  Era exigida a renúncia de Accioly como condição para o cessar fogo. Mesmo com a mediação do bispo D. Joaquim, o presidente se recusava a ceder. Mas teve de fazê-lo na manhã do dia 24, quando uma toalha branca atada a um cano de fuzil anunciou aos sitiantes a rendição de Accioly.


Residência de Nogueira Accioly, chamada de Chácara dos Leões, ficava na esquina da Rua 24 de maio com Guilherme Rocha, no local onde depois foi construído o prédio da Fênix Caixeiral. Foi saqueada e incendiada durante a revolta de 1912. (foto do livro Descrição da Cidade de Fortaleza)  

Palácio da luz, em 1908, quando era ocupado por Nogueira Accioly, vendo-se a parte dos jardins que foi demolida anos mais tarde (arquivo Nirez)

Nas ruas, o povo comemorava a vitória incendiando ao mesmo tempo, as propriedades do presidente deposto, principalmente a Fábrica de Tecidos Progresso, de propriedade do oligarca em sociedade com a família Thomaz Pompeu. 

Depois de negociar sua liberdade, o presidente foi embarcado no navio Pará com destino ao Rio de Janeiro.  Durante a viagem ocorreu uma tragédia quando o navio fez uma escala em natal. Antônio Clementino, uma vítima de Accioly ameaçou invadir o camarote onde se achava o oligarca.

O filho de Accioly, Antônio Pinto Nogueira Accioly Filho, atracou-se com o invasor e foi mortalmente ferido. O major Weine, então ajudante de ordens do oligarca, revidou, abatendo a tiros o agressor Antônio Clementino. Accioly Filho seguiu viagem, mas veio a falecer quando o navio estava na Bahia. Por ocasião do sepultamento, em Salvador, a família Accioly ainda passou por uma última humilhação: o enterro foi vaiado durante vários minutos por partidários do governador J.J. Seabra. O triste episódio deu ensejo a que Rui Barbosa pronunciasse depois um de seus famosos discursos: o defunto vaiado.
Nogueira Accioly faleceu no Rio de Janeiro em 14 de janeiro de 1921.

extraído do livro de Rogaciano Leite Filho

3 comentários:

Luís Flávio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luís Flávio disse...


Origem da família Accioly;

Por Francisco Antonio Doria:

Accioly, Accioli, Accioli, são variantes de Acciaioli, Acciaiuoli ou Acciajuoli, nome de uma família florentina patrícia, pertencente ao partido guelfo, de origens muito modestas e obscuras no século XII. Segundo a lenda, certo Gugliarello Acciaiuoli, de uma família de armeiros de Brescia (porque o nome se derivaria de acciaio, aço), sendo guelfo, teve que fugir de sua pátria devido às perseguições de Frederico Barbarroxa, que havia invadido a Itália.

Gugliarello chega a Florença em 1160, compra terras onde é hoje o Borgo de' S.S. Apostoli, e no Val di Pesa, onde edifica uma `casa di signore' nas ruínas do antigo castelo de Montegufoni. Era banqueiro, e comerciante de panos de lã.

Gugliarello é atestado em documentos (dois, se bem me lembro). O resto é fabulação, tirante as propriedades que se lhe atribuem (até hoje há, perto do castelo de Montegufoni, uma herdade de nome La Gugliarella). O nome da família pode derivar-se de accia, `meada' (eram comerciantes de panos), ou mesmo de acerola, pois há a forma `Azzaroli.' Era, de qualquer modo, um personagem modesto, embora rico, esse Gugliarello; uomo di bassa condizione...

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Luís Flávio disse...

- PARTICIPEM DO NOSSO GRUPO!!!... .

....... ( Família Accioly no Brasil ) ........ .

Compartilhem com os "Accioly's" que você conhece; Convidem à todos!!!

# "UM POVO SEM MEMÓRIA É UM POVO SEM HISTÓRIA. E UM POVO SEM HISTÓRIA ESTÁ FADADO A COMETER, NO PRESENTE E NO FUTURO, OS MESMOS ERROS DO PASSADO"

. - (Emilia Viotti da Costa – Historiadora Brasileira) - # ...

- Conheça a sua; Jamais renegue a sua origem! - ...

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