sexta-feira, 11 de maio de 2012

O Coqueiro do Palácio

Por vários motivos certas árvores se tornaram famosas e outras curiosamente célebres, lembradas pela história ou pela tradição. Fortaleza teve as suas, que ainda não se perderam de todo na distância dos tempos. Uma dessas árvores foi o Coqueiro do Palácio.

Palácio da Luz sede atual da Academia Cearense de Letras 

O Coqueiro do Palácio, ou mais precisamente, do largo do Palácio pode ser considerada uma árvore política. Nasceu sob o signo do partidarismo e foi abaixo no calor duma reação partidária. A queda o imperialismo de D. Pedro fez vir à tona a rebeldia de 1817 e 1824. 
No dia 13 de maio de 1831, mais de um mês depois, é que chegou a Fortaleza a noticia da abdicação, vinda a bordo do brigue inglês Atlas, dando conta de que o povo do Rio de Janeiro, já não podendo mais suportar o jugo do partido recolonizador, pegou em armas, e sem derramar uma gota de sangue, fizeram baquear o partido, protegido de D. Pedro I, que abdicou da coroa em favor do seu filho Pedro II. 

Esta é uma das raras fotos da atual Praça general Tibúrcio quando ainda era Largo do Palácio, em 1856. No mesmo ano passou a ser chamado Pátio do Palácio e posteriormente, Praça do Palácio. Com a colocação da estátua do General Tibúrcio, passou a se chamada pelo nome desse herói da Guerra do Paraguai. (acervo Marciano Lopes)

Praça General Tibúrcio em 1912, pouco antes da reforma promovida pelo intendente Ildefonso Albano (arquivo Nirez)

As comemorações duraram três dias, com reuniões em Palácio, tiros de artilharias, cânticos patrióticos. Entre todos os festejos, uma solenidade inédita: João Carlos da Silva Carneiro plantara um coqueiro no Largo do Palácio para servir de memória ao glorioso fato. Nesse mesma noite, o povo destrói no Campo da Pólvora (Passeio Público), a forca mandada armar em 1825 para suplício dos participantes da Confederação do Equador. Repetia-se assim, em terras cearenses, o que fizeram os revolucionários franceses de 1879, plantando árvores da liberdade, que ornavam de flores e fitas com as cores nacionais.
  
 Praça dos Mártires (Passeio Público), antigo Campo da Pólvora 

 Também o coqueiro da liberdade se engalava nas horas de contentamento. Em 1840, quando Alencar, na sua segunda gestão voltava de Sobral, onde fora debelar, focos de desobediência comandada Francisco Xavier Torres, os seus correligionários enfeitaram a árvore simbólica com bandeiras, e à noite, iluminando-a profusamente.


Aparência atual da Praça General Tibúrcio

Mas em 1841, o jogo político mostrava o seu reverso. O fracasso do Gabinete da Maioridade e a consequente vitória dos conservadores  refletiu-se no Ceará com a demissão de José de Alencar. O acontecimento exalta os ânimos, e quem vai pagar o preço é o coqueiro da liberdade, derrubado a golpes de machado, dizem, pelo mesmo João Carlos da Silva Carneiro, que também se chamou João Carlos da Silva Jataí e foi sogro do Boticário Ferreira, um dos membros mais prestigiosos da facção que surgia.
Muito se censurou a covardia do gesto, já que nada fizera a bela palmeira para merecer a afronta. Mas os desvairamentos político-partidários tocam, não raro, os limites do absurdo e do ridículo. 

fotos de Fátima Garcia
Extraído do livro
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão

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