segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Serenatas na Janela



Até meados dos anos 70 os namorados e apaixonados de Fortaleza contavam com uma arma de sedução que os tempos modernos trataram de eliminar: as serenatas. Munidos de violões, os rapazes visitavam as janelas das namoradas entoando canções românticas.  As músicas falavam de amores, de saudades, de traições e partidas. Como nem todos tinham talento ou vocação para cantor, quase sempre um amigo que tinha boa voz, ou que sabia tocar violão, era convocado para seresteiro. Ficava escondido das vistas da moça, enquanto o namorado fingia cantar para ela.   
Otacílio de Azevedo, em Fortaleza Descalça relata essa prática, da qual o próprio autor, também participava. Conta sobre uma em especial, “numa noite, sob um céu límpido e claro luar de agosto” que terminou com os seresteiros batendo em retirada, em desabalada carreira, ao ouvirem, gritos e berros, lamúrias, reclamações e insultos. Um barulho infernal, um pandemônio se formou dentro da casa fechada, e antes que as portas se abrissem, os românticos rapazes  se puseram em fuga, “dentro da noite agora escura como se um mundo de alcatrão se houvesse derramado sobre aquela rua desprezada de Deus...”
As serenatas são músicas (um tipo delas) que tem em suas melodias trechos de curta duração. São sempre cantadas, e não faladas. Normalmente são feitas durante a noite e, segundo manda o roteiro, são feitas embaixo de uma janela, sempre dedicados a uma donzela,  que deve aparecer na janela para apreciar a serenata. É  considerada uma declaração de amor, seja para contar a respeito do sentimento ou para reafirmar o seu valor.  No Brasil as serenatas são mais conhecidas como serestas.
Em Fortaleza era frequente e bastante comum começar um namoro dessa forma. Os encontros eram mais raros porque as moças geralmente não tinham permissão para sair de casa sozinhas, então os primeiros contatos aconteciam nas festas, as famosas tertúlias. E a serenata era uma forma de demonstrar interesse em iniciar um relacionamento, ou reafirmá-lo. 

 Cândido Colares, apresentador do Noticiário Relâmpago, na TV Ceará
 
E histórias memoráveis se contam desses tempos. Como a do jovem namorado, tão jovem que a família não permitia que chegasse em casa depois das 22 horas. Assim o jovem namorado resolveu fazer uma serenata para a amada dentro de um horário que lhe permitisse retornar à casa sem contrariar as determinações dos pais: convidou um cantor e lá se foram, para a casa da moça, onde iniciaram a cantoria. Logo depois foram expulsos pelo pai da moça, irritado porque os seresteiros chegaram bem na hora do Noticiário Relâmpago, exibido por volta de 21 horas na TV Ceará canal 2.
  
 vitrolas de pilha também eram usadas nas serenatas (foto do Mercado Livre)
 
Por esse tempo as serestas já eram feitas com as inovações permitidas na época: muitas eram feitas ao som de vitrolas que funcionavam à pilha. Numa dessas serenatas, o disco emperrou e ficou repetindo o mesmo verso da musica “Perfídia”, na voz do trio Irakitan: “Perfídia, mandaste em troca”.   
Mas o modo de fazer serenata evoluiu ainda mais quando surgiram as primeiras emissoras de rádio FM, que rodavam músicas sem qualquer interrupção por várias horas. E foi durante uma romântica serenata que o locutor resolveu interromper a sequencia musical para gritar o nome da emissora: Dragããããão!!!


Pesquisa.
Fortaleza Descalça, de Otacílio de Azevedo
A Origem das Serenatas - 
disponível em  http://cultura.culturamix.com/curiosidades/a-origem-das-serenatas
histórias emprestadas  de alguns amigos

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