domingo, 2 de dezembro de 2012

O Assassinato de Vicente de Castro

A boate Monte Carlo ficava na Rua Barão do Rio Branco, no antigo solar do Barão de Studart. Por uma dessas ironias do destino a casa em que vivera o austero intelectual Guilherme Studart, barão por designação do papa e diploma da Santa Sé, funcionou a partir dos anos 40 um dos mais famosos lupanares de Fortaleza. 

Três importantes casarões na Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco). A primeira casa a partir da esquerda, é o solar do Barão de Studart, que nos anos 40 abrigou a Pensão Monte Carlo

Algumas de suas mulheres vinham de outros estados e como tinham estatura, hábitos e sotaques diferenciados, faziam muito sucesso entre os frequentadores. Naquela época os rapazes costumavam ter uma namorada e uma amante simultaneamente. As moças sabiam que seus namorados frequentavam os bordéis, mas fingiam não saber, já que não poderiam atender as necessidades sexuais dos respectivos.   
No começo do ano de 1959 chegara uma nova inquilina para a Pensão Monte Carlo. Era Nilcéia, uma mulher clara, loura, de belo porte e boa conversa.  A novata logo despertou o interesse dos frequentadores, mas a rapariga tinha dono: fora trazido do Rio de Janeiro pelo jovem Vicente de Castro em seu caminhão FNM que fazia linha para a então capital federal.
Vicente de Castro Neto era “bem nascido”, frequentador do Ideal Clube e membro ativo da turma das "lambretas", dos “cavalos de pau” e dos “pegas” de automóveis nas madrugadas. Temido e com fama de valentão, não costumava levar desaforo pra casa, e enfrentava qualquer um que ousasse atrapalhar seus planos ou contrariar suas vontades.
Na noite de 04 de abril de 1959 – um sábado de Aleluia – estavam  o bancário Joaquim Romero Frias e um amigo conhecido pela alcunha de Vaca, na Monte Carlo, quando passa a bela Nilcéia. Frias dirigiu-lhe um gracejo e deu uma palmadinha no traseiro da moça. A prostituta não gostou e disse que o bancário pagaria caro pela brincadeira. Mas quando ela voltou foi novamente apalpada por Joaquim Frias, que acrescentou que se ela não quisesse ser tocada que fosse embora do cabaré, pois mulher de cabaré era para isso mesmo.
Por volta das 23 horas Vicente de Castro adentra o salão da Monte Carlo, acompanhado de dois amigos, onde logo foi informado pela mulher da atitude de Romero Frias. Louco de raiva, Castro dirigiu-se à mesa de Frias, onde o agrediu com socos e murros.  Foi tanta pancadaria que sobrou também para o amigo Vaca e um senhor da mesa vizinha que, apenas gritara “já basta”.

 Praia de Iracema início dos anos 50

Frias retirou-se. E na manhã seguinte, sabendo que Vicente de Castro costumava passar pelo Bar e Sorveteria Tony’s, na Praia de Iracema, dirigiu-se para lá, com sede de vingança. Precisamente as 09h45min, chega Vicente de Castro numa camioneta e, mal entra na sorveteria, é atingido pelas balas do revolver 38 duplo de Frias. Foram seis disparos, quatro deles acertando o rapaz de 24 anos.
O assassino foi preso em seguida pelo proprietário do Tony’s Antônio Montenegro Figueiredo com a ajuda de outro cliente.
O crime alcançaria grande repercussão, ocasionando um dos julgamentos mais memoráveis de Fortaleza. Frias foi absolvido no primeiro júri – a defesa alegara legítima defesa – mas a promotoria apelou e no segundo julgamento o réu foi condenado. Cumpriu pena na velha cadeia pública da Rua Dr. João Moreira.

fachada da cadeia Pública, na Ryua Dr. João Moreira

Os jornais da época estampavam os retratos dos principais envolvidos. Vicente de Castro, de calção, porte atlético, numa foto no Iate Clube. Joaquim Frias, cabelo arrumado com brilhantina, penteado para trás, olhando meio de lado, como um galã de cinema. E o pivô do crime, a moça do cabaré, Nilcéia Pereira da Silva, em foto  antiga, sorrindo.
Os noticiários informavam ainda outros desdobramentos da tragédia. Frias teria sido agredido na delegacia do Primeiro Distrito por um cunhado da vítima, no momento em que prestava depoimento. O pai do assassino mandara uma carta de pêsames para o pai da vítima. Nilcéia tentou o suicídio, cortando os pulsos e ingerindo veneno, ficando vários dias em estado de coma.

Extraído do livro de Juarez Leitão
Sábado, estação de viver 

fotos do Arquivo Nirez

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