quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Jacarecanga, o charme de uma época

As terras férteis de Jacarecanga, molhadas por um riacho e por um lago de razoáveis proporções que permitia a navegação de pequenos barcos a vela, tornaram-se as preferidas para a instalação de chácaras de veraneio. Atraídas pela fartura de seus pomares  e pelo vida tranquila daquele arrabalde, diversas famílias  importantes da época, construíram ali suas moradias. 

 Lago do Jacarecanga - 1908

Já nos meados de 1885, Luiz Ribeiro da Cunha, anunciava no jornal “Cearense” o arrendamento de sua chácara no bairro: um bom sítio, 15 a 20 minutos da cidade.  Com o aterramento do lago, do rio e das terras encharcadas, foram surgindo os calçamentos e as residências elegantes do bairro do Jacarecanga. 


Residência de Meton de Alencar Gadelha na Praça Gustavo Barroso. Apesar da vista privilegiada naquele lado da praça, o terreno ainda não tinha sido utilizado para construções devido ao desnivelamento em relação a praça.   Apresentava-se muito irregular e afundado, formando um verdadeiro alagadiço devido a proximidade da lagoa do Jacarecanga. A casa foi construída em 1930, com três pavimentos e com recuo da calçada. O casarão foi demolido em 1985, com os restos da construção sendo vendidos a retalhos, como o milheiro de telhas antigas, fora de uso, comercializado por 50 mil cruzeiros. 

  Praça Gustavo Barroso, no ano em que o Liceu do Ceará mudou-se para o Jacarecanga, na segunda metade dos anos 30. 

A partir do cruzamento com a Avenida Imperador, a Travessa Municipal formava um corredor privilegiado com seu conjunto de luxuosas residências. Era o início do bairro do Jacarecanga. Essa Travessa Municipal, em 1932, mudou de nome para Rua Guilherme Rocha, terminando na praça principal do Jacarecanga, denominada Fernandes Vieira, em homenagem ao filho senador do Visconde do Icó. Essa praça recebeu oficialmente, nos dias atuais, o nome de Gustavo Barroso. Popularmente é conhecida por Praça do Liceu, desde a instalação desse tradicional colégio no meio da praça, reduzindo o tamanho original do logradouro. 

A atual Praça Gustavo Barroso, mais conhecida por Praça do Liceu
Praça Gustavo Barroso quando ainda era chamada de Praça Fernandes Vieira, cercada de casarões

Ladeiam ainda a praça outros prédios públicos; o Asilo do Bom Pastor, construído por Raimundo Frota, com recursos próprios em 1925; o Quartel do Pelotão de Bombeiros, inaugurado em 07 de setembro de 1934. Depois da praça, na direção do poente, estendia-se a antiga Estrada do Urubu, cujo calçamento foi iniciado em 1931, pelo prefeito César Cals. Em 1936 esse caminho passou a ser chamado de Avenida Francisco Sá, nome do genro do Comendador Accioly, Senador da República e Ministro da Viação. A Avenida Francisco Sá prosseguia até o extremo oeste da cidade, na Barra do Ceará, onde se localizavam o hidroporto e a estação de passageiros dos aviões anfíbios.



Na esquina da Rua Padre Mororó com a Rua Guilherme Rocha, ficava o palacete da família Borges, pais do General Murilo Borges, prefeito de Fortaleza no período 1963-1967. Neste solar, Narcisa Borges da Cunha, mãe do ex-prefeito, foi assassinada pelo marido de uma empregada da casa, ao defendê-la da agressão do marido, em 21 de dezembro de 1936. O imóvel foi demolido muitos anos depois desse episódio. 
 

Residência de Pedro Philomeno Gomes, na esquina das avenidas Francisco Sá e Coronel  Philomeno Gomes, com suas escadarias, seus terraços e seus portões de ferro batido. depois  foi reformada e perdeu todos os detalhes decorativos, ficou com uma fachada mais despojada, mais pesada e menos agradável. Mais tarde, foi demolida e construído no local um prédio de apartamentos.

   
Residência de Acrísio Moreira da Rocha, ex-prefeito de Fortaleza, construída na vizinhança da casa do seu sogro, Pedro Philomeno Gomes, entre 1945 e 1949. A construção não obedeceu a nenhum projeto, o proprietário traçou as linhas de sua moradia, com base  em mansões da região da Geórgia, nos Estados Unidos, de óbvia inspiração nos palácios greco-romanos.
 

No número 836 da avenida Coronel Philomeno Gomes, uma graciosa casa da Normandia. É a residência da família do advogado Raimundo Pinheiro de Melo. Construída em 1920, através de cópia de uma revista francesa. A casa continua praticamente inalterada, exceto o alto muro de proteção que hoje ostenta, e ainda em poder da família. No seu interior , todo o mobiliário original, os lustres e outros adornos do princípio do século.


O professor do curso de História da UFC, Antônio Macêdo, diz – em reportagem do Jornal O Povo – que a configuração fundamental do Jacarecanga foi formada em torno da década de 1910. No começo do século XX, as famílias abastadas que moravam no Centro buscavam um bairro com perfil mais residencial, já que a região central era ocupada por outras atividades, como o comércio.A sensação de que estariam concentrados exemplares  importantes no bairro, tem a ver com o fato de que as famílias podiam encomendar plantas específicas. Era uma demonstração de posse, comenta o professor.
Muitos dos casarões, dos bangalôs e das antigas construções, ainda estão no Jacarecanga, com outros usos, alguns conservados, a maioria não. Contam a história de uma época em que o Jacarecanga era o espaço das elites de Fortaleza.
 

pesquisa:
Mansões, Palacetes, Solares e Bangalôs de Fortaleza, de Marciano Lopes
Ideal Clube, História de uma Sociedade - memórias, documentos e evocações
 fotos do Álbum de vistas do ceará, Arquivo Nirez e Marciano Lopes
Jornal o Povo

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