quarta-feira, 29 de junho de 2011

O Mané Coco do Café Java

A mocidade elegante e intelectual que marcou época em Fortaleza, pelas alturas do ano de 1892, tinha seu ponto obrigatório no Café Java, um quiosque modesto, armado no canto da Praça do Ferreira, em frente ao edifício da Rotisserie,  hoje Caixa Econômica.
Era naquele local que reinava a boêmia literária que caiu no gosto do público, e de que nasceu a controvertida Padaria Espiritual, assinalando uma das épocas mais curiosas da história de Fortaleza. 

Café Java, um dos quatro cafés localizados nos cantos da Praça do Ferreira. Ali nasceu a ideia de se criar, em 1892, a Padaria Espiritual. O Java data da década de 80 do Século XIX. Foi demolido pela reforma da praça em 1925. 
(Foto de 1906, arquivo Marciano Lopes)

O Café Java tinha na figura do seu proprietário, que se chamava Manoel Pereira dos Santos, e atendia pela alcunha de Mané Coco, um dos tipos mais bizarros daqueles tempos.
O Mané Coco – segundo a descrição de Antônio Sales – era uma excelente pessoa, muito inteligente, embora destituído de cultura. Andava sempre vestido de um terno de fraque de cor cinza, sempre com uma grande rosa à lapela, e com a originalidade de nunca usar gravata. A exclusão da gravata o excluía de todas as festas e solenidades. 
Espírito alegre e folgazão tinha, todavia, uma alma generosa: aos sábados comparecia à sua porta uma multidão de mendigos, quem distribuía esmolas, com a frase habitual:

- vá trabalhar meu amigo, pois quem não trabalha não tem direito á vida!

Gozador, para tudo tinha a sua piada predileta.  Leitor apaixonado de Guerra Junqueiro, sabia de cor e salteado o Dom João e, a propósito de tudo ou sem propósito algum recitava trechos do imortal poema. 
Se via passar em frente ao Java alguma prostituta decadente, lá vinha uma citação de Dom João:

Nós somos, D. João, as pálidas amantes
Que tu assassinaste a rir e a cantar

Se passava um enterro de criança, dizia

Deixai, deixai voar as andorinhas
Em busca das paragens luminosas



Aspecto da Praça do Ferreira naquela época dos cafés e da Padaria espiritual. Dois ângulos do   Jardim 7 de setembro, orgulho da remodelação feita na praça pelo intendente Guilherme Rocha em 1902. Demolido em 1920 na reforma empreendida pelo prefeito Godofredo Maciel. (Foto de 1906, arquivo Nirez) 

Nas horas vagas das labutas do Café, dedicava-se à mecânica, consertando toda espécie de relógios e de máquinas de costura, dos quais, não raro, contavam as más línguas, sobravam peças que eram honestamente devolvidas num embrulho, ao seu legítimo dono. 
Em razão de sua popularidade, um dia, nos primeiros tempos da República, os amigos se lembraram de fazê-lo subdelegado de polícia, cargo que chegou a exercer, até que, sem um motivo plausível, foi demitido por telefone. Mané Coco indignado,  comentava o acontecido:
- isto é lá terra!  Pois se chama um homem de bem ao telefone, em sua casa, para dizer: "estois" demitido!
Quando havia qualquer incêndio na cidade, Mané Coco era chamado, com urgência, para apagar o fogo sozinho, munido unicamente de dois baldes de madeira e uma machadinha. Desse modo, acumulava ele também as funções de bombeiro. 
Mas sua inclinação acentuada, era, porém, pela classe dos literatos e dos poetas, que no Java tinham uma acolhida carinhosa e franca. 

Padaria Espiritual (Arquivo Nirez)
Assim é que, sob o teto do seu popular quiosque de madeira, nasceu, com sua ajuda material, a célebre Padaria, idealizada por Lopes Filho, Ulisses Bezerra, Sabino Batista, Álvaro Martins, Temístocles Machado, Tibúrcio de Freitas e Antônio Sales. 
As primeiras reuniões preparatórias, em maio daquele ano, foram feitas no Java, num recanto que o Mané Coco preparara, com requintes especiais, para a rapaziada intelectual.  E quando a Padaria andava em franca prosperidade, Mané Coco jamais esqueceu de festejar o aniversário de um padeiro. 
Embandeirava o Café Java, iluminava-o à noite, fazia uma enorme jarra de aluá, que era distribuído aos fregueses e elaborava um balão gigante, com dez metros de comprimento, com o letreiro padaria espiritual, para segundo ele, levar para o céu a notícia dos nossos feitos.  Assim o nome de Manoel Pereira dos Santos, o popular Mané Coco, ficou ligado à história da maior sociedade literária de então, o qual participou ativamente do glorioso apogeu da Padaria Espiritual.

Fonte:
Raimundo de Menezes.

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei essa história. Parabéns continue assim resgatando memórias. Muito obrigada por compartilhar.