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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A iluminação e a escuridão das ruas

 

Numa cidade que contava com a intensa iluminação e constante presença do sol, quando este desaparecia, a população sofria com a escassez de iluminação, e a escuridão imperava nas ruas de Fortaleza. Seguindo uma tradição que então impregnava o imaginário da Europa moderna, a noite era considerada "amiga da maldade, companheira de Satã e de seus malefícios".



Praça do Ferreira, fins do século XIX. Ao fundo, o Café Java. (Foto Arquivo Nirez)

Aliados a esta tradição havia o temor que faziam da iluminação um tema tratado não apenas como modernidade para a cidade e sim como matéria de segurança. Mas a preocupação com a segurança noturna da cidade veio de maneira tardia. Somente no ano de 1838 é que foram instalados cinquenta lampiões para a iluminação pública. O encarregado da aquisição foi o comerciante Martinho Borges, que enviaria os lampiões diretamente do Rio de Janeiro, do mesmo feitio e construção que os usados naquela cidade.

O montante de recursos destinados à iluminação da cidade, 2:000$000, foi supostamente quase todo gasto na aquisição dos lampiões e suas ferragens. Com o desejo de completar a iluminação, Manoel de Sousa Mello solicitava a liberação de verba para compra de azeite – combustível fundamental para efetivação das luminárias.

A opção pelo azeite de peixe como combustível, acompanhava, àquela época, uma tendência nacional. Cidade como o Rio de janeiro já industrializava a extração do óleo de baleia, comercializado para uso nos lampiões de óleo. Na costa do Ceará, teria ocorrido a dizimação das baleias e do peixe-boi a partir do século XVIII, abatidos para o consumo da carne e usados na produção de óleo, consequência da atividade predatória dos corsários e dos Tremembés, índios célebres pela ferocidade e que eram hábeis pescadores, o que se leva a deduzir que o azeite usado na iluminação de Fortaleza era importado de outros Estados. O óleo de baleia, aqui chamado de azeite de peixe,  gerava uma luz estável e brilhante, embora produzisse muita fumaça. O Azeite de peixe foi utilizado também como argamassa na construção civil. 



O prédio da antiga alfândega de Fortaleza,  teve projeto de José Gonçalves da Justa, execução e obras de Tubias Laureano Figueira de Melo e Ricardo Lange, que utilizaram pedras e argamassa feita de óleo de peixe e areia. (Foto Arquivo Nirez)

Em 1839, a iluminação ainda era uma expectativa: os lampiões adquiridos no Rio de Janeiro chegaram e foram fixados nas ruas, porém não funcionavam. O motivo era a falta de quem se encarregasse da iluminação, pois a quantia destinada ao prestador do serviço era ínfima e não atraía nenhum interessado. A sugestão do presidente da província João Antônio de Miranda, era mandar iluminar sem arrematação, pois esse empreendimento não atrairia nenhum investimento, por não permitir maior especulação.

Em 1841, ou seja, três anos depois da aquisição dos lampiões a situação da iluminação da cidade continuava delicada. O orçamento da província havia destinado 4:000$000 para o fornecimento de  azeite de peixe – o dobro do utilizado para aquisição dos candeeiros. Como não pareceram licitantes, o fornecimento poderia ser por empreitada. O único que se apresentou foi José Teixeira Pinto, que ofereceu 1700$000 por semestre. O governo indeferiu a proposta, por achar que o candidato não tinha condições de cumprir o acerto.



representação da troca de óleo dos lampiões. (Tela de Debret) 

No mesmo ano, diante das restrições orçamentárias, o governo decidiu eliminar as verbas que seriam destinadas à iluminação. Mais tarde, o assunto voltava a ser matéria de discussão na Assembleia, mas não para sugerir novos investimentos ou a necessidade de expansão do serviço, mas para examinar proposta do presidente da província, de suspensão das despesas com os lampiões, considerando a situação delicada do erário público. De acordo com aquele administrador, fazia-se necessário economizar os gastos com a iluminação não só, porque não era considerada prioridade, como era muito onerosa aos cofres provinciais.

Assim, mesmo depois da década de 1840, Fortaleza não conhecia um sistema competente e continuado de iluminação pública baseado em lampiões de azeite. As noites eram longas e assustadoras, o que imprimia uma rotina de recolhimento cedo, na qual os moradores precisavam se recolher às suas casas e improvisar a iluminação de suas moradas, na maioria das vezes, feitas por lamparinas e velas de cera de carnaúba.



primeira concessionária para exploração da iluminação pública da cidade, a companhia inglesa Ceará Gas Company (foto do livro A História da Energia no Ceará)  

A tão esperada iluminação das ruas só veio a se concretizar alguns anos depois e foi iniciada em 01 de março de 1848. O trabalho foi contratado com Vitorino Augusto Borges, que se obrigava, entre outras coisas, a instalar 44 lampiões, que deveriam ser mantidos sempre limpos e brilhantes, e a conservá-los acesos entre as 6 horas da tarde até o raiar do dia seguinte, ou até que saísse a lua.

O privilégio da concessão foi transferido, com autorização do governo para a companhia inglesa Ceara Gaz Company Limited. No mesmo ano de 1848, foram colocados nas ruas de Fortaleza 25 lampiões pendentes com iluminação de azeite de peixe. Desse período de experiências inovadoras na cidade, fica também a lembrança de um homem simples, o primeiro acendedor de lampiões a percorrer as ruas da cidade, na tarefa diária de acender e apagar os pontos de iluminação, conhecido na memória da cidade pela alcunha de Chico Lampião.

 



Nas noites de lua os lampiões não eram acesos, o que levou alguns cronistas da época a denominarem o acordo de "contrato com a lua". Mas a prática não era só dos cearenses. Em alguns dos outros Estados, havia cláusula contratual prevendo o não acendimento dos lampiões em noites de luar. 

Fontes:

Entre o Futuro e o Passado – aspectos urbanos de Fortaleza (1799-180), de Antônio Otaviano Vieira Jr. 

História da Energia no Ceará, de Ary Bezerra Leite

Fortaleza Velha, de João Nogueira

 

sábado, 5 de julho de 2014

O Escuro Tenebroso das Ruas

Todos os dias tem alguém reclamando da escuridão que passou a tomar conta das ruas de Fortaleza. E não só nos bairros periféricos, historicamente preteridos pelo poder público em termos de serviços, estrutura e melhorias. Desta vez o escuro das vias públicas é bastante democrático, até ruas e avenidas da Aldeota e outros bairros de classe média foram alcançados.

 Rua no Parque Manibura, com longo trecho totalmente as escuras 

Em outros tempos mais românticos e quando a violência e a insegurança pública eram muito poucas ou nenhuma, Fortaleza já ficou carente de iluminação pública. Por ocasião da Guerra de 1914 o fornecimento do carvão de pedra tornou-se deficiente, pelo que a concessionária de energia Ceara Gaz Company Ltd. apagou metade dos combustores da cidade. E para atender melhor a iluminação da Praça do Ferreira e de outras, transportou para lá alguns dos combustores que estavam nas ruas. E assim ficou a outrora bem iluminada Fortaleza: praças iluminadas, ruas e travessas escuras.

 Rua Floriano Peixoto em 1909, nos tempos do Contrato com a Lua  

Em outras oportunidades, a Capital ficava propositalmente sem iluminação pública. Era nas noites de lua cheia, quando a luz de prata banhava a cidade, e as luzes dos combustores permaneciam apagadas, resultado de uma parceria unilateral imposta pela companhia de energia, que os cronistas da época apelidaram de “Contrato com a Lua”. Boêmios, poetas, seresteiros, namorados invadiam as noites da pequena cidade e cantavam seus amores tendo a lua por testemunha. Não havia nenhum risco para os notívagos naquelas madrugadas festeiras.

O tipo de iluminação mudou com o tempo, passou da era do azeite de peixe para a do  gás carbônico, mas o "Contrato com a Lua" foi sendo renovado até 1934/35, data da chegada da luz elétrica.


Na Fortaleza de 1887, vagar de madrugada pelas ruas desertas não era proibido, e podia-se largar a voz no mundo, fazer o barulho que quisesse, tendo por testemunha a lua mais bonita que Deus fez, econômica lua, com quem uma vez os administradores fizeram um incrível contrato, tão simples e peremptório, que só deu certo porque os filhos da cidade eram também meio lunáticos. (Mozart Soriano Aderaldo, em Crônicas da Cidade Amada) 

Mas as noites escuras dos tempos atuais não mais atraem poetas românticos e sonhadores, e sim outro tipo de público, pessoas nefastas, indivíduos indesejáveis, marginais inescrupulosos, covardes de toda ordem, que surgem  e desaparecem nas sombras, beneficiários que são, da inércia e da indiferença de gestores incompetentes.

Para comprovar a falta de prestação do serviço, no início de junho, denunciei a lâmpada queimada de um poste no bairro Parreão e solicitei a sua substituição. Liguei para o número 156 – Central de atendimento da Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos de Fortaleza. Pediram nome, CPF, ponto de referência, e logicamente, identificaram meu endereço: Prazo para atendimento: 36 horas.

Passados mais de 30 dias, ninguém apareceu para fazer o conserto. Liguei inúmeras outras vezes e a resposta é a mesma: a solicitação está com a equipe, que está na rua, executando serviços. O número do protocolo é 1765400012. 
A “agilidade” da equipe explica a cidade às escuras e o aumento da insegurança em Fortaleza. Dá para confiar num serviço desses? 


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A Cidade em Construção

Bondes, trens, automóveis, cafés, padarias, livrarias. Sobrados, mercados, praças. Telefone relógio, luz. Desde seu esboço, a cidade grande tem muitas histórias para contar.  Como o dia em que se inaugurou o transporte coletivo com banda de música; o desembarque na ponte Metálica pelas mãos dos catraieiros; a proibição de andar sem meias no bonde do intendente; o sol vaiado na Praça do Ferreira. No céu, um zepelim. As lamparinas iluminando as noites. O Contrato com a lua. No cenário, os moradores.

As Construções


primeira Sede da Assembleia Provincial, na esquina da Rua Conde D'Eu com a Rua Sobral na Praça da Sé

O historiador Antônio Luiz localiza os primeiros edifícios de Fortaleza margeando o riacho Pajeú. A casa do governador-geral e a residência do capitão-mor abriam janelas para a Praça do Conselho (Praça da Sé), edificadas na área do atual Mercado Central. Prédios, mansões e sobrados despontam no século XIX, sob inspiração eclética/europeia. A partir de 1920 os ricos fogem do Centro em direção ao Benfica, Jacarecanga e Praia de Iracema.

O Mercado de Ferro

Construído em 1897, na Praça Carolina (atual Praça Waldemar Falcão) é um dos vestígios do embelezamento, da modernização e da higienização da cidade. Resolvia o problema de abastecimento, era amplo e trazia a novidade do emprego do ferro  nas construções. O escritor Moreira Campos quando aluno do Liceu e a caminho do banho de mar, dá vida ao local: eram dois mercados de ferro, um de carnes e outro de frutas. “Comprávamos cinco bananas, mas como éramos alunos, roubávamos uma. Saíam seis bananas por um tostão”.

O Relógio

Na Vila de Fortaleza, o tempo era contado pelos sinos. A cidade dormia com as galinhas, avisada da hora de recolher (9 da noite) pelas cornetas do quartel. Por volta de 1854, uma novidade na matriz: o primeiro relógio público. No final do século XIX, é a Intendência Municipal que vai ditar as horas. E em 1933, a Coluna da Hora, no local de maior prestígio da cidade, a Praça do Ferreira – que concentrava bondes, cinemas, lojas, cultura e política – representa o triunfo simbólico do relógio. Seus ponteiros decretavam a hora oficial, e por eles, as fábricas, o comércio, as escolas e os habitantes, ajustavam  seus relógios na tentativa de garantir a coordenação das atividades urbanas.

O Telefone

A inauguração da nossa telefonia em fevereiro de 1883, à base da manivela, foi um espetáculo – A Casa Confúcio, na Rua Major Facundo estava apinhada de gente: eram convidados, comerciantes, autoridades e curiosos. Na linha, próximo à alfândega, a casa de seu José Joaquim Farias. O aparelho telefônico, com formato descomunal, pregado à parede, causou admiração. O som das campainhas e a nitidez da voz distante constituíram o assunto das rodas por muitos dias.

Diversão




Os encontros amorosos extrafamiliares eram nas pensões do Centro. Para o namoro, a Praça do Ferreira ou o cinema. Os intelectuais gostavam de três lugares. Um era na porta da Livraria Imperial (no Excelsior Hotel); outro era a Farmácia Pasteur, onde o dono, seu Ramos, oferecia um café. E o terceiro era a Livraria Imperial, na Floriano Peixoto, olhando para a Rua Pará. As conversas também rodeavam a Praça do Ferreira nos cafés Globo, Nestlé, Éden, na grã-fina Confeitaria Gloria, além dos tradicionais Java, do Comércio, Iracema e Elegante. O Éden e o Globo eram frequentados pela turma do Grupo Clã. Conta o poeta Antônio Girão Barroso, que certa vez, em agosto de 1942, estava no Café Globo, quando chegou o Orson Welles, que na ocasião estava hospedado no Excelsior. Todos tomando café e ele tomando guaraná de canudinho. Lembra ainda o escritor de ter visto a Rachel de Queiroz, engraxando os sapatos e fumando, numa época em que esses redutos eram exclusivos dos homens.

Bondes


Estrada de Messejana, década de 40

A carne verde chegava pela tarde, vinda do matadouro sobre burros. Em abril de 1880, a modernização: os bondes de tração animal, da Companhia Ferro Carril do Ceará. A Fortaleza de então, cabia em 25 bondes que conduziam até 28 passageiros por viagem. O ponto era na Praça Carolina. Por cem réis rodava-se a capital: ia-se ao centro, à estação ou ao matadouro, olhando-se as paisagens das ruas da Alegria, da Amélia, da Estrada de Messejana. Caprichosa, a companhia reservava os bondes “joão-cotoco” – sem coberta – para as noites de lua cheia. Dois burros puxavam o veículo, das 6 às 21 horas.
Em junho de 1912, The Ceará Tramway Light and Power Company, apresenta o bonde elétrico, que vai até 1947. Viagens de tostão e dois tostões; o de segunda classe era prateado e o de primeira classe era verde.

Trem

A larga Avenida Tristão Gonçalves destoando das travessas e becos contemporâneos, justifica-se: era a Rua do Trilho, e lá correu nosso primeiro trem, em agosto de 1873. O feito da locomotiva Fortaleza juntou praticamente a população da capital – oito mil pessoas. Diante da multidão estupefata, o pequenino trem rodou, cinco vezes seguidamente, sob entusiásticos aplausos. A velocidade máxima da locomotiva não chegava a 32 km/hora.

Automóvel


Avenida João Pessoa em 1919

Seu desembarque – carro de 2ª mão, importado dos Estados Unidos – abalou a cidade. Era junho de 1909 quando Júlio Pinto e seu sócio Meton de Alencar compraram o automóvel. Novidade das novidades. Tanto que da alfândega ao cinema, foi puxado por um jumento, pois se ignorava o funcionamento da máquina. Ao redor do veículo e do jumento histórico, uma multidão de curiosos. O estudo do motor demorou dias até ser desvendado, a horas caladas da noite. O carro, um Rambler,  foi chamado de mal-assombrado pelo povo, devido aos seus holofotes que varavam a escuridão da noite e por causa da barulheira bizarra do seu motor. O calçamento revestiu-se de trilho de pedra, de concreto, e finalmente, de asfalto. O tráfego passou a ser controlado. Na metade inicial do século XX, a velocidade variava de 15 km/h (área central) a 40 km/h na Avenida João Pessoa.

Lampiões

Era um suplicio adivinhar a cidade a noite, através das lâmpadas de azeite em suas quinas, era preciso trazer a frente, clareando a rua com uma lamparina à mão, um ou mais escravos. A iluminação pública se iniciou em março de 1848, trocando-se a luz de velas pelo azeite de peixe. E firmando-se um contrato com a lua: os 44 lampiões eram acesos das 6 horas da tarde ou até que viesse a lua. Desde a ave-maria, Chico Lampião aparecia com a escada nos ombros, fósforos à boca, ziguezagueando pela cidade, acendendo os lampiões. Foi assim até setembro de 1866 (67, segundo alguns autores), quando chegou a iluminação a gás carbônico. O contrato com a lua foi renovado até 1934/35, data da luz elétrica, favorecendo serestas e namoros.

Estoril


Praia de Iracema, década de 1930

Nasceu Vila Morena em 1915. De residência virou cassino, coisa dos americanos, na II Guerra, que improvisaram a diversão com jogos, Coca-Cola e moças alheias. Durante a guerra havia os zepelins que patrulhavam a costa cearense um busca de submarinos alemães. Se encontrassem algum, a ordem eram bombardear.

Cafés e Tabuleiros

Banco Frota Gentil, na Rua Floriano Peixoto esquina com Senador Alencar

Pão d’água enrolado em papel de embrulho, beijus de Aquiraz envoltos em folhas de coaçu, tapiocas vendidas na calçada. Costumes do fim de tarde. Na esquina do Banco Frota Gentil tinha um "pirão frio" de estimação. Era uma mulher que fazia doces e tinha um tabuleiro. Um dia, um camarada pediu:  dona fulana, me empresta 5 cruzeiros. A mulher respondeu: "não posso porque eu e o Coronel Zé Gentil temos um contrato: nem ele vende bolo, nem eu empresto dinheiro".

Passeio Público

Um sítio, em 1824. Ali ergueram uma forca, que ficou de pé até 1831 e se fuzilaram os presos da Confederação do Equador. Largo do Paiol, Campo da Pólvora, Praça dos Mártires, ainda era ponto dos tabuleiros de doces e roletes de cana. Antes do aformoseamento, havia um assento de alvenaria que corria de um extremo ao outro. Era nesse banco que velhos e moços iam pela tarde comentar as poucas novidades de uma cidade absolutamente pacata. O Passeio toma forma a partir de 1879: coreto, esculturas clássicas, jardins, patinação, quermesses, as cadeirinhas de ferro do Barão de Camocim, (a 100 réis o assento) e os planos ou avenidas.

Cidade do Interior

O hábito de tomar uma fresca, cadeiras na calçada, remonta ao tempo em que as casas eram conjugadas, como no interior, umas escorando as outras. Pequenas e quentes, levavam à calçada, onde costumava passear o vento que vinha do mar. O comércio era de tipo misto: também era moradia. A sala se adaptava em venda, bodega, armazém. Então, calçadas e ruas ampliavam a casa; as visitas eram recebidas, primeiro na praça. Quando as residências passaram para a periferia, o Passeio Público deixou de servir às famílias. 


fotos do Arquivo Nirez
extraído da Revista Fortaleza, fascículo 9, de 4 de junho de 2006

   

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Fortaleza do Século XIX – Evocação da cidade antiga

Na Rua da Palma, que posteriormente recebeu o nome de Major Facundo, existia a Farmácia Teodorico, o estabelecimento comercial mais antigo da cidade, fundado no reinado de Dom João VI. A Farmácia pertenceu a quatro gerações sucessivas da família Costa: Elói, Antônio Teodorico, José Elói e  por último, Alberto Elói. Depois passou às mãos da família Benevides. 

Rua Major Facundo, na esquina onde funcionava a Farmácia Teodorico - 1970 (arquivo Nirez)

Durante muito tempo lá ainda se achavam as primitivas prateleiras, onde se avistavam os antigos frascos de água colorida de amarelo, de vermelho e de azul e um banco singelo em que a freguesia esperava o aviamento das receitas.

  Rua Major Facundo, trecho Praça do Ferreira (arquivo Nirez)

Naqueles tempos remotos era Fortaleza  uma cidade ingênua, mas viril. Povo ímpar, descendentes daqueles Capitães-do-Mato, bons, burros e bravos, na classificação de João Brígido. Sobretudo, uma gente honesta, como o velho Macaíba, de quem fala Gustavo Barroso em suas Memórias. 

Tendo recebido de um amigo do interior a incumbência de comprar e guardar um bilhete de loteria, comprou-o e guardou-o juntamente com outro, de sua propriedade, em envelopes separados. 
Mas não os mostrou a ninguém.  Corrida a loteria e premiado com 500 contos o bilhete que destinara ao amigo, o velho Macaíba não se sentiu tentado pela avultada quantia, pois mais do que o dinheiro, valia sua probidade. 

Abrir mão de 500 contos, quem era pobre e não tinha, além da própria consciência, nenhuma testemunha a embaraçar-lhes os passos, é exemplo que não se encontra facilmente nos dias de hoje. 
Bom e bravo povo de outrora, que enfrentava os potentados e defendia os fracos, como ocorreu com o velho cajueiro então existente no cruzamento das Ruas Pedro Borges, Major Facundo e Liberato Barroso, chamada do Cajueiro, em razão do episódio que, nos tempos do Brasil-Colônia, sob o reinado de D. Maria I, foi palco o Ceará, governado à época pelo oficial da marinha portuguesa Luiz da Mota Féo e Torres, conforme relato de Gustavo Barroso, que o ouviu do professor Lino da Encarnação.

Nesse tempo Fortaleza era uma pequena aldeia, muito embora ostentasse os foros de capital do Ceará. Onde hoje se acha a Praça do Ferreira, existia uma série de casas conhecida por Beco do Cotovelo, de cuja extremidade partiam três incipientes ruelas. 
A que saía para os lados do Garrote possuía, em certo ponto, um grande cajueiro, à sombra do qual ficava o açougue do Fagundes.  Um dia, ao passar o governador por ali, cavalgando o seu ginete, um galho baixo da árvore arrancou-lhe o chapéu, lançando-o ao chão. 
Como o açougueiro descansava ali perto, o governador ordenou-lhe:

- Apanhe esse chapéu! 

O Fagundes fez que nem ouviu.  Não gostava de ser mandado, acostumado que era nessa vida livre que sempre levaram os primitivos colonizadores. O governador insistiu, sendo ainda desobedecido. Então gritou, irritado:

- Não me apanhas o chapéu, vilão duma figa, pois eu, que ia somente mandar cortar o galho baixo do cajueiro, agora vou derrubar tudo, e adeus açougue!

Do Palácio, outrora aquela casa antiga e baixa guardada por uma muralha com pesados portões, na Rua Conde D’Eu, onde funcionou o Mercado Central, partiu a ordem de deitar abaixo o cajueiro. 
O açougueiro, auxiliado por outros moradores, não deixaram que os soldados executassem a ordem do governador. 
É que o Fagundes lançara pela provinciana cidade o seu grito de revolta. Em seu auxilio vieram outros açougueiros, flandeiros, merceeiros, ferreiros, quem quer que tivesse uma profissão definida, até mesmo os pescadores da Prainha, armados todos, de cacetes, pedaços de pau, pedras  e fações. 
A tropa carregou. 
 A prepotente  autoridade acabou desistindo de mandar derrubar o cajueiro.

A Residência dos Governadores, na Rua Conde D'Eu. Em 1929 o então prefeito Álvaro Weyne mandou demolir o imóvel, depois de mandar fotografá-lo (Arquivo Nirez) 

No mesmo local da residência dos Governadores foi construído o antigo Mercado Central - foto de 1932 (Arquivo Nirez) 

A velha residência dos Governadores, de onde partiu a ordem não cumprida, prédio  tradicional e histórico de nossa capital, foi demolido alguns anos depois, por ordem de quem, por obrigação deveria conservá-lo: o poder público.  

Naqueles tempos antigos, um pouco mais para o oeste, ficavam os terrenos baldios da Praça da Estação, onde se armavam os circos que eram a delícia da meninada. 

Praça José de Alencar, final do século XIX (arquivo Marciano Lopes)

Para o sul, a atual Praça José de Alencar, na qual existia um pequeno nicho que deu lugar à futura matriz do Patrocínio e em cujo centro haveriam de erguerem-se as paredes de inacabado teatro, finalmente destruído pela chuva e pelo descaso do s poderes públicos. 

 Prédio do batalhão de Segurança, depois Escola Aprendizes Artífices, na esquina da General Sampaio com a Liberato Barroso. (arquivo Nirez)

O Centro de Saúde, que ocupou o espaço onde antes esteve o Batalhão de Segurança, foi demolido em 1974, para dar lugar aos jardins do teatro José de Alencar (arquivo Nirez)

Ainda não existia, em 1887, a Escola Normal, depois Grupo Escolar José de Alencar e mais tarde Faculdade de Medicina, Odontologia e Farmácia, atual IPHAN, nem o Quartel de Segurança, destruído após a revolução de 1930 para, no mesmo terreno, ser edificado o prédio do Centro de Saúde, que também desapareceu para dar lugar ao jardim do Teatro José de Alencar.

Mais para o sul, a Praça São Sebastião, em cujo centro erguia-se a capelinha da mesma invocação, custodiada pelo padre Pedro. A morte do sacerdote ocasionou o desaparecimento do singelo templo, do qual não restam quaisquer  sinais, nem mesmo o cruzeiro do patamar.

aspecto atual da Praça Paula Pessoa,  antiga Praça São Sebastião

Resgatando em parte a história do logradouro, foi construído um pequeno santuário em louvor a São Sebastião, inaugurado em 20 de janeiro de 2003, na administração de Juraci Magalhães (1997-2005). Fica nas dependências do Mercado São Sebastião

O vasto areal que era a praça tinha no seu entorno o açude do Padre Pedro, construído logo após a nascente do riacho Jacarecanga. O açude também foi urbanizado entre quatro ruas e mais tarde, totalmente aterrado.

Outra tradição da Fortaleza do século XIX eram os apelidos, espirituosos, mal recebidos a princípio, para acabarem incorporados aos nomes de batismo. 
As Pedrocas, filhas de um tal Pedroca, Pedro de Tal; as Itapipocas, por terem vindo daquela localidade; as Mundórias, em razão do pai, professor de latim, ter sido alcunhado de Mundório, por viver declamando mundus, mundorum; as Garapas, tias de Gustavo Barroso, por causa do pseudônimo com que o avô do ilustre escritor assinava seus artigos políticos: Zé Garapa; as Mississipis, em razão do pai ter possuído uma bodega denominada Ao Mississipi, aproveitando o intercâmbio forçado do sul dos estados Unidos com o Nordeste brasileiro durante a Guerra de Secessão; as Palhabotes, em vista do chefe de família ter montado estabelecimento comercial com o nome de O Palhabote.

Na Fortaleza de 1887, vagar de madrugada pelas ruas desertas não era proibido, e podia-se largar a voz no mundo, fazer o barulho que quisesse, tendo por testemunha a lua mais bonita que Deus fez, econômica lua, com quem uma vez os administradores fizeram um incrível contrato, tão simples e peremptório, que só deu certo porque os filhos da cidade eram também meio lunáticos.

Extraído do livro

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Cenas da Cidade Antiga

Fortaleza - 285 anos 

Forno crematório da municipalidade, no local onde hoje fica a SER I, onde funcionou a Sumov, entre a estação de trem do Otávio Bonfim e a Praça dos Libertadores. Ao fundo, o matadouro Público - 1910 (Arquivo Nirez). 

A carne verde chegava à tarde, vinda do matadouro e transportada em carroças. Em abril de 1880, a modernização: os bondes de tração animal da Companhia Ferro Carril do Ceará. A população de Fortaleza cabia em 25 bondes que transportavam até 28 passageiros por veículo. O ponto era na Praça da Carolina. 
Por 100 Reis rodava-se a capital. Ia-se do centro à estação, ou ao matadouro, admirando paisagens das Ruas da Alegria, da Amélia, da estrada de Messejana. 
Caprichosa, a companhia reservava os bondes João cotoco – sem coberta – para as noites de lua cheia. Dois burros puxavam o veículo, atendendo ao chicote e aos nomes próprios, das 6 às 21 horas. 
Fiéis à amizade, os animais só faziam força quando emparelhados com o companheiro de todos os dias.

 Avenida Tristão Gonçalves, década de 1980 (Nirez)

A Avenida Tristão Gonçalves, destoando das travessas e becos contemporâneos, era bem mais larga. 
Motivo: era a Rua do Trilho, lá correu o primeiro trem, em agosto de 1837. O feito da locomotiva Fortaleza juntou praticamente a população inteira da cidade – cerca de 8.000 pessoas. 
Diante da multidão estupefata, o pequenino trem rodou, cinco vezes seguidas, entre a Estação Central (Praça Castro Carreira) e a parada do Xico Manuel (Rua Liberato Barroso). A velocidade máxima da locomotiva era de 32 km/h.
 
 Vista da Praça do Ferreira a partir da Rua da Palma (Major Facundo). 
Ao fundo o Palacete Ceará (Rotisserie), à esquerda o Sobrado do Pastor e a Intendência Municipal. O coreto e a profusão de lampiões a gás ajudam a compor o belo cenário.
 (Arquivo Marciano Lopes) 

Era um suplicio adivinhar a cidade à noite, contando apenas com as lâmpadas de azeite em suas esquinas. Era preciso trazer um ou mais escravos, com uma lamparina clareando a rua. A iluminação pública foi iniciada em março de 1848, trocando-se a luz de velas pelo óleo de peixe. 
E assinando contrato com a lua: os 44 lampiões eram acesos das 6 da tarde até que amanhecesse o outro dia ou até que visse a lua. 
Na hora da ave-maria, Chico Lampião aparecia com uma escada nos ombros, fósforo à boca, ziguezagueando pela cidade, acendendo os lampiões. Assim foi até setembro de 1866 (ou 67 conforme alguns autores), quando descobriram a qualidade da iluminação a gás carbônico, que equivalia a luz de 10 velas. 
O contrato com a lua foi renovado até 1934/35, data da chegada luz elétrica.

 O Estoril na época em que funcionou como cassino dos soldados americanos (Arquivo Nirez)

O Estoril nasceu Vila Morena, em 1915. 
De residência virou cassino. Coisa dos americanos, que durante a 2ª. Guerra improvisaram diversão com jogos, coca-cola e mulheres alheias. 
Nessa época apareciam zepelins no  céu de Fortaleza que patrulhavam a costa cearense procurando submarinos alemães. 
O escritor Moreira Campos foi nomeado inspetor do quarteirão que ele residia: tomava conta, tinha responsabilidade, instruções e orientações para os demais moradores. A qualquer bombardeio, fugir para a primeira casa que encontrasse aberta.

 Avenida Caio Prado, a mais elegante do Passeio Público, no belvedere, de frente para o mar. Era frequentada pelas familias aristocráticas. Os extensos bancos anatômicos eram subdivididos e formavam cadeiras com braços. Era costume familias se encontrarem no Passeio Público.
 (arquivo Marciano Lopes) 

O hábito de tomar uma fresca, cadeiras na calçada, remonta ao tempo em que as casas eram conjugadas, como no interior, uma escorando a outra. Pequenas e quentes, sem espaço interno disponível, os moradores iam para a calçada, onde passeava o vento que vinha do mar. 
O comércio era do tipo misto: era também moradia. A sala se adaptava em venda, bodega, armazém. Então, calçadas e ruas ampliavam a casa; as visitas eram recebidas, primeiro na praça. Quando as residências passaram para a periferia, o Passeio Público deixou de servir às famílias.

 Rua Major Facundo, década de 1970, trecho Praça do Ferreira (Arquivo Nirez)

Na década de 1950, a loja Rouvanni Roupas, localizada na antiga esquina da Broadway, esquina das Ruas Major Facundo com a Guilherme Rocha, na Praça do Ferreira, promoveu um dos maiores escândalos em Fortaleza.
 Expôs em uma de suas vitrines uma camisa vermelha, o que causou ajuntamento de pessoas que entre incrédulas e horrorizadas, paravam para ver a peça. 
Era uma camisa de modelo convencional em tecido de algodão, a polêmica toda era devido a cor vermelha. Homem usando camisa vermelha, em Fortaleza, década de 50? 
Nem pensar.






Anúncios de estabelecimentos comerciais em funcionamento em Fortaaleza na década de 1950. Quem conhecer uma camisa trubenizada - do primeiro anúncio, da A Cruzeiro  - favor informar aqui. 


os anúncios são do livro Os Anos Dourados, de Marciano Lopes.
fontes:
Revista Fortaleza, fascículo 9
Os Anos Dourados, de Marciano Lopes