segunda-feira, 21 de junho de 2010

A Vila de Fortaleza no Inicio do Século XVIII


Para o governo imperial a Vila de Fortaleza não tinha muita relevância. Enquanto Salvador, Recife, Rio de janeiro e Belém eram cidades, Fortaleza era legalmente conhecida como Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção. Como não tinha importância econômica, não despertava a cobiça da Coroa portuguesa.

Era um lugar muito pobre a Vila de Fortaleza. Mesmo depois de promovida a categoria de cidade, por decreto imperial de 17 de março de 1823, continuaria por longo tempo com as ruas sem pavimentação, sem iluminação à noite, com todos andando a pé, pois não havia qualquer espécie de veículos de passeio.
O desembarque para quem chegava por mar era uma aventura: a embarcação ancorava a uma distância considerável; depois o viajante descia para um paquete menor que o conduzia até próximo a praia; Ali dois escravos fortes esperavam o visitante com uma cadeira sobre os ombros, e transportavam-no até praia, driblando as ondas mais fortes.
Mas as dificuldades ainda não tinham terminado. Para alcançar a parte mais alta da vila, onde ficava a fortaleza e as principais construções, o viajante tinha que subir por um caminho arenoso, com fortes ventos e sol escaldante.
No centro da vila, o visitante se deparava com construções toscas, na sua maioria de taipa, com alguns prédios em pedra-e-cal, sem nenhuma estética nas fachadas; quase não existiam calçadas na frente das edificações, as ruas não eram pavimentadas e eram constantemente entrecortadas por carros-de-boi que traziam couro, carne e algodão para serem vendidos em Recife, ou que iam para o sertão, principalmente em tempos de seca, levando gêneros para ajudar os flagelados.
O interior das residências era quase rudimentar, com uma mobília escassa, muitas redes armadas e poucas cadeiras para sentar. A iluminação era mortiça, a azeite de peixe ou vela de sebo. Quando foram construídas as primeiras casas não havia preocupação com arquitetura ou estética.
A vila foi construída a beira do forte, em torno do lago do quartel da Praça do Conselho (atual Praça da Sé). A cidade cresceu lentamente, à margem esquerda do Pajeú, acompanhando as sinuosidades do riacho, principal fonte de abastecimento de água.
O cenário começou a se modificar por influência do engenheiro Silva Paulet, com seu plano de retificação e de expansão disciplinada. Na planta da cidade de 1818, já estão presentes os caminhos que orientaram o crescimento de Fortaleza na forma radiocêntrica: estrada de Jacarecanga, de Soure, de Arronches, de Aquiraz, da Precabura e a Picada de Mucuripe.
As vias públicas passaram a obedecer a um traçado, cortadas em ângulo reto, inspirado no traçado xadrez.
A primeira planta de expansão de Silva Paulet, permanece até hoje como matriz básica da cidade de Fortaleza
Fontes:
GIRÃO, Raimundo. Fortaleza e a Crônica Histórica. Fortaleza: UFC, 1997.
Revista Fortaleza, fasciculo 15.

2 comentários:

Carlos, Carlinhos, Getúlio disse...

Minha cidade, Limoeiro do Norte, meio caminho entre a rica Aracati do século XIX e o Icó centro de abastecimento de carne seca creio que para as Minas, desde o século XVIII, cresceu nesse vai-vém de vaqueiros, galegos, colonos e comerciantes. Meu bivô foi um desses homens que iam desde Riacho do Sangue (atual Jaguaretama) até o litoral guarnecendo Limoeiro com o algodão do litoral, a carne do sertão e o açúcar do Cariri. No livro Na Ribeiro do Rio das Onças, versa-se da ocupação às inversas que se deu no Ceará, sendo que o interior esteve privilegiado em detrimento da praia, e mesmo a capital da província permaneceu por muito tempo meio que de lado. Legal saber do lado fortalezanse da história, e, como diria Walter Benajamin, enchermo-nos de aura.

Fátima Garcia disse...

O processo civilizatório no ceará foi como voce disse, do sertão para o litoral. Antes de Fortaleza pensar em aparecer como cidade, o Ceará já contava com grandes centros comerciais, como Aracati, Sobral, Icó, Crato,e outras. A função de Fortaleza era fornecer apoio logistico a navegação entre Pernambuco e Maranhão, além da função administrativa. Nossa Fortaleza teve que percorrer um longo caminho até chegar onde está.