terça-feira, 8 de março de 2016

As Primeiras Livrarias de Fortaleza

Por volta da segunda metade do século XIX, Fortaleza vivia um momento  de grande efervescência  cultural, onde a produção textual, em particular a literatura, gozava de grande prestígio. Políticos, médicos, militares, advogados, acadêmicos,  buscavam no debate filosófico e na criação poética ou ficcional o prestígio social. Além disso, via-se a produção intelectual como uma missão, ou seja, como um instrumento capaz de mudar a realidade social e regenerar comportamentos e valores.

Se havia poucas pessoas aptas a participar dos embates intelectuais nas primeiras décadas do século XIX, isso mudou na segunda metade, sobretudo nos últimos 25 anos. Em 1845 começou a funcionar a primeira escola de ensino secundário do Ceará, o Liceu.  A chegada do Liceu incentivou ainda mais a atividade intelectual na cidade, e quatro anos depois, em 1849,  apareceu em Fortaleza uma espécie de primeira livraria da cidade, do comerciante português Manuel Antônio da Rocha Junior.

 Sede do Liceu, na Praça dos Voluntários
Nesse estabelecimento os livros ficavam divididos em duas sessões, uma destinada a venda e outra ao aluguel. A loja que comercializava livros ficava na rua Formosa (atual rua Barão do Rio Branco). Além dessa, Rocha Junior era proprietário de outras lojas de diversos no centro de Fortaleza, existentes desde a primeira metade do século XIX. 

Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), em postal de 1910

Em 1849, o Jornal  "O Cearense" anunciava aos leitores do jornal, o aluguel de livros na loja do português, mediante o cumprimento de algumas exigências:


"Leitura de livros.
Na loja de Manoel Antonio da Rocha Junior, na rua Formosa, alugão-se livros, debaixo das condições seguintes:
1° Pagarão mensalmente 2$000 por assignatura, pagos adiantados.
2° Deixarem depositado o valor da obra.
3° Responsabilisarem-se pela danificação que os livros soffrerem." (sic)

Em 1850, surgiu o segundo livreiro, Joaquim José de Oliveira, que desde as suas atividades iniciais, esteve relacionado ao comércio de ficção.  Joaquim de Oliveira era português, viveu por muitas décadas em Fortaleza e morreu em julho de 1900. Durante muitos anos foi editor do jornal cearense Pedro II; morava em casa de esquina no sexto quarteirão da Rua da Boa Vista (atual Rua Floriano Peixoto), na casa onde editava o jornal.  

Segundo os dados dos almanaques do Ceará, a atuação do livreiro na cidade teve duração por um período de, no mínimo, 30 anos dedicados à venda de livros em Fortaleza, com loja sempre na praça da Municipalidade (atual praça do Ferreira). 

Outro pioneiro no ramo livreiro da cidade, foi Gualter Silva. Gualter Rodrigues Silva era natural do Ceará, nasceu em 1843 e morreu em 1891; mas sua livraria funcionou até o final do século XIX em mãos de sua viúva. Em 1870, atuou como caixeiro despachante, sendo um dentre os 10 nomes que constam nos almanaques daquele ano. Ainda em 1873 atuava como caixeiro. Na década de 80 do XIX, sua atuação como livreiro começa a se difundir nos jornais da cidade.

 Reunião na chácara do livreiro Gualter Silva no Benfica. Abaixo, identificação do grupo. 

Ele procurou atuar não só como comerciante livreiro, em alguns momentos exerceu também atividades de editor. Verifica-se a existência de referências para as obras "Lendas e Canções Populares", de Juvenal Galeno, e "A Fome", de Rodolfo Teófilo, editados por “Gualter R. Silva Ed.”, respectivamente em 1892 e 1890; além do livrinho "Catecismo da diocese do Ceará", doado pelo próprio livreiro para algumas escolas da cidade.
 
Depois desses estabelecimentos pioneiros, muitas livrarias surgiram em Fortaleza. Algumas delas:

Em 27 de fevereiro de 1917, foi inaugurada a Livraria Humberto, de Humberto Ribeiro, na rua Major Facundo.

A Papelaria e Tipografia Renascença foi instalada em 10 de abril de 1924, na rua Castro e Silva n° 76, propriedade de Aldo Prado e Francisco Prado. Depois passou a ser simplesmente Livraria Renascença, já em mãos do livreiro Luis Carvalho Maia, na Rua Major Facundo, 746. 


A firma Morais e Companhia funda a Livraria Ribeiro, em 28 de agosto de 1925, na Rua Guilherme Rocha, 198, Praça do Ferreira. 


A Livraria Comercial foi fundada no dia 17 de fevereiro de 1926, na Rua Major Facundo, 151, da firma Quinderé e Cia, de Luis Quinderé e Meton de Alencar Gadelha. Depois a empresa foi vendida a terceiros.


A Livraria Seleta foi inaugurada no dia 4 de maio de 1927, encampada pela Sociedade editora São Francisco das Chagas, administrada por Ananias Frota. A partir de dezembro daquele ano, passou a funcionar no prédio n° 155, da Rua Major Facundo. Em janeiro de 1934 passou a chamar-se Livraria Quinderé. 



A Rua Major Facundo era o endereço da maioria das livrarias antigas

Em dezembro de 1929, foi inaugurada na Rua Floriano Peixoto, Praça do Ferreira uma dos estabelecimentos que iria se tornar um dos mais tradicionais de Fortaleza: a Livraria Alaor, fundada por José Edésio de Albuquerque.
Edésio começou a vender jornais e revistas na Fortaleza da década de 20, ia buscar as publicações diretamente no porto e as levava para os leitores da capital e do interior, utilizando meios de transporte precários. Mais tarde contou com a ajuda de sua esposa, e de seu filho, José Alaor Albuquerque. Edésio não era apenas um comerciante de livros como tantos outros, empenhado tão somente na obtenção de lucros. Ele era antes de tudo um difusor da cultura, um idealista. E nesse mister nunca temeu arriscar a própria liberdade, desde que chegassem às mãos dos leitores, os jornais, revistas e livros condenados pela censura policial.
Líder estudantil, José Alaor era filiado ao Partido Comunista e fez amigos ilustres, como Luís Carlos Prestes, garantindo a continuidade dos negócios da família, que inaugurou uma distribuidora de livros, em 1962.


A Livraria Imperial foi inaugurada  no dia 5 de outubro de 1935, de propriedade dos irmãos Magalhães, Anglada e Japi. Depois pertenceu a Clóvis Mendes, já na Rua Guilherme Rocha, baixos do edifício Excelsior. A Imperial prestou relevantes serviços a cultura cearense.



Chamada de Imperial Porta por seus frequentadores,  foi durante muitos anos o último refúgio dos intelectuais da terra , os mesmos que frequentaram os cafés Richie, Art Nouveau, o Iracema, o Avenida, a Rotisserie, o Globo, confeitarias Nice e Glória, e por fim, o Abrigo Central. 


A livraria Imperial fechou com a aposentadoria do proprietário, Clóvis Mendes, que não era apenas um vendedor de livros:  Conhecedor do produto que vendia, indicava, discutia, orientava, escolhia autores e leitores. 


Inaugurada em 24 de outubro de 1947 a Livraria Melhoramentos, de propriedade de Clóvis Rolim de Nóbrega, com endereço à Rua Major Facundo, 716.


No dia 13 de maio de 1949, foi inaugurada a Livraria Arlindo, de Arlindo G. de Amoreira, no andar térreo do Palácio do Comércio. 


A Livraria Aéquitas foi inaugurada no dia 25 de novembro de 1944, na Rua Guilherme Rocha, 162, e além de livros e papelaria, tinha uma seção de discos. 


Livraria Feira do Livro no seu antigo endereço da Rua Floriano Peixoto, em 1983
(foto de Nelson Bezerra do livro Viva Fortaleza)

Manoel Coelho Raposo, foi o fundador da Livraria Feira do Livro ainda na década de 50. Raposo montou uma filial em plena Praça, nas proximidades da banca de jornal do Bodinho, passando a comercializar, como acontece em todas as feiras, com revistas, livros e jornais. No local, Jáder de Carvalho lançou Aldeota, o seu discutido romance de costumes. Tempos depois Jorge Amado promoveu ali mesmo, uma noite de autógrafos. A Feira do Livro existe até os dias atuais, funcionando no bairro Montese.


As antigas livrarias não eram meros espaços de comercialização de livros; a maioria promovia encontros e debates literários, com a presença de intelectuais e personalidades da cidade.


consultas:
A Atuação dos Livreiros e a Circulação de Romances em Fortaleza no Século XIX -   Ozângela de Arruda Silva
Cronologia Ilustrada de Fortaleza - Nirez
Geografia Estética de Fortaleza - Raimundo Girão
fotos do arquivo Nirez e do livro Geografia Estética de Fortaleza


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Bairro Henrique Jorge (Antigo Casa Popular)

Até por volta do Século XIX a área que hoje pertence ao bairro Henrique Jorge - que nessa época não era definido geograficamente - fazia parte da Parangaba, a antiga Vila Nova do Arronches. Nesse período a Parangaba se destacava como ponto intermediário no transporte de gado, com a estrada do Barro Vermelho-Parangaba, estrada essa que ligava o bairro Antônio Bezerra a  Parangaba.

Casa do pai de Rachel de Queiroz, no antigo Sítio Pici.O casarão quase centenário está localizado na Rua Antonio Ivo. A área do sítio foi loteada nos anos 1970, expandindo assim os limites do bairro.  (foto Fortaleza em Fotos)

Nos anos 1920, o advogado Daniel de Queiroz Lima, pai da escritora Raquel de Queiroz, adquiriu o Sitio Pici,  localizado naquele ermo, que passou a ser utilizado como local de veraneio para sua família. Depois disso, a ocupação deu-se lentamente. Os primeiros moradores encontraram um lugar com muito mato, muita vegetação, poucos vizinhos e nenhuma estrutura.

trecho Antônio Bezerra/Caucaia da antiga estrada do Barro Vermelho, hoje correspondente a Avenida Mister Hull (arquivo Nirez) 

Na década de 50 já existia no bairro o Núcleo Residencial Getúlio Vargas, conhecido como "Vila dos Sargentos", destinado aos sargentos do Exército que serviam no 23° Batalhão de Caçadores.

Ainda na década de 50, paisagem começou a se transformar radicalmente, quando em 1952, a Prefeitura de Fortaleza fez a doação de um grande terreno para construção de um conjunto de casas populares, sob responsabilidade da  Fundação da Casa Popular, ficando a cargo da prefeitura a urbanização, pavimentação e energia. Daí surgiu o Conjunto Habitacional Casa Popular, constituído de 456 unidades residenciais. 

A Fundação da Casa Popular era uma entidade do governo federal voltada para a construção de moradias populares, criada no dia 1° de maio de 1946, no governo do presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-1951). Tinha alcance nacional e pregava a importância do trabalhador tornar-se proprietário de sua moradia. Visava angariar apoio das camadas de rendas mais baixas, através da facilidade de obtenção da casa própria. A Fundação construiu em Fortaleza um total de 526 casas populares, distribuídas em dois conjuntos habitacionais.

O imenso conjunto habitacional acabou por emprestar o nome ao bairro que se formava, que passou a ser chamado Casa Popular. As casas do conjunto residencial formavam um quadrado que abrangiam desde as ruas Heribaldo Costa até a Audízio Pinheiro e a Rua Paissandu (atual Porto Alegre) até a Paulo Lopes

No mais, ao redor, tudo era mato. As ruas eram de terra, a água encanada era salobra, e as mulheres lavavam roupas na Lagoa da Parangaba. O transporte coletivo só chegava até o vizinho bairro Jóquei Clube, o que demandava em longas caminhadas. Havia também a limitação imposta pelo Maranguapinho, nessa época, um riacho de águas cristalinas, e quem precisava atravessar, fazia uso de balsa. 

imagem: Francisco Edson Mendonça Gomes - Google 
   
No final dos anos 50 foi iniciada a construção da Igreja do Imaculado Coração de Maria, em terreno doado por um antigo morador e construída com doações e arrecadação de materiais. Antes da existência do templo, as missas eram celebradas no local onde hoje se encontra a Praça Afonso Pena, à sombra das mangueiras e cajueiros. Os fiéis levavam tudo: cadeiras, mesas, altar, imagens, etc. Os celebrantes vinham de outras localidades ou de outras paróquias. O primeiro registro da igreja é de 1981. 

Maestro Henrique Jorge, com sua mulher Júlia e a filha Isolda no Passeio Público, 1908. O nome do bairro é uma homenagem ao maestro (arquivo Nirez)

No início da década de 1960, o bairro Casa Popular ganhou uma nova denominação (Lei nº 2.487, de 29/10/1963): Henrique Jorge, nome do pai do ex-deputado, ex-governador do Estado entre 1955 e 1958 e ex-senador da República Paulo Sarasate. Henrique Jorge, músico e regente foi o fundador do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno

Nos anos 60 o bairro já havia sido beneficiado com alguns equipamentos como o Colégio Mariano Martins, o Centro Educacional Demócrito Rocha, um Posto de Saúde, a Maternidade Argentina Castelo Branco e linhas de ônibus.
 
A denominação das ruas do bairro eram em sua maioria, o nome de capitais brasileiras. Mas ultimamente alguns nomes foram trocados para prestar homenagens a personalidades  ilustres. Assim a antiga Avenida Brasília, a principal do bairro, agora é a Avenida Senador Fernandes Távora; a antiga Rua Salvador teve o nome modificado para Eurico Medina, que foi líder comunitário atuante no bairro; a Rua Recife perdeu o nome para Audízio Pinheiro, proprietário de uma fábrica de têxteis, localizada naquela rua.



Estrada do Pici (imagem Google)

Do período da formação daquela região, ainda é possível se ver o restante da antiga estrada do Barro Vermelho, que atualmente é conhecida como Estrada do Pici e que é um dos limites do bairro.

O Bairro Henrique Jorge está localizado no Distrito de Antônio Bezerra - Área da regional III. Limita-se com os seguintes bairros: ao Norte: Dom Lustosa e Pici; ao Sul: João XXIII; a Leste: Jóquei Clube e a Oeste: Autran Nunes e Genibaú.
De acordo com o IBGE (Censo Demográfico de 2010) conta com 26.994 habitantes, distribuídos em 7.816 domicílios

pesquisa:

Marcia Maria da Silva      
Trajetória de Vida dos Velhos Moradores do Bairro Henrique Jorge. 
Monografia submetida à aprovação do Curso de Bacharelado em Serviço Social da Faculdade Cearense, FaC, como requisito parcial para obtenção de título de Bacharel em Serviço Social. 
Orientadora: Prof.ª Ms. Valney Rocha Maciel     
Fortaleza - Ceará 2014
Thêmis Amorim Aragão  
Influência das Políticas Habitacionais na Construção do Espaço Urbano Metropolitano de Fortaleza - Histórias e Perspectivas.  
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Planejamento Urbano e Regional.
Rio de Janeiro - 2010 

Cronologia Ilustrada de Fortaleza - Nirez
Wikipédia 
IBGE  

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Bairro da Paupina

Na memória de Fortaleza, três aldeamentos famosos: Parangaba, Paupina (atual Messejana) e Soure (Caucaia). Quando o Marquês de Pombal decretou o fechamento da Companhia de Jesus, em Ordem Régia de 14 de setembro de 1758, as missões foram convertidas em vilas. 

Estrada de acesso a Caucaia antiga Vila Nova de Soure (foto de 1919.)
 
Assim Caucaia se transformou em Vila Nova de Soure, guiada pelo vigário Antônio Carvalho da Silva; Parangaba mudou para Vila Nova de Arronches, sob o comando do padre Antônio Coelho Cabral; Paupina passou a Vila Nova de Messejana, dirigida pelo vigário Manuel Pegado de Siqueira Cortez. Os jesuítas da extinta Companhia de Jesus seguiram para Pernambuco, e de lá, para as masmorras de Portugal.

 Estrada de acesso a Messejana, antiga Aldeia da Paupina, em foto de 1919.

A colonização portuguesa no Ceará começa a florescer efetivamente com a incursão de Martim Soares Moreno. Um dos fatores para esse processo foi a construção do Forte de São Sebastião na região conhecida hoje como Barra do Ceará, com o auxílio de Jacaúna e de sua tribo, vindos da região do Jaguaribe, o que gerou uma aglomeração junto à fortaleza. Tempos depois, essa aglomeração foi destacada para as terras do Mondubim, onde foi formado o Arraial do Bom Jesus da Parangaba por solicitação dos jesuítas. 

 Estrada de acesso a Parangaba, antiga Vila Nova de Arronches, em foto de 1919

Apenas nos idos dos anos de 1690 é que é formada a aldeia de Paupina, povoada por parte da população que fazia parte da aldeia de Parangaba, criada por volta de 1662. Sobre a Paupina conta-se que havia uma aldeia indígena de nome Paranamirim, sob o comando espiritual do padre Luis Jacome. Um dia o padre aplicou um  castigo a um índio rebelde, o que causou grande revolta contra os padres por parte de toda a aldeia. Tal celeuma levou a Junta Missionária de Pernambuco a transferir essa aldeia para a Paupina. A nova aldeia formada em 1741, comandada pelos jesuítas, ficou assim dividida: de um lados, os índios de paranamirim; do outro, os índios da Paupina, com uma grande praça no meio separando os povos. 
Dizia-se que Paupina seria uma corruptela de Padre Pinto, nome escolhido pelos índios em memória do Padre Francisco Pinto  chefe da missão jesuítica, sacrificado pelos índios no sopé da Serra da Ibiapaba. Para os historiadores dificilmente se pode provar a procedência de tal nome, dada a distância de 152 anos que separam o mártir da Ibiapaba, morto em 1608, dos índios que viviam em 1760, em Paupina. Acreditam que os índios não teriam tanta memória nem tal preocupação. O nome Paupina é indígena, e significa, segundo o historiador Teodoro Sampaio, "lagoa limpa" ou "lagoa descoberta".
No Guia Turístico elaborado pela Prefeitura de Fortaleza em 1961, não figura um bairro chamado Paupina. Hoje, na Fortaleza do século XXI, o bairro Paupina, urbanizado a partir dos anos 70, já não se confunde com Messejana.



Localizado no limite entre os municípios de Fortaleza e Eusébio, Paupina conta com privilégios que muitos já perderam: uma extensa área verde, baixa densidade demográfica, ruas calmas, poucos automóveis, moradores que se conhecem desde sempre. As árvores ainda estão pelo bairro, especialmente nos sítios que resistem numa área que ganha cada vez mais condomínios fechados. Um dos sítios pertence a Manoel Bezerra da Silva, de 78 anos. Talvez mantendo vivo um hábito da meninice vivida ali, o portão do terreno amplo, cheio de pássaros, não se fecha. Casas vizinhas também mantêm portas abertas.

 foto de Macilio Gomes - site Panorâmio

O equipamento mais famoso do bairro é o Mosteiro de São Bento,  fundado há 19 anos e localizado numa parte elevada, no limite entre a Paupina e o Bairro São Bento. Os monges beneditinos rezam a missa, aos domingos, com cânticos gregorianos e orações em latim. É a única missa nesse estilo na Capital. O canto de entrada é em português, mas logo começam os cânticos gregorianos e as orações em latim como o Credo e o Pai Nosso.
Do alto do templo, a cidade se alarga. Do lado direito, vê-se o Eusébio. Do lado esquerdo, um paredão de prédios, também chamada de Fortaleza. Na vista da frente, a Lagoa da Precabura, limite entre os dois municípios. O Mosteiro, para os moradores, torna-se mais atrativo no último dia do ano. Como é muito alto. Muita gente vai para lá no dia do Réveillon. Dá para ver os fogos de artifício de toda a cidade.


O bairro sofre com graves problemas como acúmulo de lixo nas ruas, desabastecimento de água, escassez de postos de saúde, ruas sem pavimentação e falta de segurança.  
Limita-se com os bairros Messejana, São Bento, Coaçu, Ancuri e Pedras. De acordo com o IBGE (pelo Censo de 2010) o bairro contava com 14.665 habitantes, sendo 7.042 homens e 7.623 mulheres. 

fontes:
História do Ceará, Airton de Farias
Revista do Instituto do Ceará - A Aldeia de Paupina e Outras Aldeias, de Aires de Montalbo.
Guia Turístico da Cidade, 1961
fotos P&B do site Brasiliana Fotográfica 
demais fotos: Fortaleza em Fotos - jan/2016

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O Acordo dos Coronéis e o Governo Gonzaga Mota

Do início dos anos 70 até a metade da década seguinte, a política cearense foi partilhada por três grupos oligárquicos liderados pelos coronéis Adauto Bezerra, César Cals e Virgílio Távora


A alternância de poder evidenciava a fragilidade das elites cearenses. Não havia um grupo político local, forte o suficiente para hegemonizar o poder no Estado e para impor seu domínio sozinho. Na verdade, o próprio controle que os coronéis exerciam sobre o Ceará decorria, sobretudo, de um fator externo: o apoio que recebiam da Ditadura Militar

Com o centralismo político imposto no País após 1964, a escolha dos grupos dominantes estaduais passava pela aprovação do Regime Militar, o que as fracas elites locais aceitaram ou foram obrigadas a aceitar. Virgílio Távora, César Cals e Adauto Bezerra governavam sob as bênçãos dos generais de Brasília e do autoritarismo reinante no País, tanto que, com o fim da ditadura, os coronéis perderam o governo e o poder nos anos 1980.

Fortaleza dos anos 80

Na impossibilidade de apenas um grupo político hegemonizar o poder no Estado, foi formulado uma espécie de pacto - o chamado Acordo dos Coronéis - pelo qual dividiam entre si o comando da cúpula do Ceará, afastando a possibilidade de que outros setores políticos pudessem interferir nas esferas de decisão do governo.
 
Com o Acordo dos Coronéis notava-se a tendência das facções da classe dominante em formar grandes coligações na intenção de conservar a ordem socioeconômica ou evitar a divisão do poder com outros grupos emergentes. Isso, no entanto, não impediu que ocorressem disputas entre os próprios coronéis ao longo dos anos , pois a fração de cargos e poder político variava conforme a influência de cada um junto ao governo federal.


 

Quando do golpe de 1964 o Estado era governado por Virgílio Távora, eleito pelo voto popular em 1962, pela coligação entre PSD e UDN. Virgílio ficou à frente do governo estadual até agosto de 1966. A eleição do próximo governador já seria indireta de acordo com o AI-3, feita entre os deputados estaduais. O indicado foi o deputado Plácido Aderaldo Castelo (1966-1971). A partir daí, começa a vigorar o Acordo dos Coronéis e a alternância no poder:
César Cals, (1971-1975);  Adauto Bezerra (1975-1978); Virgílio Távora (1979-1982).


No início dos anos 80, mudanças sociais, econômicas e políticas abalaram o prestígio dos coronéis. Para completar, o elemento externo e fundamental para a sustentação do Acordo dos Coronéis estava desmoronando: a Ditadura Militar. o Acordo estava com os dias contados. Não era mais possível conciliar seus interesses num regime democrático. 


A dificuldade de convivência entre os coronéis ficou evidente em 1982, quando da sucessão de Virgílio Távora. Naquele ano ocorreram as primeiras eleições diretas para governador de Estado desde o golpe de 1964. Os três chefes políticos perceberam a importância do pleito para a sobrevivência de seus grupos oligárquicos. 


Adauto Bezerra, há muito havia se lançado candidato ao governo; por sua vez, Virgílio se desincompatibilizando com o cargo de governador na pretensão de concorrer a uma vaga no Senado, desejava colocar alguém de confiança no cargo, e indicou o nome de Aécio de Borba. César Cals contudo, não concordou, visto que ele próprio desejava concorrer ao cargo. Dessa forma criou-se um impasse na sucessão ao governo cearense.

O imbróglio foi levado à Brasília, com a convocação de uma reunião pelo então presidente João Batista Figueiredo. Virgílio Távora, a essa altura já decidira escolher um nome de seu antigo secretariado, de reconhecida competência e aparentemente dócil ao seu comando, para apresentar como candidato neutro: Luiz Gonzaga da Fonseca Mota, professor da UFC, técnico do Banco do Nordeste e ex-secretário de Planejamento de seu governo.


Em março de 1982, na capital federal, César, Adauto e Virgílio assinaram o esdrúxulo Acordo de Brasília. Os três decidiram que Gonzaga Mota seria o candidato de consenso; Adauto seria o vice; Virgílio seria o candidato ao Senado e César Cals ganharia a prefeitura de Fortaleza, entregue a seu filho César Cals Neto. O acordo determinava ainda que as secretarias e os cargos de 1° e 2° escalões seriam repartidos entre os três políticos, na proporção de 33,3% pra cada um. 



Gonzaga Mota disputou a eleição com o candidato do PMDB Mauro Benevides e Américo Barreira, candidato lançado pelo PT. Exceto em Fortaleza, onde o candidato do PMDB venceu por larga maioria (58,4% dos votos), a vitória do candidato do PDS no Ceará foi a mais expressiva em todo o País. Ancorado no prestígio dos coronéis Gonzaga Mota obteve 63% do total de votos, contra 22% do candidato do PMDB; O PDS elegeu 34 deputados estaduais, 17 federais e 136 prefeitos.


Gonzaga Mota, chamado pelos amigos de Totó, iniciou seu governo refém do vergonhoso Acordo de Brasília. Limita-se a despachar o que já havia sido predeterminado pelos coronéis. Entretanto, o governador não se contentou com essa situação: figura jovem, entusiasmado com o poder que  detinha, vendo a fragilidade política dos coronéis e incentivado por vários setores sociais, Totó foi ao longo do seu mandato rompendo gradativamente com os coronéis, buscando formar sua própria facção política.



O governador começou por substituir os ocupantes dos principais cargos da máquina pública, por pessoas da sua confiança. Essas pessoas, eram coincidentemente, quase todos seus familiares, o que foi denunciado pela oposição como prática de nepotismo. Recebeu inúmeras adesões de segmentos políticos do Estado. 


No entanto, Mota reproduziu em seu mandato os mesmos vícios das administrações dos velhos coronéis: clientelismo, empreguismo, desorganização da máquina pública, corrupção, ineficiência. Os escândalos explodiam a todo momento em vários órgãos do Estado. Conta-se que várias portarias de nomeação de funcionários públicos foram entregues a deputados e cabos eleitorais para distribuição entre os eleitores. As investidas do governador em busca de aliados irritavam os coronéis e contribuiu para dividir ainda mais o PDS-CE.

Nos bastidores, César, Adauto e Virgílio se articulavam para deter o rebelde Totó. Boatos davam conta que o presidente da Assembleia Legislativa, o virgilista Aquiles Peres Mota, estava preparando o impeachment do chefe do Executivo Cearense.


Ao saber das tratativas Gonzaga Mota concedeu uma dura entrevista, afirmando que era o governador e não um carimbador de mensagens. Foi o seu grito de independência: rompeu com VT, com Cesar Cals e por fim, com Adauto Bezerra, assegurando ao seu grupo o controle do Estado.


Diversos correligionários dos coronéis foram demitidos dos cargos públicos. Exemplo maior foi a exoneração de César Cals Neto da prefeitura de Fortaleza, sendo substituído por José Maria de Barros Pinho, do PMDB, partido para o qual Gonzaga se transferiu com seu grupo político.


As ações corajosas de Gonzaga Mota ganharam espaço até na mídia nacional. Em 1983, começaram as articulações visando a sucessão presidencial. Num primeiro momento, Mota se solidarizou com o presidente João Figueiredo, comprometendo-se a apoiar o candidato deste. Depois Gonzaga decidiu dar seu apoio a Aureliano Chaves, enquanto Figueiredo se pronunciava a favor da candidatura de Mário Andreazza


Em razão do episódio, o executivo cearense rompeu com o governo federal e ficou entregue à própria sorte. Para completar, sentiam-se os efeitos da seca de 1979-84 e da própria crise econômica do  país. A atividade agropecuária estava praticamente arruinada, e o Ceará quase falido, sem créditos e endividado. Greves eclodiam em todos os setores, o funcionalismo público teve seus vencimentos atrasados vários meses, e para atenuar a situação, o governo passou a fornecer vales para os servidores, que a irreverência popular chamava de "gonzagueta". 


Com a frustração de Aureliano Chaves em não conseguir ser indicado pelo PDS como candidato as eleições presidenciais indiretas de 1985 - o escolhido foi Paulo Maluf - Mota ganhou destaque ao ser um dos principais articuladores da Aliança Democrática, coligação entre PMDB e PFL, a qual lançou a candidatura de Tancredo Neves.



Gonzaga Mota ficou a frente do governo do Estado até o final do seu mandato, em 15 de março de 1987. Depois foi eleito deputado federal em 1990, 1994 e 2002. Em 1998 disputou a eleição para o governo do Ceará. Perdeu para Tasso Jereissati, que foi apoiado por ele nas eleições estaduais de 1986.
 
fonte: 
História do Ceará, de Airton de Farias
fotos da internet   
  

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Antiga Praça Visconde de Pelotas

A Antiga Praça Visconde de Pelotas é a atual Praça Clóvis Beviláqua. O nome homenageava o Visconde de Pelotas e herói da Guerra do Paraguai, Marechal José Antônio Correa da Câmara. A praça tinha uma singularidade, pois ficava a 24,41 metros de altitude e se constituía uma das mais elevadas da cidade. 

Foi por isso, o local escolhido para se instalar os reservatórios de água potável da cidade. Em 1867, a "Ceará Water Work Co. Ltd" abasteceu a cidade a partir dali, por meio de chafarizes. Esta companhia inglesa, explorou o serviço de abastecimento até a grande seca de 1877-1879, quando deixou de funcionar por falta de água. 

Em 1911, na administração do presidente da Província Nogueira Accioly, foram instaladas as caixas d'água com material importado. Com a deposição de Accioly do governo do Estado, o serviço ficou paralisado. 


A partir de 1938, com a instalação da Faculdade de Direito em sua área, a Rua Meton de Alencar foi prolongada, dividindo a praça transversalmente. Como era comum nas antigas praças de Fortaleza, nela predominava o verde, primeira preocupação dos urbanistas da cidade. Os jardins eram bem cuidados, com as árvores contornadas por cercas vivas; a praça possuía um coreto com bancos para as retretas das bandas de música. 


Em frente à Faculdade de Direito erigiram um obelisco, em homenagem à participação brasileira na 2a. Guerra Mundial. Centralizando o lado poente da praça, localizava-se o palacete do Barão de Camocim, ladeado pelo jardim da Baronesa. Este importante casarão integrante do patrimônio histórico arquitetônico da cidade, revela um pouco da sociedade da época. 

Inaugurada no século XIX, o palacete foi construído com planta  adquirida em Paris por Geminiano Maia, o Barão de Camocim. A residência conservava preciosidades que ornamentavam a antiga residência do casal, em Paris, quando ele então gozava do convívio e amizade da família imperial brasileira, exilada na França, depois da Proclamação da República
 

O palacete era composto de cinco dormitórios na parte superior, vários aposentos na parte de baixo, além de um porão habitável. A vasta propriedade em seus primeiros tempos, compreendia o casarão e seu extenso jardim,  com pomar e a Ala da Baronesa - um recanto predileto da senhora de Camocim, na parte esquerda do edifício principal. Depois do  casamento de sua única filha e mais tarde, dos netos, os jardins foram cedendo espaço para a construção de seis casas residenciais da família. 


Em 1925 o palacete recebeu o casal D. Pedro de Alcântara e sua filha a Condessa de Paris. Ele era o primogênito da princesa Isabel e do Conde D'Eu. Outras recepções marcariam também a Vila de Camocim, como os casamentos e as festas de quinze anos das netas e bisnetas do Barão. 

O Barão de Camocim nasceu em Aracati - primeiro entreposto da civilização cearense - em 1847, filho de Cosme Afonso Maia e Teresa de Jesus Maia. Geminiano e seus irmãos José e Vicente fundaram em 1872, em Fortaleza, o conceituado estabelecimento denominado "Louvre", uma casa de modas, com artigos finos, importados de Paris. 


No lado nascente da Praça de Pelotas, quase esquina da rua Senador Pompeu com a Rua Clarindo de Queiroz, localizava-se a residência de Ernesto de Alencar Araripe  e sua mulher, Carolina Pereira de Alencar Araripe

Na esquina sudeste do logradouro, no cruzamento das Ruas Senador Pompeu  e Antônio Pompeu, erguia-se os fundos do prédio que foi o Cine Araçanga, e depois Cine Art. Esses cinemas tinham a frente voltada para a Rua Barão do Rio Branco.


Na face sul da Praça, esquina das Ruas Senador Pompeu e Antônio Pompeu, erguia-se a residência de Meton de Alencar Pinto, construída em 1931, com 3 pavimentos. Filho de Júlio Pinto do Carmo e Júlia de Alencar Pinto, Meton de Alencar e seus irmãos fundaram a Companhia Importadora de Máquinas e Acessórios Irmãos Pinto - Cimaipinto. Os jardins e os espaços externos foram destruídos, mas a casa continua lá.
 
Vizinho a residência de Meton de Alencar morava Raymundo de Alencar Araripe, que foi prefeito de Fortaleza por quase dez anos (18 de maio de 1936-30 de outubro de 1945). Durante seu governo, pavimentou as ruas de Fortaleza, construiu o Estádio Presidente Vargas e criou a Assistência Municipal, instalada na vizinhança de sua residência. 


Em seguida, convidou o médico Dr. José Frota para dirigir este posto médico. O nome de José Frota serviria posteriormente de referência para a rede de pronto-atendimento médico do Município de Fortaleza. O Serviço de Educação Infantil, mantido pela municipalidade, foi criado em 1938, por iniciativa deste prefeito, instalando sua sede no antigo Parque da Independência, que passou a ser chamado de Cidade da Criança. 

uma terceira caixa d'água foi instalada mais tarde.

Em 1926 a Praça Visconde de Pelotas teve o nome mudado para Praça do Encanamento, em razão da instalação do 1° sistema de abastecimento de água. Em 1937 passou a ser chamada de Praça da Bandeira. Por fim passou a ser Clóvis Beviláqua, em 10 de julho de 1959, na gestão do prefeito Cordeiro Neto (1959-1963). 

fontes: Ideal Clube - história de uma sociedade
fotos do arquivo Nirez, O Povo, Marciano Lopes e Fortaleza em Fotos