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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Confederação do Equador - Por um Nordeste Independente

 

Foi um movimento revolucionário contra o governo do Imperador Dom Pedro I, em razão de sua mudança de postura e dos ideais defendidos antes da Proclamação da Independência, em 1822. Passado menos de dois anos desse evento, a insatisfação com as decisões políticas de Dom Pedro I já eram percebidas em segmentos da população, em razão de um conjunto de medidas autoritárias adotadas pelo imperador.


Em novembro de 1823 dissolveu a Assembleia Constituinte por discordar das limitações que seriam impostas ao imperador, e impôs o seu próprio projeto político para o País.  A Assembleia Constituinte era formada por representantes eleitos das províncias para elaboração de uma constituição para o Brasil. Porém, Dom Pedro não aceitou os termos propostos, e optou por dissolvê-la.

Em março de 1824 o Imperador instaura o Poder Moderador na primeira Constituição do País, criando um quarto poder, exclusivo do Imperador, "chave" de toda a organização política brasileira, destinado a manter a independência, o equilíbrio e a harmonia entre os demais poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário).




A Confederação do Equador foi a principal reação contra essa política centralizadora. Teve origem na Província de Pernambuco com adesão do Ceará, e demais províncias do Nordeste. Os revolucionários pretendiam fundar uma nação republicana, independente do resto do Brasil.


A revolta no Ceará foi marcada pela participação ativa de figuras locais, como Pereira Filgueiras (José Pereira Filgueiras), Tristão Gonçalves (Tristão Gonçalves de Alencar Araripe), Padre Mororó (Gonçalo Inácio de Loiola Albuquerque e Melo), Pessoa Anta (João de Andrade Pessoa Anta), Francisco Ibiapina (Francisco Miguel Pereira Ibiapina), Azevedo Bolão (Luís Inácio de Azevedo Bolão), José Carapinima (Feliciano José da Silva Carapinima) e Martiniano de Alencar (José Martiniano de Alencar). 

Em janeiro de 1924, a Câmara de Campo Maior de Quixeramobim sob a influência do padre Mororó (Inácio Loiola de Albuquerque declarou excluído do trono do Imperador Pedro I e a queda da Dinastia Bragantina, proclamando a República com um governo que ficaria a cargo de Pereira Filgueiras. O movimento teve forte apoio popular e de certas elites no interior, como na região do Crato.

Em 18 de abril as lideranças rebeldes ocupam Fortaleza e convocam uma reunião da Câmara e das pessoas com mais posses da Vila, onde Tristão Gonçalves foi eleito presidente temporário do Ceará. A partir desse evento, a preocupação maior foi com os preparativos para enfrentar a reação do império.

A reação do Império começou por Pernambuco, as forças monarquistas entraram em Recife em 12 de setembro de 1824; houve massacre da população que viu com terror os saques, incêndios e fuzilamentos. Depois avançaram pelas vilas do Ceará, dizimando as tropas republicanas. Diante da derrota nos sertões cearenses, Tristão Gonçalves, presidente temporário do Ceará, foi obrigado a deixar Fortaleza e partir para Aracati, para combater um levante monarquista. A Divisão Naval do Império aportou em Fortaleza a 18 de outubro de 1824, sob o comando de Lorde Cochrane que exigiu o fim imediato da rebelião. O movimento resistiu até dezembro de 1824. Os Chefes do movimento revolucionário, foram presos ou mortos.


Tristão Gonçalves foi morto a tiros nas imediações do povoado de Santa Rosa, antiga Jaguaribara. Teve o cadáver mutilado e deixado insepulto. Dias depois o corpo foi encontrado e sepultado por correligionários.


Pereira Filgueiras temendo ser assassinado ou preso e torturado, acabou se rendendo, foi preso e conduzido ao Rio de Janeiro, mas morreu durante a viagem. 


José Martiniano de Alencar foi preso na Bahia, enviado ao Rio de Janeiro e negou envolvimento com a Confederação do Equador. Por se tratar de importante líder político do Nordeste, foi perdoado pelo imperador em 1825.

Foram condenados à pena de morte os revolucionários Padre Mororó, Pessoa Anta, Francisco Ibiapina, José Carapinima, Azevedo Bolão, Frei Alexandre da Purificação, Antônio Bezerra de Sousa, e José Ferreira de Azevedo. Os três últimos tiveram a pena comutada em degredo para a Amazônia. Antônio Bezerra de Sousa morreu antes, no Cariri.

Os condenados deveriam ser enforcados, mas como ninguém quis fazer o papel do carrasco, foram fuzilados em 1825, no antigo Campo da Pólvora, depois chamado de Praça dos Mártires. 


A derrota dos confederados no Ceará, com a execução em praça pública, fortaleceu o poder das capitais e das autoridades representantes do governo imperial, que passaram a se impor ainda mais sobre o interior, controlando a província com maior eficácia. 


Fontes:

Revista do Instituto do Ceará – Personagens da Confederação do Equador no Ceará, de Júlio Lima Verde Campos de Oliveira-2024

História do Ceará, de Airton de Farias 

Fotos da Internet

quarta-feira, 16 de março de 2016

Os Primeiros Anúncios Publicitários

 Os anúncios surgiram da necessidade de se comunicar algo a determinado grupo de pessoas, como uma forma de comunicação que, em um primeiro momento, fosse mais eficiente do que o boca-a-boca. E acrescente-se que o jornal, foi por longos anos, o seu principal veículo. 

Os primeiros anúncios consistiam de um texto puro, sem ilustrações, e sem título, embora não tenha demorado muito para aparecerem os primeiros impressos com desenhos e figuras. 

O primeiro anúncio de Fortaleza foi publicado sob forma de aviso no Diário do Governo do Ceará, jornal fundado para a propaganda do movimento republicano de 1824, que, mesmo após o fracasso da revolução, continuou a circular como órgão da contrarrevolução. Trata-se de uma despedida assinada pelo Padre Mororó onde comunicava sua partida para a Corte do Rio de Janeiro dentro de três dias.

Com o aumento do número de jornais e de outros veículos de comunicação, a prática de anunciar produtos ou serviços, ampliou-se naturalmente.  Pedro II, Cearense, O Sol, foram alguns dos jornais que circularam em Fortaleza.



O Jornal Pedro II circulou em Fortaleza entre 1840 e 1889. Era destinado a promover a política conservadora. Foi fundado a partir do periódico Dezesseis de Dezembro por Miguel Fernandes Vieira. O Cearense foi fundado em 04 de outubro de 1846, órgão do Partido Liberal, fundado por Frederico Augusto Pamplona, Tristão Araripe e Tomás Pompeu. Encerrou suas atividades em 1892, quando caiu o governo Clarindo de Queirós. Esses dois jornais eram os preferidos pelos anunciantes.


Anúncio publicado na Revista Verdes Mares - dezembro de 1932

Anúncios publicados em jornais na década de 1860, sem imagens:
 
O Sol (1863)
Delfina Maria da Conceição, moradora da Rua de Baixo, tem doces à venda de todas as qualidades, assim como aprompta qualquer encomenda com aceio e promtidão.

A Constituição (1865)
Vende-se quatro moradas de casa, cobertas de telha, uma com frente de tijolo e as outras de taipa, todas em bom estado, comprehendendo as ditas casas 120 palmos de terreno, e porção de fructeiras, bem como coqueiros, laranjeiras, limoeiros, araçazeiros, sidreiras, condeceiras, gravioleiras e outras mais desfructaveis: uma excelente baixa para capim, e banhos na Rua do Livramento desta cidade. 

 
Cearense (1866)
Ao amanhecer do dia 1 do corrente mez encontrei em minha salla uma porção de dinheiro; quem o tiver perdido apareça para lhe ser entregue; e, se por ventura é alguma restituição oculta, o sujeito que pretende fazê-la, procure-me para explicar-se, certo de que n’este negócio serão guardadas as devidas conveniências.
Fortaleza, 2 de fevereiro de 1866
O Vigário Miguel Francisco da Frota

Pedro II (1865)
Atenção! Para o baile do clube chegaram para o Bazar Cearense as verdadeiras luvas de pelica, de Juven, para homem e senhora. Rua da Palma n° 93.

Cearense (1865)
O abaixo-assinado compra e paga uma escrava de 14 a 20 anos de idade, sendo de bonita figura, e que tenha alguma idéia de engommado e cozinha.
Ceará, 28 de agosto de 1865
José Luiz de Sousa.

Pedro II (1868)
Achão-se a venda na Botica do Ferreira, além de outras, muitas coisas chegadas no último vapor, as melhores pílulas para sezões, assim como pílulas depurativas, reguladores, água ante-cancrosa, ótima injeção para gonorréias recentes e velhas, e o remédio mais eficaz para mordidas de animais venenosos.

Os anúncios impressos conseguiram ganhar mais espaço com o lançamento das revistas no início do século XX, onde páginas inteiras eram dedicadas a eles. Os anúncios, também eram denominados "Reclames”. 




 anúncios publicado em 1925, no Álbum do Ceará

No Brasil, a propaganda surgiu no Rio com a chegada  da família real, em 1808. Logo depois, chegou a São Paulo. Começou com os classificados. Em seguida, os anúncios ganharam ilustrações e, com o tempo, aprimoraram-se por meio de elaborados desenhos coloridos, cujo objetivo era chamar atenção para as ofertas.

Propaganda da Casa Albano no ano de seu jubileu em 1912




Anúncios de empresas cearenses publicados no Almanaque Hénault, no ano de 1913. O almanaque era produzido na França e impresso na Inglaterra. 

Fontes: 
Coisas que o Tempo Levou, de Raimundo de Menezes
Capítulos de História da Fortaleza do Século XIX, de Eduardo Campos
uma breve história dos anúncios publicitários. disponivel em
http://ibict.metodista.br/tedeSimplificado/tde_arquivos/5/TDE-2011-07-07T120055Z-979/Publico/Capitu
lo4pg86_108.pdf

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Padre Mororó, herói da Revolução

Gonçalo Ignácio de Loiola Albuquerque e Mello, que acrescentou Mororó ao seu nome durante a Confederação do Equador, nasceu no dia 24 de julho de 1778, na povoação do Riacho Guimarães, em Sobral, filho do alferes Félix José de Souza e Oliveira – escrivão e vereador da Câmara de Sobral – e Theodósia Maria de Jesus Madeira. Depois de infância dedicada ao estudo da gramática latina, segue para Pernambuco, matriculando-se, com 22 anos, no Curso de Teologia, onde se aprofunda também em ciências físicas e história natural. Ordenou-se sacerdote em 1802, no Seminário de Olinda.

 Igreja matriz de Sobral

De volta ao Ceará celebra a primeira missa na Matriz de Sobral e exerce atividades religiosas em várias cidades do interior, especialmente em Boa Viagem, Santa Quitéria e Quixeramobim. Durante três anos foi professor de latim, em Aracati.
Em 1816 profere sermão de Ação de Graças em Fortaleza, nas comemorações da elevação do Brasil à categoria de reino, ocorrida através do decreto de 16 de dezembro de 1815. A atuação eloquente de padre Mororó chama a atenção do então governador Sampaio, que o convida para participar dos “oiteiros”, reuniões literárias e artísticas, nascendo daí uma estreita amizade.
Alguns anos depois Mororó se envolve com ideias liberais, motivado principalmente pelas leituras do jornal “Correio Braziliense” publicado em Londres por Hipólito da Costa. Em 1821 Padre Mororó já demonstra afinidade com o movimento. Onde passa residir, elege-se vereador. Com a notícia da dissolução da Assembleia Constituinte, ocorrida em 12 de novembro de 1823, o padre lidera movimento de repúdio à medida autoritária do Imperador, na Câmara de Quixeramobim. O jornalista João Brígido, em trabalho publicado em 1889, na Revista do Instituto do Ceará, afirma que a Câmara, em sessão de 9 de janeiro de 1824, declarou a deposição do trono do imperador e seus descendentes. Deliberou ainda que se curasse dos meios de substituir a forma de governo convidando as demais câmaras da província para cooperarem na organização de uma república.

 Rua Conde D'Eu, antiga Rua dos Mercadores e Rua de Baixo

Por esse tempo, a exemplo de outros, o padre Gonçalo, substituiu seu cognome, de Mello para Mororó, planta brasileira. Vêm dessa época os apelidos de Araripe, Ibiapina, Sucupira, Buriti, Antas, Sussuarana e tantos outros, que se perpetuaram na província e traduzem adesões à independência.
Em 1° de abril de 1824 surge o “Diário do Governo do Ceará”, o primeiro jornal publicado na província. Padre Mororó é escolhido diretor e redator do principal veículo de divulgação dos ideais republicanos. Por esta razão, Padre Mororó é considerado o patrono da imprensa cearense.
No dia 16 de agosto de 1824, em Fortaleza, na sessão do Grande Conselho do Ceará, cujo secretário é Padre Mororó, sob a presidência de Tristão Gonçalves, proclama-se a República, em total adesão ao movimento iniciado em Pernambuco, que culminou com a Confederação do Equador. Apesar dos esforços militares de Tristão Gonçalves e Pereira Filgueiras, as forças imperiais retomam o poder em violenta contra-revolução. Inicia-se então, a perseguição aos revoltosos.
Preso em Fortaleza na antiga Rua dos Mercadores, hoje Conde D’Eu,  Padre Mororó é condenado à pena de morte pela Comissão Militar presidida por Conrado Jacob de Niemeyer. A pena deveria ser morte por enforcamento, tendo como carrasco um preso comum, na forma estipulada no código de Processo Criminal do Império. 

 Passeio Público em 1907 - vista do 2º plano, espaço hoje ocupado pelo quartel da 10ª região Militar. 

Mas nenhum preso aceitou o papel de carrasco do Padre Mororó. Jacob Bernardo, aborrecido com a recusa dos presos, resolve eleger para verdugo Agostinho Vieira, condenado pela justiça comum. Este, no entanto, recusa a indicação, atraindo para si imediato castigo. Dois soldados invadem a prisão, autorizados pelos carcereiros, espancam o preso até deixa-lo estendido no chão. Usando métodos ainda mais eficazes, colocam a ferros dois prisioneiros, que são ferozmente espancados, mas ainda assim,  nada conseguem. 
Indignado, Niemeyer resolve o impasse convertendo verbalmente, o suplício da forca para fuzilamento. A data da execução fica marcada para a manhã do dia 30 de abril de 1825, quando também seria executado Pessoa Anta, outro implicado na rebelião. 

 Quartel da 10ª Região Militar, antigo Quartel de 1ª. linha na Av. Alberto Nepomuceno em 1933. 

Barão de Studart relata o início da cerimônia de fuzilamento de Padre Mororó e Pessoa Anta: “saíram os dois do oratório no andar superior do quartel de 1ª. Linha, guardados por grossa leva de soldados comandados por dois oficiais, em direção à Igreja do Rosário, onde ouviram missa celebrada pelo Frei Luiz do Espírito Santo Ferreira. O cortejo viera pela Rua dos Mercadores ou Rua de Baixo (hoje Conde D’Eu), e concluído o ato religioso, seguiu pelo trecho da hoje Rua Guilherme Rocha, dobrando na Rua Major Facundo e prosseguindo até o Largo de Fortaleza, lado norte do Campo da Pólvora, hoje Passeio Público, local marcado para o sacrifício".

 Igreja do Rosário, em 1908

Numa manhã de sol claro, Mororó terá a primazia. Colocado em posição de tiro, recusa a venda e pede para que não ponham no peito a fita indicativa do local de mira. Os carrascos o atendem. Em seguida, sem perder a fleuma do mártir resignado, coloca sobre o coração a mão direita e resolutamente diz: “Camaradas, o alvo é este, atirem certeiro para que não me deixem sofrer muito”. Temia certamente o conhecido “tiro de misericórdia”, suplício muitas vezes continuado e de extremo padecer. Nesse momento, as carabinas ecoam, três dedos da mão rolam por terra e o herói tomba sem vida.

Extraído do livro A História do Ceará passa por esta rua,
de Rogaciano Leite Filho
fotos do Arquivo Nirez

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Fortaleza e a Iluminação a Azeite de Peixe

Pouco mais de dez anos após sua elevação a cidade, Fortaleza dá os primeiros passos para a introdução da iluminação pública. A pequena cidade evoluía, embora ainda bem atrás de outras vilas cearenses, como Aracati e Icó. Surge em 1824 o seu primeiro jornal, o Diário do Ceará, dirigido pelo Padre Mororó (Gonçalo de Loiola Albuquerque Melo). As letras e as artes são incentivadas.  Cidade ganha um arruamento ordenado, contando com novos prédios públicos, como a Alfândega e o Mercado Municipal.

 Passeio Público - Avenida Caio Prado em 1908

Em 25 de julho de 1834, o Conselho da Província, refletindo o anseio coletivo de dotar a cidade de melhoramentos que contribuíssem para o seu progresso, propõe ao Presidente Inácio Correa de Vasconcelos, que fossem instalados 100 lampiões de azeite de peixe nas principais ruas e travessas.
Acolhendo a proposição, o presidente da província oficiava então, a 5 de abril de 1834, ao ministro do Império Chichorro da Gama, pedindo que intercedesse junto à Assembleia Legislativa para que esse benefício fosse concedido à população, enfatizando na sua justificativa que “da escuridão da noite se valem os malvados”.

 Palacete Guarani, esquina da Rua Formosa com a Rua das Hortas (Barão do Rio Branco com Senador Alencar) foto de 1908

O primeiro ato efetivo para a introdução da iluminação pública ocorreria, porém, na gestão do padre José Martiniano de Alencar, que pela lei n° 18, de 6 de outubro de 1835 proclamava, em seu artigo 1°, que “haverá lampiões para iluminação das ruas desta cidade”.
O assentamento dos postes e a previsão orçamentária, no valor de um conto de reis, para o contrato de fornecimento de azeite de peixe, indicam o esforço do Presidente da província em cumprir o texto legal. Seu governo, porém, termina a 25 de novembro de 1837, quando renuncia, alegando enfermidade. 

 Avenida Epitácio Pessoa, atual Almirante Tamandaré

Da efetividade das medidas então tomadas para instalar na cidade a iluminação pública não se tem comprovação, no que pese o historiador Paulino Nogueira afirmar que “Alencar dotou-a também de uma iluminação a azeite, da qual ainda hoje se encontram nas esquinas de alguns edifícios particulares  os aparelhos já envelhecidos em que se dependuravam os lampiões”.

 Praça do Ferreira com o cajueiro da mentira e alguns lampiões

O momento histórico da introdução de iluminação pública na província, passa a ser definitivamente 1° de março de 1848, data em que por iniciativa do presidente Casimiro  José de Morais, são iniciados os trabalhos de instalação dos lampiões. 
Os termos contratuais do governo com Vitoriano Augusto Borges, cidadão português que se integrou à vida da cidade, para instalação de 44 lampiões, obrigava o contratado a mantê-los sempre limpos e brilhantes; a conservá-los acesos desde as 6 horas da tarde ate que amanhecesse o outro dia, ou, até que viesse a lua. Nas noites de luar, ficava obrigado a fazer acendê-los, do seu ocaso em diante. 

 Avenida Pessoa Anta (antiga Rua da Praia)

A opção pelo azeite de peixe acompanhava, àquela época, uma tendência nacional. Cidade como o Rio de janeiro já industrializavam a extração do óleo de baleia, comercializado para uso nos lampiões de óleo. Em 1810, na então capital do país, eram cobrados impostos para aplicação nos serviços de iluminação por lampiões de azeite de peixe, constatando que os mesmos eram falhos e deficientes.
Na costa do Ceará, teria ocorrido a dizimação das baleias e do peixe-boi a partir do século XVIII, utilizados para o consumo da carne e na produção de óleo, consequência da atividade predatória dos corsários e dos Tremembés, índios célebres pela ferocidade e que eram hábeis pescadores, o que se leva a deduzir que o azeite usado na iluminação de Fortaleza era importado de outros Estados.

 Antiga Rua Direita dos Mercadores (atual Rua Conde d'Eu) restaurada pro Sidney Souto
A do gás carbônico sucedeu a do azeite de peixe , que começou em 17 de setembro de 1866 com a iluminação de algumas ruas, do clube cearense e de alguns edifícios. Os combustores de gás foram instalados em ziguezague, com distância de 30 metros entre cada um e colocados do mesmo lado da rua.


Os lampiões tinham 4 faces, eram mais estreitos em baixo do que em cima, com tampa e fundo de metal. Ficavam suspensos de uma armação de metal, cravados nas esquinas de modo que iluminassem tanto as ruas como as travessas. Pendiam de uma corda, que passavam por duas roldanas que permitia que descessem até a altura necessária a que se pudesse limpar e acender. (imagem meramente ilustrativa, do blog vias positronicas)

Desse período de memorável, de experiências inovadoras na cidade, fica também a lembrança de um homem simples, o primeiro acendedor de lampiões a percorrer as ruas da cidade, na tarefa diária de acender e apagar os pontos de iluminação, cujo nome, Francisco, seria substituído na consagração popular pela alcunha de Chico Lampião.


Fotos do Arquivo Nirez
Extraído do livro de Ary Bezerra Leite
História da Energia no Ceará

domingo, 27 de novembro de 2011

Feliciano José da Silva Carapinima, Mártir de 1824

O ideal de liberdade e independência da Confederação do Equador, movimento republicado ocorrido em 1824, motivou várias famílias cearenses a adotarem sobrenomes identificados com temas brasileiros. Feliciano José da Silva, por exemplo, ficou conhecido na história por Carapinima, assim como seus companheiros revolucionários Anta, Mororó, Ibiapina

Os confederados queriam implantar uma república no Nordeste e separar-se do Brasil de D. Pedro I

Nascido em Minas Gerais onde trabalhou em órgãos públicos, Carapinima radicou-se no Ceará, a partir de 1820, exercendo cargo de secretário do governante Francisco Alberto Robin (13 de junho de 1820-3 de novembro de 1821).

Na época, a província vivia um clima de revolta pela atitude arbitrária de D. Pedro I, que dissolveu a Assembleia Geral Constituinte instalada no Rio de Janeiro. Alguns deputados mais exaltados foram presos na ocasião, entre os quais o representante do Ceará, Padre José Martiniano de Alencar, libertado alguns dias depois. 

Para o Imperador, a Constituinte havia perjurado ao solene juramento que prestou à Nação, de defender a integridade do Império, sua independência e a dinastia. O ato, no entanto, provocou indignação no Nordeste. Pernambuco, então como centro de polarização cultural de todo o Nordeste, toma a frente da sublevação nacionalista, irradiando para as demais províncias, as diretrizes básicas que serviriam de aval político e que em breve transformarão os protestos em ação física e materialmente decisiva.

Cais de desembarque no Recife situado na atual Avenida Martins de Barros. Cartão postal editado por volta de 1910.

Em 2 de julho de 1824, instala-se em Recife, a Confederação das Províncias Unidas do Equador, que reúne inicialmente Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Em Fortaleza, graças ao trabalho de conscientização de Tristão Gonçalves, o Ceará também adere ao movimento republicano. No dia 26 de agosto do mesmo ano, realiza-se uma reunião do Grande Conselho, com 455 participantes. 

A fala do presidente Tristão Gonçalves, mostrou a perigosa situação em que se achava a Pátria brasileira, fazendo-se necessário salvá-la do cativeiro, apesar de todos os sacrifícios da parte de seus filhos.  Tristão apresentou em seguida um plano que contemplava uma nova forma de governo, para ser discutido livremente, e ser ou não aprovado  pelo Congresso. 

Depois da unânime aprovação da proposta, que importava na anexação do Ceará à Confederação do Equador, procedeu-se à eleição de presidente e secretário do Grande Conselho, recaindo a escolha, respectivamente em Tristão e no padre Mororó.

Tristão Gonçalves

Carapinima, favorável aos ideais republicanos, é nomeado secretário de Pereira Filgueiras, comandante das armas. Tristão Gonçalves, entusiasta e crente na vitória da causa que abraçara, partiu para Aracati, para dar combate aos adversários. Ficara a substituí-lo no comando,  José Félix de Azevedo e Sá, que escravo do medo, sob as ameaças de Lord Cochrane, que se apresentara na cidade a 17 de outubro, entregou-se sem um protesto e fez a contra revolta.  

Padre Mororó

Por toda a parte reergue-se agora a bandeira imperial, a população tenta se acalmar um pouco com a segurança da anistia garantida pelo almirante mesmo aos chefes, aos mais implicados no movimento, excetuando Tristão Gonçalves.  O ânimo de Tristão não comporta traições nem pactos com os adversários e tenta ele então a sorte das armas, mas em 31 de outubro em santa Rosa, abandonado, é batido e trucidado. 

José Pereira Filgueiras, que havia seguido com quase toda a tropa para o interior da província, depois de vários encontros com as tropas legais, sobretudo no Rio do Peixe e em Missão Velha. Recebendo a notícia da morte de Tristão Gonçalves, rendeu-se ao capitão Reinaldo de Araújo. Preso, teve de seguir para o Rio de Janeiro, mas faleceu no caminho, vitimado por uma febre típica.

Por decreto de 5 de outubro foi designada uma Comissão Militar destinada a julgar sumariamente no Ceará,  as pessoas implicadas na República do Equador. O tribunal era composto de Conrad Jacob Niemeyer (presidente),  Moraes Mayer (relator), Queiroz Carreira, Cabral de Teive, Sabino Monteiro e João Bloem  (vogais, nomeados em 16 de dezembro).

Entre os réus, estavam o padre Gonçalo Mororó, João de Andrade Pessoa AntaFrancisco Miguel Pereira Ibiapina, Feliciano José da Silva Carapinima e Luiz Ignácio de Azevedo, vulgo Bolão.

A Comissão Militar condenou os acusados à pena de enforcamento, mudada para fuzilamento porque ninguém quis servir de carrasco dos revolucionários. Carapinima foi o último a morrer, em 28 de maio de 1825, no Passeio Público, sendo considerado por o mais sofrido dos mártires de 1824.

Tendo resistido à primeira descarga, o condenado ergueu-se da cadeira, quebrando as amarras e ficando a rodopiar desnorteado. Volteia a praça em movimentos desconexos e desequilibrados, enquanto da parte dos executores, parecia não haver pressa em por fim ao espetáculo. Sob a alegação de que faltara munição, o presidente da Comissão Militar Conrad Niemeyer ordena o deslocamento de um soldado ao quartel, onde deveria recarregar as carabinas, o que é feito muito lentamente.

A esposa de Carapinima, que ao longo do cerco acompanhava o suplicio do marido, desmaia ao vê-lo naquele estado desesperador. Alguns populares a socorrem, embora naquele momento, manter-se distante dos culpados fosse a postura mais aconselhável.  Chegam novamente as munições e Carapinima recebe nova descarga.

Avenida Carapinima, no Passeio Público (foto Marciano Lopes)

O historiador R. Batista Aragão avalia que não fora o açodamento com que Niemayer condenara e levara à execução os réus, Carapinima teria escapado ao suplício, já que fora beneficiado pelo aviso ministerial que mandava suspender as execuções no Ceará, de 23 de julho de 1825, citando explicitamente os nomes de Carapinima, Antônio Bezerra e frei Alexandre da Purificação

A partir da publicação da superior deliberação, somente após o conhecimento pelo Imperador, do processo respectivo, poderia o réu ser executado. Tardia porém necessária medida, visto que muitas cabeças enfileiravam-se à espera do carrasco.

fonte:
A história do Ceará passa por esta rua, de

domingo, 5 de setembro de 2010

Diário do Governo do Ceará, o Primeiro Jornal do Estado

O Diário do Governo do Ceará, apontado como o primeiro jornal do Estado

Oficialmente a imprensa escrita no Ceará, tem como marco histórico o lançamento do Jornal Diário do Governo do Ceará, no dia 1° de abril de 1824. O embate político, com forte caráter opinativo, dava o tom do impresso logo na primeira edição. O protesto era contra o autoritarismo do Imperador D. Pedro I, que havia dissolvido a Assembléia Constituinte cinco meses antes. Além do protesto, o primeiro número anuncia ainda a sua criação, a contratação de funcionários e a instalação de uma tipografia.

Em pouco tempo o jornal deixou a condição natural de porta voz do governo para transformar-se em peça de artilharia da campanha por um Nordeste independente. Estava em andamento a Confederação do Equador, movimento que defendia a emancipação de algumas das províncias do Nordeste do poder imperial.

O Diário do Governo do Ceará tinha como redator-chefe o padre Gonçalo Inácio de Albuquerque Mororó, um dos líderes do movimento. Logo o jornal se tornou um difusor das idéias revolucionárias. Além do caráter político, estruturado no principio do liberalismo radical, o jornal trazia pequenas crônicas, algumas notícias econômicas, notas sobre o comércio e sobre pessoas importantes da cidade.

Não tinha o formato nem a estrutura dos jornais que conhecemos hoje, e tinha caráter educativo. Naquele tempo boa parte da formação política era feita pelo jornal, mas o impresso chegava a uma minoria da população, dado o grande número de pessoas sem alfabetização.

A maior parte dos números do Diário do Governo do Ceará se perdeu, devido, provavelmente, à queima dos documentos que envolviam a Confederação do Equador, por determinação das autoridades monárquicas. Com o fim o movimento revolucionário, o jornal entra em uma segunda fase, com outra orientação política, subordinada ao Governo de Dom Pedro I. O governo acreditava que aquela linha de conspiração, de rebeldia seguida pelo jornal poderia ser corrigida. E foi de fato.

Sobre a Confederação do Equador

Foi um movimento revolucionário contra o Imperador Dom Pedro I.
Passado pouco mais de um ano da proclamação da independência, Dom Pedro I passou de defensor a traidor da Brasil, com um conjunto de medidas autoritárias.
Em novembro de 1823 dissolve a Assembléia Constituinte por discordar das limitações que seriam impostas aos poderes do imperador.
Em março de 1824 instaura o Poder Moderador na primeira Constituição do País.
A Confederação do Equador foi a principal reação contra essa política centralizadora. Teve origem na Província de Pernambuco com adesão do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.
Os revolucionários pretendiam organizar uma nação independente do Brasil. Dom Pedro I enviou para o Nordeste tropas contratadas no exterior.
O movimento resistiu até dezembro de 1824.

Sobre o Padre Mororó

Filho de uma família ilustre, Gonçalo Inácio de Loiola de Albuquerque Melo, nasceu em 24 de julho de 1778, na então Vila de Sobral, distante 230 quilômetros de Fortaleza.
Estudou Gramática Latina e fez parte da primeira turma do Seminário de Olinda, que segue orientação iluminista e influencia na formação de idéias anti-absolutistas numa geração de jovens.
No seminário teve como colegas Frei Caneca, Padre Miguelino e Padre João Ribeiro, participantes da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador, em 1824.
Durante a Confederação, Gonçalo substituiu o sobrenome Melo Por Mororó, nome de uma planta cearense.
Foi autor de artigos e manifestos que ganharam fama em uma cidade em que muitos não conheciam as letras. Por sua participação na Confederação do Equador, foi preso, condenado e fuzilado no dia 25 de abril de 1825, no Campo da Pólvora, atual Passeio Público.


Fonte:
Revista Fortaleza, Fascículo 11