quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O Apartheid nos Antigos Cinemas



Cine-teatro Majestic-Palace, na Rua Major Facundo (foto Nirez)

Vem dos primeiros cinemas fixos de Fortaleza, na década inicial do século XX, a preocupação em criar uma área isolada para a camada social de mais baixo poder aquisitivo. A esse segmento de público, foi reservado espaço restrito da 2ª. classe, popularmente chamada de geral. Esse setor da plateia trazia o inconveniente de ser localizada quase sempre, próxima a tela e, em pelo menos dois de nossos antigos cinemas, por trás da tela. 

 Cine Rio Branco, o segundo cinema fixo de Fortaleza foi inaugurado em 04 de setembro de 1909, na Rua Barão do Rio Branco, 71/73

A geral era extremamente desconfortável, sendo comum o uso de bancos corridos, duros e sem encosto, a que se tinha acesso por entradas separadas, para evitar o constrangimento ao público seleto dos cinemas da simples aproximação dos telespectadores humildes.
O cinema Rio Branco, localizado na Rua Barão do Rio Branco, adotou uma entrada para a Geral pela rua da Assembleia (atual Rua São Paulo), iniciando esse processo seletivo.

Cinema Rio Branco – A Empreza Muratori e Cia para maior comodidade do público e exmªs famílias, abriu uma porta à Rua da Assembleia para  a entrada e  saída da 2ª. classe. (A República, 16 outubro de 1909).

Essa era uma forma de apartheid que se estabelece nos cinemas sob critérios de condição socioeconômica e prevalece em todos os cinemas que aceitam pessoas de baixa renda em suas salas de projeção.

 Sala de projeção do Cine-teatro Majestic-Palace, a geral ficava num lugar mais afastado da tela e tinha entrada separada para o chamado "poleiro"

No imponente Cine Majestic, que durante 38 anos teve a sua entrada social pela Praça do Ferreira, distanciado da geral pelo menos até o incêndio que lhe devorou o prédio de cinco andares  em abril de 1955, e obrigou a criação de novo acesso  pela Rua Barão do Rio Branco. O público que se destinava a geral sempre fez uso de uma porta estreita, nos fundos do prédio, que levava à escada para o terceiro balcão ou torrinha. 
Como era comum o uso de tamancos de madeira pela população pobre,  os espectadores da geral se viam obrigados a deixar seus calçados ao pé da escada, subindo para o chamado poleiro sem fazer barulho. Na saída, cada qual se apossava de qualquer um que lhe coubesse no pé. 

Cine Moderno - vista interna

A seleção dava-se naturalmente pelo preço dos ingressos e também pela auto exclusão de pessoas mal vestidas das animadas salas de espera, onde desfilavam roupas de classe e, em determinadas sessões, em que se ostentavam luxo. As empresas impediam discretamente o acesso de pessoas que não atendessem ao padrão convencionado, e em alguns casos, fixavam claramente a proibição de trajes populares. 

traje das frequentadores dos cinemas de Fortaleza. Para os homens era obrigatório o uso de paletó e gravata
 
Esse critério elitista era absoluto em relação ao cinema que detinha o primeiro nível do setor exibidor, até que, cedendo esse lugar a outro melhor, iniciava o seu processo de decadência, abandono e degradação. Assim foi quando o Majestic cedeu sua posição para o Moderno, em 1921; o Moderno perdeu essa primazia para o Diogo, em 1940; e este para o luxuoso Cine São Luiz, em 1958. 

 Cine Diogo, inaugurado em 7 de setembro de 1940, só perdeu a posição de mais importante, moderno e confortável salão do grupo Severiano Ribeiro, em 1958, com a inauguração do Cine São Luiz. 

Em 1940, o Cine Diogo, por ser luxuoso e confortável, impôs o paletó e as senhoras e senhoritas, vestidos requintados. Ingressar no Diogo era status, pois a rígida fiscalização e o eficiente gerenciamento exigiam do público masculino paletó e gravata, enquanto que as senhoritas faziam verdadeiros desfiles de moda com seus belos vestidos mais para o traje a rigor do que para o esportivo. Essa tendência seletiva desde a sua inauguração, despertou o movimento no comércio de moda principalmente para atender senhoras e senhoritas que se preocupavam em desfilar seus vestidos elegantes. Há publicidade na imprensa, mesmo antes da inauguração, tendo como alvo o público do cinema de elite, a exemplo do anúncio do Correio do Ceará, de 6 de setembro de 1940.

Inauguração do Cine Diogo 
para inauguração do cine chic da cidade, compre o seu chapéu no Atelier da madame Mendonça. Rua Floriano Peixoto, 884.


Os costumes mudaram e, nos anos 50, os homens costumavam usar as camisas largas, de brim ou linho, próprias para o clima quente de Fortaleza e que eram chamadas de slacks. Quando da inauguração do Cinema Jangada, primeira das salas do grupo Cinemar, o empresário Barros Leal, preocupado em fixar o nível social, estabeleceu restrições:
A fim de evitarem-se constrangimentos, a Direção do Cinemar avisa não ser permitida a entrada no Jangada de cavalheiros trajados de slacks. Somente nos anos 60 começa a atenuar-se o controle e há menores exigências quanto o padrão e qualidade de roupa.

Extraído do livro de Ary Bezerra Leite
A Tela Prateada

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