terça-feira, 8 de março de 2016

As Primeiras Livrarias de Fortaleza

Por volta da segunda metade do século XIX, Fortaleza vivia um momento  de grande efervescência  cultural, onde a produção textual, em particular a literatura, gozava de grande prestígio. Políticos, médicos, militares, advogados, acadêmicos,  buscavam no debate filosófico e na criação poética ou ficcional o prestígio social. Além disso, via-se a produção intelectual como uma missão, ou seja, como um instrumento capaz de mudar a realidade social e regenerar comportamentos e valores.

Se havia poucas pessoas aptas a participar dos embates intelectuais nas primeiras décadas do século XIX, isso mudou na segunda metade, sobretudo nos últimos 25 anos. Em 1845 começou a funcionar a primeira escola de ensino secundário do Ceará, o Liceu.  A chegada do Liceu incentivou ainda mais a atividade intelectual na cidade, e quatro anos depois, em 1849,  apareceu em Fortaleza uma espécie de primeira livraria da cidade, do comerciante português Manuel Antônio da Rocha Junior.

 Sede do Liceu, na Praça dos Voluntários
Nesse estabelecimento os livros ficavam divididos em duas sessões, uma destinada a venda e outra ao aluguel. A loja que comercializava livros ficava na rua Formosa (atual rua Barão do Rio Branco). Além dessa, Rocha Junior era proprietário de outras lojas de diversos no centro de Fortaleza, existentes desde a primeira metade do século XIX. 

Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), em postal de 1910

Em 1849, o Jornal  "O Cearense" anunciava aos leitores do jornal, o aluguel de livros na loja do português, mediante o cumprimento de algumas exigências:


"Leitura de livros.
Na loja de Manoel Antonio da Rocha Junior, na rua Formosa, alugão-se livros, debaixo das condições seguintes:
1° Pagarão mensalmente 2$000 por assignatura, pagos adiantados.
2° Deixarem depositado o valor da obra.
3° Responsabilisarem-se pela danificação que os livros soffrerem." (sic)

Em 1850, surgiu o segundo livreiro, Joaquim José de Oliveira, que desde as suas atividades iniciais, esteve relacionado ao comércio de ficção.  Joaquim de Oliveira era português, viveu por muitas décadas em Fortaleza e morreu em julho de 1900. Durante muitos anos foi editor do jornal cearense Pedro II; morava em casa de esquina no sexto quarteirão da Rua da Boa Vista (atual Rua Floriano Peixoto), na casa onde editava o jornal.  

Segundo os dados dos almanaques do Ceará, a atuação do livreiro na cidade teve duração por um período de, no mínimo, 30 anos dedicados à venda de livros em Fortaleza, com loja sempre na praça da Municipalidade (atual praça do Ferreira). 

Outro pioneiro no ramo livreiro da cidade, foi Gualter Silva. Gualter Rodrigues Silva era natural do Ceará, nasceu em 1843 e morreu em 1891; mas sua livraria funcionou até o final do século XIX em mãos de sua viúva. Em 1870, atuou como caixeiro despachante, sendo um dentre os 10 nomes que constam nos almanaques daquele ano. Ainda em 1873 atuava como caixeiro. Na década de 80 do XIX, sua atuação como livreiro começa a se difundir nos jornais da cidade.

 Reunião na chácara do livreiro Gualter Silva no Benfica. Abaixo, identificação do grupo. 

Ele procurou atuar não só como comerciante livreiro, em alguns momentos exerceu também atividades de editor. Verifica-se a existência de referências para as obras "Lendas e Canções Populares", de Juvenal Galeno, e "A Fome", de Rodolfo Teófilo, editados por “Gualter R. Silva Ed.”, respectivamente em 1892 e 1890; além do livrinho "Catecismo da diocese do Ceará", doado pelo próprio livreiro para algumas escolas da cidade.
 
Depois desses estabelecimentos pioneiros, muitas livrarias surgiram em Fortaleza. Algumas delas:

Em 27 de fevereiro de 1917, foi inaugurada a Livraria Humberto, de Humberto Ribeiro, na rua Major Facundo.

A Papelaria e Tipografia Renascença foi instalada em 10 de abril de 1924, na rua Castro e Silva n° 76, propriedade de Aldo Prado e Francisco Prado. Depois passou a ser simplesmente Livraria Renascença, já em mãos do livreiro Luis Carvalho Maia, na Rua Major Facundo, 746. 


A firma Morais e Companhia funda a Livraria Ribeiro, em 28 de agosto de 1925, na Rua Guilherme Rocha, 198, Praça do Ferreira. 


A Livraria Comercial foi fundada no dia 17 de fevereiro de 1926, na Rua Major Facundo, 151, da firma Quinderé e Cia, de Luis Quinderé e Meton de Alencar Gadelha. Depois a empresa foi vendida a terceiros.


A Livraria Seleta foi inaugurada no dia 4 de maio de 1927, encampada pela Sociedade editora São Francisco das Chagas, administrada por Ananias Frota. A partir de dezembro daquele ano, passou a funcionar no prédio n° 155, da Rua Major Facundo. Em janeiro de 1934 passou a chamar-se Livraria Quinderé. 



A Rua Major Facundo era o endereço da maioria das livrarias antigas

Em dezembro de 1929, foi inaugurada na Rua Floriano Peixoto, Praça do Ferreira uma dos estabelecimentos que iria se tornar um dos mais tradicionais de Fortaleza: a Livraria Alaor, fundada por José Edésio de Albuquerque.
Edésio começou a vender jornais e revistas na Fortaleza da década de 20, ia buscar as publicações diretamente no porto e as levava para os leitores da capital e do interior, utilizando meios de transporte precários. Mais tarde contou com a ajuda de sua esposa, e de seu filho, José Alaor Albuquerque. Edésio não era apenas um comerciante de livros como tantos outros, empenhado tão somente na obtenção de lucros. Ele era antes de tudo um difusor da cultura, um idealista. E nesse mister nunca temeu arriscar a própria liberdade, desde que chegassem às mãos dos leitores, os jornais, revistas e livros condenados pela censura policial.
Líder estudantil, José Alaor era filiado ao Partido Comunista e fez amigos ilustres, como Luís Carlos Prestes, garantindo a continuidade dos negócios da família, que inaugurou uma distribuidora de livros, em 1962.


A Livraria Imperial foi inaugurada  no dia 5 de outubro de 1935, de propriedade dos irmãos Magalhães, Anglada e Japi. Depois pertenceu a Clóvis Mendes, já na Rua Guilherme Rocha, baixos do edifício Excelsior. A Imperial prestou relevantes serviços a cultura cearense.



Chamada de Imperial Porta por seus frequentadores,  foi durante muitos anos o último refúgio dos intelectuais da terra , os mesmos que frequentaram os cafés Richie, Art Nouveau, o Iracema, o Avenida, a Rotisserie, o Globo, confeitarias Nice e Glória, e por fim, o Abrigo Central. 


A livraria Imperial fechou com a aposentadoria do proprietário, Clóvis Mendes, que não era apenas um vendedor de livros:  Conhecedor do produto que vendia, indicava, discutia, orientava, escolhia autores e leitores. 


Inaugurada em 24 de outubro de 1947 a Livraria Melhoramentos, de propriedade de Clóvis Rolim de Nóbrega, com endereço à Rua Major Facundo, 716.


No dia 13 de maio de 1949, foi inaugurada a Livraria Arlindo, de Arlindo G. de Amoreira, no andar térreo do Palácio do Comércio. 


A Livraria Aéquitas foi inaugurada no dia 25 de novembro de 1944, na Rua Guilherme Rocha, 162, e além de livros e papelaria, tinha uma seção de discos. 


Livraria Feira do Livro no seu antigo endereço da Rua Floriano Peixoto, em 1983
(foto de Nelson Bezerra do livro Viva Fortaleza)

Manoel Coelho Raposo, foi o fundador da Livraria Feira do Livro ainda na década de 50. Raposo montou uma filial em plena Praça, nas proximidades da banca de jornal do Bodinho, passando a comercializar, como acontece em todas as feiras, com revistas, livros e jornais. No local, Jáder de Carvalho lançou Aldeota, o seu discutido romance de costumes. Tempos depois Jorge Amado promoveu ali mesmo, uma noite de autógrafos. A Feira do Livro existe até os dias atuais, funcionando no bairro Montese.


As antigas livrarias não eram meros espaços de comercialização de livros; a maioria promovia encontros e debates literários, com a presença de intelectuais e personalidades da cidade.


consultas:
A Atuação dos Livreiros e a Circulação de Romances em Fortaleza no Século XIX -   Ozângela de Arruda Silva
Cronologia Ilustrada de Fortaleza - Nirez
Geografia Estética de Fortaleza - Raimundo Girão
fotos do arquivo Nirez e do livro Geografia Estética de Fortaleza


Nenhum comentário: