sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O Bispo Dom Manuel e a Antiga Sé

O baiano Manoel da Silva Gomes (1874-1950) foi o terceiro bispo do Ceará e o primeiro arcebispo metropolitano de Fortaleza. Tornou-se conhecido nacionalmente como o bispo da seca. Isto, devido a campanha desenvolvida no Sul em prol dos flagelados do Ceará. 

Em 9 de fevereiro de 1912, D. Manuel foi efetivado como bispo auxiliar de Fortaleza. Entre suas importantes realizações está a transformação da Diocese de Fortaleza em Arquidiocese  e a criação dos bispados do Crato, Sobral e Limoeiro do Norte. 

A Paróquia do Carmo foi criada por D. Manoel (Nirez)

O terceiro bispo do Ceará criou treze paróquias, destacando-se as de Tianguá, Aracoiaba,  Senador Pompeu, Pacajus e Itapebuçu, além da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo em Fortaleza. Dom Manoel permaneceu à frente do arcebispado até 11 de novembro de 1941, quando passou o cargo ao sucessor, D. Antônio de Almeida Lustosa.

No período de 1933 a 1938, grande polêmica agitou a comunidade católica cearense. A antiga Sé, deveria ser demolida para dar lugar a um novo templo, mas amplo e mais seguro.  Alguns defendiam apenas uma reforma, outros, a demolição completa. 


Segundo cronista da época, o certo é que a população não gostou e reclamou. Havia um saudosismo antecipado entre os moradores, orientado pela elite intelectual. Protestava-se com base em vários argumentos,  inclusive as razões históricas e estéticas.

De inicio, D. Manuel era favorável a manutenção do prédio. Chegou a encaminhar ao Conselho Nacional de Engenharia um projeto de reforma.  Foi levantada a hipótese de se construir a nova catedral, preservando-se o antigo prédio. Mas não houve local que agradasse aos membros da comissão. 

O Cruzeiro erguido por Frei Serafim em 1847, foi demolido junto com a Igreja da Sé (arquivo Marciano Lopes)  

Naquela época, todas as instituições convergiam para perto do Porto, por onde transitavam os visitantes, visto que não havia meios de transportes rápidos e constantes.
Em razão do impasse,  a alternativa que restou foi a demolição do templo centenário e no seu lugar, construir uma nova catedral de rara beleza, para compensar o sacrifício a que todos se expunham.

A partir daí surgiu uma onda de reações e protestos contra a demolição da catedral. Apesar da repercussão, D. Manoel autorizou o inicio dos trabalhos de demolição que foram propostos pelos engenheiros. 

Praticamente se repetia a história da antiga catedral. Ela havia sido reconstruída sobre os alicerces da antiga Matriz de São José, e as obras de reconstrução duraram 32 anos, de 1821 a 2 de abril de 1854.

Uma grande multidão compareceu a última missa na antiga Sé (Arquivo Raimundo Girão)

No dia 11 de setembro de 1938, D. Manoel celebrou a última missa no local, fazendo emocionado sermão, pedindo apoio da população para a construção.  Pessoas que assistiram a celebração dizem que D. Manoel chorou ao anunciar a próxima demolição da Catedral. Aceitou a alternativa, pressionado pelo Conselho dos Engenheiros. 
Depois da cerimônia, a procissão carregando a imagem  de São José, Padroeiro da Paróquia,  saiu da Sé para a Igreja do Rosário.

Por  ocasião do inicio da demolição, conhecida como cerimônia das marteladas, falou em nome da cidade e da Comissão Construtora o Dr. Raimundo de Alencar Araripe. 
As críticas então recrudesceram, principalmente por parte dos escritores e intelectuais, o que fez com que o bispo caísse em depressão, recusando-se durante algum tempo,  a participar de eventos e cerimônias ligadas ao clero fortalezense.   

O engenheiro francês George Le Mounier, radicado no Brasil, ganhou a concorrência para a construção do templo.  No dia 15 de agosto de 1939, D. Manoel fez o lançamento solene da pedra fundamental, acontecimento que contou com a participação da comunidade e das mais altas autoridades do Estado.  Daí seguiu um longo trabalho de arrecadação de recursos até a conclusão da obra,  39 anos depois.  


Dom Manuel da Silva Gomes nasceu em salvador, no dia 14 de março de 1874, filho de Juvêncio da Silva Gomes e Elisa Pinto da Silva Gomes. Em 1886 entrou para o Seminário, ordenando-se sacerdote em 15 de novembro de 1896.

No Ceará, durante seu arcebispado, dedicou-se a causa das obras de caridade, principalmente durante a seca de 1919, quando enfrentando incompreensões e muita dificuldade, percorreu todo o Brasil, em busca de ajuda para as vítimas do flagelo da estiagem.

No Estado de São Paulo, foi onde obteve maior apoio para sua causa, razão pela qual solicitou e  conseguiu junto as autoridades municipais de Fortaleza, a mudança do nome da Rua da Assembleia para  Rua São Paulo, que muitos julgam tratar-se de uma homenagem ao santo. 

D. Manuel deixou o cargo em 1941, por problemas de saúde – sendo substituído por D. Antônio de Almeida Lustosa – indo para Salvador, sua terra natal. Voltou para Fortaleza em 1943, passando a residir na Avenida do Imperador, onde ficou até 1945, quando prostrado, ficou de cama durante cinco anos até falecer em 1950.

Igreja do Rosário, onde foi velado o corpo do bispo D. Manuel (arquivo Marciano Lopes)

Seu corpo foi para a Igreja do Rosário, onde foi velado. O sepultamento ocorreu na cripta da catedral em construção, tendo o cortejo saído da Igreja do Rosário percorrido as Ruas General Bezerril, São Paulo,  Visconde de Sabóia e Conde d’Eu até a Catedral.  

Entre outras realizações de D. Manuel ressaltam-se o Circulo de Operários Cristãos e o Jornal O Nordeste.  Fez a doação de terrenos às irmãs de caridade para a construção da Escola de Enfermagem, Escola Doméstica São Rafael, Colégio Santa Maria Goretti, Pensionato das Moças e uma casa para formação religiosa.

A Avenida Dom Manuel, antigo Boulevard da Conceição, recebeu esse nome em homenagem ao religioso.

Fonte:
Rogaciano Leite Filho

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