sábado, 9 de abril de 2016

Uma Vila Inexpressiva

A cidade antiga é próxima, pois é o lugar que reconhecemos como casa; ou como deveria ser uma Fortaleza. Então temos o nosso encontro marcado com o tempo, o tempo de fazer da cidade o que de melhor seria para cada um de nós; com o tempo de construirmos a cidade que sonhamos e que perdemos. 
(do artigo O Encontro marcado com o tempo do professor Antônio Otaviano Vieira Junior) 

Centro de Fortaleza  (foto de Muhammad Said)

Uma das Capitanias hereditárias criadas na época da colonização portuguesa, a Capitania do Ceará foi praticamente relegada ao abandono por parte do seu donatário, Antônio Cardoso de Barros. Apenas índios habitavam o sitio onde viria a surgir Fortaleza. Somente em 1603, o açoriano Pero Coelho de Sousa construiu o forte de São Tiago, na Barra do Ceará, ao redor do qual nasceu o povoado de Nova Lisboa.

Vista da Barra do Ceará com o Forte de São Sebastião. Desenho de Frans Post - 1645 

Em 1612 o capitão português Martim Soares Moreno edificou o forte de São Sebastião no mesmo local, mais precisamente junto a ermida de Nossa Senhora do Amparo.

A Capitania do Ceará esteve subordinada à Capitania do Maranhão e Grão-Pará e depois a Pernambuco, além de ter sido alvo da cobiça colonialista europeia.

Forte de São Sebastião, na Barra do Ceará, construído em 1612 por Martim Soares Moreno, no mesmo local onde,  em 1603, o açoriano Pero Coelho, erguera o fortim de São Tiago. 

Em 1637 chegou ao Ceará a primeira expedição holandesa que ocupou o semi-abandonado  forte de São Sebastião, onde permaneceu por sete anos explorando sal e âmbar gris, até que seus integrantes foram dizimados pelos índios

Outra expedição holandesa comandada por Matias Beck, desembarcou em 1649 no Mucuripe, e construiu o forte Schoonenborch, na embocadura do Riacho Pajeú, para defender-se dos nativos aliados dos portugueses, ali permanecendo também por sete anos. Assim que os invasores foram expulsos, o forte foi apropriado pelos portugueses e renomeado de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. 

Entre 1660 e 1698 surgiu um acanhado povoado, no qual foi erigida uma capela dedicada a Nossa Senhora da Assunção, além de uma praça de armas. 

A Carta Régia que autorizou a criação da Vila do Ceará ou de São José de Ribamar em 1699, originou muita polêmica em torno da questão fundamental onde estabelecer o Pelourinho, coluna de pedra ou madeira simbolizando a autonomia municipal. Os desentendimentos entre as autoridades levaram a decisão de elevar Aquiraz à condição de vila e sede da Capitania em 1713.
    
A decisão de instalar a vila em Aquiraz não foi das mais acertadas. Em agosto de 1713 os índios atacaram aquela comunidade ocasionando muita destruição e morte – cerca de 200 pessoas  perderam a vida –  levando muitos habitantes a buscarem proteção dos ataques no fortim de Nossa Senhora de Assunção.  Dos ataques dos índios Paiacus e Anassés, só escapou quem fugiu para Fortaleza. 

A ofensiva levou os próprios integrantes da Câmara, os chamados camareiros, a mudarem de ideia. Passaram então a defender que a sede da Vila do Ceará deveria ficar em Fortaleza. 

 Primeira planta da Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, de 1726, atribuída ao capitão-mor Manuel Francês. O traço forte do Pajeú divide a Vila em duas.

Contrariado com a situação, o rei de Portugal, em vez de simplesmente transferir a sede da vila, mandou criar outra. Assim, a 13 de abril de 1726 foi instalada a vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, a segunda do Ceará,  pelo capitão-mor Manuel Francês. A motivação para a instalação desta segunda vila foi o de incentivar o desenvolvimento da capitania.
 
Planta da Villa de Fortaleza de Antônio da Silva Paulet

A "Planta da Villa", elaborada por Antônio da Silva Paulet, em 1818, mostra prédios dispersos nas margens do Pajeú e na Prainha, e caminhos que chegavam do interior. Coube ao mesmo Silva Paulet a proposta de um novo arruamento para a vila, o projeto e a construção da nova Fortaleza da Assunção.

fontes: 
Fortaleza, 27 Graus - Prefeitura de Fortaleza
História do Ceará - Airton de Farias 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Conjunto Palmeiras

Ao contrário dos bairros que surgiram da formação de grandes conjuntos habitacionais, o Conjunto Palmeira nasceu da indignação e do espírito de luta por mudança de vida de algumas pessoas. 

 
Duas vias de Fortaleza que foram afetadas pela construção da Avenida Leste-Oeste na primeira metade dos anos 70: o final da Rua General Sampaio e a Rua Franco Rabelo, que sumiu totalmente. Os moradores foram todos removidos.

A história do lugar começa no início dos anos 70, quando da construção da Avenida Presidente Castelo Branco, conhecida popularmente como Avenida Leste-Oeste, com o objetivo de ligar a zona industrial da Avenida Francisco Sá ao Porto do Mucuripe. Para tanto, era preciso "desocupar" aquela faixa de litoral, densamente povoada, e ocupada por população de baixa renda.
 
Ao mesmo tempo em que facilitou o acesso ao litoral oeste da cidade, e propiciou a abertura de vias secundárias e perpendiculares, a obra provocou mudanças de grande impacto social, com a transferência de moradores das favelas conhecidas como Cinzas, Moura Brasil, Oitão Preto, Braga Torres e Soares Moreno

inauguração da Avenida Leste-Oeste em 1974
 
Parte da zona de meretrício que ocupava essa região foi transferida para o farol do Mucuripe, conhecida zona de prostituição criada alguns anos antes, por ocasião da retirada de moradores para construção da Avenida Beira-Mar. As mulheres foram recebidas com reservas e desconfiança pelas prostitutas que já habitavam o local.  

Mas a  maior parte dos moradores, juntamente com outros residentes em  ocupações irregulares existentes em Fortaleza, foram transferidos para áreas periféricas, como o Conjunto RondonVicente Pinzon, bairro Jurema em Caucaia, e uma área então pertencente ao território administrativo do Jangarussu, hoje conhecida por Conjunto Palmeiras. 

Na época o processo de remoção dos moradores, chamado de "desfavelização", foi considerado pela administração municipal como a maneira mais eficaz de sanear diferentes problemas, através da eliminação da zona de baixo meretrício e de pontos de concentração de marginais.

Quando esses moradores chegaram ao Conjunto Palmeiras, em 1973,  se deram conta de que não haviam casas nem a mínima infraestrutura básica. O que havia era um brejo no meio do nada, com muito mato ao redor. A "Terra Prometida" pela Prefeitura de Fortaleza, não passava de um lugar inóspito, distante do centro, desprovido de beneficiamentos e de equipamentos públicos, sem energia elétrica, sem água, sem transportes ou vias de acesso.  

Eles foram transportados em caçambas e despejados no local, onde só havia mato e lama. Os novos moradores foram acomodados em barracas de lona e em barracos de madeira, onde se amontoavam seis famílias em cada barraco. Na mesma época, em um terreno próximo, surgia o aterro sanitário do Jangurussu. Do lixão, muitos moradores do Conjunto Palmeiras passaram a sobreviver, condição que permaneceu por vários anos. 

Mas aquela gente não iria se conformar com a situação de miséria em que vivia. Ainda na década de 1970, depois de muita pressão sobre o poder público, vieram as primeiras conquistas. A primeira delas foi a demarcação da área em lotes – que foram vendidos às famílias – e o fornecimento de material para a construção de um cômodo. Em seguida, a comunidade passou a contar com uma escola de ensino fundamental e um posto de saúde, inaugurados em 1978. 

Sede da Associação de Moradores 

Depois veio a luta por transportes, havia apenas um ônibus da Viação Cruzeiro, que levava os moradores do bairro pela manhã para o centro e os trazia a noite. Para que a região prosperasse, entendeu-se que era necessário mobilizar as pessoas em torno de um ideal comum, em ação integrada. Foi então que, em 1981, nasceu a Associação dos Moradores do Conjunto Palmeiras (Asmoconp), agremiação que teve – e ainda tem – papel decisivo na melhoria de vida daquela população.

Rua do Conjunto Palmeiras

A eletricidade só foi instalada por conta da artimanhas  dos moradores, quando os integrantes da Associação dos Moradores tiveram a ideia de largar o Superintendente da COELCE  dentro do conjunto, às 9 horas da noite, que desesperado por não encontrar o caminho, e desnorteado devido a falta de iluminação, caiu num buraco e foi resgatado pela população. Com pouco mais de um mês depois do episódio, a rede de eletricidade foi instalada. 

E assim se construiu o Conjunto Palmeiras. Para quem visita o bairro hoje, é difícil acreditar que um dia tenha sido tão diferente. Mais ainda, que a transformação do local tenha sido feita pelos próprios moradores, quase sem nenhum aporte do poder público. Foram os moradores que ergueram o bairro, com os poucos recursos que tinham, em regime de mutirões. Eles construíram as casas, as ruas, a creche comunitária, o centro de nutrição e o sistema de drenagem, como alguns dos exemplos.

Na década de 1980, a maternidade mais próxima do Conjunto Palmeiras ficava a 15 quilômetros de distância. Não havia linhas de ônibus no local, e ninguém possuía carro. As mulheres que estavam prestes a conceber passavam por momentos de aflição. Daí surgiu a ideia de criar a Casa de Parto Comunitária. A iniciativa facilitou bastante a vida das moradoras, durante vários anos, onde uma ajudava no parto da outra. No final da década de 1990, a Prefeitura de Fortaleza desativou o estabelecimento, alegando falta de higiene no local. 

Outra iniciativa popular que resultou em grande benefício ao Conjunto Palmeiras foi a criação do Centro de Nutrição. A escassez de recursos serviu para estimular a criatividade das mulheres da comunidade, que começaram a preparar pratos alternativos a partir de cascas de alimentos. O Centro foi um grande aliado no combate à desnutrição infantil, e permanece em funcionamento até hoje.

Banco Palmas 

Em 1998, mais uma ação relevante da Associação dos Moradores do Conjunto Palmeiras: a criação do Banco Palmas, uma rede de solidariedade entre produtores e consumidores. A ideia é implantar programas e projetos de trabalho e geração de renda, com a utilização de sistemas econômicos solidários visando a superação da pobreza urbana local. 

O Banco começou com 10 clientes a partir de um empréstimo de R$ 2.000,00, e foi se expandindo tanto no número de clientes quanto nos valores em circulação. A paridade da moeda Palma é vinculada ao Real (1 Palma= Real), o que facilita a conversão.
  

Em 2007, a Câmara Municipal de Fortaleza reconheceu, por meio de um decreto legislativo do vereador Guilherme Sampaio, o Conjunto Palmeiras como bairro, após ficar quase 30 anos como parte do Jangurussu. A iniciativa serviu para honrar o esforço daquelas pessoas, que tanto lutaram por melhores condições de vida. Por outro lado, criou um problema, na visão do coordenador do Banco Palmas. “A delimitação territorial não condiz com a área real, e isso tirou um pouco da identidade do bairro”, comenta Joaquim Melo. 

Além disso, segundo ele, os indicadores sociais apresentam números distorcidos, considerando a comunidade mais pobre e violenta do que realmente é, por abranger uma área três vezes maior do que o seu tamanho anterior.

Avenida Valparaíso, a principal via do bairro

População: 36.599 habitantes em 9.113 domicílios (IBGE-Censo 2010).  O Conjunto Palmeiras não aparece como bairro no mapa oficial da Prefeitura de Fortaleza, nem na delimitação dos bairros feita pelo IBGE.

Pesquisa:
http://hotsite.diariodonordeste.com.br/aniversariodefortaleza/noticia/conjunto-palmeiras-um-bairro-construido-pelos-proprios-moradores/

Contextualização: Análise do Processo de Formação  do Bairro Conjunto Palmeiras, em menção aos Agentes Produtores de Espaço.Marília Natacha de Freitas Silva
Simone Fernandes Soares

http://www.cidadessustentaveis.org.br/boas-praticas/banco-palmas

Desenvolvimento Urbano e Segregação Sócio-Espacial:Um Estudo da Avenida Leste-Oeste em Fortaleza – Ce
Carlos Henrique Lopes Pinheiro

fotos do arquivo Nirez, O Povo, Diário do Nordeste e Google Street view

quinta-feira, 31 de março de 2016

As Atribuições da Câmara Municipal na Fortaleza Antiga

No período colonial – 1530 a 1822 – apenas as localidades elevadas à categoria de vila podiam instalar uma câmara municipal. No Brasil as câmaras passaram a existir oficialmente a partir de 1532, com a instalação da Vila de São Vicente

A Câmara Municipal de Fortaleza, a segunda do Ceará, foi instalada quando o aglomerado recebeu a denominação de Vila de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, em 13 de abril de 1726, com a eleição de dois juízes e de três vereadores.
  
Ate 1889, todas as funções de organização sociopolítica da cidade eram exercidas pela Câmara Municipal. O poder era tanto que os camareiros se permitiam algumas excentricidades, como na vez em que o presidente da câmara propôs que a cidade fosse dividida em tantos bairros quanto fosse o número de vereadores.

E eram muitas as atribuições dos vereadores: cabia a Câmara Municipal fazer a fiscalização das lojas, vendas e açougues da cidade. Em companhia de um almotacé  (antigo oficial municipal encarregado de da fiscalização de pesos, medidas, preços e das condições de funcionamento dos estabelecimentos), os membros da câmara visitavam as casas comerciais, para detectar possíveis irregularidades.


Praça Carolina (atual Praça Waldemar Falcão) com o café Fenix - A câmara era responsável pela fiscalização dos estabelecimentos comerciais.
 

Nos registros feitos pela câmara, no ano de 1860, foi encontrado o seguinte registro: 
"nesta vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, Capitania do Siará Grande, nas casas da câmara, delas saíram em correição, o juiz presidente e mais oficiais da câmara, e correndo todas as lojas, não se condenando a pessoa alguma por se achar tudo corrente, só se indo ao açougue a ver e rever os pesos, achou-se o açougue indigno de que se cortasse carne nele por se achar o cepo e tarimba com uma grande porquidade em cima da sangueira da mesma carne e da mesma forma a casa cheia da mesma porquidade, paredes e chão, e igualmente fazendo-se da cadeira em que se assenta o almotacé, igualmente tarimba de se bater carne em cima, que achava muito porca, e por estes motivos, o mesmo Senado condenou o dito contratador em     6$000 (seis mil) réis para as despesas do Senado". 

A forma dos despachos era às vezes insolente.  João Joaquim, que requeria não se sabe o quê,  teve como resposta o indeferimento do pleito - "por ser falto de verdade". Tinha também a competência para impor o "Termo do Bem Viver", o que levava os moradores a subscreverem as maiores ignomínias. 

Termo do Bem Viver era um documento imposto a pessoas de conduta pouco recomendáveis, aos que causavam distúrbios ou que perturbassem a ordem estabelecida. Depois que a pessoa assinava este termo, ela ficava obrigada perante a justiça a não criar mais conflito. Se desrespeitasse, era punida de acordo com a lei vigente. 


A legenda da foto descreve o grupo acima como "uma bando de vagabundos que se reunia na Rua da Praia". Pessoa de conduta fora da normalidade eram obrigadas a assinar o Termo do Bom Viver ( fonte: Revista Ceará Ilustrado)

O professor régio da vila se indispôs com os vereadores, quase todos portugueses, por lhe terem recusado atestado para receber seus vencimentos. A câmara o fez assinar o seguinte termo: "Aos 267 do mês de novembro de 1802, em vereação da Câmara e Senado desta Vila, mandou o presidente dela e mais vereadores, por ordem dos ilustríssimos senhores governadores interinos desta Capitania, chamar à sua presença o pardo João da Silva Tavares, mestre de Gramática Latina desta Vila, para assinar termo na presença de todos de viver daqui em diante com a paz e quietação, conforme as leis do reino e costumes de que deve fazer profissão. E sendo vindo o dito João da Silva Tavares, pelo dito Senado lhe foi dito, que para ocorrer ao sossego e tranquilidade pública perturbada pela língua difamadora, libertinagem e péssimos costumes, movendo ainda dele João da Silva Tavares, o justo castigo que por eles merecia, o advertiram de não continuar mais no exercício de mexeriqueiro, enredador e perturbador do público, magistrados e repúblicos, pondo fim à dissolução de sua vida e assinando termo de viver como bom vassalo de sua Alteza Real e bom vizinho desta Vila, sob pena, se o contrário praticar, de ser na conformidade da lei exterminado para os lugares d'África, além das mais penas, com que seus delitos agravassem a primeira; o que sendo ouvido pelo dito João da Silva Tavares prometeu mudar de conduta debaixo da dita pena e assinou com o mesmo Senado este termo para a todo tempo constar da sua emenda ou recalcitração, conforme o disposto pelo Regimento do mesmo Senado e leis do Reino."  

A esse termo seguiu-se uma longa contestação entre a Câmara e o professor. A Câmara negou-lhe ainda atestados e ele agravou para o príncipe. Na concessão deste recursos, a Câmara, assistida por um assessor que tomou para a causa, prendeu o agravante porque, estando o termo de agravo já lavrado e em meio, o mesmo professor entrou com palavras impetuosas , dizendo ser o escrivão suspeito e por dizer que o insultavam com o tratamento de "pardo". Tavares ainda andou muito tempo em conflito com os vereadores, até que finalmente chegaram a um consenso.


Rua 24 de Maio trecho Praça José de Alencar - era atribuição da Câmara a abertura de vias


A Câmara também julgava crimes de injúria, contratando um assessor a quem pagava de 640 a 1$600 réis por cada conselho. Promovia a aposentadoria dos magistrados, designando a casa que deviam ocupar e fazendo-lhes a despesa que regulava em torno de $600 réis por mês.  O missionário frei Vidal teve igual favor quando veio ao Ceará. Em dezembro de 1790 a Câmara designou para residência do frade a casa do alfaiate Salvador, na Rua do Quartel

Tratava da abertura e conservação dos caminhos, e obrigava os camponeses a plantar mandioca e cereais diversos, sob pena de multa e cadeia. 


Em 1803 a Câmara de Vereadores lançou um estranho Código de Postura em que cada lavrador era obrigado a caçar  30 pássaros de bico redondo a cada ano: papagaios, periquitos e maracanãs


Uma postura de março de 1803 impunha a cada lavrador a obrigação de apresentar anualmente em Câmara, 30 cabeças de pássaros de bico redondo. Esta perseguição que era feita em todas as Câmaras da Capitania, se referia a papagaios, periquitos e maracanãs. 

A Câmara promovia manifestações de regozijo ou de pesar, graduando-se pela sensibilidade do governador. Em março de 1812, por ocasião do nascimento de um filho do infante D. Pedro Carlos, comunicado ao governador por meio de ofício, expediu editais para que a população o festejasse com luminárias, três noites consecutivas.

Em abril de 1816, sendo-lhe igualmente comunicado o decreto que deu ao Brasil o título de reino, em testemunho público da reconhecida gratidão pelo privilégio, ordenou que, em ação de graças, se expusesse o Santíssimo Sacramento na matriz da Vila no dia 12 de maio e se oferecesse a Deus o sacrifício de uma missa cantada, em que se pedisse a conservação do príncipe regente e sua família.

Quando foi comunicada a morte de D. Maria I, em 1816, mandou que todo o povo da vila e distrito vestisse luto rigoroso por seis meses e aliviado por um ano. Atendendo a que a pobreza e os escravos não podiam satisfazer rigorosamente a esta exigência, permitiu que homens trouxessem nos chapéus e as mulheres na cabeça, qualquer retalho preto. Os que se recusassem teriam 30 dias de cadeia para cada vez que fossem encontrados sem distintivo.


O prédio da Intendência Municipal foi o primeiro sobrado de tijolo e telha, construído por Francisco Pacheco de Medeiros em 1825. Em 1831 a Câmara comprou o prédio mudou-se para a nova sede em 1833. 
(foto do Arquivo Nirez)


Nas audiências gerais dos corregedores, solenidade a que comparecia todo o mundo oficial, vinha à Câmara em corporação ouvir os provimentos e advertências do magistrado. Lavrava-se de tudo um termo, que era assinado por ela e pelos repúblicos, como se encontra nos manuscritos do tempo.

fonte: Ceará (homens e fatos) de João Brígido
Revista Fortaleza, fascículo 4

quinta-feira, 24 de março de 2016

Bairro Cidade 2000

O Conjunto habitacional Cidade 2000, foi mais um conjunto residencial a dar origem a um bairro de Fortaleza. Surgiu em terras oriundas do parcelamento do Sítio Cocó, situado na margem esquerda do Rio Cocó, de propriedade da família Diogo. Foi construído com recursos do antigo BNH (Banco Nacional de Habitação), e inaugurado em 1970, numa região ainda despovoada, dividida em 46 quadras com duas alamedas cada uma, que levavam o nome de flores. 

Avenida Pontes Vieira, tendo à esquerda o bairro Dionísio Torres e a direita o São João do Tauape. Ao fundo as salinas do Cocó e a Cidade 2000 - 1973 (Foto de Nelson Bezerra)

Foi projetado pelo arquiteto Rogério Froes, com desenho que lembra a Taça Jules Rimet, troféu ganho pela Seleção Brasileira de Futebol, campeã da Copa do Mundo de 1970. O nome faz referência ao então distante ano 2000, pois em 1970, todos usavam este termo como sinônimo de futuro, prosperidade e avanço. 

Como sempre ocorria com os conjuntos habitacionais construídos naquela época, A Cidade 2000 também foi inaugurada com grande carência de infraestrutura. O prolongamento da Avenida Santos Dumont até a Praia do Futuro, com o objetivo de facilitar o acesso ao conjunto habitacional, só foi feito em 1976. Antes, chegar à Cidade 2000 era bastante difícil.
  
A distância era um desafio, de acordo com moradores mais antigos. A área onde o conjunto foi assentado era isolada da malha viária básica da cidade, os ônibus não chegavam até lá. No entorno, havia muito mato,  muitos morros e grandes espaços vazios.  O Jornal O POVO do início  da década de 1970 comparava a construção à Brasília feita anos antes por Juscelino Kubitschek. “Cidade 2000 caminha em ritmo de Brasília na Aldeota”, dizia a manchete de página do dia 6/2/1971. 

O Conjunto habitacional Cidade 2000 após a inauguração: as casas eram iguais, e guardavam alguma distância dos vizinhos. A ausência de arborização era absoluta (Foto de Nelson Bezerra)
 
Outro problema grave que afligia o Conjunto em seus primórdios era a coleta de lixo, feita de forma bastante precária. Em reportagem publicada em 24/03/1973, o jornal O Povo, denunciava:  "O serviço de limpeza pública não está atuando no conjunto habitacional Cidade 2000, localizado após o Hospital Geral do INPS, na Aldeota. Os poucos camburões de lixo ali localizados estão completamente cheios há dias e, como não exista outro local para colocar os detritos, os moradores depositam o lixo nas alamedas, formando verdadeiros monturos. Com o vento, aliás muito forte, pois o conjunto fica localizado perto da praia, o lixo espalha-se, provocando um mal-estar generalizado".

Prolongamento da Avenida Santos Dumont - 1975  (O Povo)

Com a construção e  ocupação da Cidade 2000 naquela parte de Fortaleza, e o prolongamento da Avenida Santos Dumont, ocorreu a expansão do sistema viário para o leste, e um acelerado processo de especulação imobiliária , abrindo-se novos loteamentos, sem nenhum acompanhamento do poder público municipal, e sem nenhuma infraestrutura, construindo-se residências de alto padrão em grandes lotes.

Avenida Santos Dumont, com o prolongamento até a Praia do Futuro. O motivo principal para a obra, foi construir um acesso para Cidade 2000 - 1973 (foto de Nelson Bezerra)
 
Além dos transtornos sociais causados pela especulação imobiliária, surgiram novos problemas decorrentes da degradação ambiental, gerada por aterros de lagoas e riachos e pelo desmonte de dunas. Os problemas ambientais também afetaram a Cidade 2000, com o surgimento do novo divisor de águas para a A Zona Leste - construção da Avenida Santos Dumont e o aterro da Lagoa de Três Corações, localizada nas imediações do conjunto. A partir do aterramento das lagoas, o lugar passou a registrar alagamentos, causando contratempos a pedestres e motoristas.  

A Paróquia do Divino Espírito Santo  foi fundada no dia 13 de setembro de 1974. (imagem Google)
  
Hoje a Cidade 2000 perdeu muitas de suas características originais.  O fato de ter sido construído em um local com grande potencial de valorização do solo, trouxe alterações no desenho do conjunto, e as muitas construções ao redor de vários empreendimentos imobiliários fez com que o bairro crescesse rapidamente em poucos anos. 

 
As casas da Cidade 2000, antes ordenadas em ruas estreitas e regulares, todas com o mesmo tamanho e modelo, ostentam hoje um segundo pavimento e ampliações variadas. O bairro conta com todos os tipos de comércios e serviços, como supermercados, bancos, restaurantes, etc.  Apesar dos nomes de flores que identificam as alamedas, por ali todos só se referem aos endereços pelas quadras, como bem mostra o mapa posto no meio da praça central.
  
Escola E.F.M arquiteto Rogério Froes

A Cidade 2000 tem 8.272 habitantes. São 3.576 homens e 4.696 mulheres, divididos em 2624 domicílios, segundo o Censo 2010 do IBGE. Limita-se com os bairros do Papicu, Dunas, Cocó e com o Rio Cocó, ao Sul.

 
fontes:
De Cidade a Metrópole: (trans)formações urbanas de Fortaleza, de Eustógio Wanderley Correia Dantas, José Borzachielo da Silva, Maria Clélia Lustosa da Costa.
Wikipédia
IBGE
Jornais O Povo e Diário do Nordeste

fotos de Nelson Bezerra do livro Cidade Saudade, Fortaleza anos 70

quarta-feira, 16 de março de 2016

Os Primeiros Anúncios Publicitários

 Os anúncios surgiram da necessidade de se comunicar algo a determinado grupo de pessoas, como uma forma de comunicação que, em um primeiro momento, fosse mais eficiente do que o boca-a-boca. E acrescente-se que o jornal, foi por longos anos, o seu principal veículo. 

Os primeiros anúncios consistiam de um texto puro, sem ilustrações, e sem título, embora não tenha demorado muito para aparecerem os primeiros impressos com desenhos e figuras. 

O primeiro anúncio de Fortaleza foi publicado sob forma de aviso no Diário do Governo do Ceará, jornal fundado para a propaganda do movimento republicano de 1824, que, mesmo após o fracasso da revolução, continuou a circular como órgão da contrarrevolução. Trata-se de uma despedida assinada pelo Padre Mororó onde comunicava sua partida para a Corte do Rio de Janeiro dentro de três dias.

Com o aumento do número de jornais e de outros veículos de comunicação, a prática de anunciar produtos ou serviços, ampliou-se naturalmente.  Pedro II, Cearense, O Sol, foram alguns dos jornais que circularam em Fortaleza.



O Jornal Pedro II circulou em Fortaleza entre 1840 e 1889. Era destinado a promover a política conservadora. Foi fundado a partir do periódico Dezesseis de Dezembro por Miguel Fernandes Vieira. O Cearense foi fundado em 04 de outubro de 1846, órgão do Partido Liberal, fundado por Frederico Augusto Pamplona, Tristão Araripe e Tomás Pompeu. Encerrou suas atividades em 1892, quando caiu o governo Clarindo de Queirós. Esses dois jornais eram os preferidos pelos anunciantes.


Anúncio publicado na Revista Verdes Mares - dezembro de 1932

Anúncios publicados em jornais na década de 1860, sem imagens:
 
O Sol (1863)
Delfina Maria da Conceição, moradora da Rua de Baixo, tem doces à venda de todas as qualidades, assim como aprompta qualquer encomenda com aceio e promtidão.

A Constituição (1865)
Vende-se quatro moradas de casa, cobertas de telha, uma com frente de tijolo e as outras de taipa, todas em bom estado, comprehendendo as ditas casas 120 palmos de terreno, e porção de fructeiras, bem como coqueiros, laranjeiras, limoeiros, araçazeiros, sidreiras, condeceiras, gravioleiras e outras mais desfructaveis: uma excelente baixa para capim, e banhos na Rua do Livramento desta cidade. 

 
Cearense (1866)
Ao amanhecer do dia 1 do corrente mez encontrei em minha salla uma porção de dinheiro; quem o tiver perdido apareça para lhe ser entregue; e, se por ventura é alguma restituição oculta, o sujeito que pretende fazê-la, procure-me para explicar-se, certo de que n’este negócio serão guardadas as devidas conveniências.
Fortaleza, 2 de fevereiro de 1866
O Vigário Miguel Francisco da Frota

Pedro II (1865)
Atenção! Para o baile do clube chegaram para o Bazar Cearense as verdadeiras luvas de pelica, de Juven, para homem e senhora. Rua da Palma n° 93.

Cearense (1865)
O abaixo-assinado compra e paga uma escrava de 14 a 20 anos de idade, sendo de bonita figura, e que tenha alguma idéia de engommado e cozinha.
Ceará, 28 de agosto de 1865
José Luiz de Sousa.

Pedro II (1868)
Achão-se a venda na Botica do Ferreira, além de outras, muitas coisas chegadas no último vapor, as melhores pílulas para sezões, assim como pílulas depurativas, reguladores, água ante-cancrosa, ótima injeção para gonorréias recentes e velhas, e o remédio mais eficaz para mordidas de animais venenosos.

Os anúncios impressos conseguiram ganhar mais espaço com o lançamento das revistas no início do século XX, onde páginas inteiras eram dedicadas a eles. Os anúncios, também eram denominados "Reclames”. 




 anúncios publicado em 1925, no Álbum do Ceará

No Brasil, a propaganda surgiu no Rio com a chegada  da família real, em 1808. Logo depois, chegou a São Paulo. Começou com os classificados. Em seguida, os anúncios ganharam ilustrações e, com o tempo, aprimoraram-se por meio de elaborados desenhos coloridos, cujo objetivo era chamar atenção para as ofertas.

Propaganda da Casa Albano no ano de seu jubileu em 1912




Anúncios de empresas cearenses publicados no Almanaque Hénault, no ano de 1913. O almanaque era produzido na França e impresso na Inglaterra. 

Fontes: 
Coisas que o Tempo Levou, de Raimundo de Menezes
Capítulos de História da Fortaleza do Século XIX, de Eduardo Campos
uma breve história dos anúncios publicitários. disponivel em
http://ibict.metodista.br/tedeSimplificado/tde_arquivos/5/TDE-2011-07-07T120055Z-979/Publico/Capitu
lo4pg86_108.pdf